Sonilóquio
1 Zzzz...
Notas iniciais
Hoje é aniversário do meu amorzinho e ele merece fics todos os dias.
Porém, contudo, entretanto e todavia, tenho estado super ocupada e até comecei a escrever uma one-shot que começa na cama, como quase tudo deles HAHHAHA mas não consegui desenvolver e achei essa daqui nos meus arquivos.
Acordou primeiro, como na maioria das vezes. De imediato fechou os olhos por conta da luz forte que adentrava a janela Conforme se acostumava, pôde abrí-los novamente. Tinha o rosto do outro à frente do seu. Tirou uma mecha do cabelo azul, de comprimento estranho, da frente da carinha bonita e pôs-se a admirá-lo. Era rotina àquela altura. As sobrancelhas de Albafica começavam a mover-se, indicando o sono perturbado.
— O que você quer? — perguntou com a voz mais suave que conseguia usar. “Sexo ou comida. Pelo jeito, é comida. Torta? Iogurte? Podia ser boquete.”
— Rolinho de canela.
Ah, aquele era um pedido fácil. Com todo o cuidado, Minos tateou o criado-mudo onde punha as coisas que guardava nos bolsos das calças. Sempre carregava chicletes de canela consigo. Não era seu café-da-manhã preferido, mas não custava nada mascar um pouco da goma, longe dos ouvidos de Albafica, obviamente. Apenas o suficiente para que sentisse o cheiro.
Livrou-se da goma e posicionou-se ao modo como acordara. Prendera o lábio superior de Albafica por entre os seus, sentindo o sorriso do pseudo-sonâmbulo abrir-se.
— Você é um doce.
— Sou? Diz isso por querer me comer?
Minos já estava mais do que acostumado a ser chamado de várias qualidades de confeito durante os sonilóquios do mocinho dos cabelos tingidos. Não esperava, contudo, pela sequência da “conversa”.
— Não, eu gosto de você. Você é um doce.
Chegaram ao ponto da rotina em que Minos provavelmente ficaria fuçando no celular até que precisasse se levantar ou que o dono da casa acordasse. Mas o abraço quase amoroso em que Albafica prendia Minos o impediu de fazer qualquer outra coisa. Assim, o bonequeiro passou mais tempo do que o habitual apenas admirando os traços bonitos do produtor.
— Você tá me encarando. — resmungou, ao esfregar os olhos, passado um bom tempo desde sua última fala.
— Sim.
— Faz muito que acordou? Por que nunca me chama?
Poderia dizer que era para não destruir a ordem das coisas, mas preferiu ficar quieto. Não era como se Albafica estivesse de fato acordado para ouvir qualquer coisa. Beijou-lhe a testa, colocou a mão dele sobre seu rosto e continuou a encará-lo, com um sorriso sacana. O dono da casa piscava, tentando acordar.
— Que cheiro é esse? Você tava mascando chiclete? Quem que masca chiclete a essa hora da madrugada?
— Pessoas muito doces. Levanta, eu tô com fome. O chiclete também não ajudou com isso.
O sanduíche, preparado na noite anterior, aguardava na geladeira. Não que tê-lo ali ajudasse muito a causa faminta de Minos, visto que ele não saberia como aquecê-lo. Contudo, ajudou o dono da casa a pôr a mesa, como sempre. Naquele lar o dito sobre o café-da-manhã ser a refeição mais importante do dia era levado à risca.
Conforme despertava, Albie notava o olhar curioso do outro sobre si. Não ousaria perguntar diretamente, porém...
— Acordou com bafo?
O bonequeiro parou a xícara à caminho da boca, arqueando uma sobrancelha.
— Mascando aquele chiclete pestilento de canela enquanto eu dormia. Queria agradar dando beijinho ou algo assim?
Sufocou o pedaço de pão com uma quantia absurda de geleia de framboesa, enquanto fazia suas indagações, divertindo Minos.
— Que foi? Perdi a piada.
— Você nunca se lembra. Bichinho adorável.
Albafica não relutou quando teve sua bochecha apertada, como usualmente fazia. De fato, raramente lembrava do que dizia durante o sono, sabendo que o fazia com certa frequência. Fingiu não se importar, mas era curioso e deixava transparecer, especialmente quando torcia o cantinho da boca.
— Imagino que não queira dizer o que aconteceu.
— Oh, não. É muito mais divertido quando você fica preocupado. Não foi algo ruim, foi bem bom, para dizer a verdade.
— Isso é o que realmente me incomoda. Se for algo bom para você, é, no mínimo, ridículo para mim. Desembucha.
"A-do-rá-vel."
Bagunçou os cabelos azuis ao levantar-se. Deixou a louça usada na pia e põs-se a admirar o comilão.
"Absurdamente adorável. Até mesmo com a boca suja de geléia."
Levemente irritado, Albafica terminou de comer, pondo-se à frente de Minos, o empurrando contra o balcão.
— Devia me dizer antes que eu fique de mau humor.
Minos lambeu o doce de fruta que adorava o rosto bonito. Não contentou-se com saborear a iguaria e o pedaço de pele, então o beijou. Albafica teria seu mau humor independente da boa fortuna do dia. A alma de ancião ranzinza era, afinal de contas, muito de sua essência, que o bonequeiro já sabia ser composta de três partes: a velhice precoce e as duas fomes insaciáveis. Gostava de irritar os três por igual.
— Tem sorte que eu gosto de framboesa, ou deixaria que fosse molhar suas flores de cara suja.
— Ah! — Um estalo veio à mente. — Foi sacanagem e agora tenho que aguentar as suas gracinhas. Tudo bem, já fiz coisa muito pior com você pra ter vergonha de algo que falei dormindo.
— Hm… — Minos ponderou com uma seriedade anormal. — Se foi sacanagem, foi uma das grandes. Vindo dessa boquinha ingrata, provavelmente foi isso mesmo.
Albafica deteve as mãos do bonequeiro que começavam, lentamente, a puxar-lhe as roupas, mas não quis ser tão rápido assim quando a boca com gosto de canela e café atacou-lhe o pescoço.
— Ou fala ou não tem.
— Eu perco e você perde junto.
“Esse filho da puta tem sempre razão”, Albafica o encarou com a expressão zangada de sempre, o deixando al, plantado em frente à pia enquanto foi molhar as malditas flores. Ainda lidava com as plantas quando Minos saiu, bem arrumado, de dentro da casa. Um casaco carregado sobre o ombro, óculos escuros protegendo seus olhos.
— Você vai embora sem me falar mesmo, seu ordinário? Foi tanto assim?
— Se eu falar, você vai me mandar embora. Se eu ficar, você vai me jogar da porta. Melhor já ir saindo, assim evito a confusão.
Albafica tentou ameaçá-lo com a mangueira, mas não tinha coragem de molhar alguém em um dia com temperaturas tão baixas. Voltou sua atenção às rosas, mas logo foi abraçado pelas costas, uma das mãos de Minos subindo por baixo da sua blusa e outra entrando para dentro das calças. A voz sussurrando próxima a seu ouvido.
— Eu gosto de você, Albafica.
Antes que apanhasse, Minos saiu dali. Retornaria ao encontrar o presente perfeito para a ocasião. Uma pena que não pode perceber os lábios de Albafica movendo-se, o cérebro controlando o que o coração precisava dizer.
“Eu gosto de você também. Por favor, não vá.”
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