Sono Te Hanasanaide
25 Capítulo XXV
Masshiro na page
Nesta página em branco
Muchuu de tsutsuru kotoba
Eu escrevo incessantemente essas palavras
Itsuka kaze ni nori
Algum dia o vento irá passar
Sora wo meguri
e soprá-las pelo céu
Kimi e to tonde yuke
para chegar até você
Zutto tsutaetai no wa
Sempre, eu quero transmitir a você
Todoketai no wa
Quero que chegue até você
Tada hitotsu no “I love you”
Um único e singelo "eu te amo”
Okuru no wa zutto
Não vou dizê-lo para mais ninguém
Kimi dake ni
Apenas para você
Capítulo 25
Empurrando as folhas de papel em branco para longe, e jogando a caneta sobre a mesa, Yuri suspirou, derrotado, quase desistindo daquela ideia que estava destinada a dar errado desde o início. Onde estava com a cabeça quando resolveu ouvir Murata? Escrever uma carta? Francamente! Yuri mal conseguia formular uma resposta decente para enrolar nas provas, como raios ia ser capaz de escrever algo bonito e poético, ou no mínimo aceitável, para entregar a Wolfram?
Usando os pés como impulso, ele empurrou a cadeira giratória, rodando pelo quarto. Passara o dia inteiro pensando em como agir perto de Wolfram, e as horas na escola foram um problema para ele. Ficar perto de Wolfram era sufocante… Mas de um jeito bom. Era angustiante, aflitivo… Mas também era recompensador, fazia Yuri pensar que havia encontrado o seu lugar na Terra. Ele não conseguia mais raciocinar, seu cérebro parecia feito de gelatina. Mas parecia que não havia mais espaço nenhum para qualquer pensamento que não fosse Wolfram.
Era como a tensão antes de um jogo importante, uma emoção incontrolável, Yuri sentia que não tinha mais o comando do seu próprio corpo. Seu coração ficava batendo sempre tão rápido e forte, e ele não sabia o que falar nem como agir. Tinha certeza de que estava se tornando ainda mais idiota do que o normal. Mas Wolfram não parecia se incomodar. Ele genuinamente aceitava o comportamento estranho de Yuri, como se pudesse aguentar qualquer coisa que viesse dele, por mais louca que parecesse. E Yuri ficava tão feliz por saber que ele simplesmente estava ali, que sentia que não precisava de mais nada.
Claro que ele ainda se preocupava com o tio de Wolfram e a tal Elizabeth. Wolfram não tocara mais na questão, e ele não se atreveu a perguntar, sabendo muito bem quando algo podia desencadear uma crise de irritação no loiro, então o tópico apenas morreu entre eles. E, além disso, Miyako havia aparecido na hora do almoço, então a conversa acabou apenas fluindo de maneira natural, sem chegar à nenhum ponto delicado. Sem falar que Yuri andava tão distraído, sempre se perdendo em pensamentos, ou observando Wolfram sem nem perceber, que não conseguiria conversar sobre um assunto sério nem se quisesse.
Olhando novamente para a folha em branco que o encarava desafiadoramente, Yuri deitou a cabeça na mesa da escrivaninha, e suspirou mais uma vez, longamente, cerrando os olhos. Queria muito saber organizar seus pensamentos bem o bastante para conseguir passá-los para o papel, porém, isso era muito mais difícil do que parecia primeiramente. Se ao menos ele prestasse mais atenção nas aulas de literatura… Ainda deitado sobre a mesa, ele visualizou a montanha de papéis amassados que se formara a partir das suas tentativas falhas, e isso só o fez sentir-se ainda pior.
— Como é que eu espero que o Wolf goste de um idiota como eu, que não sabe nem escrever uma carta… — Ele resmungou, desanimado, estendendo a mão até o cachecol azul marinho que estava jogado no canto da escrivaninha. Era o mesmo que ele emprestara para Wolfram outro dia, e que ele devolvera nessa mesma manhã. – Eu sou mesmo um fracote… — Sussurrou para si mesmo, puxando o cachecol para bem perto do rosto. O perfume doce de Wolfram estava impregnado ali, mesmo que ele só tivesse usado uma vez. Yuri deixou escapar um som entre o ronronar e um lamento. – Aaaahh, isso é difícil… Wolf…. – Ele olhou, novamente, para o retrato sobre a mesa, onde estava colocada a foto que tirou com o loiro no dia em que foram para o aquário. Na foto, ele estava puxando as bochechas de Wolfram, forçando-o a sorrir mais abertamente. Claro que Wolfram não ficou nada feliz com aquilo, mas, na fotografia, os olhos dele brilhavam tanto… Ele com certeza apreciava a companhia de Yuri. Como amigo, é claro, mas ele não conseguia parar de pensar que talvez pudesse ser algo a mais. Seria bom se fosse.
Yuri murmurou algo para si mesmo, escrevendo alguma frase de qualquer jeito no seu rascunho. Ele já havia tentado começar a tal da carta de tantas maneiras diferentes, e nenhuma era satisfatória. Talvez ele jamais fosse conseguir escrever qualquer coisa mesmo… Ele recitava em voz alta, mas tudo o que escrevia parecia apenas embaraçoso demais, até para ele. E, suspirando mais uma vez, ele rasgava a folha do caderno, amassando-a e jogando na pilha de bolas de papel no canto. Cada tentativa parecia mais brega e patética que a outra.
— Não… Se eu elogiar demais a aparência dele, ele vai pensar que eu só quero ficar com ele por causa da sua beleza. E não é isso… Argh, o Murata disse que eu devia escrever sobre o que eu sinto, mas isso não é nada simples! – Yuri bagunçou os cabelos, caindo sobre a mesa novamente, com a cabeça pousada no cachecol. – Eu apenas… Amo ele… — Ele escreveu o caractere de “amor” bem grande no centro da página, e mordeu os lábios. – Isso não é nada simples, não mesmo…
~
Enquanto Yuri se retorcia no mesmo lugar tentando escrever alguma coisa que prestasse, na sala de estar, havia uma pequena reunião de discussão sobre os rumos que aquela história estava tomando.
Murata havia vindo para uma das suas regulares visitas, mas Yuri o expulsou do quarto antes mesmo de ele dizer qualquer coisa, de forma que ele teve que se juntar à Miyako na sala. Porém, ela estava com visitas. Ben havia vindo para trazer o casaco que ela esquecera, e mais umas encomendas de mangás que chegaram naquela manhã. Miko fizera questão de servir um chá com bolinhos, e Miyako estava no ápice do constrangimento, já que nunca imaginou que veria Ben sentado casualmente no seu sofá, como se fosse algo natural.
Sendo assim, depois de ser rejeitado, Murata se juntou a eles e, então, começaram a jogar cartas. O clima se aliviou, e eles logo relaxaram juntos, como bons amigos. Ben estava deixando Miyako ganhar, já que ela perdera todas até ali, e, em algum momento, o tópico da conversa passara a ser o dilema de Yuri. Benjamin parecia bem inteirado do assunto, e era da opinião de que Yuri devia apenas seguir em frente e se declarar de uma vez, mas Murata sabia que Yuri era enrolado demais para conseguir fazer algo assim de primeira. Miyako estava à beira do desespero, quase chorando pela falta de habilidade romântica do primo. Tiveram que segurá-la para que ela não invadisse o quarto dele e escrevesse a tal carta ela mesma. Isso até poderia ser uma boa ideia… Se ela não estivesse tão alterada.
Enfim, quando conseguiram acalmá-la e fazê-la voltar ao jogo com normalidade, a conversa continuou, e Miyako já havia se empolgado de novo, e chegara ao ápice da fantasia, planejando a cerimônia de casamento de Yuri e Wolfram, que seria, é claro, em um castelo, na primavera, com pombos brancos, e um lindo vestido, com véu e grinalda… Quando a campainha tocou.
— Miya-chan, atende para mim! – Miko gritou lá de fora, já que estava estendendo as roupas no varal.
— Haai! – Miya largou as suas cartas e os sonhos sem sentido na mesa, e foi atender a porta. Ben e Murata se entreolharam, com aquele entendimento mútuo de pessoas que conviviam tempo o suficiente com alguém propenso a crises de histerias fanáticas, e então ouviram um grito agudo e cortante, de uma nota só, que confirmava todos os seus pensamentos.
Os dois correram para a porta, e viram o motivo da comoção de Miya de pé no batente, com cara de quem não entendia nada. Miyako balbuciava apenas sons sem nexo, parecendo mais um gato com fome, enquanto olhava para Benjamin e para Murata como quem pedia ajuda. E, na porta, Wolfram cansou de esperar alguém convidá-lo para entrar e foi invadindo o espaço, começando a tirar os sapatos.
— Onde está o Yuri? Eu trouxe o DVD que ele me emprestou outro dia… — Wolfram foi dizendo, enquanto entrava na sala.
— O q-que você veio fazer aqui, Wolfram-kun? – Miyako exclamou com voz aguda.
— Eu já disse, entregar o DVD. – Wolfram revirou os olhos. – E eu já não aguentava mais ficar em casa, com toda aquela gente lá. Vim para passar um tempo aqui. Algum problema com isso? – Ele arqueou uma sobrancelha, e Miyako engoliu em seco. – Eu não poderia estar aqui?
— Não é isso, Wolfram! – Murata resolveu ajudar. – É que o Shibuya está meio… ocupado… Se ele vir você agora, ele com certeza vai… vai… — “Vai pirar… vai travar… não vai conseguir fazer mais nada da vida…”, ele completou em pensamento, mas nada daquilo seria de ajuda caso fosse falado em voz alta.
— Está dizendo que minha presença aqui é um incômodo? – Wolfram encarou Murata mortalmente, e foi a vez dele ficar sem argumentos. – Ele não está com alguma garota aqui, está? É aquela Mariko?! Se for ela, eu juro que…
— Calma, Wolfram-san, não é nada disso… — Ben queria ajudar também, e sorriu da forma mais tranquila que conseguia. – Yuri está… estudando.
— O Yuri? Estudando? – Wolfram soltou uma risada de desdém, e revirou os olhos. – Tá bom. Qual a próxima? Ele se filiou ao Greenpeace e vai viajar para salvar baleias também? Certo, então. Eu vou lá dentro agora mesmo, verificar o que raios eles está fazendo de tão importante, que eu não posso ver… — Wolfram avançou decidido na direção do corredor.
— Não, Wolfram-kun, não vai! – Miyako abraçou Wolfram pela cintura com força, impedindo-o de avançar. – O Nii-chan está tão ocupado agora, se você entrar de repente, ele vai morrer de vergonha!
— Ele está fazendo alguma coisa indecente? – Wolfram indignou-se, ainda mais motivado a invadir aquele quarto de uma vez por todas. – Ele está jogando um daqueles jogos de simulação obscenos, é isso?
— Claro que não, quem faz isso é o Shori-nii! – Miya choramingou, ainda agarrada em Wolfram, impedindo qualquer movimento dele. – Se você entrar agora, o Yuri-nii não vai nos perdoar! Você precisa ter paciência!
— Eu já tive paciência demais! – Wolfram resmungou, desvencilhando-se de Miyako com facilidade, ainda que ela estivesse empregando toda a sua força em tentar segurá-lo. – Estou cheio de ter que aguentar aquela Elizabeth, também. Por que é que todo mundo quer que eu tenha paciência, e continuam fazendo coisas que me deixam ainda mais irritado? Isso não faz sentido! Agora, me deixa passar, quero ver quem é que está lá com o Yuri!!
— Não tem ninguém lá!
— Então, por que eu não posso entrar?
— Porque o Nii-chan… é um idiota!! Se você entrar lá agora, ele vai ficar nervoso de novo, e não vai conseguir terminar o que começou!!! – Miyako insistiu, quase gritando.
— O que raios ele está fazendo lá dentro, que precisa de tanta concentração? – Wolfram já estava intrigado, e queria ainda mais saber o que estava acontecendo ali. Todos pareciam querer esconder alguma coisa dele, e é claro que ele queria saber do que se tratava. Odiava ser pego desprevenido, e odiava ser o último a saber.
Murata e Benjamin se entreolharam, nenhum dos dois muito motivado a se meter naquela história, e Miyako ainda se agarrava à Wolfram, impedindo-o de avançar, mais parecendo um filhote agarrado na mamãe-coala.
— Ei, o que está acontecendo aqui? – Miko surgiu do lado de fora, quando notou toda a comoção. – Ara, Wolf-chan veio nos visitar! Por que você não deixa ele ir ver o Yuri, Miya-tan?
— Ahn? – Miyako ergueu o rosto. – M-mas eu… não…
— Não, não, que feio! – Miko a repreendeu. — O que eu já falei sobre ter ciúmes do seu primo, hein?
— M-mas…
— Sem “mas”! Deixe o Wolf-chan passar! Ele veio aqui para isso, não é? – Ela sorriu para Wolfram, que assentiu. – Solte ele agora, Miya-tan!
— Tá bem… — Ela desistiu, correndo para o lado de Ben, completamente derrotada. “Desculpe, Nii-chan…”, era o que ela pensava, já que não havia sido capaz de ajudá-lo agora.
Wolfram se aprumou, ajeitando as roupas que Miyako amarrotou com seu abraço, e agradeceu Miko pela intervenção. Logo depois, marchou a passos decididos rumo ao quarto de Yuri, indo saber de uma vez por todas o que é que todos queriam esconder dele com tanto custo. Respirando fundo, ele parou em frente à porta. Tinha vaga consciência da platéia que o acompanhava silenciosamente com os olhos, mas isso não chegava a incomodá-lo. Reunindo forças, ele não bateu na porta, mas a escancarou com toda a força que possuía, pronto para pegar Yuri no meio do que quer que ele estivesse fazendo.
— O que está acontecendo aqui, fracote?! – Ele gritou, sem perder a razão. Visualizou rapidamente Yuri sentado na cadeira em frente à escrivaninha, cercado por montanhas e montanhas de papel, com uma caneta na mão. Ele havia ficado pálido pelo susto, com os olhos arregalados vidrados em Wolfram, e o corpo paralisado na mesma posição. Wolfram estranhou. Aquilo não parecia suspeito, de qualquer forma. Mas, se queriam tanto esconder aquilo dele, então algo deveria estar acontecendo. – Me mostra agora o que você está fazendo!! – Exigiu, avançando contra o assustado Yuri, encurralando-o como um predador.
— O q-que você está fazendo aqui, Wolf? – Yuri gemeu, amedrontado, se apressando em esconder tudo o que estava escrevendo com o corpo. Não, ele não estava pronto para revelar tudo à Wolfram, ainda mais dessa maneira! Ele não devia estar ali! Isso não estava nos seus planos, ainda que Yuri não fosse alguém que costumasse planejar as coisas, e ele não sabia como agir agora. Wolfram estava ali, exigindo explicações, e ele não tinha absolutamente nenhuma ideia de como dizer o que precisava ser dito. – N-não era para você estar aqui! – Ele gritou, sem pensar, cerrando os olhos de constrangimento e medo. Ele não queria ser rejeitado, não dessa maneira patética, sendo pego no flagra, sem nem ter tido a oportunidade de tentar.
— O que é que você está se empenhando tanto para esconder de mim, fracote? – Wolfram intrigou-se, apoiando na escrivaninha para se inclinar até a altura do rosto de Yuri, que já estava mais do que corado, tentando evitar a troca direta de olhares, abraçando as folhas de rascunho que usava com toda a força, impedindo dessa forma que Wolfram as visse. Ele tremia, e Wolfram não entendia o que havia de tão importante que pudesse causar esse comportamento absurdo. Ele mais parecia uma criancinha que fora pega no meio de uma traquinagem! Então, era óbvio, havia algo de errado em tudo isso.
— N-não é nada… Por favor, Wolf, não pergunte! Não agora… — Yuri se enrolou, e tentou se afastar, perturbado com aquela aproximação repentina, para a qual ele não estava preparado. – Você vai saber o que é! Mas apenas… espere estar tudo pronto…
— O que é que você está tramando? – Wolfram continuou desconfiado, colocando as mãos na cintura. – Não deve ser nada bom! Vamos, me mostre! Eu não quero esperar!
— Não, eu não posso!!! – Yuri encolheu-se. Ergueu os olhos, e ao mirar as esmeraldas de Wolfram o encarando profundamente, sem hesitação, estremeceu. Ele era tão lindo… Ele estava mesmo fazendo o certo, querendo se declarar para alguém como Wolfram, de todas as pessoas…? Ele seria rejeitado, sem rodeios. Como foi burro, de acreditar em Murata, e imaginar que pudesse dar certo! Claro que não daria. Era esperar muita bondade do universo que algo como um romance mútuo pudesse nascer entre eles, do nada.
— Pare de enrolar, fracote! Mostre-me uma dessas folhas, eu quero ver!!! – Wolfram estendeu a mão, exigindo, enquanto apoiava a outra mão na guarda da cadeira, o que consequentemente o deixava ainda mais perto de Yuri.
— Não!!! – Yuri estava sem saída, com Wolfram o detendo daquela forma, impedindo que se levantasse. Agarrou as folhas com ainda mais vontade, amassando-as. Se comesse todas elas, Wolfram jamais saberia das idiotices que ele estava escrevendo, e ele se livraria de ser rejeitado da forma mais humilhante e ridícula que pudesse pensar.
— Não me faça pedir duas vezes, idiota!!! Mostra logo esses papéis!!! – Wolfram voltou a gritar, interrompendo os pensamentos de Yuri, que se tornavam gradualmente mais insanos.
— Não!!! – ele repetiu. Wolfram rosnou alguma coisa ininteligível na sua língua nativa, que podia muito bem ser uma declaração de guerra, e então partiu para o ataque. Agarrou um lado das folhas, e Yuri manteve-se firme segurando as outras não deixando que ele as pegasse.
— Por que você não quer que eu veja, hein? O que tem de tão ruim aqui? – Wolfram tentava vencer Yuri, distraindo-o, mas é claro que ele não soltou as folhas, e os dois permaneceram naquele cabo de guerra por mais alguns segundos. – Anda, solta isso!!!
— Nunca!!!
Depois de alguns instantes, Yuri não aguentou puxar por mais tempo, e Wolfram conseguiu puxar algumas das folhas, sendo que outras rasgaram no processo. Ele logo ergueu elas no ar, com o braço erguido, mantendo longe do alcance de Yuri.
— Não! Wolfram, não veja, você vai rir! – Yuri esticou o braço também, alcançando facilmente, mas Wolfram não deixou que ele pegasse, e girou para o lado, fugindo de Yuri.
— Eu vou ler isso daqui, agora mesmo, e você não vai me impedir! – Wolfram, resoluto, desviou facilmente de Yuri, que parecia prestes a cair desmaiado, ou no choro, o que viesse primeiro. Erguendo os olhos, ele notou que a maioria das folhas estava em branco, então foi as eliminando uma por uma, ao mesmo tempo em que em fugia de Yuri pelo quarto. – Saia das minhas costas! – Ele gritou, tentando empurrar Yuri que a todo custo tentava reaver suas preciosas cartas mal escritas antes que Wolfram pudesse traduzi-las.
Wolfram desviou do seu ataque, ainda sem conseguir ler nada com toda aquela movimentação, e voltou a erguer as folhas para o alto. Yuri pulou para cima dele, ávido em reavê-las o quanto antes e, com seu movimento um tanto brusco demais, acabou batendo Wolfram contra a parede. Ele ofegou, e Yuri aproveitou a chance para pressioná-lo com o próprio corpo, e impedir que ele voltasse a fugir. Com uma das mãos, segurou o pulso da mão livre dele, e levantou a outra, tentando alcançar as folhas de papel.
Sentiu algo quente e úmido tocar sua pele, no pescoço, e arquejou, baixando o rosto para ver. Era a respiração de Wolfram, que batia contra sua pele, cadenciadamente. Ele fazia uma expressão estranha, atordoado com toda aquela aproximação inconsiderada, e seu rosto estava corado. Sentia o perfume de Yuri, tão perto agora, e esqueceu completamente de toda aquela comoção apenas ao menor toque. Yuri também abandonou sua caçada e, segurando o pulso da mão que segurava as páginas não acabadas da sua carta, ele foi baixando-a lentamente, aproximando o rosto do de Wolfram. Suas faces estavam ambas em chamas, e os olhos, brilhando pela emoção e pelo turbilhão de sentimentos que bagunçavam suas mentes. As respirações deles se misturaram, enquanto cada um se perguntava onde aquilo ia parar.
Yuri fechou os olhos, apreciando o aroma suave e natural que irradiava de Wolfram, e ele ofegou, ao sentir a mão dele passar para a sua cintura, delicadamente. Queria muito empurrar Yuri e perguntar, aos brados, o que é que ele estava pretendendo. Até faria isso, se pudesse encontrar sua voz, perdida entre o toque displicente daquele fracote atrevido, que provavelmente nem sabia o que estava fazendo. Aquilo tudo era apenas para impedir que ele lesse seus preciosos documentos? Pois bem… Reunindo o restinho de consciência que se encolhia no fundo dos seus pensamentos enevoados, Wolfram conseguiu controle o suficiente para desviar os olhos do rosto de Yuri, e visualizar o papel em sua mão, o único que tinha algo escrito, de fato. Havia apenas uma frase simples, escrita ao longo do papel, na vertical, de cima abaixo. Estava em japonês, obviamente.
ヴ
ォ
ル
フ
ラ
ム
が
好
き
で
す。
Wolfram não conseguiu fazer seu cérebro funcionar rápido o suficiente para transpassar aqueles caracteres para a sua língua. E, mesmo que não estivesse tão perturbado pela proximidade do outro que nem conseguia se mover, ele não teve tempo suficiente para raciocinar. Yuri avançou aqueles derradeiros centímetros, tomado pela atmosfera e pelos seus sentimentos que quase transbordavam, e juntou seus lábios com os de Wolfram, em um ato de completa impulsividade.
O loiro ofegou, tomado pela surpresa. Sua mão, ainda presa contra a parede por causa de Yuri, relaxou, e as folhas que ainda segurava giraram vagarosamente até o chão. Ele perdeu o controle sobre seu corpo, e fechou os olhos, sentindo os lábios cálidos e inexperientes de Yuri moverem-se em conjunto com os seus. Ele deslizou a mão pela sua cintura, cingindo-a em um meio abraço, enquanto a outra que prendia o pulso no alto girava, e segurava-o pela mão. Wolfram apertou com força aquela mão, entrelaçando seus dedos, enquanto com a outra, segurava no casaco de Yuri para não cair, suas pernas bambas demais para se manterem firmes. Se não estivesse pressionado contra a parede, já teria desabado até o chão.
Yuri movia somente os lábios, puxando-o cada vez mais contra si, e Wolfram correspondia na medida do possível, ainda sem forças para reagir, quanto mais para interpretar toda aquela situação. O contato se estendeu até quando Yuri sentiu que não conseguia mais respirar, e se afastou lentamente. Não soltou a cintura de Wolfram, suas mãos juntas deslizaram pela parede fria, pendendo ao lado dos corpos anestesiados pela confusão. Yuri apoiou o rosto ruborizado no ombro de Wolfram, ofegante e confuso.
— Me desculpe, Wolf… E-eu não devia ter… E-eu… — Ele suspirou, derrotado, sem coragem para erguer a cabeça. Wolfram permanecia imóvel e, naquela altura em que Yuri já estava esperando levar uma surra por ter agido novamente de forma espontânea, sem pensar nas consequências; aquela falta de reação o deixava ainda mais assustado. Ele se afastou, soltando Wolfram, tentando ler a expressão em seu rosto.
Ele ainda estava corado, mas seus olhos se recuperaram rapidamente da neblina de torpor que os cobria, e ele encarou Yuri diretamente. Era impossível ver através dos seus pensamentos nesse momento.
— Yuri… — Ele chamou, e o garoto estremeceu com aquela voz. – Diga logo. Por que fez isso? O que isso significou? – O pedido era quase uma súplica. Wolfram queria a verdade, e estava disposto a consegui-la a qualquer custo. Yuri engoliu em seco, percebendo um pouco tarde demais que nada estava indo como planejara. Mas ele não era o tipo de pessoa que deixava para trás algo inacabado, então, decidiu que iria em frente com isso, não importando mais o que aconteceria daqui para frente.
— Nós precisamos conversar… — Ele segurou a mão de Wolfram, que ofegou, confuso com o toque e ainda com o olhar que Yuri carregava no rosto. Seu coração acelerou ainda mais do que já estava, e Wolfram amaldiçoou-se por ser tão fraco contra isso. Queria a todo custo impedir-se de ser esperançoso, mas aqueles sentimentos apenas afloravam sem o seu consentimento. – Mas não aqui… – Wolfram se lembrou da incômoda banca de jurados que tinham do lado de fora e, com desgosto, teve que concordar, dessa vez, com Yuri. Aceitou ser levado para o lado de fora, sem discutir, até porque sentia que não iria conseguir pronunciar mais nada nem que tentasse.
Não sabia aonde isso tudo iria o levar, e nem queria fazer suposições. Já bastavam as decepções que carregara anteriormente. Mas será que… Um pouco… Será que ele não podia ser um pouquinho mais otimista, ao menos dessa vez?
Fale com o autor