Sonhos de Menina
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Perder seu emprego não foi tão triste quanto imaginava, trabalhou naquela loja por um ano, mas não lhe trazia alegria e sim alguma estabilidade. Sentia-se assombrada apenas em lembrar de como foi difícil sua infância, não queria e não iria passar por aquela situação novamente, lutou muito pra acabar de volta a miséria. O dinheiro de seu pequeno acerto manteve guardado em sua conta no banco.
Se perguntando o que faria acabou ligando para a ex de seu irmão, porque ela era uma boa pessoa e a ajudaria. Se voltasse a trabalhar para Luísa, também teria que voltar a favela que não era tão distante de sua nova casa quanto seu antigo emprego, teria que refazer aquele caminho e enfrentar as lembranças difíceis. De cabeça erguida caminhou até a praça onde Luísa pediu para encontrá-la, não se envergonhava em pedir emprego.
Luísa estava sentada com as mãos em sua barriga já grande, seu olhar cansado, um corte em seu lábio inferior, uma mancha roxa abaixo do olho esquerdo. Um arrepio subiu pelo corpo de Carol. Luísa, mestiça de pele clara e cabelo crespo, sempre inspirou nela coragem por ser sua própria chefe, mulher que aos poucos conquistou sua vitória, casa, moto e independência, mas aquela Luísa sentada com os ombros escolhidos sem sorriso, de cabelos presos em um coque e em vestido com mangas longas em um dia de sol era um fantasma, uma mulher tentando desesperadamente se misturar em meio a multidão.
“Lu.” Carol abraçou sua amiga grávida. A força de Luísa estava desaparecendo junto as lágrimas que molhavam a blusa de Carol.
Ela se lembrava do dia em que beijou um menino na escola, a euforia de ser como suas amigas que já tinham namorados e ela aos quatorze anos nem um beijo tinha ganhado. Foi sorrindo para casa, suas amigas contavam que logo perderia a virgindade e seria como elas, mais mulheres que meninas. Carol não sabia se estava pronta pra se tornar mulher, mas todas agiam como se fosse a melhor coisa do mundo. Luciano logo soube de seu primeiro beijo, chegou tarde do trabalho mas a acordou balançando seus ombros e disse: “Você não é como essas meninas Caroline, não se ilude não. Não deixa ninguém te encostar. Não pensa que ele vai te sustentar se arrumar uma criança, olha a mãe.”
Carol riu do exagero de seu irmão, o abraçou agradecida por seu cuidado mas no dia seguinte se pegou observando sua mãe, os vizinhos diziam que era moça bonita em sua juventude, mas esqueciam que sua mãe tinha trinta anos. Em seus trinta anos dona Maria andava com ombros caídos, seus cachos desgrenhados presos em um rabo de cavalo, roupas largas para que ninguém percebesse que seu corpo já não era o mesmo, com olhos roxos de noites mal dormidas e olhar cansado da vida sofrida.
Luísa tinha um olhar parecido com o de sua mãe apesar de ser mais velha, dona Maria engravidou aos quinze anos, sua amiga aos vinte e cinco. Carol não sabia o que era pior, ter um marido mas acabar cheia de hematomas, com medo de voltar para casa, ou não ter marido e acabar passando fome por não ter ninguém para cuidar de seus filhos.
“É um menino.” Contou Luísa depois de se recompor, elas compraram açaí e tentavam ignorar toda a tristeza daquele momento. “Acho o que o nome dele será Luciano.”
Carol sorriu e apertou a mão de sua amiga, ela nunca soube se seu irmão amava Luísa porque depois de algum tempo ele se tornou muito bom em esconder o que sentia mas ele sempre estava com Luísa, talvez ele não soube como amá-la mas deixou lembranças que a faziam chorar ao contar para Carol sobre os momentos que teve com ele, no fim do choro vinha sempre um sorriso.
“Acho que ele queria uma família de verdade.” Disse Carol apertando a mão dela novamente. “Só você poderia dar isso a ele.”
Luísa suspirou e abaixou a cabeça. “Sinto muito por não ter um emprego pra te oferecer Carol, estou indo embora, estou vendendo tudo e vou para Espírito Santo.”
“Sozinha?” Perguntou curiosa, quando sua amiga assentiu sentiu um alívio, estava fugindo e talvez fosse melhor.
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Estava dentro de um trem, sozinha naqueles vários vagões observando passar a paisagem, era trem antigo mas que ia rápido feito bala, com bancos acolchoados vermelhos, não tinha cheiro de nada mas uma música suave tocava ao fundo, The Beatles que sua mãe tanto amava, as vezes a deixava ouvir seus discos quando era mais jovem. Sua mãe contava de uma vez em que foi visitar um parente que morava em Vitória quando era jovem junto às suas irmãs mais velhas, reclamou que passou mal, era mal cheiroso e lhe deu dores de cabeça mas só sofreu tanto porque estava grávida de Luciano.
Carol não sofreu naquela viajem, gostava de observar as árvores e sentir o vento no rosto, a música era agradável e a trazia paz que tanto faltava em seus dias.
“Pra onde vai?” Perguntou Gabriel sentando-se a sua frente, ele vestia uma roupa social, calça e colete, sem o paletó, com uma camisa branca.
“Pra lugar nenhum.” Respondeu dando os ombros, olhou pela janela percebendo que o trem já não andava tão rápido e sim de vagar como sua mãe havia contado.
Lá fora havia ventania e folhas secas voavam invadindo o trem, junto à ventania também vinha dentes de leão, colorindo o céu azul com seu tom amarelado e branco. Carol estendeu um braço para fora do trem usando o outro para se equilibrar, esticou o rosto sentindo o vento e os pequenos dentes de leão fazendo cócegas em seu rosto e braço, sua mão estava aberta esperando capturar um pequeno fragmento mas estava sem sorte. Era engraçado, estar sem sorte em pegar uma coisa que a representava, mas sorriu, voltou a sentar-se desistindo de sentir a sorte. Gabriel estava lá, sorrindo e com as mãos fechadas, cheias de alguma coisa.
“O que foi?” Questionou confusa, ele abriu as mãos cheias de dentes de leão e sobrou em seu rosto.
Carol fechou os olhos e não pode evitar um riso tímido, seus cachos provavelmente estavam cheios dos pequenos dentes de leão mas o momento era divertido então abriu os olhos, Gabriel a olhava sério, ao encontrar seu olhar tratou de desviar sem sorrir, foi estranho, mas era um mundo estranho aquele de sua mente.
Gabriel tinha mania feia de a encara por tempo demais, em seus encontros nos sonhos o pegava sempre a observando com curiosidade, não poderia negar que ele era lindo mas não se prendia a aqueles momentos. Era sonho, seria estúpido de sua parte acreditar que alguém como ele a olharia assim, jamais aconteceu na vida real, era coisa de sua mente querendo dar a ela alguma autoestima.
“Vai pra onde?” Perguntou ela encolhendo as pernas, seu vestido azul estava coberto de dentes de leão, ela se pós a tirá-los mesmo que fosse uma visão engraçada e com certo charme.
“Vou me formar.” Respondeu ele ainda distraído olhando pela janela. “Sou médico agora.”
Carol parou o que fazia e levantou o olhar para Gabriel fixando-se nele, seu cabelo estava desgrenhado, sua roupa alinhada, ele não parecia contente, como um sonho poderia ter tanta personalidade?
“Queria ser alguma coisa assim.” Disse ela o fazendo sorrir novamente.
“Médica?” Perguntou ele, se virando para olhá-la mais uma vez.
“Não sei.” Deu os ombros. “Só queria fazer uma faculdade, pra poder realizar o sonho do meu irmão.”
“Qual seu sonho?” Gabriel parecia curioso, se inclinou para frente e apoiou os braços nos joelhos.
“Não tenho mais jeito pra isso, sonhar em ser alguma coisa.” Respondeu ela deitando a cabeça no banco do trem. “Sonhei uma vez que era executiva e trabalhava em uma grande empresa, coisa de novela sabe? Mas meu irmão dizia que sou inteligente, poderia ser o que quisesse.”
Gabriel riu. “Queria trabalhar de mandar nos outros.”
“Ah, eu com certeza seria boa fazendo isso.” Ela brincou fechando os olhos novamente, o som havia mudado de Beatles para Elvis.
Carol sempre gostou de música porque era a paixão de sua mãe que tinha voz melodiosa, a voz mais bonita que já tinha escutado era de Elvis Presley. Sua mãe cantarolava as melodias que acompanhavam a voz dele nos discos, trazia uma boa sensação nos dias mais difíceis em que não jantavam, precisavam de alguma distração pra enganar a mente e a barriga vazia.
“Sua voz é bonita.” Comentou Gabriel, ela nem havia reparado que fazia como sua mãe, que sem saber a letra acompanhava a melodia.
“Você não está novo pra ser médico?” Perguntou ela mudando de assunto, a verdade era que estava bastante envergonhada em deixar que ele, mesmo que não fosse real, escutasse sua voz.
“Consegui uma bolsa de estudos fora do Brasil, a graduação é mais rápida.” Explicou a olhando com curiosidade, sua pele escura não denunciava que suas bochechas queimavam como se estivesse corando. “Ainda acha que sou apenas sonho?”
A olhando daquela maneira só poderia ser sonho.
“O único sonho que me resta.” Contou fechando os olhos e voltando a aproveitar a brisa que vinha das janelas.
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