Sonhos de Menina
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Sonha menina
Sonha menina, a vida é assim mesmo, esses altos e baixos, de ganhos e perdas.
Perdemos ao longo da vida pessoas e objetos mas ganhamos amores e novas coisas.
De perdas não vivemos, sim de transformações, de crianças nos tornamos jovens, de jovens nos tornamos adultos e com maturidade da vida adulta vem a confusão de todo o resto.
Vida cheia de tristeza e alegria, as vezes mais tristezas do que alegrias.
Não se prenda à esses momentos de tristeza e raiva, sonha e tenha esperança.
Se não tivermos esperança, o que nos resta?
.
.
Ela se lembra bem do barulho da sirene da polícia rondando pelas ruas da favela, os meninos corriam pelos becos, os homens endureciam o olhar que desviavam quando a polícia passava e as mães pediam a Deus pelas vidas das crianças chamando pelos filhos com medo que por algum bandido sua criança fosse junto, por engano, por medo, por preconceito. O barulho escoava em seus pesadelos ao se lembrar de encontrar o corpo do irmão caído em frente ao beco perto de sua antiga casa, sua mãe estava gritava e não conseguia se aproximar do corpo ensanguentado mas ela teve sangue frio, abaixou-se e evitou olhar para a arma que seu irmão segurava mesmo depois de morto.
Os olhos dele estavam abertos, assustados como quando eles eram crianças e se assustavam assistindo a filmes de terror de noite escondido de sua mãe. Aquela expressão de terror era diferente, seu peito se encheu de algo que ela não podia descrever, como um buraco negro se abrindo dentro de sua alma sugando suas forças, ou talvez estivesse esvaziando-se de esperança.
Ela não gritou mas as lágrimas molharam seu rosto, ela não sentia nada enquanto estava ali, sentiu a pele de seu irmão ainda quente enquanto fechava seus olhos e pedia a Deus que desse a ele algum descanso, alguma paz que lhe foi negada em vida.
Vida triste e mal aproveitada, cheia daqueles momentos que eles guardavam no fundo da mente e tentavam fazer diferente, mas jamais esqueceriam porque o sofrimento embora doloroso era a lembrança que guardava para nunca mais viver.
Ela deixou a favela pra trás junto ao corpo de seu irmão mais velho, que no desespero pela falta do que comer, do que vestir, de remédios, de dignidade acabou recorrendo ao crime. Saída fácil, que o fez mais fácil acabar com sua vida.
“Cada um faz o que acha melhor pra acabar com a fome, o melhor nem sempre é o certo.” Luciano dizia enquanto vivia noites de terror, ela o ajudava e tentava não pensar em quantos homens ele havia matado.
Ela comeu bem, vestiu-se bem, sua mãe aceitou remédio tudo de dinheiro sujo, de droga, de gente morta. Ela viveu o karma de aceitar tudo aquilo, perdeu seu irmão, seu pilar de força, aquele que carregou aquele projeto falido que sua mãe chamou de família, tornou tudo pior ela não suportava viver.
“Se você morrer, quem cuida de sua mãe?” Perguntou a namorada de seu irmão, Luísa, depois que ela acabou chorando durante o dia de trabalho.
Sua mãe deveria ter cuidado deles. Ela deveria ter feito o certo, ficado longe das drogas, do que adiantou largar tudo e acabar doente? Ela ouviu histórias sobre o dia em quê sua mãe entregou seu irmão para seu pai, Carol foi entregue para uma desconhecida porque dona Maria não tinha mais o que comer e não conseguia trabalhar.
No dia em que seu irmão morreu, ela disse estar arrependida de ter tomado eles de volta. Ele também estaria. Talvez longe dali seu irmão tivesse um futuro, ela jamais o conheceria mas seria um preço justo pela vida de Luciano.
Vida não tem preço, só peso, ela carregava o peso de Luciano nas costas, todos os dias quando chegava em casa e sua mãe não estava. Ela não aguentava aquele peso, que deveria ser dividido em dois mas que acabou por carregar por onde ia.
Se deitou em sua cama, mais macia e confortável graças a um homem que seu irmão matou e lhe rendeu dinheiro pra comprar camas boas, uma televisão e uma geladeira.
“Estão amaldiçoados Carol!” Sua mãe gritou no dia de sua mudança, tentava deixar para trás todas as coisas.
Para ela amaldiçoada estava sua mãe, que os quis por pensão e acabou os deixando na miséria. No momento tentava a todo custo se redimir indo a igreja todos os dias, crendo em milagres que para Carol pareciam impossíveis.
Carol preferia pedir perdão a Deus em sua casa mesmo, onde não recebia olhares dos outros fiéis que queriam fazer o trabalho de Deus, julgar não era permitido mas nunca os impediu de fazê-lo.
Deitada em sua cama e enrolada em posição fetal, ela chorava por seu irmão que tinha ido a alguns anos mas aquela ferida não se fechava e não parava de doer, ela desejava sonhar com algo bom que à anestesiasse.
.
A menina mulher sonhava que andava em uma rua calçada mas não como aqueles que tinham pedras pontiagudas que doíam seus pés e sim como aqueles que via em filmes gravados em Ouro Preto, cidade bonita mas lhe trazia a sensação de nostalgia de algo que não conheceu. Ela caminhava observando as nuvens em tons rosados e laranjas.
Era sonho, sonho bom porque ela andava despreocupada, sem peso nos ombros e sem se culpar pela gordura a mais preenchendo seu uniforme da empresa.
Ninguém a encarava feio ou encarava com olhos maldosos, em sua rua não havia ninguém e ela andava sorrindo para as nuvens pintadas no céu feito quadro de Van Gogh.
Bela arte de pensamentos, ela amava criar seus belos lugares e observar o horizonte tranquila fingindo ser livre, sem compromisso com seu chefe que lhe cobrava horas a mais de trabalho pelo dinheiro dos remédios de sua mãe.
Carol andava livre de braços abertos e rindo, de quê? De não ter vida para viver e sim ter campos de girassol para observar encantada.
Quem dera a vida fosse sonho.
“Te faz bem?” A voz grave encheu o silêncio do campo de girassol, Carol olhou pra trás e encontrou olhos negros que se destacavam na pele branca do homem que invadiu seu sonho.
“Não sei.” Respondeu ela observando o cabelo escuro do homem voar com o vento, ele era bonito e artificial porque era sonho. Rosto cumprido e magro, lábios rosados e um tanto finos, sobrancelhas escuras e grosas e um nariz bonito, rosto perfeito demais, coisa de Instagram.
“Como lida com a realidade? Não te apavora?” Ele perguntou se sentando no chão.
“Só há a realidade.” Carol respondeu. “Nos agarram ao que temos não é?!”
Ele assentiu seu cabelo escura caia por seus ombros. “O que você tem?”
“Alguém pra cuidar mas que deveria cuidar de mim.” Contou se sentando ao lado de seu sonho, era bom conversar sem se preocupar em fingir não sentir dor.
“Eu não sabia que podia sonhar assim.” Comentou ele. “Pra mim sonho era só nosso, particular, você invadiu o meu.”
Carol riu muito feliz por ter uma imaginação fértil, eles diziam que quem sonha não sabe que é sonho, ela sabia e desfrutava dos momentos de liberdade.
“Por que você não é real moço.” Explicou ela deitando sobre a grama. “Só vive aqui dentro da minha mente.”
A solidão da vida corrida lhe deu um colírio pros olhos, homem charmoso, de sorriso fácil e bonito, o tipo que não sorria pra ela apenas lhe perguntava o preço das coisas ou lhe olhava estranho antes de procurar outra atendente.
“Eu sou real.” Insistiu ele sem deitar-se ao seu lado, Carol riu de sua própria loucura, uma personagem bastante complexa pra ser criada assim do nada, talvez fosse fruto das novelas que sua mãe gostava, de boybands e uma paixão que teve uma vez por um menino que seu irmão conhecia mas a paixão não durou porque o tal menino gostava de meninas brancas e drogas fortes, não era para ela. “Você também.”
“Sei que sou e como pessoa real sei que sonho não é assim.” Ela apontou pro próprio corpo despreocupada em mostrá-lo que era coberta de imperfeições, estava bem com as imperfeições, afinal não são todos imperfeitos de algum jeito?
Carol era moça gorda, com seios médios e quadril largo, pele negra queimada de sol que enfrentava todos os dias andando pela cidade, estrias nas coxas e celulite, cabelo crespo e a boca carnuda. Negra formosa, dizia sua mãe quando ela se punha a chorar por ter o coração partido pensando que iria ter atenção, mas com aquela aparência jamais conseguiria. Não era negra formosa, era só mais uma moça mulher, de tanto sentir-se rejeitada esqueceu de se olhar no espelho com vaidade, se olhava pra não sair feito louca porque seu cabelo sempre estava uma loucura mas vaidade havia dispensado, no sonho e na realidade.
“É moça normal.” Ele deu os ombros mas sorria. “Olhe.” Ele levantou a camisa branca e em meio a pele branca e a barriga perfeita de dias a fio em academia havia uma cicatriz que ia de seu peito ao quadril, era irregular e tinha um tom diferente de sua pele mas era fina, parecia que um raio havia acertado seu peito e rachado seu corpo. “Sou real também.”
Notas finais
Feedback?
Fale com o autor