Sono Te Hanasanaide

49 Capítulo XLVIII


Tatta ichimiri ga tooku te

Mesmo um único milímetro parece tão longe

Kakenuketa hibi ni

Neste nosso atribulado dia-a-dia

Wasurenai wasurerarenai

Mas eu não vou esquecer. Eu não posso esquecer

Kagayaku ichi peeji

Desta brilhante primeira página

Oni ai no futari ni nandaka fukuzatsuna

Somos uma combinação tão complexa

Kimochi ga iru yo

Existem tantos sentimentos

Hajimete no kanjou kodou ni rinku suru

Emoções que sinto pela primeira vez ligadas às batidas de meu coração

Tai on kei koware chatta kana

Como um termômetro. Pergunto-me se não estaria quebrado



~Capítulo 48~



Miya quase não conseguiu acompanhar Natsume enquanto ela corria pela rua, mas como ela logo diminuiu o passo, foi mais fácil segui-la. Ela não olhou para trás e continuou em frente, então Miya apenas prosseguiu da maneira que podia. Quando ela enfim notou a garota que a acompanhava em silêncio, decidiu parar, e esperar. Miya logo a alcançou.

— Natsume-san, está tudo bem?

— Miya, eu não.. Hm… — Natsume murmurou, desconfortável, sem saber ao certo o que falar. Estava constrangida e se sentia péssima por ter protagonizado uma cena como aquela na frente de tantas pessoas, ainda mais com aquela garota, que parecia ser tão tímida. Ela realmente queria fazer amizades na nova escola, e Miya parecia exatamente o tipo de pessoa que ela mais gostava, mas se na primeira vez em que saíam ela já fazia besteira, então o que mais poderia esperar?

Miya, por outro lado, estava atrapalhada com muitas coisas passando pela cabeça. Queria ajudar Natsume, mas não sabia até onde poderia ir sem ofendê-la. Elas mal se conheciam, na verdade, e ela já havia ficado muito exultante com o simples convite para sair, e até propôs ir espiar Yuri porque Natsume parecia ter um interesse especial pelo relacionamento dele com Wolfram e, por isso, ela contou sobre o plano do presente de aniversário para ela. Realmente… Miya era uma negação no quesito “interação social”, e estava pisando em ovos ali.

— Será que eu posso… ahn, ajudar em alguma coisa? — Ela optou por perguntar, antes que pudesse falar qualquer coisa de errado ou ser invasiva demais com os assuntos de Natsume. Ela parecia verdadeiramente abalada com todo o acontecimento, que por si só já era estranho, mas Miya não sabia se deveria ou não perguntar sobre isso, apesar de estar morrendo de curiosidade para saber o que levou alguém, que primeiramente aparentava ser tão confiante, a agir daquela forma.

— Me desculpe por… Bem, por tudo isso… — Natsume iniciou dizendo. Ainda estava de rosto baixo, e segurava o cotovelo com o braço esquerdo, fitando a beira da calçada sem muito interesse. — Eu causei uma confusão, não é? — Ela riu, sem graça. — Andar comigo tem esse problema, eu sou meio descontrolada às vezes. — Outra risada, dessa vez com um pouco mais de humor, como se recordasse de algum outro fato mais longínquo e menos perturbador. — Bem, não importa. Acho que eu quero explicar pra você o que aconteceu direito, para você não achar que eu sou alguma maníaca ou algo assim, sabe? Se bem que depois de eu explicar, você pode só ter uma confirmação de que eu sou mesmo maluca… Certo, vou deixar você decidir! Tudo bem?

Como Natsume falava muito, e um tanto rápido, Miya levou alguns segundos para processar as informações, e terminou assentindo. — Está bem, eu quero ouvir…

— Okay! Você quer vir até a minha casa? Ou… Se preferir podemos ir a algum outro lugar para conversar, eu não sei… — Ela coçou o rosto incerta, desviando o olhar a todo o momento. — O que acha? — Sua expressão parecia ansiosa. Miya riu.

— Eu não me importo de ir até a sua casa.

— Ah, ótimo, ótimo! — Ela rapidamente se empolgou, direcionando Miya para a esquina onde deveriam dobrar. — É por aqui. Eu tô doida pra te mostrar a minha coleção de… — Ela pareceu lembrar do que havia ocasionado toda essa comoção. – E, bem… vou te explicar tudo. Ou melhor, você vai ver…

~

Depois de limpar a bagunça, Yuri voltou ao seu posto, confuso assim como todos os outros funcionários sobre o recente acontecimento. Ninguém ousou comentar mais nada, e todos retornaram à normalidade de suas funções rapidamente, mas Yuri ainda perguntaria por mais detalhes à Miya quando chegasse em casa.

Agora o lugar estava mais calmo, e não havia muito o que fazer. Sara havia sumido, como ele fazia sem avisar às vezes, e só estavam Yuri e a outra funcionária no balcão da frente. Apenas algumas pessoas ocasionalmente apareciam para buscar encomendas, ou o funcionário que cuidava das entregas, que entrava e saia a todo momento.

Yuri olhava distraído pelas janelas, apoiado com o cotovelo no balcão e o rosto na palma da mão. Podia ver dali todo o movimento da rua, e as pessoas que passavam pela frente da loja. Estava com tanta saudade de Wolfram… Parecia que estavam há meses sem se ver ou se falar direito, embora ainda se encontrassem todos os dias na escola, somente porque não tinha mais tempo para ficar com ele quando estava livre. Sabia que Wolfram deveria estar também irritado com a sua ausência — e Conrad estava fazendo um ótimo trabalho em mantê-lo distraído, por falar nisso — mas tudo isso seria recompensado quando enfim comprasse o presente perfeito para Wolfram, e o visse feliz com isso.

Mas mesmo que se convencesse de que poderia aguentar muito bem esse curto período, não podia refrear aquela falta que sentia de estar perto dele. Enquanto estavam na escola, não havia muito o que se pudesse fazer afinal, e estavam sempre ocupados com alguma coisa. Mesmo se pudessem dar alguma escapada durante o intervalo, nunca era por tempo suficiente, e sempre havia comentários desnecessários ao redor, caso eles sumissem juntos. Não que qualquer um deles ligasse, mas ainda era desconfortável.

Além disso, Wolfram pareceu meio distante da última vez que se viram, na escola. Bem, ele usualmente ficava irritado facilmente e sem motivo, e agora, com Yuri sumindo daquela maneira, era evidente que ele agiria assim, mas agora parecia mais como se o próprio Wolfram estivesse evitando-o — porém, ao invés de bravo, ele parecia mais… constrangido, e irritado consigo mesmo. Yuri imaginava que Conrad estivesse ajudando-o como disse que faria, mas não sabia o que pensar dessa mudança de comportamento repentino.

E Yuri sentia falta… Poxa, ele podia até parecer despreocupado e mais seguro do que Wolfram, mas ainda sofria com a saudade e a distância auto-imposta, afinal! Queria abraçar e beijar Wolf como antes, fazê-lo perder o fôlego… Ver seu rosto corando, ou sua expressão irritada quando ele fazia alguma provocação mais ousada. O suspiro que ele dava quando mordia de leve sua orelha, a sensação de segurá-lo em seus braços, a voz dele dizendo seu nome…

— Shibuya-kun, você está bem?

— Sim! Eu estou… estou bem! — Yuri despertou bruscamente dos seus devaneios, ao se dar conta de que estava tendo aquele tipo de pensamentos justo no seu local de trabalho, e tratou de se aprumar bem rápido, e disfarçar. Devia estar mesmo fazendo uma cara muito suspeita agora mesmo…

Olhou mais uma vez pela janela, tentando não se deixar levar por pensamentos mundanos mais uma vez. Ah, ele estava mesmo ficando doido com a abstinência de Wolfram. Poderia jurar que a pessoa que passava naquele momento pela frente da loja tinha o exato tom de loiro dos cabelos dele. E até a mesma estatura… E o perfil perfeitamente delineado, o olhar altivo… Aquele ar de… De… Kami-sama! Aquele era Wolfram! O coração de Yuri acelerou, mas não havia motivo para pânico. Ele não olharia para lá, só estava de passagem, e ele não seria descoberto. Sim! Não teria como ele vê-lo agora, estava seguro… Sim, seguro… Exceto se Wolfram virasse para entrar justamente na Little Shimaron!

Yuri só teve tempo de se jogar no chão, apertando os joelhos contra o rosto, e torcendo para que tudo acabasse muito rápido. Hori, sua colega de trabalho, agora o fitava como se ele tivesse enlouquecido de vez, e parecia indecisa entre sair e chamar ajuda ou atender ao cliente que se aproximava do balcão. Yuri fez sinal para ela, apontando para cima e juntando as mãos acima da cabeça em um pedido mudo de ajuda. “Atende ele, por favor”, ele murmurou sem fazer ruído algum.

Hori não entendeu muito bem, mas assentiu mesmo assim, e de qualquer maneira, não pode pensar muito tempo nisso, pois o cliente já estava esperando por ela. Yuri sentia seu coração bater tão alto que tinha medo que Wolfram pudesse ouvir, do outro lado do balcão. Não, ele não havia aguentado tantos dias longe de Wolfram pra colocar tudo a perder. Não, não, nada poderia dar errado logo agora.

— Como posso ajudá-lo? — Yuri tinha inveja da habilidade de Hori-san para parecer natural mesmo em uma situação inesperada, atendendo alguém, com ele encolhido em posição fetal como se a máfia russa tivesse aparecido ali para matá-lo.

— Eu vim buscar uma encomenda. No nome de Cecilie von Spitzberg.

— Ah, Cheri-san! Sim, sim, ela sempre encomenda tortas aqui… — Hori pensou por dois segundos, imperceptíveis, mas Yuri poderia jurar que ela estava tentando imaginar qual seria a ligação de Yuri com aquela família. — Um momento que eu vou verificar qual é o pedido dessa vez…

Os minutos em que Hori sumiu para o lado da cozinha foram os mais longos para Yuri. Ele ouvia o suspirar impaciente de Wolfram do outro lado. Se ele se inclinasse apenas um pouquinho, veria seus tênis aparecendo, e disso para encontrá-lo abaixado ali, era fácil demais. Para alívio dele, ou pelo menos deveria ser, logo Hori retornou, com uma caixa de tamanho médio nas mãos, e entregou para Wolfram.

— Obrigado. — Ele pagou, pegando o pacote nas mãos. Hori sorriu.

— Eu que agradeço, e volte sempre.

“Não, não volte não!”

Ele ouviu o barulho de Wolfram se afastando e saindo do local. Hori permaneceu imóvel, com o sorriso congelado, até que Wolfram sumisse de vista, e então olhou para Yuri, intrigada. Ele se ergueu, ajeitando o avental do uniforme e tentando agir naturalmente depois daquela cena que havia criado. Hori ainda sorria.

— Então? — Ela indagou — Aquele é o seu namorado, por quem você está trabalhando para conseguir um presente?

Yuri assentiu, corando ligeiramente. Havia contado por alto a sua história para Hori, em alguns dos intervalos que tinham juntos. Na verdade, ele tagarelava sobre Wolfram sempre que tinha a chance, e não perdia nenhuma oportunidade de espalhar o quanto seu namorado era lindo e perfeito, e acabava que Hori era sempre sua vítima. Ela sabia tanto sobre o namorado de Yuri que sentia como se já o conhecesse.

— É ele sim. Ele não é lindo? — Ele murmurou, ainda envergonhado, mas com uma pontinha saliente de orgulho na voz. Hori revirou os olhos.

— Ele é mesmo muito lindo. Mas agora, melhor voltar ao trabalho, não é?

— Ahn? Ah, sim, sim!

~

Miyako estava bem nervosa, quando enfim chegaram à casa de Natsume. Não era muito longe, assim como ela havia dito, e nem tão diferente da casa onde morava com a família de Yuri. Não tão grande nem muito pequena, com dois andares, cercada por um muro baixo com portão, um jardim bem cuidado e algumas árvores baixas ao redor. Natsume foi na frente, e ela pediu licença, enquanto ia tirando os sapatos na entrada, e pegava o par de pantufas que a garota lhe emprestara. Foram ambas saudadas por um grande felino, de pelagem alaranjada e vivos olhos verdes, que miava para a dona e olhava com desconfiança para a estranha.

— Esse é o Baltazar. — Ela apresentou, enquanto coçava a orelha do gato. Miya se aproximou, fazendo o mesmo, e ele ronronou, aproveitando que estava sendo mimado. — Mas nós vamos por aqui… Eu quero te mostrar…

Miya a seguiu em silêncio pelo corredor da casa, onde aparentemente não havia ninguém além do gato, e elas subiram as escadas. O silêncio não combinava nada com Natsume, e ela se sentiu deslocada com aquele ar sério que rondava o lugar. Por que é que de repente, a garota havia ficado tão tensa? Era estranho visitar a casa de outra pessoa, ainda mais assim de repente. Ela nunca havia feito isso antes, agora que parava para pensar sobre isso…

Logo que chegaram a outro corredor, Natsume abriu a segunda porta logo à frente, e deu espaço para Miya adentrar. Ligou a luz. E Miya entreabriu a boca em espanto.

O quarto em si era bem simples, e bastante organizado — uma cama de solteiro, criado-mudo, armário embutido, escrivaninha, e uma estante coberta de livros e mangás de cima abaixo. Possuía também vários action-figures, pelúcias e outros tipos de mercadoria desse tipo, e dentre os títulos, havia vários que Miya também acompanhava e conhecia, mas ela nem mesmo se deteve a esse detalhe. Isso porque, o que chamou a atenção primeiramente, foram as paredes. Nelas, havia incontáveis pôsteres e fotos de todo tipo — idols, atores, bandas coreanas, mangás de todos os gêneros e até mesmo de yaois ou outros assim, e principalmente, o que mais se destacava em todos esses pôsteres, eram os de um modelo em particular, e Miya imediatamente o reconheceu, não por ser fã ou algo assim, mas porque ela havia acabado de vê-lo, e isso não fazia nem mesmo dez minutos.

— Esse não é…

— Sim… — Natsume respondeu, com a voz vaga. Pegou uma revista, de uma pilha que ficava bem guardada embaixo da escrivaninha, e apontou para a capa, onde o mesmo rosto emoldurado por cabelos platinados, que se repetia inúmeras vezes pela parede, a fitava diretamente. — Essa pessoa, se chama Saralegui. Ele estava naquela confeitaria onde seu primo trabalha. Ele é um modelo relativamente famoso e… E eu sou fã dele. — Ela murmurou a última parte, baixando os olhos.

Miya, mesmo a conhecendo por tão pouco tempo, já enxergava Natsume como alguém ativa e destemida, que seguia atrás do que queria sem medir consequências. E, no entanto, ela agora parecia tão frágil e perdida, que era quase inacreditável. E Miya podia entender o porquê. Afinal, gostar de alguma coisa ou de alguém dessa maneira, muitas vezes, não é compreendido pela maioria das pessoas. E ela sabia como ninguém o que era passar por dificuldades por causa do pré-julgamento dos outros. Natsume parecia temer isso também, pois lançava à Miya, a todo segundo, olhares que diziam “por favor, fale alguma coisa”.

— Bem, então… Você é fã desse modelo… — Ela reafirmou. Juntou as mãos nas costas, e se balançou para frente e para trás, olhando para os lados. Para onde quer que olhasse, aquela pessoa chamada Saralegui a fitava ininterruptamente a partir do papel. — Agora entendo a sua reação quando o viu. Acho que eu teria feito até pior, se visse algum seiyuu ou idol de quem eu goste muito de repente... — Ela riu, ao imaginar uma cena constrangedora consigo mesma, e passou a mão pelos cabelos longos.

Natsume a fitou com incredulidade por apenas meio segundo. Miya não fez nenhuma pergunta, não indagou por que raios ela tinha tantas fotos da mesma pessoa por todo lado, ou por que guardava revistas velhas, mesmo que elas só tivessem pequenas notas falando sobre ele, ou por que havia hesitado tanto em contar a verdade. Miya não questionou nada, na verdade. Ela apenas… entendeu. Sim, ela compreendia, porque pensava de maneira semelhante, ou porque compartilhava daquelas experiências, e Natsume apenas riu da própria tolice ao tentar esconder uma parte tão grande de si apenas para impressionar a outra garota.

— Mas... É esquisito, nee? Tipo, isso tudo… — Ela apontou de mau jeito para a tela do computador, que obviamente, tinha uma foto dele como fundo de tela também.

— Eu não acho nem um pouco. — Miya sorriu, ajeitando os óculos. — Sabe, eu tenho algumas pessoas que são muito importantes para mim. E todos eles sempre me falaram que, não importa do que eu goste ou o que eu faça, eles sempre vão gostar de mim. Então, acho que o mesmo vale para você. Então está tudo bem, porque você ainda é você, independente de tudo isso. E isso é o que faz você ser você… entende? — Ela murmurou, incerta sobre a lógica que tentava explicar.

— Eu entendi.

Natsume riu baixinho; sentia-se tola por imaginar que logo Miya fosse julgá-la. Afinal, ela sabia desde que tinha posto os olhos nela, que ela era uma pessoa diferente das outras, e que pensava como ela. Ah, agora tinha até vontade de abraçá-la, por falar coisas tão fofas! Mas se segurou a tempo, afinal, ainda não se conheciam por tanto tempo assim, então ela esperaria e não faria isso — por enquanto.

— Mas, sabe, podia ser pior…

— Tá brincando? Como poderia ser pior? — Ela elevou a voz ao seu normal, e guardou de volta a revista. Voltou, e se acomodou na cadeira da escrivaninha, indicando para que Miya sentasse na sua cama, e ela assim o fez. — Eu virei aquele lugar do avesso antes de sair, e fiz aquela cena toda na frente “dele” ainda! Foi a maior vergonha da minha vida! — Ela gesticulou para ilustrar a cena. — Nunca mais enquanto eu viver quero voltar lá de novo! Só que… E-eu vi ele…. Ele estava lá mesmo! Aaahh ele t-tocou minha mão! A minha mão! — Ela logo se alterou de novo, escondendo o rosto entre as mãos e girando a cadeira, enquanto soltava um guinchinho inumano.

Miya nem conseguiu ficar chocada com isso. Era exatamente a mesma reação que ela geralmente tinha sozinha em casa quando via algo de que gostava, e precisava extravasar a energia em excesso.

— Mas imagina só, se você acaba falando alguma coisa?

— Oh my god, nããão, eu não quero nem imaginar! — Ela bradou. — Ele já deve ter ficado pensando que eu sou uma maluca, e se eu pensar mais nisso vou acabar pirando! — Ela agitou as pernas, tentando apagar da mente aquele incidente. Agora, estava bem mais tranquila, depois de confessar para a nova amiga sobre o seu “guilty pleasure”, hobbie secreto, fanatismo oculto, obsessão obscura, ou qualquer coisa assim. — Agora vem cá, que eu quero te mostrar o que eu tenho de melhor aqui!

Ela correu na direção da estante, e Miya foi atrás, doida para ver o que ela tinha ali. A garota ainda abriu uma das portas do armário, onde havia mais pilhas e pilhas de mangás, doujins, revistas e tudo mais. Miya soltou uma interjeição de surpresa e admiração. Aquele parecia com um paraíso imaginado.

— Eu... Será que eu poderia… — Ela esticou a mão, cheia de vontade de colocá-la em todo aquele material.

— Mas é claro! Aqui, pode pegar qualquer um.

As duas sentaram no chão, para explorar com entusiasmo a coleção maravilhosa que tinham à disposição. Miya não conseguia parar de sorrir com cada coisa que descobria ali. Era como se tivesse realmente encontrado um lugar ao qual podia pertencer sem culpa.

~

Wolfram bufou, jogando-se na cama. A irritação por Yuri sumir tinha passado um pouquinho, mas agora, ele sentia muito a falta dele. Só que não tinha coragem de falar com ele agora. Não depois daquela conversa constrangedora com Conrad, porque querendo ou não, a sua imaginação se ativaria, e seria complicado encará-lo com esse tipo de pensamento na cabeça. Não, seria a maior das humilhações se Yuri sequer cogitasse as coisas que passaram pela sua mente.

O jeito era aguentar mais um pouquinho, ao menos, até se acalmar. Mas era tão difícil! Ele queria ver Yuri, e queria vê-lo agora! Wolfram estava acostumado a ter as coisas que queria sempre à mão, e Yuri sempre foi uma exceção disso na sua vida, e talvez só por isso, ele se tornou alguém menos mimado e dependente do que poderia ter sido, porém, depois de se acostumar a ter ele em sua vida, estava sendo praticamente impossível voltar a se acostumar com essa situação. Ainda não sabia o que estava fazendo Yuri ter se distanciado nos últimos dias, e ele parecia sempre tão cansado também. Wolfram até tentou descobrir, mas ele sempre desconversava ou o distraia com algum outro assunto, e ele acabava esquecendo também.

Tinha várias hipóteses sobre o motivo disso em mente, mas desconfiava que Yuri só poderia estar ocupado, e com alguma coisa muito importante, para agir assim. Sua suposição era a de que ele estava treinando secretamente para poder voltar ao time, e por isso — e somente por isso — ele ainda não tinha dado um ataque e partido para cima do fracote que ousava evitá-lo depois das aulas.

No entanto, agora que estava de novo sozinho com seus pensamentos, as recordações e os pensamentos faziam a saudade apertar no seu peito, e tudo o que ele queria era ver Yuri, apesar de todo o seu orgulho e do seu constrangimento. Yuri era a única pessoa capaz de acalmá-lo, afinal, e ele queria… ou melhor, precisava dele. Até algumas daquelas palavras idiotas, ditas sem pensar, ou com a profundidade de uma poça na calçada, seriam o suficiente. Wolfram só queria ouvir a voz dele.

Mas… Por que mesmo que ele estava se segurando tanto? Yuri era seu namorado! E ele tinha o direito de procurá-lo a qualquer momento, afinal, estava no contrato, ou qualquer coisa assim. E era exatamente isso o que ele iria fazer! Nesse exato momento! Ninguém poderia segurá-lo.

Wolfram saiu em disparada, com a expressão de um soldado indo à guerra, e estava tão decidido que nem mesmo os vigias da noite ousaram indagar para onde ele ia com tanta ferocidade. O Sol havia acabado de se pôr, e já estava escuro o suficiente para ver as estrelas lá no alto, mas Wolf em nada reparava, já que se focava somente no seu objetivo, que era ver Yuri, o quanto antes.

Conhecia o caminho para a casa de Yuri como ninguém, e podia percorrê-lo de olhos fechados, o que era uma habilidade muito útil considerando que parte dos postes de luz, quando ia chegando mais perto do bairro vizinho, estava piscando ou já apagados, por alguma razão. Ele não sentia medo — pelo contrário, estava completamente concentrado no seu impulso inicial, que era o que o motivava a seguir em frente, porém, se não estivesse tão alterado por conta desses sentimentos conflitantes, teria percebido muito antes, que não estava completamente só naquelas ruas aparentemente pacatas.

— Hey!

Não demorou muito para que ele ouvisse uma voz vindo do nada. Olhou para trás, irritado, e já pensando em seguir em frente, mas antes que notasse, estava rodeado por quatro garotos bem maiores do que ele. Um, ou talvez dois dos quatro que estavam ali, eram alunos da sua escola, ele recordava de relance, mas no escuro, era difícil discernir. Ele suspirou. Logo agora, seria importunado. Que sorte ele tinha.

— Sinto muito, não tenho dinheiro nem nada que possa interessar a vocês, então me deixem passar. — Ele falou diretamente, fingindo não ter notado os sorrisos debochados que os garotos trocaram, e já ia tentando forçar a passagem, mas foi impedido, e empurrado de volta para trás, batendo as costas no muro.

— Você é o Príncipe de quem todos não param de falar desde que chegou, não é? — Wolfram não conseguia diferenciar quem dos garotos estava falando com ele, mas não fazia diferença, ele só queria escapar dali o mais rápido possível. Que péssimo dia para agir por impulso. Ele deixara o celular em casa! Não podia nem pedir ajuda para alguém se precisasse.

— Você não tá dando o rabo pro Shibuya? — Outro bradou, e parecia com raiva. — Por sua culpa, eu perdi a minha namorada! Pra um viadinho que nem você! — Ele empurrou Wolfram mais uma vez, e o loiro tentou golpeá-lo para conseguir fugir dali logo, mas foi facilmente contido por outros dois.

— Sua inutilidade para manter uma garota não tem nada a ver comigo, mas eu só posso dizer que ela tomou uma decisão acertada, porque você parece um idiota pra mim. E, além disso, o que eu faço ou deixo de fazer com o meu namorado só diz respeito a nós dois, então você deveria se esforçar mais nos seus próprios relacionamentos e deixar os das outras pessoas de lado, para que isso não se repita. — Wolfram conseguiu deixar sua voz em um timbre convincentemente calmo, apesar de sentir as mãos repugnantes daquelas pessoas segurando com força os seus braços e impedindo-o de sair dali. A única coisa que passava pela sua cabeça era Yuri.

Lembrava com clareza de quando se encontraram pela primeira vez naquela cidade, e ele o defendeu de um grupo muito semelhante a esse. Por mais que soubesse que isso não iria acontecer dessa vez novamente, e mesmo que acontecesse, Yuri só iria servir como saco de pancadas, afinal, seriam quatro contra apenas eles dois, e não havia nada que ele pudesse usar como arma por perto como daquela vez. Ele não conseguia parar de pensar que queria Yuri ali, e seu medo se atenuaria se ele chegasse. “Me ajuda, Yuri...”

— A bichinha tem a língua comprida e venenosa, não é? — Outra voz brincou, rindo maldosamente. A mão no seu braço apertou, e Wolfram sentia sua pulsação acelerando pelo medo, sobrepujando os outros sons. Suas pernas estavam prontas para correr, ele sentia isso. Só precisava se desvencilhar, e aí, correria diretamente para Yuri, sem pensar em mais nada. Só precisava de uma chance… Uma oportunidade de escapar. — Acho que ele está pedindo uma lição, não é?

Wolfram não estava acostumado a sentir medo. Sinceramente, poucas coisas que ele já tivesse experimentado tinham realmente dado a ele o sentimento real de pavor, e dessas coisas, ficar sozinho era a pior delas. Porém, dessa vez, tudo parecia pior. Talvez porque ele estava sozinho mesmo, no escuro, não tinha para quem gritar por ajuda, e aquelas pessoas… Elas pareciam estar falando muito sério. Ele sentia seu corpo todo estremecer.

Não teve muito mais no que pensar. Os garotos ainda riam e falavam meio juntos, em coisas que ele não prestava atenção, e repentinamente, sentiu uma dor pungente na região do estômago, que o fez engasgar e perder todo o ar que tinha nos pulmões. Tossiu, com a repentina falta de ar e tontura ocasionada por isso. Ele não entendeu de primeira, mas sabia que havia levado um soco. Ouviu risadas, mais vozes umas por cima das outras, e sentiu que caia no chão. As mãos que usou para se apoiar e não cair de cara no chão se machucaram com o impacto na calçada. Ele tinha plena consciência do quanto estava vulnerável daquela maneira no chão, e se encolheu, ofegante . A dor que nunca havia experimentado antes na vida o deixava sem reação, e nublava seus pensamentos. Seu coração estava acelerado, e ele ainda sentia o impulso de fugir, embora não soubesse como. Sabia que não tardaria até outro golpe, e precisava agir antes que isso acontecesse.Tentou abrir os olhos e focar a visão. O escuro tornava essa uma tarefa bem difícil, mas ele viu, pela luz distante de um poste lá atrás que ainda estava aceso, a silhueta de alguém.

— O que vocês idiotas pensam que estão fazendo?!

O coração de Wolfram se alegrou, embora sua mente estivesse tão confusa que ele não conseguia processar as informações muito bem. “Yuri! Você veio…!”.



Notas finais
Eaí meu povo? Retornemos ao ritmo normal de postagem o/ Eu espero que... hm.. não tenha ninguém aí com raiva, ou sede do meu sangue... querendo por algum motivo a minha cabeça... depois do que eu acabei de fazer com o Wolfram.... Pois, para informar aqueles que não se conformam, saibam que eu fui muito hostilizada por esse capítulo (me defendam). A ilustre dona senhora Editora que beta essa fanfic só faltou bater na minha porta pra me linchar pessoalmente, por causa do que eu fiz com o Wolf..... eu seeeei que ele sentiu dor, eu sinto muito por isso, mas mas..... é a história! Eu não posso fazer nada (mentira, posso sim). Não resisto a um drama, por favor, relevem isso! Enfim, ela mandou dizer que sente muito por ter deixado isso passar, e que por causa disso, eu fui colocada de castigo .-. em regime espartano, não posso descansar até fazer o Wolf ficar bem de novo .-. Ela fez de tudo pra eu desistir da ideia .-. então agradeçam a ela porque se dependesse de mim isso ia ficar pior... quer dizer.. hm, nada não 'u' Beemm, eu sei que parei na pior parte possível pra se parar, mas peço que aguentem até o próximo (que se depender da Editora, sai bem rápido .-.) Bye bye~ até o/