Sonhos Quebrados
2 Mea Culpa
Notas iniciais
O silêncio era ensurdecedor. Todos tinham partido com exceção de Krystian e sua mãe. Wendy estava dormindo poltrona do quarto enquanto seu namorado roncava ao seu lado na cama do hospital, mas Noah não conseguia dormir. Sua mente não parava de pensar em Josh.
Ele não conseguiria mais andar, não conseguiria mais dançar. Noah nunca tinha visto aquele garoto parar de dançar. Ele dançava durante palestras na escola deles. Uma lágrima começou a rolar por sua bochecha novamente enquanto ele encarava a porta do quarto. O que ele tinha feito? Tinha acabado com os sonhos de seu melhor amigo.
Josh iria para uma competição de dança em um mês com sua amiga Taylor. Eles vinham se preparando para isso há seis meses e ele estava tão ansioso... Estava tão feliz. Por que Noah tinha que ter mandado aquela mensagem? Por que precisava falar sobre o que estava acontecendo justo naquela noite? Ele podia ter esperado... Não podia? Seu coração estava acelerado, com medo do que Josh poderia estar pensando sobre ele. Será que estava pensando sobre ele ou estava em choque sobre o fato de suas pernas não... Não funcionarem mais.
Noah se virou e encarou Krystian. Precisava parar de pensar em Josh. Isso não faria bem para sua cabeça ou para seu coração. Mas ele não conseguia. Josh era a única pessoa que vinha ocupando seus pensamentos fazia algumas semanas e, agora, mais do que nunca. Ele se sentia tão mal por estar pensando em outra pessoa com seu namorado dormindo bem ao seu lado, mas não conseguia evitar.
Krystian era lindo com seus cabelos negros e olhos penetrantes. Noah realmente o adorava e tinha sido muito feliz durante seu relacionamento com ele. Eles se complementavam muito bem e sempre se divertiam muito juntos. Mas de uns tempos pra cá, Noah começou a sentir sentimentos muito fortes por seu melhor amigo, Josh Beauchamp. Diferente de Krystian e Noah que se complementavam, Noah sentia que ele e Josh se completavam.
Noah ia contar para Krystian o que estava acontecendo, mas não sabia como dizer. Ele decidiu que queria contar para Josh primeiro e foi então que as coisas ficaram muito mais complicadas do que deveria.
Noah suspirou e voltou a olhar para a porta.
O médico falou que ele estava livre para andar pelo hospital se quisesse, poderia ir ver como Josh estava. Mas a coragem não vinha e o medo tomava conta dele. Ele ainda tinha as palavras de Josh de antes do acidente acontecer muito claras em sua mente: “Quer dizer que agora estamos juntos?”. E o outro carro bateu contra o carro de Noah bem do lado onde Josh estava sentado.
Seu coração estava acelerando. Por que estava com o coração tão acelerado? Josh. Ele queria mutio vê-lo. Queria ajudá-lo, mesmo que não soubesse o que poderia fazer para ajudar.
A porta estava um pouco entreaberta, não faria muito barulho se se esgueirasse por ali. Precisaria ter cuidado para não mover Krystian, mas sua mãe com certeza não acordaria.
Noah se moveu cautelosamente para sair da cama, reduzindo seus movimentos ao mínimo possível. A última coisa de que precisava era Krystian indo com ele até Josh. As coisas que queria conversar com seu melhor amigo não agradariam muito seu namorado. Noah suspirou. Ele tinha que contar para Krystian o que estava acontecendo mais cedo ou mais tarde.
Ele parecia tão pacífico ali, dormindo. Era como se o mundo fosse um belo cor-de-rosa, ou, no caso de Krystian, preto com prata. Noah sorriu levemente para seu namorado quando saiu da cama. Tinha tido muita sorte por não ter sofrido lesões mais graves com o acidente. Pensar nisso só o deixava com mais culpa pela situação de Josh.
Que merda, Noah pensou enquanto saía do quarto. As meninas tinham lhe dito em que quarto Josh estava antes de terem ido embora mais cedo então ele apenas caminhou até lá. Cada passo parecia demorar uma década enquanto ele pensava o que iria falar para seu melhor amigo. “Eu sinto muito”? “É uma droga que isso aconteceu”? Nenhum deles soava certo na cabeça de Noah.
“É minha culpa”. Noah parou de andar por um instante. Aquilo soava certo.
Ele voltou a andar, chegando na porta do quarto de Josh. Estava silencioso lá dentro. Talvez a família dele também tivesse ido embora. Era o que Noah realmente esperava. Já seria difícil conversar com seu amigo naquela situação, se tivessem pessoas ao seu redor pior ainda.
Noah respirou fundo. Precisava entrar. Tinha coragem? Talvez não. Empurrou a porta e entrou.
+ + +
Josh não conseguia dormir. Tinha a impressão de que não conseguiria dormir por muito, muito tempo. Parecia que tinha uma parte de sua alma faltando toda vez que fechava os olhos. Depois de todo o choro e desespero pela perda do movimento em suas pernas, seus pais tinham saído porque o pai dele havia insistido que sua mãe precisava comer e Any havia começado a cantar uma música para acalmar Josh. Na verdade, ele imaginava que a música era mais para acalmar ela que estava em prantos.
Any tinha ido embora quando ele falou que estava com fome. Ela nem tinha perguntado o que ele queria, apenas tinha saído imediatamente do quarto para encontrar alguma coisa que iria agradá-lo. Ele estava sozinho agora. Sozinho com seus pensamentos. Talvez não fosse uma boa ideia, mas ver lágrimas e mais lágrimas o dia inteiro era muito pior do que a solidão.
Em um certo momento do dia, ele ligou para Taylor para falarem sobre como ele estava e a situação com a competição de dança. Ela tinha oferecido para não ir mais e passar um tempo com ele, mas Josh não deixou. Não iria permitir que ela perdesse uma oportunidade tão boa. Eles iriam achar outro parceiro de dança para ela, havia vários muito bons ao redor de Los Angeles.
Ele não conseguiria mais andar.
Aquela frase o assombrava naquele mar de escuridão. Aquela realidade o atingia com um soco cada vez mais forte. Parecia não parar de socar. E doía muito. E, em meio à tanta dor, a única pessoa que ele realmente queria perto dele naquele momento era Noah. Ele precisava de seu melhor amigo, precisava vê-lo, saber que estava bem. Precisava dele ao seu lado.
E como se os céus ouvissem suas preces, foi exatamente quem cruzou a porta no próximo segundo. Um olhar um pouco cansado e cautela tomando conta de seus movimentos.
― Noah ― Josh indagou tentando sentar na cama, sem sucesso. Suas pernas não obedeciam. Estavam pesadas. Suas pernas sempre foram tão pesadas assim? Ele se esforçou para se ajeitar e ficar sentado para encarar Noah, um sorriso se formando em seu rosto. Ele estava bem. Estava inteiro.
― Oi... ― Noah falou, se aproximando. Ele estava um pouco tímido, eles nunca tinham ficado tímidos perto um do outro.
― Que bom que você tá bem ― Josh queria se aproximar de Noah, mas não conseguia. Ele estava mesmo odiando essa situação. Como conseguiria viver assim? ― Eu fiquei perguntando de você, mas ninguém me falou nada.
Noah sorriu fraco para ele. Ele não parecia nada bem para quem sobreviveu um acidente sem quase nenhum arranhão no corpo.
― Eu não sabia se deveria vir ver você...
Josh franziu o cenho.
― Por quê?
― É minha culpa, Josh ― Noah apontou fracamente para a coberta que cobria o corpo de Josh e ele entendeu imediatamente do que ele estava falando.
― O que? Isso? ― Josh brincou, ou tentou brincar ― Que nada! Eu tô bem ― ele tentou se mover, mas se sentiu quase cair da cama. Noah teve que correr para perto dele e segurá-lo para dar equilíbrio. O toque de Noah foi a única coisa que parou o ódio de Josh de se espalhar, seus rostos estavam bem próximos agora. Um pequeno empurrão e seus lábios colariam. Josh sentiu seu coração acelerar.
Demorou um longo segundo para Noah se afastar. E, quando o fez, Josh quis que ele voltasse para perto. Noah pigarreou.
― Me disseram que você não vai mais poder dançar...
Josh engoliu em seco.
― Os médicos dizem que pode ser temporário.
― Mas também pode ser permanente ― Noah retrucou e Josh teve que desviar seus olhos do outro garoto, segurando seu choro.
― Você está sendo muito negativo com isso tudo ― Josh falou, tentando manter sua voz positiva. Não foi muito bem sucedido.
― Você tá paralisado da cintura pra baixo, Josh ― Noah declarou. Como era difícil ouvir aquelas palavras em voz alta... ― E a culpa é minha.
Foi então que Josh voltou a olhar para Noah, surpreso e espantado. As palavras foram tão fortes, tão certeiras que poderiam cortar um coração até sangrar lágrimas.
O coração de Josh parou quando viu as lágrimas descerem pelas bochechas de Noah. No fundo dos olhos dele, Josh conseguia ver a dor que Noah estava sentindo por causa disso. Ele realmente se culpava desesperadamente pelo que estava acontecendo. Aquela dor... Parecia ser mais profunda do que a do próprio Josh.
― Foi um acidente, Noah ― Josh disse, tentando acalmar seu melhro amigo ― Ninguém é culpado em um acidente.
― Se eu não tivesse te chamado pra conversar, isso não teria acontecido. Você ainda iria conseguir andar. Não estaríamos no hospital. Se a gente não tivesse tido aquela conversa...
― Nós precisávamos daquela conversa, Noah ― Josh o interrompeu, não acreditando no que estava ouvindo da boca do outro ― Nós tínhamos sentimentos um pelo outro. Nós temos sentimentos um pelo outro. Precisávamos saber o que fazer, precisávamos conversar...
― Talvez se a gente nunca tivesse tido sentimentos um pelo outro, isso não tivesse acontecido ― foi a vez de Noah interrompê-lo ― Se eu tivesse só ficado quieto, deixado pra lá. Você estaria bem melhor sem mim, Josh.
Josh estava ainda mais confuso. As palavras não saíam, uma confusão regia sua cabeça. Noah estava mesmo se culpando por tudo isso? Culpando o fato de que eles dois estavam se apaixonando um pelo outro? Ele queria... Sair da vida de Josh?
Ele sentiu uma lágrima descer por seu rosto. Parecia que uma enchente estava sendo presa na sua garganta por uma represa de gesso.
― O que você tá querendo dizer?
Noah suspirou, parecendo procurar as palavras certas para dizer. Ele se sentou na ponta da cama de Josh.
― Eu sinto muito, Josh ― mais lágrimas debulhavam dos olhos de Noah. Josh sentia as próprias lágrimas começarem a sair ― Ver você assim... Numa cama... Eu não queria mesmo vir porque sabia que me sentiria assim. Mas eu precisava ― quando Noah levantou seus olhos, o coração de Josh partiu com aquele olhar profundo ― É minha culpa e eu não consigo ver você assim. Eu não consigo viver com essa culpa, eu... Eu acho que seria melhor se a gente não se falasse por um tempo.
Mais lágrimas. Josh não tinha chorado tanto assim quando descobriu que perdeu suas pernas, o choque tinha sido maior. Mas agora parecia que toda a dor que devia estar sentindo o dia inteiro o estava invadindo de uma vez.
― Noah ― Josh não sabia como ainda conseguia falar alguma coisa ― Não faz isso...
― Eu preciso de um tempo, Josh ― Noah não o encarava nos olhos. Josh agradeceu mentalmente porque seria muito difícil continuar essa conversa olhando nos olhos dele.
― Você precisa de um tempo? Fui eu quem ficou paralisado.
― Por minha culpa.
― Você está sendo um grande egoísta! ― Josh vociferou, assustando Noah, que se encolheu, ainda sem encará-lo. Josh estava com tanta raiva que nem conseguia controlar o que estava dizendo mais ― Está sendo um egoísta de merda que só está pensando na própria dor! Eu perdi minhas pernas, Noah. Eu perdi meu sonho de dançar, não vou poder andar talvez pra sempre. Eu já perdi muita coisa em um dia e você agora quer me deixar também?! ― parecia que o coração de Josh estava sendo descascado em camadas a cada palavra que saía de sua boca. O gosto salgado das lágrimas atingindo seus lábios ― Você é meu melhor amigo. Eu te amo, Noah. Eu te amo mais do que já amei qualquer pessoa. Eu preciso de você.
Noah mordeu o próprio lábio, movimento que Josh sempre achara fofo, mas agora só queria que ele deixasse o nervosismo de lado. Mais lágrimas caíram sobre a coberta.
― E eu preciso de um tempo. Eu já falei... Eu... Não consigo te encarar sabendo que é tudo culpa minha. Me desculpa, Josh. Mas... ― foi então que ele levantou o olhar. Por fim, eles estavam olho no olho. Noah estava acabado e Josh duvidava que parecia muito melhor. Se sentia completamente despedaçado ― a gente acaba aqui.
Josh se recusou a chorar na frente dele. Não iria. Mas aquelas palavras doeram mais do que as palavras dos médicos ao descobrir sobre suas pernas.
Foi então que Any correu para dentro do quarto com um copo cheio na mão. Josh secou suas lágrimas rapidamente e Noah desviou o olhar para longe, fazendo o mesmo. Não queriam ter que dar explicações para Any, só causaria mais problemas para Josh.
― Aqui, amor ― Any falou, entregando o copo que segurava para o menino loiro ― Eu convenci o médico de que seria bom pra você e te trouxe um copo de açaí.
Josh forçou um sorriso enquanto pegava o copo da mão de Any. Noah, então, se levantou.
― Eu já vou indo ― ele falou, se apressando até a porta ― Preciso dormir um pouco. Tô bem cansado.
― Tchau, Noah. Fique bem ― Any falou, acenando para o outro garoto.
― Tchau, Noah ― Josh seguiu. Noah não respondeu, apenas saiu.
― Ele parece estranho... ― Any notou. Ótimo, a única coisa que Josh não precisava naquele momento. Tomou uma colherada de seu açaí, tentando secar os restante das lágrimas que ainda desciam. Droga de choro ― Você também. Aconteceu alguma coisa com vocês dois?
― Não, nada ― Josh respondeu sem olhar diretamente para sua namorada ― Ele só... ― Só o que? O que poderia falar que deixaria Any menos preocupada? Não tinha uma resposta pronta, não sabia que ia precisar ― Nada.
+ + +
Noah não podia voltar para seu quarto, Krystian e sua mãe fariam perguntas e ele precisava tirar o peso que sentia do seu coração. Andou rápido pelos corredores até encontrar o banheiro mais próximo. Entrou, trancou a porta e desabou.
O choro saiu como uma cachoeria livre em uma montanha. Seu coração apertava com cada soluço. Nunca tinha chorado tanto em sua vida como estava chorando agora. Que raiva, que droga, que merda. Josh também estava tão destruído. Ele se sentiu um lixo ao dizer aquelas palavras para o garoto que amava.
Noah estava sendo egoísta, ele sabia disso, mas não podia evitar. Estar perto de Josh havia doído. Doído tanto que ele nem conseguia explicar. Precisava de seu espaço agora. Precisava se colocar no lugar, lidar com tudo o que estava sentindo. Se ficasse perto de Josh, tinha medo do que podia acontecer consigo próprio.
Seu choro continuava a ecoar nas paredes do pequeno cômodo. Será que as pessoas podiam ouvi-lo do lado de fora?
A dor era tão profunda. Ele amava muito Josh, mais do que qualquer um também e ouvi-lo admitir seus sentimentos tinha sido uma das melhores coisas que tinha acontecido em sua vida. Mas agora a pior estava acontecendo e a culpa estava devorando Noah por dentro.
Era egoísmo, mas não podia ficar perto de Josh. Não conseguiria. E não sabia quanto tempo iria precisar para se consertar.
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