Notas iniciais
Sei que os capítulos podem parecer curtos e rápidos, mas a proposta da escrita é criar um novo segmento de romances de bancas. Então se você é do tipo que ama romances de banca, mas que detesta o fato de as histórias terem um certo padrão de enredo, personagens e etc, eu espero que vocês ao menos curtam essa minha primeira história. Se não curtirem, tudo bem também. O importante é sempre ler!

A cada dia que passava, Dan sentia-se cada vez mais ansioso para amostrar todo o conhecimento que tinha e orgulhar seu superior, Gustavo. Precisara de cinco noites para entender o conceito daquela palestra, a estrutura e a dinâmica de como seriam as reuniões e apresentações, mas no fim da semana conseguira não só terminar tudo a tempo como também levou o rascunho de seu projeto para Gustavo e o que teve de volta foram profundos elogios.

Lúcia não apareceu nenhum dia, mas o que Matilde fez questão de levar ao conhecimento de Dan fora o fato de que Lúcia havia se duplicado entre os dois setores para que nenhum respectivo departamento sofresse qualquer mudança na sua rotina. Aliás, se bem lembrava, Matilde era apenas elogios para a senhora Albuquerque. Em nenhuma das ligações diárias para a casa de Dan deixou de comentar o quanto Lúcia era gentil, profissional, focada e tantos outros adjetivos que o faziam ansiar ainda mais ter esse tempo junto de alguém tão importante para ele.

Matilde havia explicado tudo para Dan. Seu voo sairia às 00h em ponto no dia seguinte; ele deveria encontrar outros funcionários da empresa na área vip do aeroporto e seguir viagem para a Califórnia. Teve o repentino desejo de levar alguma roupa de banho para surfar nas praias californianas, fazia tanto tempo desde a última vez que teve a oportunidade de passar férias em alguma praia no litoral do país. Ponderou um pouco e pensou que não faria mal estar preparado caso a oportunidade aparecesse.

No dia seguinte esbarrara com Lúcia uma única vez dentro do elevador e ela demonstrara estar animada com a viagem. Tão animada que ofereceu uma carona para Dan até o aeroporto, carona essa recusada já que a companhia não seria apenas a de Lúcia, mas de seu marido Edgar. Vê-la depois de tanto tempo e saber sobre Edgar, fez com que a lembrança do dia em que vira os dois juntos pela primeira vez invadisse a sua mente.

Dan recordava-se de estar exatamente ali, dentro do elevador, quando um casal muito próximo um do outro se aproximou e a mão grande e máscula de Edgar segurou a porta do elevador para que Lúcia passasse. Ela sussurrou “obrigada” para o marido e esse olhou-a nos olhos de maneira fria, só agora Dan se lembrava. Lúcia naquele dia parecia alheia a tudo e a todos, sinceramente, parecia outra pessoa. Falava baixo e somente o necessário, enquanto o perfil alto e autoritário do homem ao seu lado olhava todos de cima, como se ele fosse muito importante para estar ali naquele lugar. Como ambos desceram no andar de Dan – ele seguiu ambos alguns passos atrás -, ele percebeu também como, apesar da proximidade, a postura de Lúcia e Edgar era completamente diferente uma da outra. Edgar, para Dan, era como o leão, rei da selva. As costas eretas, terno bem cortado e alinhado combinando o cinza grafite com os sapatos italianos negros. Era a figura de um empresário bem sucedido. Lúcia estava linda como sempre, contudo havia algo em sua postura que fazia Dan recordar a uma presa prestes a cair na armadilha do leão. Era como se ela estivesse com medo de agir de certa forma perto de Edgar.

Eles adentraram juntos na sala de Gustavo e sendo totalmente inconveniente, Dan desacelerou seu passo com a finalidade de ouvir qualquer coisa. Não ouviu. Este foi o mais estranho de todos os momentos que recordou. Pensou que apesar de sempre ouvir a risada calorosa de Lúcia quando ela e Gustavo estavam no mesmo recinto, dessa vez só conseguiu ouvir a voz estridente de Edgar.

Agora, Dan se questionava o que ele não havia notado durante tanto tempo por estar tão focado em seus próprios sentimentos. Será que Lúcia realmente não era feliz em seu casamento? Ou toda essa recordação era um truque de sua mente e de seu coração apaixonado? Decidiu consigo mesmo durante aquele tempo longe de Lúcia que seria a melhor companhia para ela e não agiria como um homem desesperado por seu amor. Queria apenas saber se era ou não verdade o que Matilde havia dito sobre a felicidade de Lúcia. Na verdade, dentro de seu íntimo, ele havia já a algum tempo decidido que se a mulher que ele amava realmente fosse feliz em seu casamento, só assim colocaria uma pedra em cima de todos esses sentimentos e seguiria com sua vida.

Despediu-se aquele dia de Matilde, delegou algumas funções para a senhora baixinha e informou que em poucas semanas estava de volta. Já havia chegado ao aeroporto e conversava com alguns colegas de trabalho quando ouviu que um dos homens ao seu redor comentava algo chamando sua atenção.

—A Lully chegou... – o homem dizia com certo cinismo na voz. Alguns dos outros funcionários que estavam em volta riam baixinho e por estar irritado com a forma como falavam daquela pessoa, Dan olhou na direção que os outros homens olhavam e ficou ainda mais irritado ao ver que comentavam sobre Lúcia. Ela parecia alheia há qualquer deboche já que caminhava de um jeito diferente, não com a confiança que sempre aparentava ter. Pelo contrário, ela caminhava devagar, com ombros caídos e seu rosto parecia triste. Foi o bastante para Dan se aproximar a fim de oferecer algum suporte.

—Boa noite, Lúcia! – cumprimentou em tom gentil. – Então vamos juntos?

—Oh, boa noite, Dan! Veio bem para cá? – ela perguntou mais parecendo uma pergunta aleatória do que qualquer outra coisa. Na verdade, ela parecia estar alheia a tudo e todos.

—Sim, muito boa viagem. Olha, não seria melhor sentar-se um pouco? Você me parece pálida... – Dan avisou preocupado. Só agora havia notado como seus olhos estavam fundos e não tinham o brilho que ele sempre via quando estava perto dela. – Está tudo bem?

Ele fez a pergunta e notou quando ela desviou o olhar, envergonhando-se de algo ou de alguém. Também parecia ter vontade de responder, mas aparentemente travava sua própria batalha mental. Levaram poucos segundos para Dan perceber que ela estava pensando se dizia algo ou não.

—Oh sim! Tudo bem, acho apenas que ficar dentro de um avião por pouco mais de doze horas está fazendo meus nervos se descontrolarem um pouco... – respondeu mudando totalmente de modos. Ela agora forçava sorrisos e tentava não demonstrar o que estava aparente, tristeza.

—Bem, posso acompanhar você ou comprar algo... Acho que um pouco de distração poderia ajudar a passar essa “sensação”. Vamos tomar um café? – sugeriu.

Eles tomaram café conversando sobre o tempo, sobre a palestra, entretanto Dan não pôde deixar passar a tristeza no olhar de Lúcia. Ela aparentava ter sofrido algum tipo de decepção, contudo ele havia notado os olhos curiosos em cima dele e dela por parte de seus colegas de trabalho, sendo assim preferiu não comentar ou questionar nada. Sua missão naquele momento era apenas fazer com que o humor de Lúcia melhorasse.

—Eu também não me sinto a pessoa mais confortável dentro de um avião... ossos do ofício, não é?

—Verdade. Acredito que em algum momento todos nós devemos enfrentar nossos medos.

—Sim, mas primeiro precisamos pensar no nosso bem estar. – tentou. – Está tudo bem, Lúcia?

—Sim, já disse. – sorriu. – É apenas cansaço...

—Seus olhos não estão me dizendo isso...

—E o que eles dizem?

—Que alguém magoou você. – o medo de ter ido longe demais atravessava o peito de Dan, mas nem por isso ele recuou. – Provavelmente você não vá confidenciar qualquer coisa para alguém como eu, mas se precisar falar, eu posso ouvir sem julgamentos.

Dan esticou seu braço por sobre a pequena mesa onde eles tomavam um café e agarrou a mão de Lúcia. Ele percebeu a surpresa dela, mas seguiu acariciando as costas da mão feminina. Acostumando-se com o seu toque, Lúcia sorriu e disse:

—Você é um homem muito gentil.

—Só estou sendo agradável... qualquer um no meu lugar agiria da mesma forma. – respondeu soltando a mão dela. – Que tal me falar sobre a palestra? Soube que você vai dar uma entrevista.

Os olhos antes tristes, pareceram tomar vida com a pergunta.

—Nossa, eu não tenho nem palavras para dizer o quanto eu venho esperando por esse momento. Primeiro a palestra e agora esse convite para dar uma entrevista. Estou me sentindo muito feliz com isso. – a postura de Lúcia havia mudado da água para o vinho e falar sobre trabalho alegrava tanto Dan quanto a própria Lúcia. Dessa maneira ele continuou a pauta percebendo que seria uma boa forma de distraí-la.

—Pensei que você estava acostumada a dar entrevistas... – começou a falar e ela lhe deu um olhar de interrogação não entendendo o motivo dele imaginar aquilo. – Bem, achava que você dava entrevistas porque além de ser muito importante para a empresa, a mesma empresa está atuando no mercado de forma significativa.

—Ah realmente nós crescemos ao longo dos anos, mas a minha caminhada não é tão longa e tão maravilhosa como você imagina... – Lúcia conversava tranquilamente sobre o assunto, porém não encarava Dan. Ela apenas mexia a colher dentro do copo meio cheio de café e continuava:

—Talvez você não tenha notado, mas sou uma mulher no meio de um ambiente quase que majoritariamente masculino. Estou a todo momento tendo que me impor sobre questões de gênero e tento manter o meu lado profissional impecável. Acredito que foi dessa maneira que fui subindo degrau por degrau até chegar aonde estou. – ao levantar o olhar, Lúcia fitou por pouco tempo acima da altura dos ombros de Dan e voltou a dizer. – Gosto de me orgulhar pelo fato de ter o carinho de uns oitenta por cento do pessoal, mas às vezes não podemos agradar a todos. Ao longo da minha carreira existiram pessoas que não me aceitaram por quem sou ou até mesmo me descartaram por ser esposa de alguém tão importante como Edgar. Bem, o que posso dizer é que esse tipo de coisa acontece em todo lugar.

—Me envergonho em admitir nunca reparar que você pudesse sofrer algo assim... eu, quero dizer, a maioria das pessoas que tenho contato falam de forma tão bonita sobre você. – ela sorria desanimada e abaixava o olhar novamente. – Veja, o que estou falando aqui é a verdade. Eu nunca havia sido tão bem acolhido em algum ambiente profissional como fui quando entrei aquele dia na sala de Gustavo e tanto ele quanto, principalmente você, me fizeram sentir à vontade.

—Eu me lembro que pensei que você fosse desmaiar... – ergueu os olhos com algum ânimo surgindo com a lembrança. – Você estava parado perto da porta e parecia que iria sair correndo há qualquer momento!

—E iria mesmo, se você não tivesse sido tão receptiva como foi.

—Só fiz o que achava que precisava fazer. Tenho consciência do quanto Gustavo pode ser intimidador quando está sério e naquela semana em especial, nós estávamos sofrendo pressões por parte dos nossos superiores para enfim ocupar a vaga do seu setor. – ela havia voltado a se portar de modo que sorria um pouco mais e não olhava mais por cima do ombro de Dan. – Quando recebemos o seu currículo, nós dois percebemos que precisávamos de você como parceiro. Você é o tipo de profissional que faz a empresa se mover.

Aquele comentário fez o coração de Dan aquecer de forma que apenas Lúcia e tudo que a envolvia fazia. Era como se dentro desse mundo particular só existisse ela e sua bondade infinita.

Os dois passaram o restante dos minutos conversando sobre muitas coisas, mas nada além de trabalho. Lúcia parecia alguém muito reservada sobre a sua vida pessoal e Dan não tinha vontade de saber sobre a vida maravilhosa que ela e seu marido viviam entre quatro paredes. Tudo o que ele aproveitava eram aqueles momentos a sós com Lúcia sendo alguém fora do trabalho, algo na linha entre conhecidos e amigos tomando um café informal. Lúcia rira com ele quando ele comentou o fato de apenas ele ter vestido uma roupa tão formal para viajar com seus colegas de trabalho e o fato de que ele passaria mais de doze horas dentro de um avião usando terno e gravata.

—Acho que isso sim é o que se pode chamar de “workaholic”! – brincou.

—Você pode tirar esse paletó, a gravata e podemos comprar um sapato mais confortável! – Lúcia sugeria ainda rindo um pouquinho. Ela estava completamente informal e maravilhosa. Usava um sapato baixo de couro preto, calça comprida de moletom cinza e uma camisa de manga que dizia “Lute como uma garota!” em letras garrafais. Era a imagem da super-heroína dos seus sonhos.

Ele e ela passaram em uma loja onde vendiam chinelos e sapatos, compraram um par de chinelos e em seguida, enquanto Lúcia conversava com outros colegas de trabalho além dele próprio, Dan foi ao banheiro e trocou de roupa. Tirou o paletó, ergueu as mangas da camisa social branca até o cotovelo, calçou o chinelo e voltou para onde todos se agrupavam a fim de finalmente seguirem viagem rumo aos EUA.

Quando o viu, Dan teve a curta impressão de notar uma faísca passar pelos olhos de Lúcia, contudo seu cérebro logo tratou de apagar essa impressão fazendo seu coração acreditar que ela apenas estava olhando sem nenhuma intenção.

Os dois continuaram falando sobre a palestra mesmo após todos embarcarem no avião. Como Gustavo era seu acompanhante inicialmente, Lúcia e Dan sentaram-se lado a lado, o que facilitou bastante a interação dos dois. Conversaram sobre como Lúcia estava se sentindo em relação a sua apresentação; como seria maravilhoso passar um tempo aproveitando os mares californianos e o ambiente; debateram sobre questões como o fato de dentro de uma empresa como a High Investimentos ainda existirem tantos gargalos nas questões de gênero e tantos outros assuntos.

—Estou ficando um pouquinho cansada... vou dormir. – avisou, recostando o encosto de seu assento e se preparando para deitar-se.

—Boa noite, Lúcia!

—Boa noite, Dan! Durma bem! – falou. Não demorou muito para que Dan ouvisse o som sereno e rítmico de sua respiração tranquila e serena. Música para ouvidos tão deslumbrados quanto os de Dan. Ele próprio passara algum tempo ouvindo apenas aquele som dentro do avião antes de fechar completamente seus olhos e apagar completamente para o sono que abraçava seu próprio corpo.

Dan fora acordado pelo aperto suave da mão de uma das aeromoças em seu ombro esquerdo. Olhou para fora pela janela e notou que ainda estava escuro e sem entender o motivo daquilo olhou para a aeromoça que sorria gentilmente quando disse:

—Desculpe incomodá-lo, senhor, mas você e sua esposa gostariam de cobertores e travesseiros?

Dan olhou para Lúcia que ainda dormia absorta sobre a pergunta da aeromoça e por isso não se preocupou em corrigir a tripulante. Percebeu também que a mão esquerda de Lúcia estava posicionada de forma que inconscientemente, ela havia agarrado a sua gentilmente. Sendo assim, respondeu:

—Gostaria de um travesseiro e um cobertor para ela, por favor.

Quando os objetos foram entregues pela aeromoça, Dan suavemente tirou sua mão do aperto de Lúcia e quando se endireitava a fim de colocar o cobertor sobre ela, pensou consigo mesmo que talvez se ela acordasse, poderia pensar que ele estava agindo maliciosamente, dessa maneira sussurrou:

—Lúcia... Lúcia... – disse ao pé do ouvido dela. – Você precisa de um cobertor.

—Lúcia... – chamou novamente. Ela apenas virou o rosto para o outro lado e nada respondeu. Como o pescoço de Lúcia estava inclinado totalmente para o lado direito, Dan pensou que ela pudesse estar numa posição desconfortável e resolveu colocar pelo menos o travesseiro atrás de sua cabeça. Agia como todo o cuidado do mundo para não a acordar e deixá-la mais confortável. Colocou a mão atrás da cabeça dela e com a outra fez o malabarismo de forma que sua cabeça ficasse reta.

Dan começava a se sentir orgulhoso do seu feitio quando de repente os olhos âmbar abriram-se demonstrando surpresa e confusão. Só naquele momento, quando sentiu o hálito quente de Lúcia sair de seus lábios, Dan percebera como seu rosto e o dela estavam tão próximos. Os narizes chegavam a se roçar um pouco quando ela ergueu a cabeça sem ainda compreender o que ocorria.

Ele sorriu constrangido e explicou:

—Perdão, Lúcia... você deve estar imaginando que eu sou louco. – voltou para o seu assento e fitou os dedos entrelaçados claramente envergonhado da forma como Lúcia o olhava. – Estava tentando colocar sua cabeça ereta...

Ela continuou encarando Dan como se ele tivesse três olhos ao invés de dois.

—Você dormia tão profundamente, a aeromoça me perguntou se você gostaria de um travesseiro e como sua cabeça estava numa posição desconfortável e eu te chamei, mas você não acordou...

—Você está engraçado ficando assim tão vermelho. – disse rindo baixinho com o desespero crescente em Dan. – Não se preocupe! Realmente foi... uma surpresa acordar dessa forma, mas eu sei que você não seria capaz de nada assim.

—Como sabe? – perguntou odiando-se por não ter se controlado a ponto de impedir que aquela pergunta saísse de sua boca. – Que vergonha, eu faço as piores perguntas.

Ela ria um tom mais alto quando explicou:

—Eu observo você às vezes e sei que você é sempre correto e gentil com todos. Acho que notaria a malícia em você se realmente existisse. Não precisa se preocupar. – ela falava olhando-o de maneira sonolenta, porém estava completamente acordada. Os olhos semicerrados fitavam na direção dos lábios de Dan quando disseram:

—Você é inofensivo.

—Ouch! – Dan brincou fazendo Lúcia sorrir um pouco mais. – Agradeço o elogio. Sabe, acho que isso tem a ver pelo fato de eu ter sido criado por mulheres... não sei, pode ser que sim, pode ser que não. Mas, gosto de pensar que foram aquelas duas mulheres que moldaram o meu caráter.

—Eu não sabia que você tinha duas mães. – Lúcia comentou inclinando um pouco para o lado a fim de olhar melhor para Dan.

—Sim, tenho. As duas agora estão em uma viagem de lua de mel, mas sempre mantemos contato. – Dan tirou de dentro do colarinho da camisa um cordão de ouro onde o pingente era um relicário delicado foleado em ouro com a forma oval. Ele abriu o relicário e disse:

—Essa aqui é Fernanda. – apontou para a foto pequena de uma senhora de cabelos grisalhos.

Lúcia não conseguia ver muito, mas percebeu que a mulher na foto sorria. Do outro lado havia a foto de uma mulher que aparentava ser mais nova que a outra. Muito mais nova. Ela encarou Dan um tanto quanto confusa no que ele respondeu:

—Essa é minha mãe Helena. Quando me deu esse relicário, ela me disse que se eu fosse carregar a foto dela, então que fosse a foto da melhor época da vida dela. Minha mãe Fernanda me disse que essa foto foi exatamente ela quem tirou de mamãe no dia que as duas se conheceram...

—Oh, isso é tão romântico!

—Sim! – ele sorria pensando nas duas. – Ambas estavam comprometidas com seus respectivos noivos, ainda que as duas não estivessem felizes. Então, minha mãe Fernanda que sempre acreditou em toda essa coisa de destino e astros, decidiu sentar-se perto de uma fonte próxima ao parque onde ela morava na época e pediu um sinal para desistir do noivado. Mamãe conta que assim que fez esse pedido mentalmente, ela sentiu uma mão pousar no seu ombro e – palavras dela – “Quando olhou para cima, viu a mulher mais bonita do mundo sorrindo” ...

—Nossa, Dan! Que história linda! – os olhos de Lúcia brilhavam e ela sorria de orelha a orelha ouvindo atentamente o que Dan contava. – E as duas se relacionaram logo?

—Ah, não! Elas levaram alguns meses para finalmente ficarem juntas. – explicou – Bem, depois de se esbarrarem no parque, minha Helena pediu informações para minha Fernanda e ambas se deram tão bem que decidiram andar juntas aqueles dias. Acontece que Helena vivia fora do país e estava apenas visitando a cidade de Fernanda, mas isso não diminuiu nem um pouco a amizade que as duas haviam criado. Depois de algum tempo, decidiram ficar juntas realmente e assim, minha Fernanda foi embora para fora do país também. Foram felizes para sempre até que eu nasci e elas então foram ainda mais felizes para sempre.

Lúcia e Dan sorriam um para o outro como se fossem amigos de longa data. E era exatamente assim que Lúcia se sentia em relação a Dan. Ele era como uma brisa fresca em meio ao turbilhão de problemas que pareciam surgir para ela nos últimos tempos. Decidida a não se deixar levar novamente pela onda de tristeza, ela voltou seus olhos para o agradável homem que lhe fazia companhia.

—Por que está desse jeito? – Dan perguntou tirando Lúcia do seu pequeno mundinho.

—Estava pensando na sorte que você tem.

—Tenho certeza de que você tem tanta sorte quanto eu. Qualquer pessoa que seja seu parente ou até mesmo amigo, com certeza vai concordar comigo. – novamente colocou a mão sobre a de Lúcia e de novo sentiu a corrente elétrica que só ela tinha o poder de despertar nele.

—Sim, eu tenho muita sorte. – sorriu.

Lúcia parecia pensativa aos olhos de Dan. Ele observava como ela rodava sua aliança de casamento ora sorrindo timidamente, ora ficando desapontada. Ele sabia que havia alguma coisa acontecendo, mas não tinha coragem de se intrometer dessa forma, por mais que seu coração doesse por não poder ajudá-la.

No dia seguinte, o desembarque fora tranquilo e a ida até o hotel onde estavam hospedados fora linda. Dan ficou surpreso por Lúcia solicitar sua companhia na ida para o hotel, entretanto a surpresa logo foi embora quando descobriu que junto com eles iria mais uma pessoa do escritório. Apesar de tudo, não fora difícil aproveitar o passeio com todos. Ao contrário de Dan – fazia anos que ele não ia à Califórnia -, os demais eram visitantes assíduos do estado americano e até conheciam novos lugares. Lugares esses que faziam questão de levar Dan para ele também se situar.

—Nós precisamos dar uma escapada. – um homem na casa dos quarenta falou olhando pelo retrovisor para Dan e Lúcia. – Você surfa, Dan?

—Sim. Podemos marcar!

—Lúcia, você gostaria de escarpar um pouco para a praia? – o homem olhou para Lúcia pela primeira vez desde que eles entraram no táxi. Ele parecia só direcionar sua atenção para ela quando lhe convinha e Dan não gostou de imaginar que alguém como Lúcia pudesse ser subjugada daquela forma.

—Ah, sim... isso é ótimo, Oscar. – o falso interesse na voz dela foi o que fez a atenção de Dan redobrar. – Mas acredito que talvez não possa sair nessa primeira semana...

—Não há problema! – interrompeu ainda encarando-a pelo retrovisor do carro. – Nós, os homens, podemos surfar e você pode aproveitar um pouco de sol.

O comentário aparentemente inofensivo de Oscar não passou tão despercebido para Dan ou Lúcia. Ambos se sentiam desconfortáveis, porém, Lúcia não sentia ânimo suficiente para questionar aquilo e Dan por sua vez não quis deixar Lúcia ainda mais constrangida pela nuvem negra que havia se formado dentro do táxi.

Assim que chegaram ao hotel, Oscar separou-se do casal e foi ao encontro de outros homens e mulheres que acenavam para ele. Lúcia e Dan se entreolharam, mas nada disseram, apenas sorriram. Foram juntos até o balcão da recepção do hotel e Dan fez sinal para que Lúcia fosse atendida primeiro. O atendimento dela não demorou muito e Dan ficou um pouco surpreso em saber que Lúcia havia reservado a suíte presidencial para ela e Edgar.

Ao notar a surpresa no rosto de Dan, Lúcia explicou:

—É uma longa história. – tinha constrangimento em sua voz.

—Não precisa se preocupar. Isso não me diz respeito. – sorriu solidariamente vendo o constrangimento retornar em Lúcia.

Ele entregou seus documentos para a recepcionista e vendo a demora com que a funcionária olhava para o computador a sua frente, Dan avisou Lúcia que seria melhor se ela subisse e fosse descansar o restante do dia. Contudo, antes dela dizer qualquer coisa a recepcionista falou:

—Desculpe senhor, mas não vejo qualquer reserva em seu nome aqui no nosso sistema. – a funcionária estava apreensiva.

—Como não? Talvez esteja no nome de Gustavo. – Lúcia se aproximou perguntando.

—Sim, foi o que imaginei, mas o senhor Gustavo apenas cancelou a reserva dele. – a recepcionista informou.

Lúcia sacou seu telefone de dentro da bolsa e começou a discar números enquanto Dan tentava resolver aquela situação no balcão.

—Não tem algum quarto disponível? Não me importo que seja mais caro...

—Desculpe senhor, mas estamos em alta temporada, nosso hotel, aliás, todos os hotéis na região estão cheios.

—Caramba, isso é um problema enorme! – Dan disse em voz alta. Ele esfregava a mão esquerda nos cabelos encaracolados como se o movimento clareasse suas ideias. Depois de alguns minutos tentando chegar em uma solução, se deu por vencido e perguntou a recepcionista:

—O que você sugere que eu faça?

—Olhe, senhor, o que eu posso sugerir é que o senhor tente alugar algum quarto por aplicativo. Talvez o senhor ache um imóvel vazia e perto daqui... quem sabe?

Dan pensei que aquilo não podia estar acontecendo. Ele iria se apresentar na manhã seguinte e agora precisaria correr a fim de encontrar um lugar para passar a noite. Ficou chocado ao pensar que Matilde pudesse ter se esquecido de checar algo tão banal quanto a reserva do hotel e ainda mais chocado pela ideia de Gustavo ter cancelado a reserva. O que ele faria agora? Precisava pensar rápido se quisesse passar algumas horas da noite que estava próxima descansando para a palestra no dia seguinte.

—Eu liguei para Gustavo e ele não sabe como cometeu um erro tão grave. – Lúcia voltou a se aproximar dizendo.

—Bem, eu também não esperava que ele cometesse esse erro ou Matilde, mas não há o que fazer.

—Como assim? Não tem nenhum quarto vago? – ele balançou a cabeça negando. – Então o que você vai fazer?

—A recepcionista me sugeriu procurar um imóvel particular para alugar por algumas noites, mas eu não encontro nada há menos de 20km do hotel.

—Calma, vamos pensar com calma... e se você pedir a alguém da empresa para dividir o quarto? Pelo menos até achar uma solução melhor. – Lúcia disse olhando em volta em busca de algum funcionário desavisado. – Acho que todos já subiram...

—Por favor, Lúcia, não precisa se incomodar. Eu alugo esse imóvel e venho para cá amanhã de táxi ou qualquer outra coisa.

—Não, não de jeito nenhum! Não viu como a cidade está cheia? Você levaria muito mais tempo para chegar aqui do que apresentando a sua sessão. – ela se sentara junto com ele no pequeno sofá da recepção do hotel. Encaravam o nada com cara de paisagem quando Lúcia deu um grito animado diante de algo que pensara naquele instante. – Já sei!

—O que?

—Você vai ficar comigo.

As quatro palavrinhas recém-saídas da boca de Lúcia foram também o motivo de Dan ouvir em seu interior a dualidade de pensamentos gritarem dentro de sua mente. Uma parte gritava em êxtase e a outra apenas dizia:

—“Você está muito ferrado!”

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.