Sonhos de uma noite de verão
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Emma
Regina olhou para mim perguntando se eu queria que ela trocasse de chalé, confesso que tudo seria mais fácil, poderia vir alguém mais descolada, mais acostumada com o nosso meio de convívio e talvez eu não tivesse que ficar medindo palavras. Mas eu não queria. Céus, a constatação disso foi como ter tomado um soco na boca do estômago. Regina era intrigante e nada nesse mundo me fazia parar quando algo me intrigava. E por fim, mas não menos importante, eu realmente acho que por baixo dessa pose de arrogante que ela mantém, há uma pessoa bacana. Ela só está na defensiva, pois está totalmente fora de seu ambiente.
—Não. – Respondo sinceramente e pude perceber quando ela exalou o ar de seus pulmões em sinal de alívio, fiquei realmente tocada. – A questão, na verdade, é se você quer ficar. Sei que é difícil se enquadrar em um lugar onde a maioria das pessoas já se conhece, principalmente quando essas pessoas são ligeiramente diferentes de você, e mesmo sendo tímida tem essa língua grande...- Ela riu.
—Eu.. eu... – ela não conseguia completar sua frase, parecia em uma luta interna com seus pensamentos, como se conversar e interagir não fosse algo comum para ela. Não era questão de timidez nem nada, deu para perceber, era questão de realmente não saber como colocar as palavras para fora.
—Você? – Perguntei com um sorriso a incentivando a continuar.
—Eu realmente planejei e contei cada segundo para essas férias e gostaria de desfrutá-la da melhor maneira, apesar de nunca poder se quer imaginar o que encontraria aqui. – ela riu me olhando timidamente — Eu nunca tive férias de verdade. Nem mesmo as viagens internacionais que fizemos em família podem ser consideradas férias. – disse com um pouco de tristeza. – Eu não quero ir para outro chalé. – disse por fim.
—Ótimo. – respondi subindo mais em sua cama até encostar à parede sem pedir permissão e Regina ao invés de se afastar de mim, me imitou o que me fez sorrir. – É sério que aquilo que comeu no jantar é o que costuma comer na escola? – perguntei tentando não transparecer pena ou mesmo deboche, só para prolongar a conversa e descontraí-la um pouco.
—Geralmente. Um pouco mais elaborado e refinado, mas é aquilo sim. – Ela sorriu de lado, um sorriso apertado quase que de vergonha.
—Garota, se eu fosse para sua escola teria sérios problemas psicológicos. – Eu disse e pela primeira vez a ouvi realmente rir. – Não é que você sabe sorrir. – Impliquei e ela me deu uma cotovelada no braço.
—Chata. – Me disse e eu sorri.
—Ao seu dispor. – Fiz uma reverencia exagerada e completamente desengonçada já que estava sentada e peguei o livro que estava entre a gente antes de voltar minha posição e comecei a folhear.
—Mas hem, alguém gosta de Tolstoi. – Ela me disse olhando para o livro que eu folheava.
—Você acha que só madames de classe que comem verduras e usam sapatinhos de boneca que leem Tolstoi? – Perguntei sorrindo sem olhar para ela e eu podia imaginar suas sobrancelhas erguidas e um bico formando em seus lábios. É engraçado como nós aprendemos rápido certas coisas.
—Eu não sou uma madame de classe. – ela rebateu contrariada e eu lhe olhei de canto de olho – Ok, tudo bem. – Ela revirou os olhos – Mas no máximo uma adolescente de classe.
—Adolescente de classe soa bem também! – rimos juntas – Mas respondendo sua dúvida, minha mãe é professora de literatura. Na minha casa, o cérebro – bati na minha cabeça com o dedo indicador — sempre veio antes do resto. Temos um quartinho que transformamos em nossa pequena biblioteca. Passei horas de minha infância ali lendo de tudo. Dos clássicos infantis à literatura russa.
—Minha mãe nunca apoiou qualquer tipo de leitura fantástica, clássica ou de momento. – Ela disse. – Somente literatura, livros de filosofia, antropologia, sociologia.
—É uma pena, realmente. A fantasia sempre me ajudou, dos piores aos melhores momentos. Essas histórias, os clássicos, minha mãe costuma dizer, que há uma razão para nós as conhecermos – Ela assentiu. – São uma maneira de lidarmos com o nosso mundo, um mundo que nem sempre faz sentido. — Ficamos em silêncio por alguns momentos antes dela falar novamente.
—Sua mãe parece ser uma pessoa adorável. – Ela alisava o lençol entre a gente suspirando. Parecia que mil coisas passavam em sua cabeça, e em meu coração um sentimento se aflorou e eu até me assustei com ele; eu queria desesperadamente saber o que passava em sua mente.
—Sim ela é. – Respondi por fim espantando essas sensações. — Afinal, Mary Margareth, ou Snow, como carinhosamente a chamamos é a mãe mais corujamente adorável que alguém poderia ter. – Ela sorriu quase emocionada.
—Suponho que vocês estavam me comparando com personagens de Harry Potter então? – Ela riu trocando de assunto.
—Sim. Estávamos.
—E qual é sua opinião? Quer dizer, você acha que eu sou a Mina...
—Mione. – A corrigi.
—Ok, Mione. Isso é bom ou ruim? – Mordeu o lábio inferior enquanto olhava para suas mãos que esfregavam uma na outra, o que percebi ser uma mania.
—Bom. – Ela arqueou a sobrancelha – Hermione, ou Mione para nós os íntimos – ela riu – era meio certinha e se achava dona da verdade no começo, mas na verdade era uma das pessoas mais leais da história. Certinha e dona da verdade, mas incrível. – Ela olhou para mim.
—Você acha que eu poderia ser assim? – Perguntou quase inaudivelmente.
—Irritantemente certinha? – Perguntei debochada e ela gargalhou. Aparentemente ela já estava se acostumando as minhas brincadeiras e eu as suas risadas.
—Não! – ela disse impedindo que as lágrimas saíssem de seus olhos – Incrível.
—Eu acho. – disse sem hesitar e seus olhos ficaram mais selvagens. Ela realmente não esperava essa resposta, Regina não parece notar como seus olhos falam por ela, e o quanto isso era encantador.
—Obrigada.
—Você não tem que agradecer.
—Por que vocês estão me classificando? – Eu sabia que essa pergunta chegaria uma hora ou outra, e eu realmente não queria mentir para ela. Se quisesse fazer isso funcionar deveria ser sincera.
—Precisamos avaliar a sua digamos predisposição a nos dedurar. – Respondi sem graça sentindo minhas bochechas corarem. Regina reparou e sorriu entendendo que eu não queria ofendê-la.
—Bom, acredito que você confie em mim. Mas acho que suas amigas não. – Eu não a respondi. Era verdade. As meninas não queriam confiar em Regina. Eu não as culpo. Na última vez que confiamos em alguém fora do nosso grupinho quase fomos parar na cadeia. E a culpa era toda dela. – Não vai contestar?
—Não. Você está certa. Primeiramente elas acham que você é certinha demais para nós. E com grandes chances de vir a nos dedurar. E em segundo lugar nós aprendemos a duras penas que as aparências enganam. Não as culpe, nós tentamos confiar em uma menina ano passado e nos metemos em grandes encrencas. A pose de certinha era só por fora. A garota era notícia ruim. Mas para minha defesa eu disse que ela era encrenca. – Regina riu.
—Se por certinha elas querem dizer; fugir de uma colônia de férias que custou milhares de dólares a sua mãe, comprar uma passagem de avião sem autorização falsificando a assinatura dela, parar do outro lado do país sozinha, então sim, eu sou certinha. – Eu não pude controlar minha cara de puro espanto. Eu jamais imaginaria que Regina tinha passado por tudo isso para estar aqui. Isso que era força de vontade.
—E eu aqui achando que nossas escapulidas na noite eram ações completamente rebeldes. Você nasceu para o mal. – disse rindo. – Regina Mills mostrando suas facetas?
—Então quer dizer que saem as escondidas a noite? – Perguntou ignorando meu questionamento.
—Não mude de assunto. – a cutuquei com meu cotovelo e ela riu.
—Talvez essa seja minha faceta verdadeira, a que eu não posso mostrar nunca. – Respondeu por fim – Mas então, vocês ficam saindo à noite? – Ela mudou novamente de assunto e eu entendi que ela não queria falar sobre isso e eu respeitei sua vontade.
—Claro que sim. Acha que esse lugar é simplesmente demais por quê?
—Por quê? – Suas sobrancelhas arquearam em diversão.
—Pelas maravilhosas festas noturnas, obviamente.
—E se eu não fosse uma pessoa confiável? – Ela arqueou uma sobrancelha me testando.
—Bem, eu tenho todo um arsenal de sonífero. – Ela arregalou os olhos para mim.
—Mentira.
—Verdade.
—Você me daria isso?
—Para garantir nossa diversão? Com certeza.
—Eu não acredito. – como eu não desmenti ela completou – vocês são cruéis.
—Haa são coisinhas naturais, não fazem mal. – disse simplesmente.
—Porque vocês são muito preocupadas com o bem estar dos outros.
—Sempre. – Nós rimos juntas mais uma vez e isso estava ficando constante.
—Sabe, eu nunca tive uma conversa tão longa com uma pessoa que não fosse minha irmã ou minha melhor – ela parou suspirando – e única amiga. A não ser que a conversa tivesse alguma outra intenção, mas por pura e simples interação, por gostar da companhia, ou por a conversa fluir, nunca. Pode ver de onde vem minha inabilidade social. – Ela corou ao terminar sua fala como se não acreditasse que ela realmente acabara de dizer isso.
—Isso me parece muito triste. Eu não sou muito de falar, gosto mais de ouvir. Apesar de ser ótima com as piadas rápidas, como já percebeu. – Ela sorriu para mim – Deve ser por conta da minha mãe, ela é a rainha do falatório, não temos chances com ela. Nunca vi alguém gostar tanto de falar. Meu pai deu graças a Deus quando meu irmão e eu chegamos a uma idade que interagíamos com ela. Deu um descanso no ouvido dele. – Regina gargalhou. – Mas então, gosta da minha companhia hem? – Sorri para ela a cutucando o lado que corou e eu tive que rir.
—Ham... é... – As palavras haviam engatado em sua garganta e suas bochechas coravam de uma forma adorável.
—A qual é! Eu sou completamente gostável. – fiz minha melhor cara de convencida – Até adolescentes de classe podem admitir.
—Sim você é. E completamente convencida também. – virei para o lado e lhe joguei um beijo convencido — Obrigada. – Ela disse e eu a olhei intrigada.
—Pelo que está me agradecendo agora?
—Por não prolongar a parte triste de minha vida solitária e procurar me fazer sorrir. Você não tinha que fazer isso.
—Bem, essa sou eu. Mas como disse, eu sou uma boa ouvinte. Quando se sentir confortável para falar e quiser fazê-lo é só me falar. – Ela sorriu igualmente agradecida e surpresa.
—Eu quero muito aproveitar essas férias como uma adolescente normal, sabe? Sem a pressão das minhas responsabilidades pairando sobre as minhas costas. Sem o nome dos meus pais vindo à minha frente. Quero desfrutar de cada segundo, porque a qualquer momento minha mãe vai descobrir que eu não estou onde deveria estar e moverá céus e terras para saber meu paradeiro. Com certeza ela vai me rastrear. – seu rosto assumiu uma face preocupada como se ela já estivesse prevendo a terceira guerra mundial.
—Sério, estou tipo com medo de sua mãe. Ela é o que? Darth Vader, aquele que não deve ser nomeado, coração gelado? – Vi sua expressão entristecer. – Hey, — peguei sua mão — eu não queria falar mal da sua mãe nem nada. Desculpe. Eu tenho essa língua maior que minha boca. – Me amaldiçoei mentalmente por ser tão desbocada as vezes.
—Não, tudo bem, é só que você não está muito errada. Ela é uma grande mulher, grande advogada, grande executiva e deu a mim e a minha irmã tudo do bom e do melhor, mas uma coisa que ela nunca soube dar, e que nós mais precisávamos, era carinho. Nunca tivemos. Algum abraço ou colo de mãe. Nada disso. Ela sempre nos dizia, você é uma mulher forte, engole o choro, mesmo que tivéssemos acabado de cair da bicicleta e ralado o joelho aos cinco anos de idade. – ela parou suspirando tristemente – Sentimentos, Regina, são uma fraqueza.
—É uma filosofia dura. – Eu não tinha nada a mais a dizer. Minha mãe era o completo oposto. Para ela tudo curava com um beijo de amor verdadeiro. Do joelho ralado a um coração partido.
—Sim.
—Não me espanta todo o seu trabalho para estar aqui.
—Pois é.
—Morena — ela olhou para mim franzindo o cenho pelo apelido – eu prometo fazer dessas oito semanas as melhores da sua vida.
—Você não precisa sacrificar suas férias por minha causa. – Ela disse quase que em um tom agressivo. Olha, que garota difícil.
—Quem disse que fazer você se divertir e me divertir no processo é sacrificar alguma coisa? – Perguntei a encarando com um sorriso zombeteiro.
—Eu, há, não.... – ela estava sem palavras. – Ninguém nunca fez algo parecido com isso para mim. – Assenti sorrindo e uma necessidade de ver essa menina feliz nascendo em meu peito – Sabe, eu me fiz uma promessa...
—Que promessa? – Não consigo esconder minha crescente curiosidade por essa garota.
—Que enquanto eu estivesse aqui eu me permitiria viver como a Regina que eu sempre quis ser. – Seus cabelos escuros um pouco abaixo do ombro caíram cobrindo seu rosto na medida em que ela abaixava a cabeça envergonhada, como se ser ela mesma fosse algum tipo de crime. Não podendo novamente me conter, coloquei minha mão em seu queixo e a forcei olhar para mim. O que ela fez com certa surpresa.
—Você acabou de encontrar uma amiga para te ajudar com isso. – seus lábios se separaram brevemente – Se você permitir.
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Narrado pela autora
Regina olhava para a loira a sua frente consciente de que já se passara muito mais tempo do que o aceitável para que uma resposta viesse, mas ela simplesmente não conseguia formular uma réplica. Tudo era muito novo para ela. A garota não era acostumada a esse carinho gratuito, principalmente de alguém que acabara de conhecer.
Em seu ambiente as relações eram restritas a conversas sobre posses, carreiras, nada que a interessasse em demasiado. As meninas não se interessavam muito em ter sua companhia, em grande parte por conta de Ariel, pois a garota não era da mesma classe social delas. Regina não achava isso ruim, ela jamais trocaria Ariel por qualquer uma.
Mas tinha uma coisa em especial que era realmente uma novidade para Regina, o toque de Emma. Nem mesmo Ariel tocava em Regina sem que ao menos fosse necessário. A morena geralmente recusava toques sem sentido e se afastava deles, uma reação automática de autopreservação. Era assim que acontecia, não havia controle algum sobre isso.
Até esse momento.
As almofadas macias dos dedos de Emma lhe tocavam gentilmente a parte inferior do queixo colocando o inferno para fora dela com a corrente elétrica que parecia transportar da pele pálida para a de tom oliva. A mente de Regina lhe gritava para que ela se afastasse desse toque, mas pela primeira vez na vida a morena não queria de forma alguma que o contato acabasse.
Mas o destino quis terminar o momento mais sincero da vida da morena fazendo a porta do chalé se abrir em um supetão passando por ela Belle, Dot, Ana e Elsa. Regina estava plenamente consciente de que estava na mesma posição e mais consciente ainda de que os dedos da loira já não faziam mais contato com sua pele, o que de uma forma nova e estranha foi terminantemente desagradável. Emma folheava o livro calmamente como se estivesse fazendo isso há horas e Regina teve que fazer um enorme esforço para relaxar e volta sua atenção para as pessoas que agora se aglomeravam no quarto.
As garotas entraram no quarto falantes e pediram muitas desculpas pelo que acontecera no almoço. Estavam dispostas a aceitar o julgamento de Emma sobre a morena, mas Regina não perdeu o olhar férreo de Belle em cima dela desde o primeiro segundo que entrara naquele quarto. Ela havia percebido o clima que estava ali, ela havia percebido o quanto Regina parecia, de alguma forma, afetada. E o pior de tudo era que, ela havia feito Regina perceber isso também e se perguntar o que teria acontecido depois. E, ainda, desejar ardentemente o que sua mente projetou.
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