Sono Te Hanasanaide
56 Capítulo LV
how could you smile for me
Como você pode sorrir pra mim
nani mo nakute ii
Não preciso de nada
zutto soba ni ite hoshii
Sempre por perto eu quero que fique
zutto soba de stand by me
Sempre por perto, fique ao meu lado
hito wa yowaku zankoku de
As pessoas são fracas e crueis
oroka na ikimono
as coisas vivas são insensatas
demo anata wa yurushite kureta
Mas você me perdoou
sotto hoho wo nadeta
Delicadamente acariciou meu rosto
anata no nukumori
Seu calor
yasashikute
Foi gentil
shizuka na ai no gen'ei
Uma ilusão quieta de amor
me wo samasu
Abre meus olhos!
Capítulo 55
As flores de cerejeira já haviam se dispersado há algumas semanas, e nem mesmo suas pétalas caídas ocupavam mais o caminho pela praça por onde os dois garotos passavam juntos em direção à escola. Ambos se sentiam mais leves depois de ter esclarecido todos os mal-entendidos que rondavam o seu relacionamento, e Yuri acabou passando a noite na casa de Wolfram, após tudo, pois não havia conseguido resistir ao semblante suplicante dele pedindo para que não fosse embora.
Eles dormiram a noite inteira encolhidos e abraçados um no outro, não querendo afastar-se por nenhum motivo. Wolfram relutava em admitir, mas ainda se sentia um pouco sensível, e Yuri faria o possível para deixá-lo confortável. Evidentemente, conforto foi a última coisa que os dois sentiram, quando tiveram que comparecer juntos à mesa do café da manhã, sob o olhar observador e direto dos membros da família de Wolfram. Ao que parecia, Gwendal havia comunicado aos demais sobre a presença de Yuri na casa, ou seja, não era surpresa alguma mas, de alguma forma, os sorrisos e a troca de olhares, principalmente entre Cheri e Conrad, era mais do que Yuri podia aguentar. Eles dois sabiam como deixá-lo sem graça como ninguém. E Wolfram não ficava muito atrás, resmungando com seu rosto inteiramente vermelho, disfarçando enquanto comia rapidamente, e ouvia sua mãe soltar indiretas engraçadinhas a esmo.
Sendo assim, eles haviam saído mais cedo do que o normal de casa. Apesar de embaraçoso, ainda estavam felizes por ter conseguido resolver aquele problema, e não conseguiam disfarçar isso. Yuri sentia que poderia saltitar a qualquer momento. Wolfram deixava escapar sorrisos tímidos ao fitar o namorado, e descobrir que ele já o encarava, com aquela expressão tola no rosto.
Como não tinha o uniforme escolar consigo, Yuri usava as roupas de Wolfram. Os dois tinham relativamente a mesma altura, mas Wolfram era mais magro, então ele usava o gakuran (que, na realidade, nunca havia sido usado pelo outro) aberto na frente. A camisa branca tinha o perfume de Wolfram impregnado nela, e Yuri avaliou isso como um benefício adicional. Não trazia consigo material algum, mas isso não seria problema, pois na pressa de ir ao encontro de Wolfram na noite anterior, deixara tudo na escola mesmo.
O anel na mão direita do loiro, unida à de Yuri, reluzia singelamente ao sol, enquanto eles caminhavam sem pressa, falando sobre qualquer amenidade, sem dificuldades para fazer a conversa fluir. A aura de tranquilidade e felicidade que emanava era perfeitamente visível e ninguém poderia negar que o que viam era um casal inegavelmente apaixonado.
Chegaram ao portão da escola de mãos dadas, e não demoraram a perceber o pequeno grupo sentado em um dos bancos do pátio que se destacava de certa forma, e podia ser identificado, mesmo de longe. A garota chamada Natsume estava sentada ao lado de Miyako e, em pé ao lado dela, o capitão do time de vôlei discutia sobre algum assunto, gesticulando energeticamente. Miya logo os notou próximos ao portão e, depois de dizer algo para os outros dois, acenou amplamente, chamando-os.
Sem muitas opções em vista, o casal se encaminhou para o lado do grupo. Natsume sorriu abertamente ao vê-los, com os olhos brilhando de satisfação, e mesmo Shuuhei, ao notar as mãos unidas dos dois, tranquilamente sorriu, satisfeito em notar aquela conjuntura. Miyako ria de maneira sonhadora, enquanto observava ambos se aproximarem, até que um detalhe cintilante chamou sua atenção. Se seus óculos não estavam ficando sujos e pregando peças nela, aquilo era…
— Miya-chan… Aquilo ali que eu tô vendo é o que eu penso que é? — Natsume também reparou, com os olhos arregalados e um sorriso perigoso se formando.
— A-acho que… — Miyako não desviou o olhar. Shuuhei olhava das garotas de volta para os outros dois, sem entender do que raios elas falavam. Quando Wolfram e Yuri chegaram perto o bastante para cumprimentá-los, Miya logo se ergueu, com as mãos unidas como em uma prece, absolutamente corada e desesperada. — Onii-chan! Como você pôde fazer isso sem comunicar ninguém!
— Ahn, é…. Bom dia? — Yuri inclinou a cabeça em confusão. Imaginou que Miyako fosse ficar animada em vê-los juntos novamente, não que seria repreendido daquela maneira.
— Você e o Wolfram-san ficaram noivos durante a noite! — Ela os cercou,falando todas as palavras em um só fôlego, e encarando Yuri de tão perto que ele precisou se inclinar para trás. — Sem contar à ninguém? Vocês vão se casar?? Ou… Ah, meu Deus! Vocês fugiram durante a madrugada e se casaram secretamente?! Mas no Japão o casamento gay não é legalizado… Vocês fugiram para outro país? Wolfram-san tem um jatinho particular, ou um helicóptero ou…
— Calma aí, Miya-chan! — Yuri segurou a prima, apertando suas duas bochechas até que ela parasse de falar, embora ela ainda tentasse balbuciar alguma coisa, e se desvencilhar. Após o alarido causado pela pequena garota, é claro que os olhares das pessoas próximas se voltaram para o grupo, e tudo o que Yuri não precisava no momento era atrair atenção desnecessária. Ele conduziu Miyako de volta ao seu lugar ao lado de Natsume, e só soltou seu rosto quando ela parou de se esforçar para falar. — Ninguém casou…! — Ele enfatizou no que intencionava ser um sussurro, mas ainda era alto.
Ainda. Wolfram pensou consigo mesmo, disfarçando e preferindo guardar o pensamento para si.
— Ficaram noivos? — Natsume arriscou.
— Não exatamente, é só… — Yuri se endireitou, passando a mão pelos cabelos, rindo sem jeito. Voltou a segurar a mão de Wolfram com o anel. — Esse foi o meu presente pra ele… Uma forma de… Sabe? Aquela coisa…
— Um anel de compromisso. — Wolfram encerrou o assunto, o rosto já queimando de vergonha. Detestava passar por esse tipo de situação, embora agora não estivesse exatamente irritado com a animação de Miyako e Natsume sobre o assunto. Lá no fundo, gostava de que os outros soubessem e espalhassem que Yuri era seu, e que tudo estava bem, obrigado.
— Então o problema todo se resolveu, certo? Viu, eu disse que não tinha feito besteira. — Shuuhei cutucou Natsume.
— Como se você fosse o único a ter feito alguma coisa. — Ela grunhiu em resposta.
— Ah, a Miya está tão feliz agora… — A garota suspirou aliviada, ignorando o fato de que Shuuhei continuava a cutucar Natsume no ombro esperando que ela reconhecesse o seu mérito, enquanto ela tentava afastá-lo. Parecia já ter se acostumado com as interações entre aqueles dois, na verdade.
— Mas está tudo esclarecido mesmo? Sabe, tudo, tudo? — Ele decidiu perguntar, apenas para ter certeza e não acabar dizendo algo que não deveria por descuido. Wolfram sabia exatamente a que ele se referia, e assentiu com a cabeça, mas foi Yuri quem confirmou.
— Sem mais nenhum segredo. — Ele afirmou, com segurança, para Shuuhei, que de fato, já estava guardando mais segredos alheios do que era capaz de manejar; sua habilidade para lidar com assuntos desse tipo era próxima a zero, então, mesmo que o assunto não fosse diretamente ligado a ele, sentia um peso saindo das suas costas com a resolução do caso. Embora, tinha que admitir, ver os semblantes desesperados de Yuri ou Wolfram quando o encontravam por acaso na escola, achando que ele pudesse revelar a verdade sobre qualquer um dos dois, era uma diversão a parte.
— Sim, tudo acabou se resolvendo. — Wolfram se pronunciou. — E inclusive, podemos deixar bem claro que não existe mais necessidade de que algumas pessoas se intrometam em assuntos que não lhes diga respeito. — Natsume e Miyako o fitavam como se não entendessem do que ele falava. — Isso vale para vocês duas… — Ele notou Shuuhei, abstraído ali ao lado. — Vocês três. — Encarou-o com rigidez, cruzando os braços.
— Hey, eu ajudei! Não é tão difícil reconhecer isso. — Ele foi rápido em se defender. — Um simples “valeu por ter quebrado a cara dos marginais” ou “seus valiosos conselhos me ajudaram muito, Shuuhei-sensei” já basta.
— Ah, espera… — Yuri juntou os pontinhos, e apontando para Shuuhei, inclinou a cabeça, fitando Wolfram de maneira confusa. — Ele foi…
— Quem me ajudou aquele dia com os idiotas, sim. — Wolfram assentiu, e Shuuhei sorriu sem graça.
— Não foi nada demais. Qualquer um teria feito o mesmo no meu lugar.
— Claro que não, Asahina-kun! Tenho certeza de que, sendo do jeito que é, o Wolf não te agradeceu de maneira apropriada. — Yuri afirmou rapidamente, e Wolfram cruzou os braços e resmungou alguma coisa. — Se você não tivesse aparecido naquele dia, quem sabe o que poderia ter acontecido com ele? Eu não consigo nem imaginar. Muito obrigado por ter salvado o Wolfram, de verdade. — Ele repentinamente ficou sério, e se curvou de maneira apropriada para Shuuhei, erguendo-se e sorrindo logo depois. — Eu realmente tenho muito a agradecer a você, Asahina-kun, por também ter me ajudado enquanto eu trabalhava…
— Espera, vocês já se conhecem? — Wolfram entoou, surpreso. Yuri riu, ao lado de Shuuhei, dando um amigável tapinha no seu ombro.
— Ele também trabalhava na confeitaria, é o entregador. — Ele contou. — Até me ajudou quando eu ainda estava pensando em um presente para dar pra você, não é?
— Você sabia que ele estava trabalhando, e mesmo assim, deixou que eu ficasse pensando um milhão de besteiras? — Wolfram bradou, incrédulo. — Por que não me disse a verdade de uma vez?
— Veja bem, esse assunto não tinha nada a ver comigo, era entre vocês dois… — Shuuhei começou a falar mais baixo, na defensiva, inconscientemente recuando um passo. Se Wolfram era parecido com Natsume em alguns aspectos, como ele imaginava que fosse, suas crises de raiva não seriam nada agradáveis de se presenciar, e ele não precisava de dois exemplos disso explodindo ao seu redor, muito obrigado.
— Ninguém nunca se importou com esse detalhe, não é? — Wolfram replicou. — Você podia ter me dito isso logo, ao invés de ficar filosofando e me deixando ainda mais confuso!
— Eu não queria interferir demais, entende… — Ele tentou explicar melhor. — Era melhor que o Shibuya explicasse tudo pra você, mas não pensei que você fosse tão dramático e complicasse tanto.
Yuri tentou disfarçar uma risada, afinal era uma definição muito certeira, mas Wolfram logo o cortou com uma cotovelada na costela, ainda encarando Shuuhei com desprezo, decidindo ignorar a sua audácia. Não que estivesse grato ou qualquer coisa assim pela ajuda. Claro que não.
— Isso tá parecendo uma novela, são tantas revelações, e casamentos, e intrigas… — Natsume observou, admirada. Chegou à conclusão de que devia ter voltado a morar naquela cidade bem antes. — Mas então, acho que todos estamos agora em um nível aceitável de conhecimento mútuo, certo? Todos sabem a verdade, nada mais a esconder?
— Espero que sim. — Wolfram fitou todos os presentes com desconfiança, esperando que eles também tivessem mais segredos para compartilhar. — Embora eu ainda não saiba de onde os dois forasteiros vieram…
— Ah, é bem fácil de entender. — Natsume abanou a mão, num gesto despreocupado. — Eu sou colega de aula da Miya-chan, nós ficamos amigas. O Shuuhei é só um stalker que…
— Oe, não me difame! — Ele bradou, ofendido. — Na verdade, eu sou amigo e vizinho dessa criatura intrometida aqui. — Ele bagunçou os cabelos de Natsume, fazendo ela se agitar e protestar imediatamente. — E conheci o Shibuya no trabalho. Como ele nunca parava de falar um segundo sobre o “namorado perfeito” dele, é quase como se eu já te conhecesse também, Alteza. — Ele sorriu, finalmente largando Natsume, que ainda bufava, irritada. Yuri sorriu sem graça pela revelação, mas Wolfram apenas se movimentou desconfortável, corando discretamente, e imaginando que tipo de coisas Yuri falava sobre ele, com a conclusão de que precisava interrogá-lo sobre isso mais tarde.
— Por favor, não briguem mais desse jeito! — Miya anunciou por fim, erguendo-se, segurando em um braço de Yuri e no outro de Wolfram, como uma criancinha feliz com a reconciliação dos pais. — A Miya não sabia o que fazer para ajudar, e ver vocês dois separados é muito triste...
— Pode deixar, Miya-chan. — Yuri usou a mão livre para afagar a cabeça da prima. Ela se afastou, ajeitando a franja que ele bagunçou, mas ainda assim sorrindo satisfeita. — Eu não vou mais deixar isso acontecer, prometo.
— E eu vou tentar ser… um pouco mais razoável. — Wolfram murmurou entredentes, e desviando o olhar. Yuri não resistiu em puxá-lo em um abraço, embora ele sempre reclamasse sobre estarem em público, mas isso era a última preocupação do moreno no momento. Miyako entoou um “aaawnn”, em coro com Natsume, que só deixou Wolfram ainda mais embaraçado, mas ele não afastou Yuri mesmo assim.
— Eu finalmente posso parar de agir como agente duplo. — Shuuhei comentou.
— E quem você pensa que é? Agente 007? — Natsume replicou. — Por favor, Shuuhei, menos.
Os dois Shibuyas riram, e nem mesmo Wolfram pôde segurar um risinho diante da expressão de frustração que o garoto direcionou à Natsume, mas o momento não durou muito, pois logo o sinal de início da aula tocou, e eles tiveram que se dispersar. Com orgulho, Yuri segurou mais uma vez a mão de Wolfram, e rumaram juntos em direção à sala de aula, sem nada a temer.
~
O flash da câmera não o incomodava, e ele não precisava da orientação do fotógrafo para movimentar-se pelo cenário de fundo branco, embora, mesmo assim, o outro continuasse bradando coisas como “mais provocante” ou “desafie a lente da câmera!”. Era somente uma campanha de jóias masculinas, francamente. Ele não precisava de nada disso. Ao fim da sessão, soltou um suspiro audível. Cumprimentou o fotógrafo, o qual não lembrava realmente o nome, mas isso não tinha importância. Logo, se aproximaram as assistentes, vestindo-o com um roupão confortável por cima da camisa aberta de linho, e sandálias para os pés descalços. Publicidade de joias sempre possuia roupas simples e que destacassem mais a peça do que todo o resto, mas de toda maneira, ele sobressairia nas imagens, não importava o que vestisse.
— Precisa de algo, Sara-sama? — Uma das duas assistentes que o acompanhavam de volta ao camarim, indagou.
— Eu irei resolver alguns assuntos no escritório da agência mais tarde, então, providenciem meu almoço. — Ele não sentia fome agora, mas queria ficar sozinho, e era evidente que aquelas duas não o deixariam em paz até que fosse embora dali. Ambas as auxiliares contratadas pareciam ser suas fãs, apesar de não falarem muito, ele poderia notar isso de longe em qualquer situação. Não gostava de lidar com fãs por muito tempo, então era melhor dispensá-las o quanto antes. As meninas assentiram imediatamente, e ele sorriu de maneira quase angelical, arrancando suspiros emocionados. Esse seria seu pagamento pela assistência, e era melhor que ficassem satisfeitas. — Fico grato pela ajuda.
Deixou-as para trás, ainda paralisadas e sem reação diante do seu agradecimento especial. Adentrou o camarim que tinha seu nome escrito na placa da porta, já retirando as calças brancas que usava, e jogando-as longe, permanecendo somente com o roupão que já vestia.
— Me fazendo usar uma roupa ridícula, com esse tecido horrível… — Ele murmurou para si mesmo, caminhando até a mesa onde havia vários alimentos disponíveis na sala, e pegando uma garrafa de água gelada. Teria que conversar com Berieth sobre as escolhas de trabalho que ele andava fazendo.
A porta do camarim abriu de repente, e ele estranhou, imaginando como as assistentes teriam sido tão rápidas com seu almoço, mas não era nenhuma delas entrando na sala.
— Na porta da sala diz “Saralegui” e não “pode entrar” — Ele direcionou o olhar ao garoto loiro que, sem pedir licença, sentou-se no sofá presente no recinto, com um celular na mão.
— E quem foi que pediu por informações? — Masaki replicou, com um olhar entediado. — Ouvi os comentários de que você estava fotografando aqui, então vim para te contar o que eu soube.
— Ah, então você saiu mais cedo da aula só para me contar? — Sara sorriu, divertido, sentando na guarda do sofá e encostando a base da garrafa molhada no rosto de Masaki, obrigando-o a se afastar.
— Argh, claro que não. — Ele reclamou, passando a mão no rosto, irritado. — Eu nem fui na escola hoje, estava aqui desde cedo. Mas eu recebi isso. — Ele desbloqueou o celular, e mostrou à Sara a mensagem que recebera mais cedo.
“Você não disse que iria separar aqueles dois? Eles apareceram hoje de mãos dadas de novo, então você fez tudo errado como sempre! Eu mesma vou ter que fazer alguma coisa, inútil.”
Logo abaixo da carinhosa mensagem, vinha uma foto um tanto borrada de dois garotos ao longe, um loiro e outro moreno, tão próximos que só poderiam estar abraçados, perto de outras três pessoas, no que parecia ser o pátio da escola.
— Hm, então é isso… — Ele pareceu ponderar por alguns segundos.
— Você não parece alguém que teve os planos frustrados. — Masaki estranhou. Sara nunca cansava de o surpreender com sua imprevisibilidade. Ele nunca conseguia saber ao certo como ele reagiria.
— Isso o que aconteceu nunca foi um plano. — Ele inclinou a cabeça, com um esboço de sorriso se formando. — Foi apenas uma oportunidade que eu não pude deixar passar em branco. Tudo o que ocorreu depois foi mera consequência.
— Eu não entendo o que você pretende, Sara, mas não acha melhor parar por aí? — Masaki sugeriu, quase desistente. Nunca conseguiria fazer Sara desistir de algo que ele quisesse fazer mesmo, mas as suas tentativas eram insistentes. — Pelo jeito, eles continuam juntos, e eu não acho que você vá conseguir separar esses dois tão facilmente. Na minha opinião, isso tudo é apenas desperdício de tempo.
— Nee, Masaki, eu não sabia que você podia ter pensamentos tão éticos assim… — Sara provocou. — Não foi você quem disse que o modo como eles se comportavam era irritante? Além do mais, você prometeu ajudar a sua irmãzinha…
— Eu não prometi nada, só estou dizendo que isso é problemático. — Ele passou a mão pelos cabelos bagunçados, irritado. — E por que você se importa tanto com isso?
— Porque é divertido. Porque eu estou entediado, porque nada interessante acontece… Porque eu quero. — Ele deu de ombros, e se levantou, acomodando-se languidamente na cadeira estofada em frente à mesa de maquiagens do camarim. Olhava para Masaki atrás de si por meio do reflexo no espelho iluminado. — Mas você não entendeu a minha intenção. Eu não quero separá-los. Ainda...
— Não? — Masaki ficou evidentemente confuso, e Sara balançou a cabeça lentamente, como se lamentasse a falta de compreensão por parte do outro. — Então o que raios você quer, afinal?
— Quero observar mais. — Ele respondeu. — Depois de conhecê-lo pessoalmente e conviver com ele durante aquele período, eu descobri que Yuri é muito mais complexo e interessante do que eu imaginei a príncipio. Ele me intriga. Eu quero saber mais sobre ele, sobre o relacionamento que ele tem com Wolfram, sobre a maneira como ele pensa. Sobre tudo.
Masaki ainda não entendia, mas Sara já esperava por isso. Ninguém entenderia.
— Nesse caso, o que foi toda essa confusão que você criou entre os dois?
— Eu não fiz nada. — Sara riu. Podia parecer inocente, mas Masaki sabia ao menos que isso era apenas a superfície. — Eu só… estava lá. Foi uma sucessão de coincidências casuais. Eu só queria ficar mais próximo do Yuri-kun, não pretendia que Wolfram nos visse, mas, sinceramente, não poderia haver um timing melhor do que aquele. E é claro que nunca esperei que isso resultasse em uma tentativa de separação.
— Tem certeza disso? — Ele indagou, desconfiado. Nada do que aquele garoto fazia parecia ser imprevisto ou sem intenções. Sara girou a cadeira para ficar de frente para ele.
— Evidente que sim. E eu acho que teria sido muito chato se eles se separassem por algo tão banal. Acabaria com todo o meu planejamento…
— Ah, então você tem um plano! — Masaki apontou. Nada de bom poderia sair disso. — Eu sabia. O que você está pretendendo, afinal? — Inquiriu.
— Vou esperar. Como eu disse, Yuri acabou se tornando mais do que eu esperava, e eu preciso decidir como proceder. Além do mais, agora nós somos amigos… — Ele abriu um sorriso divertido, ainda que dissimulado. Masaki podia visualizar aquele brilho perigoso no olhar do colega de trabalho, que só podia significar que ele estava realmente imerso naquela situação. Nada poderia fazê-lo mudar de ideia. — Eu quero conhecê-lo melhor.
— Só isso? — Masaki replicou, incrédulo. — Duvido que seja algo tão simples assim.
— Por enquanto. — Sara riu do semblante lívido de Masaki. — O que houve, não acredita em mim?
— Nem um pouco.
~
Natsume e Shuuhei estavam na prática do time de vôlei. Yuri, no baseball. Wolfram havia se despedido minutos atrás, e ido para casa. Ben estava trabalhando, e hoje era o dia de folga dela. Miyako havia decidido esperar Yuri para irem para casa juntos, e sentara embaixo de uma das árvores do pátio, aproveitando o clima ensolarado para ler. Algumas pessoas passavam por ali, a maioria indo embora, querendo aproveitar o tempo bom para alguma atividade ao ar livre, naquele resto de tarde, e ela podia apreciar a preciosa calmaria.
Era tão estranho ficar sem ninguém para conversar. Já fazia algum tempo desde que ela vivenciara essa sensação pela última vez. E mais esquisito ainda era ela ter sentido essa diferença tão repentina. Já estava desacostumada a passar todo o tempo sozinha como antes, e provavelmente, não saberia voltar a esses dias mais.
Terminou de ler o volume do mangá que tinha em mãos, e o fechou, escorando a cabeça no tronco da árvore atrás de si. Olhando para cima, via os raios de sol passando pelos galhos da árvore, apreciando o efeito que causavam. Gostava de como a luz batia nos seus óculos e refletia, deixando tudo mais brilhante. Não era só isso. Tudo na sua vida havia mudado, e ela descobriu que gostava de mudanças.
Agora, quem diria, ela tinha um namorado! E uma amiga, com quem conversar sobre qualquer assunto. E estava cercada de muitas pessoas que pareciam não se importar com como ela era, e a aceitavam da maneira que fosse. Nunca imaginou que poderia ter tanto.
Ainda sorrindo para si mesmo sobre quanta sorte tinha, ela guardou seu mangá na mochila, e puxou de lá uma revista de moda. Não era o seu tipo de leitura habitual, mas Natsume deixou aquele exemplar com ela no início da aula, e ela prometeu que daria uma olhada. Afinal, o casamento de Suzanna Julia estava próximo, e ela, que nunca havia ido a nenhuma ocasião tão formal como essa, precisava realmente de um vestido de festa.
Ia passando pelas roupas, marcando algumas que gostasse, que não eram muitas realmente, quando ouviu barulhos de passos ruidosos se aproximando do local onde se encontrava. Ergueu o rosto, e com desagradável surpresa, percebeu que era a última pessoa que ela desejava ver, logo quando estava se sentindo tão bem.
— Não vejo por perto a legião de guarda-costas que você arrumou para se sentir uma donzela indefesa… — Mariko entoou, em um tom ardiloso, enquanto se aproximava de Miyako. Ela permaneceu no mesmo lugar, segurando com a mão livre a mochila, pronta para sair dali. — Eles finalmente se cansaram de você e te deixaram sozinha de novo, Shibuya-chan?
— O que você quer? — Miyako geralmente não soava ríspida, e nem sabia como fazer isso, mas a leve alteração no seu timbre de voz era o bastante para qualquer um perceber que ela não estava bem.
— Ora, não quero nada. Nada que você possa me oferecer, eu digo. — A loira balançou a mão com descaso. — Eu só vi você aqui sozinha e senti pena, sabe? Então pensei de vir aqui, generosamente, e conversar um pouquinho…
— Obrigada pela oferta, mas eu vou ter que recusar, com licença. — Miya disse a frase inteira com irritação visível, e já foi se erguendo, para sair dali o mais rápido que conseguisse.
— Não, não, ainda não Shibuya-chan, nós nem pudemos matar a saudade ainda.. — Ela se apressou em segurar o braço da garota, mantendo-a presa com as unhas ridiculamente grandes servindo como garras. Miyako a afastou com um movimento brusco, recuando um passo. — Hey, ei… o que nós temos aqui… — O sorriso dela se abriu com escárnio, ao ver de perto a edição que a garota de óculos tinha na outra mão. — Alguém está tentando mudar de visual, é?
— Isso não tem nada a ver com você.
— Claro que tem! — Mariko riu alto, parecendo divertir-se com uma piada que só ela entendia. — Olha só pra você! Acha mesmo que qualquer roupa que estiver ali vai ficar bem em você? Gorda e cheia de sardas, com esses óculos horríveis? Por favor, né, se enxerga! Eu vou te dar um espelho de presente, porque acho que você não tem se olhado bem o bastante.
Miyako sentiu seu rosto enrubescer imediatamente, da forma mais desagrádavel que se podia imaginar. Sabia que estava tremendo. Queria poder se esconder. Já não enxergava o rosto de Mariko, com sua visão nublando em decorrência das lágrimas que se acumulavam, e mordeu o lábio inferior na tentativa de contê-las — no entanto, tinha certeza de que ela sorria. Droga, não! Ela não podia vencer de novo…!
— E-eu… eu não acho que isso seja verdade… — Ela tentou, encolhendo os ombros enquanto escondia a revista entre os braços, apertando-a firmemente junto a si.
— Ah, tão inocentezinha, a nossa Shibuya… — Mariko reagiu, a voz transbordando falsidade. — Acha sinceramente que, porque um garoto qualquer diz que você é bonita, você automaticamente fica bonita? É claro que não, não seja burra, garota. Só porque eles dizem coisas boas sobre você, não significa que sejam verdade.
— Para… P-para com isso… — Miyako sentia-se paralisada, incapaz de recuar mais. Queria tanto sair dali, mas as palavras de Mariko a prendiam. A insegurança que ela tinha enterrado bem lá no fundo do seu coração ameaçava retornar.
— O que foi? Você também acha que eu estou certa, não acha? — Mariko colocou as mãos na cintura, soberba. — Aquele garoto ruivo provavelmente só vê você como uma bonequinha fácil e ingênua, que ele pode manipular para conseguir o que quer. Bobinha, acha mesmo que alguém como ele poderia se apaixonar por você? Ah, Shibuya-chan, você me faz rir tanto! Ele deve ser só outro daqueles pervertidos que tem fetiches com japonesas, sabe? — Ela revirou os olhos, indulgente. — E aquela outra garota, a esquisita do cabelo azul, provavelmente só está querendo te usar, para ficar próxima do Yuri-kun e do Príncipe! Claro que sim, afinal, eles que são interessantes! Mesmo com toda essa história repulsiva entre eles, que eu tenho certeza que foi obra arquitetada por essa sua mente doentia. — Ela apontou, acusatória. — Mas vamos falar sério. Essas pessoas todas ao seu redor... Você não achou mesmo que conseguiria fazer amigos de verdade a essa altura, inútil do jeito que é, não é? São todos falsos, e só querem te usar.
Ela havia escutado tudo calada até aquele momento, mas suas mãos se fecharam em punho assim que ouviu Mariko falar sobre as pessoas que eram importantes para ela. Não podia deixar que isso prosseguisse.
— Nem todo mundo é como você, Matsumoto-san. — Miyako entoou, embora não conseguisse erguer a voz como desejava, mas tentava sustentar o olhar direto da outra, mesmo que não pudesse encarar Mariko da maneira ameaçadora que havia visto Natsume fazer antes. Talvez algum dia conseguisse, mas por enquanto… — Eu não sei quanto aos seus amigos, mas os meus com certeza não são falsos.
— O q-que você está dizendo?! — Ela bradou, indignada, alterando a voz drasticamente. Era a primeira vez que Miyako respondia aos seus insultos, e isso ia contra o seu modo de agir pré-programado. Mariko nao sabia responder rapidamente a situações inesperadas, então, estava perdida. — É claro que você sabe que o que eu disse é verdade! Você não sabe nada sobre mim, então cala essa sua boca, coisinha nojenta! Quem nunca teve amigos e esteve sempre sozinha é você! Ninguém gosta de você!
Miyako sentia algo arder na sua garganta e, embora ainda tivesse vontade de chorar, decidiu que não precisava ficar ali parada ouvindo Mariko agir como a louca que era. Nada do que ela falava era verdade, disso ela sabia. Não valia a pena se preocupar por tão pouco, foi a conclusão a que rapidamente chegou e, sem esperar por mais, deu as costas à Mariko. Ela esbravejou, ofendida pela recusa da garota em aguentar seus insultos calada como sempre.
Avançou na direção por onde ela ia, arrancando a revista da mão de Miyako, e a chacoalhando até que ela ficasse em frangalhos, atirando-a longe.
— Não! Isso... era da Sunohara-san... — Quando percebeu o que ocorria, já era tarde, e Miyako só conseguiu olhar para o monte de papel destruído no chão.
— Não interessa! Não importa o quanto você olhe para aquela revista, nenhuma fada madrinha vai descer do céu e transformar você em Cinderela! Desista de uma vez! — Ela parecia ter se irritado ainda mais, e perdido o controle, gritando daquele jeito. Ninguém passava por aquela área no momento, e Miyako só queria sair dali o quanto antes. — Aquelas coisas são para pessoas como eu! Então pare de tentar mudar, você nunca vai conseguir! Tudo o que você pode é fazer você mesma parecer ainda mais patética do que já é!
Miyako nem prestava atenção no que Mariko dizia àquela altura. Ela estava completamente insana, atirando para todos os lados e querendo atingir Miya de qualquer maneira.
— A única que parece patética aqui é você. — A frase saiu instantaneamente, sem que Miyako tivesse planejado, ou calculado, e em voz baixa. Mas havia sido o suficiente.
Ela viu Mariko ficar imediatamente roxa de raiva, encarando-a como se ela fosse a razão de todos os problemas que ela tinha ou poderia ter, e quisesse esmagá-la como um inseto incômodo. Afastou o braço, pronta para desferir um golpe rápido no rosto da garotinha que ousava tentar desafiá-la, mas nunca conseguiu terminar o movimento.
Seu braço foi parado no ar, e ela sentiu quando alguém passou como um furacão por ela, indo direto até Miyako, e perguntando se ela estava bem. Desvencilhou a mão de quem a segurava, só então reparando que era um garoto alto e lindo que ela nunca tinha visto por ali antes. Como ela nunca tinha visto ele antes? Esfregou o pulso como se ele tivesse apertado-a com muita força, já se preparando para agir como vítima e começar a reclamar.
— Eu vi direito, ou esse desperdício de espaço plastificado tentou bater na Miya? — A garota que passou por ela gritou, já avançando na direção de Mariko, que demorou meio segundo para entender que Natsume falava dela, e mais meio para perceber que deveria fugir. Shuuhei foi mais rápido e a segurou pela cintura, deixando que ela balançasse os braços e as pernas no ar, ainda tentando alcançar Mariko. — Me solta Shuuhei, que eu vou arrancar todos os fios de cabelo tingido dessa cadela, e fazer ela engolir até que saiam pelo…
— Ok, ok, eu entendi. — Ele dizia calmamente, embora fosse evidente que tivesse que fazer certo esforço para manter Natsume presa. Mariko havia ficado pálida de medo, mas tentava manter uma pose digna, como se tivesse saído vencedora de uma disputa que só existia na sua cabeça.
— Vocês são todos pirados, eu vou sair daqui antes que… — Natsume quase conseguiu se desprender dos braços de Shuuhei e, rosnando, chegou a centímetros de alcançar Mariko com seus braços, mas ele havia conseguido capturá-la de volta. Com o susto, a loira recuou alguns passos e, pisando em falso, por pouco não foi ao chão. Bufando, com os cachos do cabelo se desmanchando depois do descontrole, e ainda mancando por ter torcido o pé no salto que insistia em usar mesmo sendo contra as regras da escola, Mariko saiu dali da maneira que pôde, praguejando consigo mesma pelo caminho. — Essa vadiazinha vai ter o que merece... Isso não vai ficar assim.
— Me solta duma vez, ainda dá tempo de alcançar ela! — Natsume esbravejou, vendo o seu alvo se afastar tão rápido quanto podia, e sem ter conseguido fazer nada do que pretendia.
— Está tudo bem, Sunohara-san, de verdade. Não precisa isso tudo… — A última coisa que Miyako queria era que Natsume se envolvesse em problemas por sua causa. Pelo que podia observar, ela era bem propensa a fazer exatamente isso.
— Tá... Shuuhei, pode me soltar. Não vou fazer nada com aquela lá mais. — Ela bradou, e Shuuhei fez como pedido e a soltou novamente no chão. — Ainda. — Ela falou mais para si mesma, enquanto desamarrotava a saia do uniforme, e amarrava direito a gravata de marinheira. O cabelo continuava uma bagunça, mas ela não ligou.
— Obrigada, Sunohara-san, e Asahina-san também, por terem me ajudado. Não precisavam ter feito isso. — Miya se aproximou, abaixando-se para pegar o resto da revista que estava aos pedaços no chão. — Me desculpe, ela estragou a revista que você tinha me emprestado e.. e eu não pude fazer nada, eu… Me desculpe…
— Oe, oe, mas o que é isso? — Natsume entoou em tom de repreensão, e Miyako se encolheu. — Pra começar, você não precisa agradecer ninguém aqui, porque é óbvio que a gente ia te ajudar. Acorda, Miya-chan, a garota ia bater em você! Como é que eu ia ficar parada vendo minha amiga apanhar? — A voz dela se abrandou.
Natsume foi tão enfática que Miyako não teve tempo nem de ficar surpresa. O uso da palavra com ‘A’ ainda era algo novo para ela, mas era impossível não se sentir um pouco feliz ao vê-la em uso na prática. Não era a primeira vez que tinha pessoas que a defendiam dessa forma — Wolfram já havia feito isso antes, e ela também era muito grata a ele — mas isso nunca havia ocorrido dessa maneira anteriormente, na sua antiga escola. Miyako estava certa ao pensar tinha muita sorte agora.
— Ninguém com o mínimo de decência deixaria uma garotinha desse tamanho, que mais parece um coelho indefeso, numa situação como essa. — Shuuhei enfatizou o que Natsume dizia, parecendo um tanto indignado. — Não sei que tipo de pessoas andou conhecendo por aí antes, mas nós não somos assim, tá?
— E eu nem me importo com essa revista, ela tava jogada lá em casa. — Ela prosseguiu, pegando o que restava da revista e jogando na lixeira próxima. Claro que, se fosse algumas das suas revistas especiais Mariko não sobreviveria para contar a história. – Você não precisa se preocupar com essas coisas pequenas, tá certo? O importante é que você está bem, Miya-chan. E se a Barbie falsificada voltar a te atazanar, você tem que me chamar na hora!
— E-eu não quero causar problemas… — Miyako parecia prestes a chorar de novo, e Natsume afagou sua cabeça de leve, sorrindo para traquilizá-la ao menos um pouco.
— Chora não. Vai ser um prazer dar na cara da inutilidade ambulante pra você, sabe?
— O que? — Miyako sobressaltou. Mas ao menos tinha engolido o choro.
— Nada não. — Natsume sorriu ainda mais, disfarçando. Shuuhei a encarou, cético, e ela apenas balanção a mão, como se não fosse nada demais. Ele entendeu o recado. — Vamos indo?
Natsume ia conduzindo Miyako para a entrada da escola, conversando sobre como tinha sido o treino de vôlei numa tentativa de distraí-la dos acontecimentos recentes, o que parecia estar dando certo, enquanto Shuuhei vinha mais atrás. Ela notou quando o sorriso de Miyako mudou subitamente, tornando-se mais iluminado em um instante, e não demorou a notar a cabeleira ruiva inconfundível do garoto que esperava logo após a entrada.
— Por favor, não conte nada a ele. — Ela sussurrou, nervosa, enquanto caminhavam na direção do garoto que também sorria assim como ela. Natsume confirmou com um aceno de cabeça, e então Miyako correu até ele.
— Ah, eles fazem um casal tão bonitinho… — Natsume comentou, parando de andar ao lado de Shuuhei, enquanto via Miyako aproximar-se, balançando-se nos próprios pés, corando e sorrindo timidamente. Era tão óbvio que ela estava perdidamente apaixonada que dava até vergonha de olhar. Shuuhei mal conseguia encarar diretamente a cena.
Natsume viu Ben acariciar o topo da cabeça de Miya, enquanto dizia alguma coisa, e ela ria e ficava ainda mais corada. Então, ele inclinou a cabeça para baixo, e Miya ficou na ponta dos pés, depositando um embaraçado beijo no rosto dele, abraçando-o e escondendo o rosto no seu peito logo depois.
— Peraí… — Natsume tomou um susto tão grande que sua voz quase sumiu. — Espera aí! — Ela se aproximou. Só então Miyako pareceu lembrar que não estava sozinha, e já ia pedir desculpas, mas Natsume foi mais rápida. — Vocês dois estão juntos, tipo, juntos, juntos?
— Você diz, namorando? — Ben estranhou a pergunta. Riu, bagunçando os cabelos com uma das mãos, enquanto erguia a outra, que estava unida a de Miya, e antes eles não podiam ver. — Faz um tempo, já.
— Por que não me contou, Miya-chan? — Ela parecia indignada simplesmente pelo fato de não ter percebido isso antes. Odiava ser a última a ficar sabendo das coisas, e Shuuhei se segurava para não rir da cara que ela fazia agora, sem muito sucesso na verdade.
— Eu… não achei que fosse importante… — Ela balbuciou sinceramente, não entendendo nada do que acontecia. — O bastante para você querer saber… Eu não sei?
— Mas… mas… Eu queria ajudar... vocês... a formarem um casal. E eu ia ser cupido… — Ela repetia, incrédula. — Mas vocês já estão juntos… então… Qual o sentido da minha vida? Pra quê que eu vim pra cá, afinal! Era essa a minha missão na Terra! E agora, o que eu vou fazer...!
— Sunohara-san…?
— Deixa ela, ela só precisa de tempo pra processar a informação. — Shuuhei explicou, despreocupado. Apoiou-se no ombro de Natsume, e foi obrigando ela a andar para frente, mas ela avançou mais rapidamente, e segurou Miyako nos braços, emocionada.
— Eles crescem tão rápido! — Ela afirmou, apertando a garota como podia. Shuuhei tentou avisar que assim ela acabaria esmagando Miyako, mas foi em vão. — Nós temos que comemorar! O príncipe você já tem, então só me resta arrumar o vestido! Vamos, Miya-chan, vamos encontrar o vestido perfeito para o seu baile!
Sem mais a declarar, Natsume foi conduzindo Miya pela rua sem rumo definido, e restaram aos garotos deixados para trás, segui-las sem fazer perguntas, depois de uma breve troca de olhares cúmplices daquele sentimento masculino de que, mesmo que tentassem contestar, não levaria a nada.
Minutos depois, estavam os quatro em um shopping, em uma pequena e aconchegante loja de roupas de festa que ficava um tanto escondida em meio as enormes lojas de departamento e de grife ao redor, mas que parecia perfeita para a ocasião. As meninas estava perdidas entre araras de paetês, chiffon, cetim e tules de todas as cores imagináveis. Natsume impediu Ben de ver, porque ele só poderia olhar o vestido no dia da festa e, mesmo relutante, ele decidiu ir até a livraria próxima dali para passar o tempo. E Shuuhei foi obrigado a ficar para dar a sua irrelevante opinião masculina que, na certa, não seria levada em conta. E ele nem tinha que trabalhar hoje, então não tinha desculpa para fugir.
— O que acha desse amarelo? — Natsume indagou, enquanto Miyako estava no provador tentando vestir algum dos últimos quize vestidos que Natsume havia jogado lá dentro para ela. Shuuhei suspirou.
— A mesma coisa que achei dos últimos 48. Qual é, são todos iguais, a única diferença é a cor.
Natsume o encarou de canto, como se ele fosse a criatura mais insensível que já pisara na face da terra, e ele revirou os olhos.
— Tá tudo bem aí, Miya-chan? — Ela indagou por cima do ombro, notando a demora da garota.
— T-tá s-sim… Eu… — Ela se esforçou para respirar, a voz saindo abafada. — To bem. Só um pouquinho.
— Oe, Natsume… — Shuuhei parecia tentar mudar de assunto. Apoiou-se na arara, para que Natsume prestasse atenção nele agora. — O que você falou antes sobre a Barbie, era sério?
— O quê? Ah.. não sei. Ela merece uma lição. Não acha? — Ela comentou, sem erguer os olhos dos vestidos, enquanto passava de um para outro. — Acho que azul é a cor. Esse tom é bonito, não?
— Natsume. — Shuuhei insistiu, inquiridor. Ela soltou a respiração, exasperada.
— Tá, olha só. — Ela enfim encarou Shuuhei diretamente. — Se ela for uma boa garota, então eu serei uma boa garota. — Ela sorriu. — Mas se ela quiser ser má, então eu vou ser pior ainda.
— Isso não vai prestar...
— Eu sei que não. Miya-chan! Achei o vestido perfeito pra você! — Ela deu as costas com mais três vestidos nos braços, na direção da cabine do provador.
Shuuhei não respondeu. Nem precisava, com somente aquilo ele já sabia que algo iria acontecer, e não iria demorar. Só restava esperar que não fosse tão ruim quanto ele imaginava, porque ele sabia muito bem como a garota podia ser — e, quando aquela bomba-relógio chamada Paciência da Natsume estourasse, coitado de quem estivesse no caminho.
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