Notas iniciais
Hey, estou de volta mais cedo do que imaginei rsrs Obrigado a quem favoritou e a Ahiara que comentou ;3 Desculpem qualquer erro Enjoy it

Acordava todos os dias às cinco e meia só pra colocar o celular para despertar novamente às seis alimentando a ilusão de que poderia passar mais tempo desfrutando de sua cama, do sono bom que antecipava seus dias difíceis. Subia ladeira, esperava ônibus, andava e de cabeça quente chegava em seu trabalho, forçava sorrisos e abaixava a cabeça.

Passavam-se os dias, meses, anos, a vida era mesma e o mesmo sonho de mudar os dias ficava pra depois, por enquanto lutava por casa, comida, remédio e o que vestir. Sua mãe apegava-se a religiosidade e lhe dizia: “Só a igreja pode te salvar.”

Ela ouviu que quem poderia salva-la era Deus. Em Deus, ela esperava e ansiava pelo momento em que tudo iria mudar. Andava pelas ruas esperando aquele momento impactante, que viraria sua vida de ponta a cabeça e ela iria sorrir e agradecer.

Três anos desde a morte de seu irmão mais velho, dois anos e meio longe da comunidade, ela sentia falta de sentir-se acolhida no lugar humilde, onde o povo não passava o tempo reparando em suas roupas pois sabiam que sua família nada tinha, mas a solidariedade de uma tia a levou para um bairro de gente pobre feito ela mas que a olhavam de cima para baixo. Gente estranha que criticava tudo e não era feliz com nada, essa era a verdadeira miséria, aquela lá de dentro da alma que vinha subindo pela superfície e agarrava-se aos ossos dos infelizes que tendo casa, carro, roupa e comida ainda passavam dias reclamando de tudo.

O bar perto de sua casa vivia lotado, cheio de bêbados felizes que iam deixando a alegria junto à sobriedade e no fim da noite enchiam-se de raiva, luxúria e tristeza. Carol nunca entendeu porque buscavam em um copo saída para a realidade, aquilo só os deixava mal cheirosos e insuportáveis. De ruim na vida já bastava a própria não precisava de mais amargor, principalmente o amargo de uma cerveja.

Amargo era o gosto que ela sentia quando chegava em casa já cansada e ouvia a voz rouca de sua mãe a lembrando: “Você tem dezenove anos menina, arrume um marido, quero ver meus netos antes de morrer. Deus sabe que você precisa se casar logo.”

Nessa urgência Carol tinha a necessidade de enricar, sair daquele lugar, dar mais conforto a sua mãe e conforto a si mesma. Pagar uma faculdade e viajar pra um país estrangeiro, sair do perrengue mesmo, Deus sabia que ela precisava logo.

De sonhos bons ela só tinha lembranças, sua mente mentia pra ela, a enganava e a fazia acreditar que o era inventado de repente era real, coisa de louco, de gente acostumada a solidão da alma que jamais é preenchida. Naquela semana ouviu dizer que as coisas iam mal na franquia onde trabalhava e sentiu saudades de trabalhar com a namorada de seu irmão que não fechava as portas porque tinha compradores fiéis, que mesmo no aperto queriam algum conforto, talvez fosse erro deles mas alimentava o negócio dela. A loja grande era diferente, iam fechar as portas e logo Carol entraria pras estatísticas de desemprego.

Deitou em sua cama preocupada, não quis comer, nem falou com sua mãe além de pedir sua benção, seu celular manteve no silencioso para tentar dormir mais cedo e acalmar um pouco a mente.

Era noite em seus sonhos, estrelada e com uma grande lua, noite de filme, acompanhando o céu bonito vinha o mar com suas ondas chocando-se contra a areia da praia, não fazia frio, caminhava descalça pela areia feito criança sentindo o sal e a umidade no ar.

Respirou fundo, encheu os pulmões daquela sensação gostosa de liberdade, quem dera pudesse estar ali pela eternidade aproveitando a natureza bonita e pura. A verdadeira natureza já estava corrompida e suja, não por mérito próprio, as pessoas faziam escolhas estúpidas e em sua estupidez matavam o que havia de mais belo.

Carol andou mais perto do mar sentindo as ondas molhar em seus pés e balancear seu caminhar, mas era equilibrista e aguentava até os tornozelos. Rindo fugia das grandes ondas segurando seu vestido branco longo e se perguntando se poderia entrar na água que estava morna, morna mesmo, coisa de sonho.

“Sabe nadar?” Perguntou a voz conhecida a fazendo rir, era pergunta boba.

“Não faz diferença aqui.” Respondeu sem se importar em virar para encarar seu sonho, ele vinha se juntar a ela naquela brincadeira.

“Você não vive só aqui.” Lembrou ele a fazendo levantar os olhos para encará-lo, era o mesmo de sempre, cabelos caindo nos ombros, olhos negros, pele branca, corpo bonito e sorriso fácil. “Onde você vive?”

“Num lugar de gente estranha.” Respondeu ela sorrindo despreocupada. Ela correu em direção ao mar e riu quando as ondas lhe derrubaram, engolindo água tentou se levantar mas as ondas vieram novamente à levando em direção a praia. Ela achou divertido.

“É perigoso menina.” O homem bonito a puxou de volta com facilidade, é claro que era fácil para ele que era forte, forte só no pensamento dela que se divertia com sua mente. “E se tu se afoga?”

“Acordo.” Disse ela sentando-se na areia sem se importar em ficar pegajosa. O crochê branco se agarrou a sua pele, ela puxou a barra do vestido e esticou as pernas.

“Ou morre.” Retrucou sombriamente, se sentando ao seu lado. “Já disse que é real.”

Carol riu. “Você tem uma cicatriz, não uma identidade própria.”

“Sou Gabriel da Cruz.” Disse ele sorrindo, estava sem camisa e seu cabelo longo, ia até os ombros, estava úmido, usava bermuda e chinelos.

“Gostei do nome.” Carol comentou franzindo a testa, ela puxou seus cachos crespos em um coque desajeitado e se virou para olhar Gabriel. “Porque criei você?”

Foi a vez de Gabriel rir. “Minha mãe me criou moça.”

“Minha mãe quer que eu me case, tenha filhos e uma vida comum de dona de casa.” Ela contou, talvez fosse essa a função do tal Gabriel, ser um ouvinte.

“O que você quer?” Perguntou Gabriel parecendo curioso.

“Nada, trabalhar, talvez fazer faculdade, ser alguém na vida.” Respondeu ela dando os ombros.

“Você já é alguém.” Ele disse voltando a sorrir.

“Alguém de verdade.” Ela queria muito, desesperadamente.

“Alguém que as pessoas olhassem de verdade, que não fosse a sombra de uma tragédia.”

Ele franziu a testa e comprimir os lábios. “Você é?”

“Meu irmão fez tudo o que pode pra não passarmos fome.” Ela começou a contar se perguntando se poderia vê-lo em sonho algum dia, as vezes sentia como se estivesse esquecendo seu rosto. “Trabalhou honestamente enquanto pode e quando sentiu que a ser honesto não era opção, foi vender droga e cobrar dívida.” Ela lembrava bem o quanto ele chorava e olhava pras mãos como se estivessem cobertas de sangue mas era só pólvora, o sangue era só dele que lavava as mãos até se cortar e sangrar mas continuava a insistir que estavam sujas. “A polícia o matou há um tempo, acontece muito de onde eu venho.”

“Sinto muito.” Carol deu os ombros sabendo a verdade, que ele não sentia. Como poderia?

Ela deitou na areia e concentrou em contar estrelas, lembrou de sua mãe a alertando quando era criança: “se contar estrelas terá catapora.” Ela teve medo de ter catapora, mas depois de algum tempo esqueceu-se da tal história e voltou a contar as estrelas que tão bonitas enfeitavam o céu, sempre tinham que competir com o brilho da cidade logo abaixo. No sonho não havia cidade para competir, Carol imaginou que as estrelas estavam aliviadas.

“Na minha cidade não tem tantas estrelas.” Ela contou quebrando o silêncio. “Queria mesmo era morar na roça, onde escuta a cigarra cantar e boi ocupa mais espaço que carro.”

Gabriel riu. “Eu prefiro o litoral, onde todas as noites são assim.”

“Só rico mora em litoral.” Carol brincou. “Porque é caro, gosto mais do mar do que da roça mas não tenho dinheiro pra isso.”

“Dinheiro é ilusão.” Gabriel balançou a cabeça e deitou ao lado dela. “Bom mesmo são esses momentos, observar estrelas com boa companhia.”

“Eu sou sua boa companhia?” Ela se virou para olhá-lo, mas Gabriel olhava para o céu com um sorriso sem mostrar os dentes. A companhia dele eram as estrelas, ele estava certo, ela se virou para observar as estrelas que aproveitavam seu protagonismo junto a lua que brilhava mais, sempre absoluta. De amor não se vivia, já dizia sua mãe, Carol desejava viver de bons momentos como aquele que pareciam tão reais e perfeitos.

“Você é.” Confirmou Gabriel e Carol sentiu algo em sua mão, um pequeno formigamento, olhou e viu que sua mão havia tocado a de Gabriel.


Acordou assustada antes das cinco da manhã, sua mão ainda formigava e sentia o cheiro do mar dentro de seu quarto, fechou os olhos esperando sonhar novamente e saber o que aconteceria depois mas seu despertador tocou a lembrando que era só sonho.

“Apenas um sonho.” Disse para si mesma enquanto se levantava.

Notas finais
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