Sonhos e Pesadelos
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Agora, enquanto estou parado aqui na chuva, observando a fachada da minha casa eu posso perceber uma série de coisas que eu não notei antes, e eu não estou falando da madeira faltando no canto esquerdo do meu muro, ou de como a água da chuva consegue vir de várias direções diferentes quando você não tem um guarda-chuva, nem mesmo em como minha mãe me mataria de várias formas diferentes por entrar em casa encharcado depois da faxina dela. Estou falando de algo pior.
Tudo começou como nos filmes e terminou como um pesadelo. Admito que isso não é um filme que quero ver. Essa é uma boa história sobre dias ruins, estrelando eu e ela, mas estou ficando sem tempo, ou talvez eu já tenha gasto todo o tempo que tinha. Estou aqui parado, com o coração partido. Vamos voltar para o quadro um, onde eu comecei. Prometo avançar para o final, antes de todos irem para casa e esquecerem tudo. Se Hollywood pudesse me ver agora, eles me contratariam, mas como eles não podem, vou continuar agindo como um idiota. E, acredite, eu vou agir como um muitas vezes durante todo o caminho.
***
27 de fevereiro de 2015
— É sério cara, como você consegue pensar em sair pra qualquer lugar? Vamos esclarecer alguns pontos aqui. Segunda feira é tipo, o dia em que nós com certeza vamos tirar a nossa nota mais baixa que vai nos fazer reprovar a impedir de sermos veteranos no outono. E, sabe, eu quero. – ele fez uma pausa enquanto esperava nossa resposta, mas acabou se corrigindo primeiro – Quero ser veterano, não reprovar, só para esclarecer, caso reste alguma dúvida.
Revirei os olhos e encarei Thalia. Talvez, apenas talvez, ela conseguisse convencer Nico.
Ela também revirou os olhos antes de responder.
Senhoras e senhores, isso é uma competição?
— Qual é Percy! Eu também não quero levar bomba.
— Vamos lá, é só segunda. Hoje é sexta. Temos o final de semana todo, prometo que podemos fazer sei lá, um intensivão amanhã, vamos, por favor.
Encarei Thalia e tentei fazer minha melhorar cara de “cachorro que caiu da mudança” e ela revirou os olhos.
— Não esqueça que eu sou seu primo favorito. – ela continuava irredutível. – E que te dou carona todos os dias. – acrescentei mais baixo e pude ouvi-la resmungar baixinho “porque eu Deus?” enquanto encarava o céu nublado.
Terminei meu mini hambúrguer e joguei o papel em Nico. Se um deles fosse, o outro iria.
Estamos sentados no gramado da Goode High School, no nosso horário de almoço. O ar de inverno me fez colocar alguns casacos hoje, mas não vai ser isso que irá me impedir de sair.
Eu os vi trocar um olhar de dois segundos e meio, Thalia levantar a sobrancelha e Nico bufar.
— Qual é! Mas eu não quero.
— Não tem querer, Di Ângelo. Eu vou. O Percy vai. Você vai. Está decido.
— Quem disse que você decide as coisas por aqui?
— Nico, ela é a garota. Ela sempre vai decidir tudo.
Thalia levantou e bateu as gramas que grudaram na sua calça.
— É isso rapazes. Vejo vocês mais tarde. Não demorem, se não vão perder o primeiro tempo.
— Mas o primeiro tempo é de manhã Thalia.
Dei uma cotovelada em Nico e o encarei.
— Você não está ajudando a manter o bom humor dela.
—Eu não prec... – O encarei e ele revirou os olhos. Deve ser um mal de família. – Certo. Não vamos nos atrasar.
Thalia saiu e nos deixou ali. Essa semana, o cabelo dela tem mechas azuis.
— Sabe, eu acho que vai ser legal sair. Nesses últimos dias você anda muito chato. E você e Thalia tem implicado demais. Do tipo, demais.
— Você está exagerando. – Nico pegou a bolinha de papel e me jogou de volta. – Jogue isso no lixo, vamos pra sala.
E com isso, ele levantou e saiu andando.
— Ei, ei – joguei a mochila no ombro e segui Nico pra dentro da escola – Aconteceu alguma coisa cara?
— Não, porque?
— Você tá esquisito.
Me encostei na fileira de armários enquanto Nico abria o próprio e tirava o livro de álgebra.
— Não estou não. Só estou cansado, quero férias.
— São só mais... Quatro meses.
Nico revirou os olhos e fechou o armário.
— Você sabe que isso não me tranquiliza, né?
— Tanto faz.
Ambos tínhamos aula de álgebra agora, e eu estou longe de estar pronto para encarar três tempos com a Sra. Dodds. Tenho certeza que ela me odeia. Eu, inclusive, já tive um sonho onde ela se transformava numa galinha assassina e tentava me matar, mas a Thalia disse que isso é coisa do meu subconsciente. Não tenho tanta certeza.
Nossos lugares na sala eram longe um do outro, porque os orientadores já haviam deixado claro que não queriam mais problemas envolvendo eu e Nico, ou estaríamos fora, por isso eu fico de um lado da sala, e ele longe, no outro. Por algum motivo, éramos perseguidos por catástrofes aonde quer que nós fossemos. Como no ano passado, quando visitamos os bastidores do tanque de tubarões do Mundo Marinho e acidentalmente, enquanto eu conversava com Nico, me apoiei em uma alavanca que fez todos tomarem um banho inesperado. Ou no início do nosso segundo ano, quando Nico acidentalmente acendeu a pólvora me fazendo disparar um canhão da Revolução Americana em direção ao nosso ônibus escolar. Pois é. Talvez não sejamos os alunos favoritos.
Quando éramos pequenos ele estava sempre rindo, depois que entramos na adolescência entrou numa fase permanentemente das trevas. Suas roupas, como hoje, costumam ser sempre escuras, o capuz está escondendo os fones e o olhar que ele costuma lançar assusta a maioria das pessoas. Até eu algumas vezes. Mas ele não precisa saber disso.
Eu não sei em qual momento eu dormi, mas acordei com Nico chutando a minha perna.
— Vai ficar aí pra sempre Bela Adormecida? Vamos embora, a Thalia vai matar a gente se ficar esperando muito tempo.
Esfreguei minha cara e juntei tudo na minha mochila. Eu não sei se estou realmente acordado.
Corremos até o estacionamento, mas Thalia já estava lá quando chegamos.
— Droga.
Thalia ajeitou a mochila no ombro e revirou os olhos.
— Vocês se perderam ou o que? Eu estou com fome e preciso comprar um lápis de olho.
Entrei no carro e joguei a mochila no banco de trás, atingindo, talvez, Nico no processo.
Dei partida no carro e fui em direção à casa dela. Acho que ela deve comprar um lápis por semana, porque eu nunca a vi sem aqueles contornos pretos nos olhos desde que entramos na escola.
Nós três morávamos no mesmo bairro, junto com alguns outros tios nossos. Era estranho quando eu pensava que minha mãe quis ficar no mesmo bairro que a família do meu pai, mas eu já nem ligo tanto assim.
— Ai droga. – murmurou a Thals, quando parei em frente a casa dela. – O que a Hera está fazendo aqui?
Franzi o cenho.
— Ela não é, tipo, noiva do seu pai?
— É, é, tanto faz. Achei que ela só viesse amanhã.
— Então nós não vamos mais ir nessa festa? – murmurou Nico animado do banco de trás.
Thalia revirou os olhos antes de sair.
— Claro que não, agora é que nós vamos mesmo Di Ângelo.
Nico pulou para o banco da frente assim que ela saiu e assoviou.
— Hoje ela está difícil.
Dirigi mais umas três quadras até chegar na nossa rua.
— Quando a Thalia não está?
Nico abriu a boca para falar, mas a fechou logo em seguida.
A casa da família dele era na frente da minha, facilitando muito a minha vida de motorista.
— Pergunta pra Thalia que hora que eu devo passar lá e me avisa, ok?
Preferi não colocar o carro na garagem e desci, sendo seguido por Nico.
Ele me deu as costas e foi em direção à própria casa.
— Você me ouviu?
Ele mexeu um braço e me respondeu, sem se virar.
— Tá, tá, eu aviso.
Revirei os olhos me perguntando o que eu fiz pra merecer essa família.
***
— Thalia. Na próxima, eu escolho o lugar, ok?
Ela revirou os olhos azuis bem contornados e puxou um pouco a jaqueta preta.
— Tanto faz. Quero voltar pra casa antes das três. Entendido?
— As três? – Nico exclamou.
Eu só sabia revirar os olhos.
— Claro mamãe.
— Ótimo, agora, vão se misturar.
Ela saiu em direção ao meio do povo e Nico saiu em seguida.
Eu quero uma bebida, mas não tem ninguém que possa comprar para mim, então me contento com alguns energéticos.
Começo a entrar no meio da multidão e a me mover com a música. Logo, estou dançando e falando com as pessoas que encontro.
A essa altura, já não faço ideia de que horas sejam e até que Thalia me arraste para casa, não vou procurar um relógio.
E então, eu a vi.
E, sabe, foi aqui que tudo começou a dar errado.
Era inegavelmente bonita. Olhos verdes e sorriso grande, mas não foi isso que me chamou atenção. O cabelo era cacheado e volumoso, em um tom peculiar de ruivo.
Ela dançava com algumas garotas e ria, até que me pegou encarando-a. Ela colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha e voltou a sorrir para as outras garotas.
Dei um jeito de me aproximar delas e entrar na roda de dança. Percebi que ela atraia os olhares de várias pessoas à nossa volta, e não somente o meu.
Ela ocasionalmente olhava para mim e me lançava um sorriso. Eu podia ter dançado a noite toda com ela, caso Thalia não tivesse aparecido e me dado um tapa na cabeça.
— Eu disse três horas Jackson. Estou te procurando a um tempão, vamos embora.
Olhei para a ruiva que deu uma risadinha. Respirei fundo e arrisquei.
— Ei, você quer me passar seu número?
Ela pareceu surpresa pela expressão que fez, mas logo fez uma cara travessa.
— Acho melhor não. Nos vemos por ai... Jackson?
Thalia revirou os olhos e me puxou pelo colarinho da camisa. Ela bufava irritada a cada cinco segundos.
— Onde foi que o Di Ângelo se enfiou?
Eu ainda mantinha os olhos na direção onde a ruiva dançava com outras pessoas, querendo, francamente, largar Thalia. Mas eu havia prometido ir na hora que ela quisesse.
— Hm, Thalia. Ali. – apontei para um dos cantos onde Nico encarava o teto e uma garota loira falava com ele sem parar. Ela jogava o cabelo sobre o ombro e estava claramente dando em cima dele, mas não acho que ele tenha percebido.
Mas Thalia notou.
— Aquele... – ela respirou fundo e foi até lá, pigarreando tão alto que até eu ouvi.
Não prestei muita atenção ao show que ela deve ter dado, só encarei o lugar de onde vim.
Eu quero vê-la outra vez.
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