Sono Te Hanasanaide
39 Capítulo XXXIX
I think that possibly, maybe I'm falling for you
Eu acho que, possivelmente, talvez eu esteja me apaixonando por você
Yes there's a chance that I've fallen quite hard over you
Sim, há uma chance que eu esteja me apaixonando de verdade por você
No one understands me quite like you do
Ninguém me entende como você me entende
Through all of the shadowy corners of me
Através de todos os cantos escuros de mim
I never knew just what it was
Eu nunca soube o que era exatamente
About this old coffee shop I love so much
Que eu amava tanto nessa velha cafeteria
All of the while, I never knew
Todo esse tempo, eu nunca soube
All of the while, all of the while it was you
Todo esse tempo, todo esse tempo era você
~Capítulo 39~
Uma revoada de folhas secas ia sendo levada pelo vento na direção contrária, intensificando ainda mais a sensação de estar congelando lentamente a partir das extremidades do corpo já amortecidas pelo frio.Andando de volta para casa, Yuri sentia-se um tanto culpado pelo que havia feito junto com Wolfram. Ele estava realmente preocupado com a prima, e quem sabe o que Benjamin poderia estar escondendo deles àquela altura. Até onde ele sabia, o garoto podia ser um maluco, psicopata, ou ainda ter uma namorada pirada que o perseguia. Miya podia estar em risco! Mas nada justificava os dois terem invadido o quarto do garoto apenas para descobrir que ele era um pervertido, realmente…
— Será que a Miya-chan vai ficar brava com a gente?
— Acho que não. Ela parecia bem surpresa, mas pediu para ficar e conversar com o garoto… acho que vai tudo acabar bem. Sua prima não é do tipo que guarda rancor. – um vento mais gelado soprou, varrendo os cabelos dourados de Wolfram para trás. Ele se encolheu, sentindo que o vento ultrapassava suas várias camadas de roupa de alguma maneira – Aqueles dois só precisavam de um empurrãozinho para conversar. Nós fizemos bem.
— Fizemos bem? Nós invadimos o quarto do garoto e descobrimos que ele na verdade é um… pervertido… ou sei lá o que? Não tenho certeza se foi certo deixar a Miyako sozinha com ele depois de tudo… — Yuri parecia absolutamente consternado pelo fato de ter feito a escolha errada, mas num gesto praticamente automático, puxou Wolfram para mais perto pela mão, entrelaçando seus braços para mantê-los mais perto um do outro enquanto enfrentavam o frio, que aumentava consideravelmente, pelo caminho. Wolfram corou, sentindo-se ligeiramente mais aquecido depois do gesto impensado do outro.
— Eles não estão sozinhos, Conrad e Yozak estão lá também. – respondeu, contraindo-se um pouco mais ao sentir o ar gelado zumbir nas suas orelhas. Segurou-se ao braço de Yuri com um pouco mais de força. – Além do mais, eu acredito que o sobrinho do Yozak estava sendo sincero no outro dia, quando disse que queria o bem da Miya. Acho que agora, quem precisa resolver esse assunto são eles dois, apenas. Nós tentamos ajudar e…
— É, acho que a Miya tem mais talento para ajudar nessas situações do que nós dois… — Yuri suspirou, erguendo a mão para coloca-la sobre a de Wolfram, que estava bem segura na dobra do seu braço. – Quer fazer alguma coisa agora? Nós temos tempo…
— Está frio demais para continuar na rua – Wolfram rebateu, o queixo batendo enquanto ele tentava esconder o nariz, que formigava por ter respirado ar gelado no ombro de Yuri.
— Então vamos para minha casa – Yuri sorriu com a sua ideia maravilhosa e repentina – Eu não tenho um cinema na sala como você, mas nós podemos arrumar um filme para assistir, pegar um cobertor, no sofá, e eu até faço pipoca. O que me diz?
Wolfram não tinha objeções. A perspectiva de ficar algum tempo com Yuri em algum lugar quente onde possivelmente não teriam interrupções de nenhuma natureza era um tanto atraente, ele tinha que admitir.
— Certo. Mas eu escolho o filme. – ele exigiu, apenas para não parecer que foi seduzido pela ideia assim tão rápido.
— Ok – Yuri apressou então o passo, com um rumo decidido já tomado. Wolfram abraçou-se a ele mais uma vez, aproveitando aquele breve calor que o contato entre eles dissipava, amenizando o efeito do vento que ainda soprava furiosamente. – Ah, eu espero que aqueles dois fiquem bem…
~
Miyako, sentada no enorme sofá da casa de Yozak, olhava ao redor com educada curiosidade, como se estivesse realmente apreciando a decoração. As mãos geladas, repousadas sobre o colo, os pés balançavam logo a frente, desajeitadamente, já que não conseguiam alcançar o chão. Conrad e Yozak haviam descido para o Café. Benjamin havia pedido licença por um segundo, e sumira na cozinha. E apesar de aparentar tranquilidade e paciência, ela estava à beira de entrar em colapso pelo excesso de ideias pessimistas e tresloucadas que passavam pela sua cabeça a cada segundo.
Ah, sim, quando Benjamin a chamou, lá no café, dizendo que tinha algo importante para dizer, ela pensou que pudesse ter um ataque de pânico lá mesmo. Sua mão tremia tanto que ela ficou com medo de derrubar toda e qualquer peça de vidro da qual chegasse perto. O lugar estava cheio, não havia maneira de Ben chama-la logo agora se o assunto não fosse mesmo de vital relevância. Ela tentava a todo custo refrear sua imaginação ridiculamente fértil de pensar que ele pudesse realmente fazer algo como… se declarar. Não, se ela colocasse uma ideia como essa na cabeça, ficaria tão decepcionada quando percebesse que não era verdade… assim como no Natal… Era melhor se preservar, e baixar suas expectativas a um seguro e realista, bem… Zero.
Respirando fundo, ela conseguiu se controlar. Sorriu, até mesmo, e concordou em acompanha-lo. Para sua surpresa, ele pediu para conversarem a sós, no apartamento do andar de cima. Quando chegaram até lá, Conrad e Yozak estavam na sala de estar. Benjamin indagou se ela se importaria de conversar com ele no seu quarto, já que o lugar era pequeno, e não havia outro lugar mesmo. Ele parecia bastante inquieto, tão diferente do seu usual comportamento calmo; Ela não se importava de verdade, e estava até um tantinho curiosa para saber como era o quarto do rapaz.
E quando eles chegaram até lá, bem… a visão que ela teve definitivamente não era o que esperava. O que Yuri e Wolfram estavam fazendo lá, afinal? Isso parecia tão surreal que por um momento bem breve, ela supôs que estava no meio de um sonho. O conteúdo da caixa que os dois espalhavam pelo chão também era bastante surpreendente. Miyako só havia visto objetos daquele tipo em uma das suas poucas visitas à Akihabara, e mesmo assim, só de relance. Seus interesses eram outros, afinal.
Yuri pediu desculpas, mas Wolfram rapidamente tomou o controle da situação, aproveitando que Benjamin estava um tanto abalado pela situação, e escapou levando consigo o namorado, alegando que Miyako e Ben precisavam de tempo para conversar a sós. Ele não justificou aquela invasão, nem o fato de que estavam revistando as coisas do menino sem mais nem mesmo. Apenas saiu com Yuri no mais puro descaramento, como se estar ali naquele quarto não fosse nada além de um engano cometido por descuido. E como os outros dois estavam perdidos demais em pensamentos próprios para se preocuparem com o que quer que fosse, acabaram escapando facilmente de qualquer questionamento.
De qualquer forma, Conrad e Yozak desceram de volta ao café, e estando sozinhos naquele andar, Benjamin achou melhor que conversassem direito na sala mesmo. Havia muito mais coisas a explicar para Miyako do que ele supusera a princípio. E ele estava disposto a deixar tudo tão claro quanto possível para ela, de uma vez por todas. Decidira isso em um impulso repentino, mas parecia a decisão mais acertada a se tomar, afinal de contas.
— M-miyako-chan… — ele chamou, incerto sobre qual sufixo deveria usar com ela, diante daquela relação estranha entre eles. Repousou uma caneca fofa com estampa de coelhinhos na frente dela, que continha chá recém preparado. Na própria mão, ele segurava outra similar, mas com pequenos ursinhos. O aroma de canela chegou aos sentidos de Miyako, que aceitou a xícara de chá. Quando aproximou do rosto para tomar, o vapor subiu, embaçando seus óculos e a cegando temporariamente.
Ela piscou, confusa, erguendo a cabeça direto para o borrão laranja que ela sabia que era Ben. Ouviu ele rir baixinho da confusão temporária da garota. Quando ela enfim pode enxergar novamente, percebeu que ele a fitava diretamente, de uma maneira que ela nunca havia notado que ele fazia. Seu coração deu um salto. Aquele olhar, tão complacente e brilhante, a pele levemente corada, o sorriso calmo, de quem admira algo incrível pela primeira vez… aquela era a maneira que Yuri olhava para Wolfram, quando pensava que ninguém estava prestando atenção. E isso deixava Miyako com irritantes borboletas revoando no estômago, no coração, no cérebro… enfim, aquele garoto fazia nascer borboletas por todo o seu corpo!
Repentinamente, Ben pareceu perceber o que fazia, e seu rosto tornou a ficar sério. Miyako preferia o sorriso de antes. Ele baixou o olhar, parecendo contrangido, e ela tomou um gole de chá, ignorando o leve embaçar causado pelo vapor.
— O q-que você queria falar comigo…? – ela indagou num fio de voz, hesitante, quando percebeu que Benjamin ainda ponderava consigo mesmo sobre o que fazer. Ele pareceu sobressaltar.
— E-eu.. acho que antes, d-deveria explicar para você… sobre as coisas que estavam naquela caixa. Eu sei que você viu…
Miyako desviou o olhar para o líquido na xícara que aquecia suas mãos.
— Você não me deve nenhuma explicação, Ben-kun… São suas coisas. Eu não tenho nada a ver com isso. Você pode gostar do que quiser… e para falar a verdade, eu nem me importo muito. Aquelas coisas… bem, não interferem em quem você realmente é. Ben-kun é Ben-kun! Isso nunca vai mudar. – ela explanou, com determinação um pouco deslocada. Quando notou que falava mais alto do que pretendia, ela voltou a segurar a xícara com força, nervosa – Eu sei como é, as pessoas às vezes não entendem… mas… acho que eu não sou alguém em posição de julgar você, não é? Eu também tenho alguns… g-gostos d-d-duvidosos… que ninguém entende… e-então acho que está tudo bem… E você sempre foi muito legal comigo mesmo sabendo disso, não é?
— Miyako-chan… você torna tudo mais difícil para mim agindo assim… — sem pensar, Benjamin ergueu a mão e afastou a franja dos olhos de Miyako, num gesto quase automático. Novamente ele sorriu, mas era um sorriso frágil, triste, e Miyako não gostou desse sorriso. Gostava mais daqueles brilhantes, entusiasmados, sorrisos que Ben dava para ela quando a via chegando e tinha mangás novos para mostrar.
— Ben-kun… — ela ergueu os olhos claros, enormes, para Benjamin. Sua voz chamando pelo nome dele era quase uma súplica — O que você quer dizer para mim? Eu sei que não tem nada a ver com aquela caixa, porque você me chamou aqui antes… e… eu t-tenho a impressão de que tem algo que você quer me dizer d-desde o Natal… E-e-eu posso estar errada, eu sei, mas eu não consigo ficar tranquila pensando nisso. Por favor, me diga… — ela reuniu toda a sua coragem naquele simples pedido. Não aguentava mais esperar, ficar sem saber o que fazer era angustiante, e se remoer dia após dia nas suas próprias conclusões sem nada concreto no que se basear estava prestes a deixa-la maluca. Ela precisava saber.
— Miya… eu errei com você. Desde o início, eu meti os pés pelas mãos e fiz tudo errado. Se eu tivesse pensado direito, se eu tivesse planejado… — ele fechou os olhos, tentando se acalmar. As batidas altas do seu coração atrapalhavam o pensamento. Ele tinha consciência de que Miya o encarava diretamente, quase sem piscar, atenta ao que quer que ele quisesse dizer. Agora era a hora. Se ele não dissesse tudo agora, jamais teria outra chance. E ele não se perdoaria se deixasse Miya ir embora dessa forma. – Você pode imaginar, vendo aquelas coisas do meu quarto, que eu não sou exatamente um exemplo de garoto… b-bem, puro. Eu tenho esse tipo de pensamento sujo… e eu realmente joguei todos aqueles jogos, e vi aqueles animes, eu admito isso. Ah, isso é tão vergonhoso, eu não queria que você, de todas as pessoas, ficasse sabendo… – ele escondeu o rosto entre as mãos, e pedir para morrer ali não era muito, comparado ao quão mal ele se sentia consigo mesmo naquele instante.
— Ben-kun… e-eu não sei se é uma boa hora para dizer isso… mas… eu meio que já sabia… — Miyako recitou em um sopro de voz, hesitante entre tocar ou não em Benjamin naquela hora. Ele parecia tão desolado e frágil, ela queria consolá-lo de alguma maneira – Quando nos conhecemos, no primeiro dia em que eu entrei na loja, você estava jogando um eroge no console portátil… eu vi…
Ah, sim, se Benjamin pudesse ficar mais chocado do que ele estava agora, ele certamente ficaria. Com aquela simples frase, Miyako fez com que todos os meses de preocupações e dramas internos de Ben tivessem se transformado em fumaça. Ela já conhecia esse lado incomum nele? E, esse tempo todo, não se importou nem um pouco? Oh, meu Deus, ela estava sorrindo, nesse exato momento! Isso já era golpe baixo!
— Miyako… você não entendeu? Esse tempo todo, eu quis ser seu amigo, e te ajudar, mas eu fazia o possível para evitar ter esse tipo de pensamento com você! – ele bradou sem pensar, sobressaltando a garota. Bem, talvez agora ele tivesse conseguido assustá-la. – Chegou em um ponto em que eu não aguentava mais, por que ficar do seu lado me fazia ficar completamente perturbado…
— Ah, e-eu não sabia disso… — ela murmurou, surpresa. Não estava com medo, como Ben imaginou que ficaria. Longe disso. Estava começando a se sentir culpada, embora nem soubesse exatamente o que havia feito, por ter deixado Benjamin desconfortável perto dela. Ben notou o semblante entristecido de Miyako rapidamente.
— Não, por favor, não pense que a culpa é sua! – ele se apressou em dizer. Havia sido um pouco impulsivo agora, e falara tudo rápido demais. Dessa maneira, Miyako jamais entenderia o que ele estava querendo dizer. — Isso tudo aconteceu… aconteceu por que eu não tomei cuidado o suficiente. Não… acho que era inevitável… acabaria acontecendo de qualquer maneira. Por que eu… Miyako… eu me apaixonei por você. Foi por isso… — ele ergueu os olhos pela primeira vez, e logo ao seu lado, a garota paralisada em choque o encarava com os olhos e a boca abertos, a xícara tremulando na mão. Seu cérebro não processava direito a informação. Apaixonados? Algo como… sentimentos românticos? De verdade? Com ela? Alguém real, realmente, tinha dito isso para ela? Como… c-como em um mangá shoujo?
Ah, Miyako era fraca, não sabia como lidar com isso, não sabia nem se seu corpo aguentaria tamanho choque. Certo, ela tinha certa esperança, bem pouca, verdade, mas era apenas a parte fantasiosa da sua mente, que insistia em ficar imaginando cenários que nunca aconteceriam, diálogos que ela não tinha coragem de iniciar, imagens de lembranças que jamais ocorreram de fato, interpretações de pequenas ações que ela teimava em não deduzir como sinais. Ela não estava preparada para a realidade!
— B-b-b-ben-kun… i-i-i-is-sso é… n-n-não pode ser… e-e-e-eu não sou… e v-v-v-você… mas… m-m-mas…c-c-como? – as palavras simplesmente não se juntavam na sua mente para dar forma a uma frase completa, e ela ficava variando entre balbucios e sons pouco conexos. Benjamin parecia um tanto atordoado por ter finalmente revelado a verdade, e aguardava ansioso por uma resposta de Miya. Daria a ela o tempo que fosse preciso para absorver a informação, mas naquele momento, sentia que seu coração poderia explodir com apenas mais uma visão de relance do rosto corado de Miyako.
— Você não precisa me dar uma resposta… Eu sei que você ficou muito magoada com o que aconteceu no Natal… — ele murmurou, encarando a mesa de centro da sala com uma expressão carregada. – Naquele dia… eu pretendia mesmo me declarar a você, Miyako, eu juro. Eu queria muito. Até mesmo guardei todas as minhas coisas naquela caixa, eu estava mesmo disposto a esconder isso de você. Mas… quando pensei no quão frágil e preciosa você parecia… eu quis apenas te proteger. Não senti como se eu merecesse mesmo estar ao lado de alguém como você… e fiquei com tanto medo… de fazer alguma coisa errada, e perder você pra sempre. Então preferi o caminho mais fácil. Eu seria somente seu amigo, e então, não teria como estragar nada…
— Ben-kun! – Miyako se aproximou inconscientemente, ao perceber que Benjamin se afastava. Segurou-o pelo braço, forçando-o a olhar para ela quase que de imediato, os olhos azuis arregalados de surpresa pelo ato repentino da garota – Pare de falar assim de si mesmo! Você é o garoto mais gentil, prestativo, e cavalheiro que eu já conheci! Mas apesar de tudo isso, não tem o menor direito de dizer quem eu mereço ou não ter ao meu lado. Quem escolhe isso sou eu!
— Mas você não entende, Miya? Eu sou… um pervertido… — ele se levantou, desvencilhando-se do braço dela, sem fita-la nos olhos. – Eu tive pensamentos… dos quais não me orgulho nem um pouco, e eles eram sobre você, Miya… Desde o momento em que você entrou pela porta daquela loja, eu percebi que você era exatamente como eu imaginei a minha personagem ideal. Era tudo o que eu sempre desejei… — ele suspirou, e Miya permaneceu congelada no mesmo lugar, chocada demais para esboçar qualquer reação. Seu rosto queimava em brasas com aquela confissão repentina do garoto – Por isso, quando eu conheci você melhor, e percebi que você não era apenas uma garota comum, eu fiz o possível para deixar esses pensamentos sufocados, e tratar você como um amigo, da maneira como você merecia ser tratada. Eu quis cuidar e ficar perto de você… e cada vez mais, essa vontade ia aumentando. Eu a via servindo as mesas do café, tão dedicada… ou sorrindo, com os olhos brilhando, quando falava em assuntos dos quais gostava. E eu tinha certeza de que queria manter esse sorriso no seu rosto para sempre. Até que um dia eu percebi que realmente… não havia mais volta. Eu já te amava… Por isso, me desculpe. Eu não consegui ser o garoto que você merecia, e eu não consegui permanecer sendo seu amigo. Falhei nas duas coisas, então, acho que é melhor apenas desistir, não é?
A voz dele diminuiu no final, com um riso fraco, mas ele permaneceu de costas. Miyako mal podia acreditar. Tudo o que ela queria era olhar nos olhos azuis, profundos como oceanos, com um brilho tão intenso que a fazia querer ficar admirando-os por horas. Mas Benjamin não virava novamente na direção dela, e os olhos dele estavam opacos, entristecidos. Não era como ela queria vê-lo!
Por instinto, Miyako ergueu-se do sofá, e puxou Benjamin em um só movimento para o lado dela. Ele era alto – muito mais alto do que ela, mais até do que Yuri ou Wolfram. Miyako teve dificuldades para encará-lo nos olhos, porém, seu corpo se movia por vontade própria. Ela só queria que Benjamin entendesse de uma vez por todas os seus sentimentos, mas ele não parecia querer ouví-la.
Ela se colocou na ponta dos pés, para alcança-lo, e apoiou-se no pescoço dele, ao mesmo tempo em que o trazia para mais perto. Benjamin ofegou, e só então ela percebeu o que estava prestes a fazer. Mas não se importou. Pela primeira vez em sua vida, ela não se importou com o que os outros poderiam pensar. Ela era uma Shibuya, afinal. Não devia pensar tanto assim antes de tomar decisões, e tudo daria certo no final.
Seus óculos bateram no nariz de Benjamin, e quando ela percebeu que podia ver com exatidão cada sarda no rosto do ruivo, fechou os olhos. Depois disso, sentiu as mãos dele segurando-a pela cintura, com delicadeza e cuidado, quase nenhum toque era sentido. Seus lábios se roçaram, tímidos, nenhum dos dois tinha certeza do que fazer. Benjamin pressionou o rosto contra o da garota, rendendo-se a um impulso desconhecido e que embaçava seus pensamentos.
Miyako não sentia mais as suas pernas. Seu coração batia como louco contra o ouvido, esse era o único som que ela era capaz de ouvir. As mãos de Benjamin eram carinhosas. Nossa, ele era tão alto, ela mal conseguia alcançá-lo. Mas os lábios dele eram suaves e cálidos, movendo-se nos seus com tanta parcimônia e atenção que era quase como se estivesse tocando em uma obra de arte valiosa. Ela se sentiu bem consigo mesma, naquele instante, como nunca antes. Tudo parecia certo, em seu devido lugar.
Um barulho alto de passos pesados e vozes ecoando pelo corredor da escada sobressaltou os dois jovens, que se separaram no susto, indo parar cada um de um lado da sala. Ambos ofegantes, corados, e sem coragem de olhar na direção do outro. Miyako espiou rapidamente com o canto dos olhos e só identificou as orelhas vermelhas de Benjamin, que escondia o rosto com a mão.
Conrad e Yozak entraram no apartamento, o segundo rindo alto de uma piada que acabara de fazer. Os dois nem deram atenção aos dois, e passaram direto em direção à cozinha. Miyako respirou fundo, cadenciadamente, numa tentativa tola de fazer o coração desacelerar. Benjamin colocou a mão nos bolsos, constrangido, sem conseguir olhar para ela.
— Por favor… não desista... – ela pediu em voz baixa, aproximando-se de forma hesitante dele. Estendeu uma das mãos, recuando por vezes, até que enfim conseguiu segurar a mão de Benjamin entre a sua. Ele a fitou, finalmente, surpreso. A mão dele era grande, mas também era segura, confortável, familiar. Miyako entrelaçou seus dedos, srrindo fracamente – A Miya t-também… Eu m-me apaixonei por você, também. Desde o momento em que eu vi você pela primeira vez, e pensei que parecia um herói de mangá, eu quis me aproximar de você, e me tornar sua amiga. Eu não me importo com o que você gosta de assistir. E… s-sinceramente, nem com as coisas que você p-pensa… desde que… desde que seja sobre mim, está bem. – ela sussurrou, esperando que Benjamin não ouvisse a última parte, por que era apenas ela sendo egoísta agora. Mas ele ouviu, e riu fraquinho, ainda envergonhado. Escondeu o rosto na franja, enquanto seu sorriso triste lentamente se transformava em um mais contente. Ainda segurando a mão de Miyako na sua, ele a puxou para perto com o outro braço, apoiando o rosto no topo da sua cabeça.
— Como é que eu posso desistir com você me pedindo desse jeito? – ele murmurou, a voz abafada. Miyako sorriu consigo mesma, escondendo o rosto contra o peito de Ben, e ouvindo as batidas também aceleradas do coração dele. O seu próprio batia alegre em resposta.
— … e-então…? – ela ergueu o rosto, curiosa. Benjamin ajeitou no rosto dela os óculos, que pendiam para um lado.
— Então… Shibuya Miyako, você quer… ser a minha namorada? – Benjamin ergueu os olhos azuis para Miyako, com um semblante absolutamente suplicante e adorável. A maneira como ele parecia ainda inseguro pela resposta dela era o mais incrível. Como se ela realmente pudesse dar outra resposta…
— Sim, a Miya quer! – ela pulou mais uma vez nos braços dele, e dessa vez seus pés nem tocaram o chão, por que Benjamin a ergueu facilmente em um abraço apertado. Agora sim, ele tinha no rosto o sorriso que ela tanto amava.
Então, era essa a sensação de ser correspondida. Miya se sentia tão completa, tão em paz. Como se aqueles dias de aflição depois do Natal jamais tivesses exististido. Ela nunca imaginou que pudesse realmente amar alguém, e essa pessoas a amar de volta — existem sete bilhões de pessoas no mundo, e as probabilidades não trabalhavam a favor dela. Algo assim só acontece em shoujos, era o que ela pensava consigo mesma. Mas agora, tudo parecia possível, ao alcance da sua mão. Ela poderia fazer qualquer coisa. E estar nos braços de Benjamin, naquele momento, era sem dúvidas a melhor sensação do mundo todo.
A única coisa na qual ela conseguia pensar era que esse sentimento deveria ser aquele que aparecem nos mangás como bolhas cor-de-rosa, ou flores nos cantos das páginas. Ela se sentia completamente mergulhada em uma dessas páginas brilhantes e cheias de efeitos, e não queria acordar desse sonho ainda. Era assim que as protagonistas se sentiam quando enfim alcançavam o clímax de um arco, e conseguiam encontrar aquilo que tanto procuravam? Miya não se importava tanto assim de viver um shoujo, então…
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