Sonhos de uma noite de verão
28 Capítulo 28
Notas iniciais
Capítulo 28
Narrado por Emma
Eu não queria olhar para ela. Eu não podia olhar para ela. Mas quando se tratava de Regina eu não tinha comando de mim mesma. Seus olhos cor de amêndoa estavam tão claros naquela manhã nublada que eu poderia olhar para eles pelo resto da vida. Mirando para aquelas orbes era como se os últimos anos não tivessem acontecido, como se eu voltasse aquela tarde de verão em Santa Monica, era familiaridade, era lugar certo para se habitar.
Mas havia o pedido de guarda pesando como um tijolo dentro da minha bolsa. Pensar nisso me deu força e raiva suficientes para desviar os olhos do mar revolto em minha vida que era Regina Mills.
—Não posso. – disse exaltada num quase choro. Eu não podia, por mais que eu quisesse. – Não posso olhar, não posso estar perto de você agora.
—Me de uma razão e vou embora. – Suas mãos sacudiam meus braços em desespero. – Só uma. Não precisa ser nada lógico, mas me dê uma explicação. — Puxei meu corpo de seu aperto muito irritada indo até minha bolsa, se ela queria eu ia dar, tirei os papeis de lá.
—Se Regina Mills quer uma razão, ela vai ter sua razão. – Gritei – Aqui está uma ótima. – Joguei a petição e a intimação em cima dela que quase se desequilibrou com o susto. Regina pegou os papeis desajeitada e pude perceber que logo reconheceu o selo da justiça. Conforme ia lendo sua expressão ia mudando de choque para a incredulidade, da incredulidade para o ódio, do ódio para a compreensão e da compreensão para um medo profundo. Como eu ainda sei ler suas expressões eu não faço a mínima ideia.
—Você não está achando que eu tenho alguma coisa com isso, está? – Ela perguntou com a voz tremendo. O pavor estava tão bem estampado em seu rosto que me desconcertou todo medo dirigido a mim naquele momento.
—Eu não preciso achar nada. Está escrito aí. Você vai casar com ele e formarão um lar estável e longe de influencias ruins e que vão contra a família tradicional americana. – minha garganta doía não sei se pelo fato de estar gritando ou por sentir ela seca. Alias, me sentia toda seca. Como uma planta morta. – Ele quer obrigar a justiça a fazer o teste de paternidade e tomar meu filho de mim. Aquele monstro quer o meu filho. – eu sei que estou descontando minha raiva em Regina mesmo quando meu coração está me dizendo que ela realmente não tem nada com esse pedido de guarda. Mas eu preciso descontar minha raiva em alguém, e ela parecia disposta a recebê-la.
—Emma – meu nome tremeu em sua voz – eu não vou me casar com Neal, ainda mais depois de saber o que ele fez com você. Porque eu acredito que ele tenha feito. Eu acredito em você. E eu não tenho nada a vê com isso. Eu não vou à empresa ou no escritório desde que dei entrada no hospital. Eu vou sair de lá eu não quero mais isso para minha vida. Eu não faço parte disso. Essa procuração é padrão, essa folha é padrão, mas eu vou renunciar meu mandato. Agora mais do que nunca eu sei que minha mãe fez isso para atingir a você. Isso, isso é ideia dela. – ela falava apressada e desesperada e como se uma luz tivesse se acendido em sua cabeça e as coisas pudessem fazer sentido. Talvez faziam. Mas só para ela. – Céus. Minha mãe fez você perder o emprego no NY Times. – As lágrimas voltaram aos seus olhos e uma mão cobriu sua boca para esconder um soluço. – Eu sinto muito, eu...
—Chega Regina. Chega. Eu não quero ouvir mais nada, minha vida já está bagunçada demais para... – Eu não podia ouvi-la mais. Eu não podia acreditar que tudo que passamos e que passei nesses últimos meses é por causa da mãe de Regina. Mas era tão óbvio, ela sempre dissera o monstro que a mãe era.
—Acredite por tudo que é mais sagrado. Eu jamais faria isso com você e Henry, confie em mim eu posso ajudar... pelo amor de qualquer coisa acredite em mim ... Aceite minha ajuda. – suas mãos voltaram para meu antebraço, seus olhos cravaram aos meus desesperados e eu já não tinha mais forças. Eu não tinha mais condições de lutar. Eu nunca conseguia admitir, mas eu estava num beco sem saída, e estava exausta demais para achar uma solução. E Deus sabe que eu preciso de toda ajuda possível.
Narrado pela Autora
—Estou tão cansada e eu não sei o que fazer... — Emma disse amargamente caindo em um pranto soluçante. Sua testa foi de encontro ao ombro esquerdo de Regina e suas mãos para a camisa de seda que já não estava tão bem passada. Deixou-se desabar exausta de sempre ter que lutar. Ela precisava desesperadamente acreditar em Regina, ela não tinha outra opção.
A morena ficou estática com ataque repentino da mulher. Sentia sua blusa encharcar no lugar em que Emma se apoiara. Mas o transe durara muito pouco. Suas mãos saíram dos braços e passaram para as costas e cabelos num toque gentil e acolhedor. Para Regina era como se ela pudesse sentir a dor que Emma estava sentindo em cada soluço. No seu egoísmo e ódio desenfreados jamais poderia ter imaginado o que a loira tinha sofrido. Ela teve um coração partido por um amor de verão, e foi um grande sofrimento para ela, mas percebeu agora que Swan teve uma vida de provação. E nos últimos dias, tudo foi por sua causa, por ela ter entrado em sua vida.
Enquanto acariciava os cachos loiros em movimentos lentos Regina deixou uma raiva até então desconhecida tomar conta de si, era uma bomba prestes a explodir e a morena tinha medo do estrago que poderia fazer. Ela precisava colocar a cabeça no lugar para saber agir. Ela tinha pensado em sair dessa vida de advocacia, de grandes negociações e jogos de tabuleiro, mas ela tinha mais um caso, seu último caso. A loira tremia em seus braços e a mulher não imaginava palavras que pudessem consolá-la. Lembrou-se de uma canção que a ouvira cantarolar certa vez que nunca mais esqueceu e começou a cantar “trust I seek and I find in you. Every day for us something new open mind for a different view. And nothing else matters. Never cared for what they say. Never cared for games they play. Never cared for what they do. Never cared for what they know.”
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Ruby que roia as unhas com as coisas que ouvia pela porta entreaberta do seu quarto saiu para o corredor quando começou a ouvir o soluço desesperado de Emma. A cena que presenciou a seguir a fez estancar em seu lugar. A loira se agarrava em Regina aos prantos enquanto a morena cantarolava uma das músicas preferidas da mulher num gesto tão consolador que a morena chegou engolir o próprio choro. De repente Mills levantou os olhos ainda cantando e encontrou seu olhar com a da outra e então Ruby percebeu, e mais tarde teria que admitir em voz alta, que a melhor amiga estava em boas mãos.
Virou novamente e voltou para o seu quarto.
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Quando os soluços diminuíram até não restar mais do que um fungar de leve Regina encaminhou Emma para o pequeno sofá sentando ao seu lado e ficaram ali lado a lado olhando fixamente para a mesinha de centro que continha as fotos, as bolsas de ambas e a petição. Cada uma estava perdida em seus próprios pensamentos tentando assimilar os últimos acontecimentos de suas vidas. O ódio que Regina sentiu por Emma sendo canalizado para outro setor de sua vida, a compreensão e a aceitação entrando no coração da loira.
Mas o que era mais marcante nesse momento para ambas as mulheres era que, sentadas lado a lado, ao invés de estranheza encontravam familiaridade. Ao invés de raiva, sentiam gratidão. O silêncio nesse momento era conforto e passeava entre as duas colocando os sentimentos em seus devidos lugares como um apaixonado por livros arruma seus volumes na estante.
_Sou eu contra um império Regina. – Emma disse num fio de voz ainda olhando para os papéis. – E nessa guerra eu sou um mero soldado do front, o infeliz que é enviado para morrer.
_Não. – a morena respondeu depressa fazendo a loira olhar para ela – Você não está sozinha nessa Emma, somos nós contra eles. – disse com determinação cobrindo as mãos de Emma com as suas.
_Você entende que eu não posso lidar com isso agora? – disse olhando para as suas mãos que estavam cobertas pelas de Regina.
—Emma, o que aconteceu conosco aconteceu, ambas fomos feridas nesse processo. Eu percebi que sou boa em muitas coisas, mas esquecer você não foi uma delas. – olhou para suas mãos unidas — Mas sei reconhecer que não é hora para resolvermos isso. – o coração de Emma batia em sua boca — Duas certezas eu tenho; que o tempo não volta e que não sei o que será do futuro. Eu nem sei se você acredita de verdade em mim, no que eu te contei, mas esse não é nosso foco agora. Eu sei que eu posso deixar toda nossa história de lado e preciso que você faça o mesmo. Henry precisa que você faça isso. – Regina dizia séria assumindo a postura de advogada. – você pode?
_Sim,... acho que sim. – Emma respondeu meio relutante.
_Não Emma. Eu preciso da sua certeza. Preciso que esteja cem por cento comigo nessa. Terá que confiar em mim e no meu trabalho. Minha mãe jamais jogará limpo. Ela teve muito esforço para me controlar nessa vida, para me fazer de sua marionete e você era e continua sendo um empecilho para ela. Ela quer te destruir, te eliminar, te por contra mim. Preciso que confie em mim para que ela não consiga fazer isso. Está comigo? – A morena olhava nos olhos da loira com uma convicção que não podia ser ignorada.
_Sim. Estou. – Emma respondeu firme. – O que precisa?
_Cora usará de todas as suas armas. – a loira olhou para ela com confusão nos olhos. – quero dizer que se ela precisar comprar alguém ela vai comprar. Compreende?
_Sim.
_Eu tenho certeza que isso foi ideia dela. – Regina pegou os papeis em suas mãos analisando, se ela não tivesse dito com todas as letras que detestaria advogar Emma poderia jurar que a morena nasceu para isso. A concentração fazia a veia em sua testa saltar e seus lábios formavam um bico que volta ou outra era desfeito para que pudessem ser prensados entre os dentes – Nós temos prazo de vinte dias até a audiência. É muito pouco tempo — a morena parecia conversar consigo mesma — Eu preciso colher o que posso antes de sair da Mills. – Havia um tom de tristeza em sua voz.
_Você tem certeza disso Regina? Tem certeza que quer sair de lá? — Emma perguntara genuinamente preocupada com a outra. — Eu não quero que se obrigue a fazer alguma coisa porque acha que me deve algo. Porque nessa história de dever alguém sou eu quem está em débito com você.
_Quer saber – olhou para a loira ao seu lado – Zelena, quer dizer Rebbeca, — ambas riram – acho que não vou me acostumar com isso, — balançou a cabeça — sempre teve mais tino para os negócios que eu. Ela seria uma ótima administradora da empresa, mas nunca quis ser Advogada também e para Cora isso era um requisito. E ela podia ter feito a faculdade para a administração e se daria muito bem nos negócios, ela administra um bar não é mesmo? Eu estou triste porque é o ultimo elo que sinto estar rompendo com meu pai. Nada mais. Eu nunca gostei do meu destino escrito pela minha mãe. Eu tenho dinheiro de sobra porque gostando ou não eu sou uma advogada muito boa. Fodona como você diria... — a morena disse fazendo a loira rir.
_É bom saber que a modéstia está como sempre esteve. – ambas gargalharam.
_Fatos são fatos, aceite. Eu quero seguir minha vida. Eu não estou fazendo nada como obrigação e você não me deve nada. Tem que entender isso. – Regina olhou para a loira – pode entender isso?
_Posso. Mas Regina – Emma corava lentamente antes de continuar – Eu não posso te pagar pelo serviço. As despesas de Henry são altíssimas no hospital mesmo com o plano ajudando a cobrir coisa ou outra – a morena piscou aturdida deixando a loira confusa – olha eu não estou arrumando desculpa para não te pagar, acho que posso fazer isso quando meu filho sair do hospital, só não posso pagar agora, droga – ela suspirou forte – acho que nem em um futuro muito próximo... o que foi por que esta me olhando assim?
_Estou passando essa conversa mentalmente para descobrir onde falei sobre pagamento... – a morena respondeu ainda olhando desconcertantemente para a loira.
_Regina...
_Eu sei Emma, sei que você é a senhora certinha e tal que não gosta de dever a ninguém e que acha que o mundo deve ser carregado em suas costas, mas você precisa esquecer isso pelo bem de Henry. Pelo sucesso dessa ação. Eu vou te ligar quando tiver dúvidas sobre alguma coisa ou outra e você tem que me ligar imediatamente quando se lembrar de algo e para isso não pode achar que está me incomodando só porque não está depositando dinheiro em minha conta. Olha – a morena apertou as têmporas tentando colocar as palavras numa ordem que Emma pudesse compreender e não achar que ela estava sendo meramente demagoga ou que estivesse pretendendo algo mais – se você quiser me pagar com dinheiro eu não vou me opor. Te darei um valor que você terá que aceitar e poderá me pagar quando tiver condições se isso for acalmar seu coração. – Emma assentiu – Mas ver a verdade ser revelada, estar aqui hoje, ajudar Henry, ajudar você, está sendo um caminho de volta para encontrar a mim mesma, e não existe preço para isso.
Swan olhava para Regina e podia ver a verdade de suas palavras estampada em seu rosto. Podia perceber que nesse longo tempo a morena também sofrera muito e não era única e simplesmente porque perdera um amor de verão ou fora enganada por ele, mas porque por tanto tempo sua verdadeira essência foi sugada, drenada e pior, oprimida. Regina não podia ser Regina e a loira duvidava que existisse dor maior que essa.
_Nós podemos ver isso depois. – Emma disse depressa demais e Regina riu, pois sabia que a loira entendia seu ponto de vista, estava abalada por seus discurso, mas a centelha da teimosia continuava brilhando em seu olhar.
_Certo. Isso pode ser visto depois. Agora precisamos trabalhar. – aloira assentiu. – eu tenho uma ideia de uma tese – disse receosa olhando para a outra com o canto de olho – tem cinquenta por cento de chance de dar certo, mas não sei se é algo que vai gostar de mexer.
_Manda. – Emma disse sem olhar para a outra sentindo todos os seus músculos retesarem. Regina tomou um suspiro ates de continuar.
_Podemos tentar comprovar o abuso que você sofreu. – Regina disse e as palavras pairaram no ar por alguns instantes. – Há outras maneiras embora, podemos contradizer tudo o que ele disse nessa inicial, mas aonde quero chegar é que, preste atenção, eu não posso falar que você foi abusada por ele sem provas. Eu estaria cometendo um crime. Se formos olhar as perspectivas, no caso de vir um exame de DNA vai dar positivo, certo? – Emma assentiu – Então, Neal tem nome e tem costas quentes, e acima de tudo tem dinheiro. Minha mãe usou o dinheiro para te colocar para fora do NY Times, as pessoas costumam dizer que dinheiro não faz diferença, mas faz. No final das contas faz. Eu só posso esperar o pior vindo deles. Nós temos que ter o pior para oferecer também. Eu sei que vai ser doloroso mexer com isso, mas juiz nenhum no mundo pode ignorar uma situação dessas.
Emma olhava fixamente para um ponto especifico absorvendo a proposta de Regina. Ela não queria admitir, mas a mulher estava certa em cada uma de suas palavras. Durante muito tempo ela achou que iria sucumbir à tristeza quando foi abusada, mas logo veio Henry e mesmo sabendo que ela poderia não ter dado continuidade a gravidez ela simplesmente não pôde e durante muito tempo não teve tempo de pensar em nada e então veio a doença e ela já não pensava mais nela. Ouvir a morena falando em provar que foi abusada acordou um sentimento dentro do seu peito que ela achava que havia morrido, mas que na verdade estava apenas trancafiado num calabouço escuro dentro de seu coração.
Mesmo sabendo o quão doloroso seria rememorar aquela fatídica noite, apenas a possibilidade de se fazer justiça passava por suas veias como um estimulante agitando suas células numa vibração que não podia ignorar. Ela queria isso. Ela precisava disso. E não era pura e simples vingança, não. Ela percebeu, naquele instante, que não sentia ódio, era mais que isso, uma dor profunda, que vinha do seu mais profundo íntimo. Uma dor por todas aquelas que não sobreviveram, por todas aquelas que não suportaram. Por todas aquelas que se perderam dentro de si. Por todas aquelas que foram destruídas por um monstro
Never cared for what they say. Never cared for games they play. Never cared for what they do. Never cared for what they know. And I know...
Regina avaliava o silencio da outra mal ousando respirar. Ela sabia o quão doloroso deve ter sido para Emma toda essa situação e que remexer nisso é por um dedo em uma ferida que provavelmente nunca cicatrizara. Mas ela precisava ter essa arma em mãos. Ela precisava do consentimento de Emma para ir a fundo nessa história, e muito mais do que isso, ela queria colocar Neal atrás das grades que era o lugar onde ele pertencia. Ela queria mais que tudo fazer justiça por Emma.
A morena já estava pensando que essa tinha sido uma péssima ideia quando Emma olhou para ela, e o que viu refletido em seus olhos foi força, coragem e a determinação que sempre havia admirado nela.
_Acho que eu preciso te contar uma história então... – a voz da loira tremia ligeiramente.
—Eu estou com você nessa. – Regina colocou a mão no ombro da outra e Emma assentiu antes de puxar o ar para dentro dos pulmões e começar a narrar.
So close no matter how far. Couldn't be much more from the heart. Forever trusting who we are. And nothing else matters.
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