Moyamoya shinaide Hey! Hey! Hey!

Não fique mais triste — Hey! Hey! Hey!

Chotto SUPAISU ga kiiteru SHINAMON

Coloque mais um pouco de tempero e canela

Wasurenaide HAPINESU

E não se esqueça da felicidade!



Donna toki datte mimamotte iru yo

Não importa o que, eu vou sempre cuidar de você

Korondemo mata tachiagaru kimi no

Mesmo se você cair, eu vou te levantar de novo

Ichiban soba de waratte itai no Every day

Quero rir ao seu lado todos os dias

Koishite wa itsumo awateteru

O amor está sempre apressado

Kimi wa totemo Cute

E você é tão fofo!

Umaku ikanai koi no yukue demo kata otosanaide

Mesmo se o amor vai mal, não abaixe seus ombros

Gyutto dakishimete ageru yo

Ou então eu terei vontade de te abraçar



~Capítulo 40~



Sábado de manhã. Yuri despertou com um cheiro doce e agradável espalhando-se pelo seu quarto. Abriu os olhos depois de não conseguir identificar de primeira, mas logo que se deu conta, reconheceu facilmente. Chocolate. Levantou em um salto e correu para a cozinha.

Ao contrário do que pensou inicialmente, não era sua mãe quem estava lá, mas Miyako. Tinha chocolate decorando seu rosto, o avental que usava, os óculos e os cabelos, amarrados em duas tranças longas. Olhava com semblante desolado para a vasilha a sua frente, como se esperasse que magicamente a massa disforme e marrom à sua frente fizesse “puf” e se transformasse em algo delicioso.

Ela não havia reparado na presença de Yuri na porta, e murmurava algo para si mesma, desesperada. Ele levou algum tempo para compreender toda aquela sequência de eventos – Miyako não costumava acordar tão cedo em um sábado, no seu dia de folga, ainda mais para cozinhar. Mas ele olhou no calendário por um segundo, e se deu conta do que estava ocorrendo. Dia 13 de fevereiro. As semanas haviam passado tão rápido depois do retorno das aulas, e como era aquele período que antecedia o novo semestre, nada muito relevane acontecia, e ele se preocupou mais com as provas finais do que qualquer outra coisa (embora não tivesse se preocupado realmente tanto assim). De qualquer forma, ele nem lembrava que já era amanhã, embora estivesse contando os dias, ansioso para colocar seu plano cuidadosamente montado para esse dia. Finalmente, seria o primeiro dia dos namorados que passaria com Wolfram! Ele mal podia esperar. E parecia que sua prima também não.

— Para quem é esse chocolate todo, Miya-chan? – ele indagou, observando as inúmers vasilhas sujas espalhadas pela bancada. Miyako tomou um susto ao vê-lo ali, mas logo se recuperou, voltando a mexer na vasilha.

— Ah, ohayo, nii-chan… E-eu estou fazendo chocolates para todo mundo, é c-claro… — ela disfarçou, embora, como todo Shibuya, fosse absolutamente falha em ser discreta e/ou esconder qualquer tipo de sentimento.

— Mas o Shori está viajando, e o meu pai não gosta muito de coisas doces. – Yuri abriu um sorriso que pretendia ser debochado – É tudo para o Ben-kun, não é?

— E s-s-se for, qual o problema? – ela tentou por tudo no mundo parecer segura, mas continuava sem saber como lidar com aquela situação. Mesmo sendo Yuri, a sua inabilidade em relações sociais e a falta de experiência em especificadamente relações românticas a tornavam inapta para uma reação rápida. – Ele é m-meu… m-m-meu namorado, então é n-n-natural que eu… ah… Nii-chan, não faça isso comigo! – ela desistiu, corando até a raíz dos cabelos, e então virando o rosto para o lado, antes que acabasse enfiando a cabeça na tigela de chocolate.

— Tá bem, eu vou parar! – ele se compadeceu da prima, e resolveu deixa-la em paz. Se ela resolvesse se vingar com ele e Wolfram em outra oportunidade, seria um desastre. Olhou distraído para as… coisas não identificadas que Miyako fazia. Ela pretendia servir isso para Benjamin ou envenená-lo de maneira fria e nada despistada?

— Então, Nii-chan, o que você vai dar para o Wolfram-kun de dia dos namorados? – Miyako indagou, voltando a bater com a colher de madeira a sua estranha mistura.

— Eu já planejei tudo! – ele anunciou em resposta, orgulhoso de si mesmo, inflando o peito – Pensei que chocolates seriam… muito comuns, e ele vai ganhar uma montanha deles segunda-feira na escola mesmo, das garotas, então, eu pensei em algo diferente!

— E o que vai ser?

Yuri sorriu querendo criar tensão e expectativa antes de enfim anunciar — Parque de diversões! Eu vou levar o Wolf ao parque de diversões, e nós vamos até a montanha-russa, a casa de espelhos, e ele vai segurar minha mão quando nós formos no castelo do terror… nós vamos comer juntos, e dividir um Sunday. E no final da noite, na roda gigante, quando a gente estiver lá no topo, eu vou… vou… hm, Miya-chan, tá derrubando chocolate…

— Aaaah, desculpa, nii-chan! É que você estava falando umas coisas tão fofas, aaahh‼! – Ela se empolgou mais uma vez e quase virou o resto do que tinha restado, mas dessa vez Yuri teve reflexos rápidos e segurou antes que fosse tudo ao chão. Será que a sua mãe tinha ideia de que sua cozinha havia sido transformada em um laboratório de testes nucleares?

— Tá, e você? Como andam as coisas com o Ben-kun? – Yuri aproveitou para perguntar. Apenas algumas semanas se passaram, era verdade, e tudo o que ele via os dois fazendo era ir e voltar da escola juntos, mas era sempre bom averiguar. Miya sorriu, sem graça, enquanto ia separando pedaços da massa escura e pouco uniforme em bolinhas menores em uma forma.

— Eu v-vou encontrar ele amanhã, depois do trabalho… Vai haver um evento especial de Valentine’s day no café, e nós temos que estar lá, mas depois… d-depois ele me convidou para ir ao cinema…

— Hm… um encontro… — Yuri franziu os olhos, desconfiado. – Miya não gostava muito quando Yuri tentava bancar o responsável e protetor, por que ele geralmente fazia isso apenas para implicar com Benjamin. Nessas horas, ela sempre recorria a dois subterfúgios: perguntar o que ele e Wolfram faziam quando sumiam na hora do almoço, ou indagar sobre o fatídico caso da invasão ao quarto de Ben, que permanecia sem solução. Yuri sempre perdia as palavras para ambas as questões. – Certo… e me responde uma coisinha, Miya-chan, quando é que você vai apresentar o Ben-kun como seu namorado para o resto da família? Por que até onde eu sei, você ainda não contou para ninguém. Shori-nii vai pirar, você sabe? – ele sorriu diante da surpresa de Miyako ao trazer aquele assunto à tona, mas ela logo se recuperou.

—Até onde eu sei, Onii-chan, você namora o Wolfram-kun há muito mais tempo e ainda não teve a decência de apresentar ele formalmente. – ela replicou com muita segurança.

Como Wolfram dizia quando praticava esgrima, touché. Miyako às vezes era rápida demais em dar respostas, Yuri não conseguia lidar com isso, então, resolveu parar de provocar ela, por enquanto. Droga, ela estava certa, tanto tempo passara e ele ainda não havia conseguido marcar o tal jantar para reunir as suas famílias. Tinha que admitir, um pouco era medo das possíveis reações da sua mãe, e da mãe de Wolfram também… e talvez, do possível ataque que Valtrana daria… mas não havia nenhum motivo real para ele enrolar tanto.

Enquanto pensava nisso, sem perceber, ele mergulhou um dos dedos no pote mais próximo. A consistência não era nada melhor do que a aparência, mas era melhor não dizer isso à Miyako por enquanto. Ela parecia tão empenhada afinal… ah, será que ele deveria tentar fazer alguma coisa para dar a Wolfram também? Provavelmente iria ficar horrível se ele tentasse cozinhar, quem sabe comprar uma caixa de bombons…

Antes que percebesse, Yuri havia colocado o dedo com chocolate de Miya na boca. Ele havia se distraído, e então, seu primeiro reflexo foi se assustar, mas… não estava tão intragável quanto parecia…! Que surpresa.

— Hey, Miya-chan! – ele exclamou – Isso daqui está inesperadamente… bom!

— Ah, que bom, onii-chan! Você pode levar um pouquinho para o Wolfram-kun, se quiser!

Yuri olhou novamente para a massa de aspecto duvidoso, intrigado, e sorriu sem graça para Miyako.

— Acho melhor não…



~



Quando Wolfram ia se aproximando do ponto de encontro, em meio à massa uniforme de pessoas que se movimentavam nas ruas de Harajuku, apinhadas com tantas pessoas que era impossível enxergar o caminho por onde andavam, ele conseguiu ver de longe que Yuri já estava parado lá, esperando-o. Não importando quanto tempo se passasse, seu coração sempre se aceleraria antes de um encontro. A expectativa de saber se Yuri já estava lá, ou de esperar por ele, sabendo que ele poderia aparecer a qualquer momento e… ah, Wolfram ainda se sentia exatamente como no primeiro encontro.

Ele viu que Yuri já havia notado que ele se aproximava. Evidentemente, sua cabeça loira no meio do mar de pessoas asiáticas caminhando juntas se destacava como uma estrela única no céu escuro. Como sempre, Yuri sorria brilhantemente para ele, e Wolfram tinha certeza de que só precisava daquele sorriso, e nada mais.

— Wolf! – Yuri se apressou caminhando até ele, sem se conter. Segurou a sua mão que não estava no bolso, ainda sorrindo – Você chegou mais cedo!

— Eu peguei carona com o meu irmão, só isso. – ele respondeu, disfarçando o embaraço por Yuri estar tão perto, segurando sua mão, e ainda falando alto, no meio da rua. Yuri começou a caminhar para o outro lado, trazendo-o junto.

— Feliz dia dos Namorados! – anunciou, alegremente, inclinando-se e depositando um singelo e delicado beijo no rosto de Wolfram, que em menos de um segundo, atingiu o tom mais vermelho possível – Estou feliz por passar esse dia com você… — ele sussurrou, antes de se afastar novamente.

— C-claro que está. – Wolfram disfarçou, desviando os olhos para o outro lado da rua, ainda que a mão que segurava a de Yuri estivesse ligeiramente mais apertada — Para onde nós vamos?

— É surpresa! – Yuri respondeu rapidamente, sorrindo ainda – Mas você está com fome? Eu pensei que nós poderíamos comer alguma coisa antes de ir, ainda falta algum tempo…

— Tudo bem.

Os dois avaliaram rapidamente as opções mais próximas, e Wolfram acabou preferindo o lugar mais rápido, uma cafeteria do tipo “sirva-você-mesmo” que ficava logo na esquina. Eles adentraram o local, e enquanto Yuri se ofereceu para ir na fila fazer os pedidos, Wolfram escolheu uma mesa pequena, longe do movimento e mais perto da parede. Ficou tamborilando os dedos na madeira, enquanto imaginava o que Yuri havia planejado dessa vez. Uma coisa tinha que admitir, Yuri sempre tinha planos diferentes, e que o pegavam de surpresa. Mas não era como se Wolfram não apreciasse isso, também.

— Com licença? – uma voz comedida e suave despertou Wolfram do seu concentrado pensamento. Ergueu os olhos, e se deparou com uma figura esguia e elegante, com um parcá que muito provavelmente não havia sido comprado no Japão, de cabelos loiro-platinados, amarrados em uma trança despreocupada para o lado, e segurando um copo grande de café para viagem. Wolfram não o conhecia, e por um instante duvidou que era ele mesmo quem estava sendo chamado. Mas a pessoa estava escorada na sua mesa, afinal.

— Posso ajudar? – ele decidiu se pronunciar, após segundos de hesitação, com um tom de voz que sugeria que ele podia querer qualquer coisa, menos ajudar.

— Na realidade, sim. – o sorriso fácil aumentou de tamanho ligeiramente. Ouvindo a voz novamente, Wolfram confirmou mentalmente que se tratava de um cara. Ele moveu as mãos ágeis pelo bolso do casaco, e logo havia um cartão de visitas diante de Wolfram. Passando os olhos ligeiramente, ele identificou o nome do que parecia uma Agência de modelos. – Já faz algum tempo que meu empresário viu você em algumas matérias sobre o seu país e pediu para que eu entrasse em contato assim que tivesse uma oportunidade… E eu acabei de vê-lo pela janela, então não pude desperdiçar essa chance.

— E eu conheço você? – Wolfram arqueou a sobrancelha, nada convencido daquela história sem explicação nenhuma. O garoto sorriu, como se adivinhasse o rumo dos pensamentos de Wolfram, e estivesse contente com a sua evidente confusão.

— Não exatamente. Mas eu conheço você. Sou de um pequeno distrito próximo à Shin Makoku, e por isso mesmo, ele adoraria que eu me aproximasse de você. Deve já ter ouvido, mas seu rosto é perfeito para trabalhar como modelo, e sendo que você já tem um nome de presença, fazer sucesso não seria nada mais do que um salto certeiro.

— Sinto muito, não estou interessado – Wolfram devolveu o cartão, ainda fitando desconfiado o garoto. Não se lembrava de já tê-lo visto em qualquer ocasião, mas ele não parecia um completo desconhecido. O fato de ele usar óculos escuros, mesmo estando em um ambiente fechado, o incomodava. Não conseguia ler sua expressão, e era como se ele tentasse esconder algo. – Você tem certeza de que nunca nos vimos antes? – Wolfram resolveu perguntar, apenas para encerrar a dúvida em sua mente.

— Você não deve ter me visto, mas eu já o vi. – o garoto pareceu satisfeito com a indagação de Wolfram, como se esperasse exatamente por isso. Tomou um gole do seu café, como em uma pausa ensaiada para aumentar o suspense – Sou amigo de um aluno da sua escola, por isso. Sem falar que você é famoso mesmo em outros lugares da cidade, não é, Príncipe?

Se Wolfram ainda tinha alguma dúvida sobre o que achava daquele garoto, então havia acabado com todas naquele exato instante. Não gostou dele, nem um pouco, e não importava o quanto pensasse nisso, a antipatia parecia mútua, pois o tom de voz levemente irônico do loiro não deixava margem para outras interpretações.

— Você já sabe quem eu sou, mas não sei nada sobre você. Qual o seu nome? – Wolfram resolveu ser direto. Apesar de ele ter explicado tudo, Wolfram ainda não compreendia qual seria o verdadeiro interesse daquela pessoa. Ninguém vinha falar simplesmente com um estranho dessa maneira em troca de nada.

— Saralegui. – ele respondeu apenas, dando outro gole mais longo no café. Olhou para trás, e um sorriso do qual Wolfram não gostou nem um pouquinho, brincou nos lábios – Sua companhia está retornando. Ah, ele é tão dedicado, mal consegue trazer todos os pedidos nas mãos, mas ainda assim está tentando. – ele voltou a fitar Wolfram por cima dos óculos, e seus olhos adquiriram um estranho brilho. Só então ele percebeu que os orbes do garoto eram de um intenso e curioso tom âmbar, muito peculiar. Wolfram não gostou disso também. – Você deve valorizar muito o seu amigo, não é? – ele sorriu, ajeitando os óculos – Deveria. Ele é um tipo único, você nunca vai encontrar outro igual.

Wolfram queria muito saber aonde Saralegui queria chegar com todo aquele estranho monólogo, mas ele parecia apenas estar falando o que vinha a sua cabeça, sem raciocinar. Embora, pela experiência de Wolfram, esse tipo de pessoa nunca dizia nada sem uma intenção muito clara em mente.

—Nunca se sabe quando ele pode se cansar e resolver ir embora… — ele prosseguiu, com a mão no queixo — não que ele pareça o tipo que faz isso sem motivos, de qualquer forma. Hm, acho que estou devaneando demais. Vou deixá-lo em paz. Por hora. Mas saiba que eu sei ser persistente. Cuide-se. Eu provavelmente o verei de novo outro dia. Até mais. – ele sorriu mais uma vez, e com um pequeno e suave aceno com a mão livre, despediu-se e saiu do estabelecimento sem olhar para trás.

Poucos segundos depois, e com alguma dificuldade, Yuri finalmente chegou. Pousou os pedidos na mesa, e se acomodou do outro lado. Sorriu para Wolfram, mas dessa vez, não conseguiu resposta, pois ele parecia bastante concentrado em algum pensamento profundo.

— Tudo bem com você, Wolf? – ele indagou, ao ver Wolfram remexer na comida sem muita vontade. Ele não parecia tão desmotivado assim mais cedo, e isso era bem estranho.

— Claro, não há nada de errado. – ele respondeu de maneira convincente. Começou a comer, ainda sem encarar Yuri. A verdade era que a presença daquele garoto, Saralegui, havia o perturbado mais do que ele gostaria de admitir. E algo nas palavras dele pareciam tão dúbias e cheias de segundas intenções, que Wolfram simplesmente não conseguia ficar tranquilo. Nunca havia visto aquela pessoa em toda a sua vida, e ainda assim, apenas o fato de ele ter citado Yuri tão despreocupadamente na conversa, havia o deixado cismado e ele não acreditava que essa sensação ruim sumiria tão cedo.

Um barulhinho baixo e ritmado o fez levantar os olhos, de repente. Pingos grossos de chuva batiam na janela logo ao lado deles, escorrendo livremente pelo vidro. O céu, que antes apresentava apenas nuvens brancas em toda a sua extensão, agora estava cinza e pesado. Wolfram suspirou, e Yuri soltou um muxoxo de decepção.

— A previsão do tempo não dizia nada sobre chuva hoje! – Yuri exclamou, inconformado – Como nós vamos fazer? Eu tinha planejado… ah, era para ser surpresa…

— Não tem problema, pode falar.

— Eu ia levar você ao Parque de Diversões… — Yuri baixou o olhar, decepcionado – Mas agora, se continuar chovendo, não vai dar mesmo…

Mesmo que a chuva parasse dali a um tempo, não teria graça nenhuma ir ao parque com o tempo assim, eles nem poderiam aproveitar as atrações se elas estivessem todas molhadas. Wolfram não queria perder a oportunidade de estar com Yuri, ainda mais depois da perturbação que a breve conversa anterior havia proporcionado, mas parecia que os planos deles estavam fadados ao fracasso, já que a chuva apenas aumentava de volume à medida que o tempo passava. Wolfram suspirou.

— Yuri… podemos ir à sua casa?



~



Yuri abriu a porta da frente, mas nenhum sinal ou resposta veio de dentro da casa. Tanto ele quanto Wolfram estavam encharcados por virem a pé por todo o caminho até ali, e a chuva não dava trégua. Wolfram não disse nada sobre o motivo pelo qual havia ficado tão taciturno de repente, mas ele já parecia um tanto mais tranquilo depois de terem vindo até ali.

— Espere aqui, eu vou trazer toalhas... – Yuri tirou os sapatos e o casaco molhado, e deixou Wolfram na entrada, enquanto corria de pés descalços até o banheiro. Voltou minutos depois, com uma toalha nos ombros e outra nas mãos. – Encontrei um bilhete da minha mãe. Ela saiu para jantar fora com o meu pai, por causa do dia dos namorados… — ele ergueu a toalha e colocou sobre a cabeça de Wolfram, começando a secar os cabelos dele – Mesmo depois de tanto tempo, eles ainda fazem essas coisas…

— E o seu irmão? Tem um encontro também?

— Ah, só se for em algum dos jogos dele. Mas ele está na América, viajando como sempre, não sei quando volta. Espero que ele traga a camisa do Boston Red Sox que eu pedi…

— Então, estamos sozinhos? – Wolfram parecia surpreso e atordoado com aquela informação em específico. Estava contando com a presença da mãe de Yuri na casa, pois assim poderia ficar tranquilamente com ele ali sem se preocupar com qualquer avanço repentino. Não que ele não quisesse esses avanços… é claro que queria. Mas, bem… ás vezes ficava temeroso sobre o que deveria fazer. E não pensar no que o afligia era uma saída perfeita em qualquer situação.

— Parece que sim. – Yuri ainda não havia se dado conta do significado da pergunta de Wolfram, e apenas continuou a secar o rosto e o pescoço dele, suavemente – Você vai querer tomar um banho?

— Não preciso, não estou tão molhado assim…

— De qualquer maneira, não é bom ficar com essas roupas. Venha, coloque alguma coisa minha. – Yuri não esperou por resposta, e foi liderando Wolfram na direção do seu quarto, segurando-o pela mão.

Separou uma calça azul-escura confortável, e uma camiseta cinza, lisa, e estendeu-as para Wolfram. Aproveitou e pegou para si mesmo outro par de calças, pretas, e uma camiseta de mangas compridas brancas. Sem cerimônia, começou a se despir ali mesmo, deixando as roupas molhadas no canto perto da parede. Wolfram ofegou por um instante, deixando escapar uma reação que não queria. Yuri, sem camisa e já tirando as calças jeans por uma das pernas, ergueu os olhos apenas.

— Wolf, não me diga que depois de tudo você ainda tem vergonha de me ver assim!

— Não é vergonha, seu fracote indecente, é claro que não! Estou apenas ultrajado pela sua falta de decoro! D-despindo-se dessa maneira tão r-rápida e na minha frente ainda…

Yuri terminou de tirar as calças, e as jogou para o canto novamente. Somente em sua cueca boxer preta, ele caminhou até o namorado. Mesmo sendo um tanto desatento para algumas coisas, Yuri estava sempre muito consciente sobre Wolfram. E não podia ignorar a evidente perturbação que ele demonstrava agora. Por que era adorável, e por que ele simplesmente não conseguia resistir em provocar Wolfram mais e mais, até conseguir dele essas reações.

— Você devia tirar a roupa também, sabe? Ou vai pegar um resfriado… — Yuri chegou bem próximo de Wolfram. Conseguia sentir o coração dele batendo rápido dali. Ou seria o seu próprio? Difícil discernir. Ele estendeu a mão e começou a desabotoar o cardigã de Wolfram.

— Eu posso fazer isso sozinho… — ele protestou, tentando recuar um passo, mas Yuri foi mais ágil e o enlaçou-o pela cintura, juntando seu corpo despido ao úmido de Wolfram.

— O que houve, hm? Você não está agindo normalmente, desde que paramos naquele lugar para comer. – ele murmurou no ouvido de Wolfram, abraçando-o. Ele lentamente cedia em seus braços, mas apenas para não se dar por vencido, tentava empurrar Yuri ainda. – Alguém disse alguma coisa para você, lá? Você encontrou algum conhecido? Ou, eu fiz alguma coisa de errado?

— Não é nada disso, Yuri. – Wolfram queria por tudo no mundo pensar em alguma coisa para dizer, mas a presença de Yuri o entorpecia lentamente, o seu cheiro tão próximo e natural, a sua pele gélida, molhada… tudo isso anuviava sua mente de tal forma que ele mal conseguia formular uma resposta coerente – Você não fez nada de errado. Eu só… só estava pensando em coisas demais. Não é um problema. Sério.

— Então por que você está tão tenso? – Yuri deslizou as mãos para cima, pelos braços, até os ombros de Wolfram. Apertou-os, massageando levemente, por um segundo. Wolfram fechou os olhos.

— Eu estava… — ele pensou rápido – … querendo encontrar um momento bom para… entregar isso a você… — tirou do bolso do casaco uma pequena caixinha, branca com laço de fita vermelho. – Ia esperar até você me mostrar a sua surpresa, mas… o encontro não deu certo, agora você está só de roupa de baixo, nós estamos molhados, e todo o meu plano falhou. É isso. Feliz agora?

— Wolfram! Você realmente preparou alguma coisa para mim? — Yuri mal podia conter a sua empolgação, e sua transformação da voz baixa e gutural que seduzia Wolfram para aquela animação em ganhar um presente foi tão instantânea que mal parecia real. Como ele parecia prestes a arrancar a caixa das mãos de Wolfram a qualquer segundo, ele decidiu entregar logo de uma vez. Francamente, mais parecia uma criança agora! Mas, milagrosamente, isso desanuviou os pensamentos ruins da sua cabeça, por hora.Principalmente porque estava mais nervoso em saber o que Yuri acharia do seu presente de dia dos namorados.

Yuri abriu a caixa, e dentro dela, havia nove pequenos bombons, redondos e não muito perfeitos, mas pareciam resultado de um grande esforço. Yuri nem conseguia acreditar que Wolfram poderia ter realmente feito-os ele próprio, e não sabia se devia perguntar algo assim. Pelo rubor na face de Wolfram, e a evidente expectativa que ele trazia nos olhos, ele podia dizer que provavelmente sim.

— E-esses são os únicos que ficaram com gosto bom, de todos… U-uma das empregadas me ajudou, e… b-bem, não é exatamente o que eu estou acostumado a fazer, mas eu li que o costume no Japão é esse, então imaginei que você estaria esperando por isso…

— Wolfram! Eu não acredito que você fez mesmo isso para mim! — Yuri exclamou, olhando para aqueles bombons como se eles fossem os mais maravilhosos do mundo. Nunca, nem em sonhos, ele se imaginou recebendo chocolates de dia dos namorados de alguém como Wolfram. E sendo ele tão orgulhoso, esse feito era um acontecimento ainda mais memorável. – Agora me sinto mal por que a minha surpresa não deu certo… e eu não preparei mais nada para você.

— Idiota, se eu estivesse esperando alguma consideração em planejamento, pra começar, eu não estaria namorando você, não é? É claro que eu pressupus que algo poderia dar errado, então não me importo com nada disso! Agora… hunf, prove logo algum deles… — ele abanou com a mão, virando o rosto, como se não fosse nada demais. Um segundo depois, voltou o olhar novamente para Yuri, apreensivo.

Yuri escolheu um dos bombons, e colocou de uma vez na boca. Reprimiu um esboço de reação surpresa. Era um pouquinho amargo. Certo, bastante amargo. Mas Yuri aguentou sem reclamar, e… no final, até que ficava um pouco mais doce. Não era ruim. Na verdade, Yuri gostou.

Wolfram pigarreou, tentando chamar a sua atenção. — E então?

Yuri sorriu e se aproximou, repousando as mãos na cintura de Wolfram casualmente.

— Eu adorei. São como você. – ele enterrou o rosto na curva do pescoço de Wolfram, achando que havia encontrado a metáfora perfeita. Amargos no início, mas doces lá no fundo, e sempre surpreendentes. Os chocolates eram como Wolfram. Yuri deixou a caixa decorada sobre o criado mudo, e depositou um carinhoso beijo na pele gelada de Wolfram, aproveitando a guarda baixa dele para terminar de tirar o casaco, e jogá-lo longe.

— Y-yuri, fracote, o que está fazendo…? – obviamente, as tentativas vãs de Wolfram de se afastar não davam em nada. Ainda mais por que cada vez que ele tentava empurrar Yuri, tocava diretamente na pele exposta dele. Subitamente, Yuri afastou o rosto, e espirrou – Olha só para você, vai acabar ficando resfriado! Coloque logo uma roupa, seu exibicionista!

— Não. Se quiser, venha até aqui e me mantenha aquecido! – Yuri riu alto, girando Wolfram com facilidade, e terminando de apoiá-lo contra o seu colchão. Wolfram só teve o tempo de ofegar ao cair, surpreso, e seus lábios foram tomados com voracidade inesperada, o bastante para aquecer de uma só vez o seu corpo resfriado pela chuva. Yuri estava absolutamente impaciente hoje. Como se sentisse a inquietação de Wolfram, sem que ele precisasse falar nada, e já com urgência, tentasse amenizar esse sentimento ruim sobrepondo-o com sua vontade de estar perto dele. Talvez ele apenas tivesse uma impressionante habilidade inata de entender a mente de Wolfram, como ninguém.

Wolfram abraçou Yuri pelo pescoço, desistindo de argumentar. Para quê, se era óbvio que ele também queria isso. E, sinceramente, era melhor do que o parque de diversões. Se Yuri ouvisse esse pensamento, concordaria com ele. Wolf retribuiu ao beijo ávido de Yuri na mesma intensidade, agarrando-se firmemente aos cabelos dele, e em um instante, Saralegui, seja ele quem fosse, foi varrido dos seus pensamentos como se nunca de fato estivesse passado por eles.

Yuri desceu seus lábios pelo rosto dele, parando no pescoço, e se concentrando ali. Aproveitou para continuar a livrar o outro das roupas úmidas. A camisa sumiu em um piscar de olhos. Wolfram protestou, sem muita veemência, apenas o bastante para que ele soubesse exatamente onde deveria pressionar os lábios com mais força, enquanto ao mesmo tempo, passava as mãos pela pele pálida, levemente corada, de forma lenta e propositalmente provocante. Deslizou até as calças, retirando-as também com tanta destreza que Wolfram desconfiou de que ele andara praticando, ou algo assim.

Yuri voltou a atacar os lábios de Wolfram, dessa vez, com um pouco mais de calma. Como se decidisse aproveitar melhor o momento, ou se desse conta de que eles tinham todo o tempo do mundo ao seu favor. Ou ainda, talvez, fosse apenas satisfação por ter finalmente Wolfram somente em suas roupas de baixo, entregue em seus braços. Passou as mãos pela cintura de Wolfram, sentindo-o estremecer. De frio, talvez? Apenas por garantia, Yuri puxou os cobertores do pé da cama, e cobriu aos dois.

— Você pode dormir aqui hoje? – ele pediu em um múrmurio, abraçando Wolfram com ambos os braços, e voltando a distribuir beijos longos pelo seu pescoço e ombro, alternando com pequenas mordidas. Wolfram demorou para conseguir responder depois disso. A maneira como as coisas estavam parecendo… repentinamente… rápidas demais, o assustaram por um momento. Ele desviou o olhar, enquanto voltava a enlaçar o pescoço de Yuri, segurando-o pelas costas.

— Yuri… é melhor i-irmos com calma…

— Está bem, como você quiser. – Yuri respondeu apenas. Não parecia frustrado ou magoado, apenas concordou sem pensar duas vezes, e voltou a beijar Wolfram com a mesma vontade de antes, entrelaçando suas pernas às dele, e dividindo o calor do seu corpo com o dele, sem mais pensar em nada.

Em um momento de sensibilidade e fraqueza, causada pelas sensações que Yuri, consciente ou não, infligia, Wolfram perdeu-se aleatoriamente num turbilhão de emoções que emergia para a extremidade sem o seu consentimento. Queria apenas provar que Yuri era seu, e de mais ninguém, e por mais que não estivesse pensando exatamente nisso naquele momento, as palavras do desconhecido no café ainda o incomodavam. O temor o tomou mais rápido do que ele esperava. E se Yuri cansasse de esperar por ele. E se Yuri descobrisse alguém mais interessante, mais agradável… e se Yuri não estivesse mais ali…

— V-você não vai se cansar de mim, não é?

A pergunta, dita por engano em um momento de desatenção, pareceu solitária e espontânea. Yuri afastou-se apenas para poder encarar Wolfram diretamente nos olhos verdes, e repentinamente, ele parecia muito mais aquele garotinho inseguro que ele conheceu em um dia de outono. Ele não respondeu a pergunta diretamente. Pelo que conhecia de Wolfram, nada do que dissesse poderia derrubar qualquer teoria que ele estivesse formulando naquela cabecinha, mas ele estava satisfeito por finalmente entender que tipo de pensamento estava perturbando Wolfram desde aquela hora.

Yuri se moveu minimamente, e afastou os cabelos de Wolfram do rosto, acariciando sua pele lentamente com as costas dos dedos. Moveu-se para cima, e cerrou os olhos, encostando seus lábios diretamente na testa de Wolfram, por longos segundos. E então se afastou, com um sorriso tranquilizador no rosto.

— Um beijo na testa para afastar o medo. – ele disse simplesmente. Nada mais precisava ser dito. Wolfram o fitou com surpresa, e quase podia sentir um calor afável e familiar subindo pelo seu peito, a sensação latente de estar, mais uma vez, apaixonando-se pela mesma pessoa. Sem conseguir pensar em nada para dizer, Wolfram sorriu, embaraçado pelos seus pensamentos pessimistas. Yuri sorriu de volta, como sempre, e se aconchegou melhor em Wolfram.

Voltou a beijá-lo, lenta e profundamente, fazendo-o entender de uma vez por todas que todas as inseguranças de Wolfram eram infundadas e que ele não tinha nada com o que se preocupar. Claro que sabia muito bem que isso não adiantava muito, e que o loiro logo arrumaria outro motivo para se preocupar, mas era essa a natureza dele, ciumento e estressado, o que se poderia fazer? Foi por esse garoto mimado e cheio de paranoias que Yuri se apaixonou, e só poderia aceitar com alegria cada uma das consequências e pormenores da sua escolha. A melhor escolha da sua vida, com certeza, ele não se arrependia.

Enquanto voltava a beijar Wolfram, passando a mão pelas suas costas e cintura, e pressionando-o com o próprio corpo, sentia os dedos dele passando pela sua nuca, causando um gostoso arrepio que percorria toda a sua coluna. Desviou os lábios da sua rota, descendo para a orelha de Wolfram, mordiscando-a e arrancando um contido gemido da voz baixa dele.

— Eu te amo tanto, Yuri… — um suspiro abafado, e Wolfram girou de lado, invadindo os lábios de Yuri com a língua cheia de urgência, sem dar a ele tempo para respirar. Era tudo o que Yuri mais gostava de ouvir. E talvez, dizer isso fosse tudo do que Wolf precisasse para não se sentir mais tão inquieto. Yuri entendia isso, também.

Enquanto girava com Wolfram na cama pequena, rodeados pelo calor dos cobertores e pelo conforto dos braços um do outro, Yuri pensou que jamais poderia ter planejado um dia tão perfeito de antemão. Imprevistos sempre deixavam tudo melhor, e o Parque de Diversões poderia esperar pelo próximo 14 de fevereiro. Yuri mal podia esperar para passar mais e mais dias dos Namorados com Wolfram, ano após ano, de qualquer maneira.



Notas finais
Yoo~ E aí, com saudades de Yuuram? Aposto que sim XD Dia dos namorados já passou há muito tempo, mas eles precisavam comemorar essa data apropriadamente também, não é?? E ninguém tem dúvidas de que na segunda feira o Wolfram ganhou chocolate o suficiente pra fazer inveja ao Willy Wonka... XD Sara fez sua apariçãozinha bem básica para tocar o terror~ alguém tem alguma dúvida de que ele pretende agir em breve? Pois beem, eu tinha umas coisinhas planejadas para esse capítulo, mas acabei indo para o lado mais fofo da coisa~ vamos deixar os pensamentos perversos para a próxima -u- tenho planos. Enfim, dessa vez, deixo por conta da imaginação de vocês o que aconteceu naqueles cobertores depois -u- Sei que vocês tem imaginação bem fértil XD Até a próxima!! o//