Sonhos Quebrados
8 Indolor
Eles estavam se beijando. A boca de Noah contra a de Josh. A língua de Josh percorrendo todo o interior da boca do outro garoto. E estava bom. Estava muito bom. Beijar Noah foi como sentir a adrenalina de uma queda livre sem paraquedas. Foi como ser um pássaro saindo de sua gaiola pela primeira vez.
Livre. Pela primeira vez em muito tempo, Josh se sentiu livre. Livre de todas a incertezas, de todas as pressões do relacionamento com Any. Se esqueceu até de Any durante os segundos em que sua boca tocava a de seu melhor amigo.
Nunca tinha sentido nada por Noah além de amizade, um carinho de melhores amigos. Eles eram confidentes, companheiros, tinham passado por muitos juntos. Mas aquilo... Josh nunca imaginava que estariam se beijando no quarto de Sina durante uma festa. E que ele estaria gostando.
O barulho da porta se abrindo o trouxe de volta a realidade e fez com que os meninos se separassem, levantando-se rapidamente para encarar a pessoa que entravam. O coração de Josh pulsava com a possibilidade de ser Any, mas não era. Nem Krystian. Era apenas um garoto que nunca tinha visto em sua vida.
― Desculpa ― o garoto falou, um pouco cambaleante, provavelmente bêbado ― Achei que era o banheiro.
― Não ― foi Noah quem respondeu ― É a segunda porta à direita.
O garoto saiu, sem dizer mais nada e Josh correu para fechar e trancar a porta. Não precisava de mais ninguém entrando e vendo... Vendo o que quer que estivesse acontecendo naquele quarto. O que estava acontecendo exatamente naquele quarto?
Agora que não estava perdido nos lábios de Noah, a compreensão chegava à mente de Josh. A loucura que tinha cometido. Tinha traído Any. Traído ela com seu melhor amigo. O melhor amigo deles. E ainda tinha Krystian... E Noah. Noah era um garoto. Noah era seu melhor amigo.
― Josh? ― a voz de Noah o chamando ― Desculpa, eu... Tá tudo bem?
Josh se virou para encarar o outro garoto. Não sabia exatamente o que estava sentindo e podia ver a incerteza de Noah estampada em seus olhos verdes. Será que seus olhos refletiam a mesma expressão? Será que faziam juz a confusão que acontecia dentro dele naquele momento?
Por alguns segundos, nenhuma palavra foi dita. A música baixa vinda do lado de fora foi a única coisa que preenchia o silêncio entre eles. Noah ainda estava sentado na cama, a expectativa clara em seus olhos. Josh não tinha palavras. Seu cérebro ainda estava se reativando depois da descarga de adrenalina.
― Eu não sei ― Josh respondeu, por fim. Não sabia como palavras ainda saíam de sua boca, mas estavam saindo ― Noah... Por que...? O que foi isso?
― Foi só um beijo ― Noah respondeu.
― Não, não foi ― a confusão parecia estar devolvendo a adrenalina para o corpo de Josh. Seu sangue queimava, os pensamentos a mil. Ele se aproximou novamente de Noah, tomando cuidado para não se aproximar demais. Não sabia o que aconteceria se ficasse tão próximo mais uma vez ― Você falou... Você falou que tava apaixonado por mim. Foi o que você disse.
― Não, eu falei que não tava mais apaixonado pelo Krystian. Que eu achava não estar mais apaixonado por ele.
― E aí me beijou ― Josh vociferou ― Eu sei somar dois mais dois, Noah. Você me beijou.
― E você me beijou de volta ― Noah rebateu. Josh sentiu um gosto amargo surgir em sua garganta ― Eu falei que podia me afastar, mas você não afastou.
― Eu não sou gay ― Josh respondeu, tentando controlar a própria voz.
― Não muda o fato de que nos beijamos ― Noah levantou da cama e se aproximou de Josh, que, por sua vez, deu um passo para trás. Ainda não confiava em si mesmo. O jeito como Noah o olhava, como falava, Noah em si... Tudo parecia diferente. O beijo tinha deixado tudo diferente ― Eu sei que não devia ter feito isso. Eu namoro, você namora. Mas... Eu queria ter feito já faz um tempo. Eu falei sério. Não acho que estou mais apaixonado pelo Krystian.
― E tá apaixonado por mim?
― Eu não sei... Talvez.
― Você é meu melhor amigo.
― Eu sei.
― Nós somos amigos, Noah.
― Eu sei...
Silêncio. Estranho. Nunca houve silêncio entre eles. Nunca houve estranhamento. Eles sempre conseguiram falar tudo o que estava acontecendo um pro outro. Nunca houve silêncio. Todas as dúvidas que Josh teve sobre Any, todas as brigas que Noah e Krystian tiveram, todas as vezes em que levaram bronca de um professor, ficaram de castigo, estavam com raiva do mundo, queriam sumir. Sempre conseguiam conversar um com o outro, às vezes melhor do que conseguiam falar com Any e Krystian. Nunca houve silêncio.
Agora havia. O silêncio estava lá. E Josh não sabia o que fazer com ele.
― Eu acho melhor eu ir pra casa ― Josh falou, virando-se na direção da porta.
― Josh... ― ele ouviu Noah começar a falar, mas não esperou que completasse a frase. Não queria ouvir nada agora, precisava de tempo. Apenas saiu do quarto com seus pensamentos, deixando Noah sozinho do outro lado da porta.
+ + +
A cama estava fria. Bom, não era bem uma cama. Era mais uma maca acolchoada. E o acolchoamente estava frio contra a pele de Josh. Aquela era sua primeira seção de fisioterapia desde que tinha saído do hospital. Por ordens médicas, ele teria que fazer uma pelo menos uma vez por mês. Os médicos ainda tinham esperança de que ele poderia recuperar o movimente de suas pernas. Josh já não tinha tanta certeza.
Depois de Taylor ir embora no dia anterior, sem que Josh revelasse muita coisa sobre o que estava acontecendo entre ele e Noah, o loiro teve muita dificuldade em pegar no sono. Suas pernas estavam pesadas demais, ele não conseguia mover o corpo e encontrar uma posição confortável. Cada movimento que fazia era como uma chama de esperança se apagando em um corredor de tochas. Cada segundo que passava, ele via menos tochas naquele corredor.
Agora estava deitado em uma sala de um fisioterapeuta, encarando o teto, respirando fundo enquanto o médico se aproximava dele. Suas pernas continuavam pesadas, como sempre. Um peso morto.
― Muito bem, Josh ― o fisioterapeuta, Dr. Hanagami, falou enquanto se aproximava da cama onde o loiro estava deitado ― Pronto?
― Acho que sim ― Josh respondeu, respirando fundo ― O que... O que você vai fazer?
― Bom, primeiro, temos que investigar para ver se há alguma sensitividade motora nos seus nervos das pernas ― Dr. Hanagami começou a explicar enquanto pegava uma pequena agulha em uma das gavetas da sala ― Quando determinarmos se há ou não atividade, poderemos prosseguir.
― Então... Talvez não façamos nada hoje? ― Josh questionou ― Se não tiver reação...
O Dr. Hanagami, Kyle, Josh tinha quase certeza ser seu nome, suspirou, encarando Josh nos olhos. Olhos solidários.
― É uma possibilidade. Se seus nervos não estiverem ativos, não tem nada que eu possa fazer por agora.
Mais uma tocha se apagando. Josh sentiu seus olhos se encherem de água. Fez um esforço inimaginável para segurar o próprio choro. Chorar agora não ajudaria em nada.
― Pra que tentar então? ― Josh indagou ― Se nada pode acontecer, por vir até aqui?
Kyle suspirou antes de responder, se apoiando na cama e se inclinando sobre seu paciente.
― Eu sei que é difícil, mas é necessário. Ainda existe a possibilidade de você andar de novo. Dançar de novo ― Josh sentiu um aperto no peito. A ideia de dançar mais uma vez trouxe ainda mais lágrimas aos seus olhos. Já fazia quase uma semana que estava em uma cadeira de rodas, que não via o mundo sobre duas pernas que ter esperança já era um sonho distante.
Josh concordou com um movimento de cabeça e sentiu uma lágrima escapar. Melhor acabar com aquilo de uma vez.
― Muito bem, então ― ele falou para o fisioterapeuta ― Vamos logo com isso.
Kyle se afastou, suspirando e posicionou a agulha próxima à perna de Josh, que usava apenas um short de academia e uma camiseta antiga. Respirando fundo, Josh encarou o teto esperando o exame terminar, esperando sentir alguma coisa. Esperando algo que nunca veio.
Ele inclinou sua cabeça e percebeu que Kyle já tinha começado os teste, a agulha já estava passeando pela perna de Josh. Desenhando, perfurando, tentando arrancar alguma reação. Mas nada. Josh não sentia nada. Estava começando a ficar difícil segurar as lágrimas e ele não queria mais tentar, muita coisa tinha acontecido na última semana que o permitiam chorar.
Josh jogou a cabeça de volta na cama e se permitiu sentir toda a dor do que estava acontecendo com ele. Enquanto suas pernas não sentiam que estavam quebradas, seu coração sentia a descarga de dor e doía ainda mais do que se fosse uma dor física.
+ + +
De volta pra escola. Noah estacionou o carro no estacionamento do colégio e desligou o veículo, encarando o prédio. Primeiro dia de aula desde o acidente. Geralmente, ele dava carona para Josh ou vice-versa, mas não dessa vez. Dessa vez ele estava com Any sentada no banco do carona.
Ela desfivelou o cinto e ele fez o mesmo, pegando sua mochila no banco de trás. Ele se virou para sair do carro, mas quando seus olhos se repousaram sobre a entrada da escola, Noah hesitou. Aquele lugar... Muita coisa tinha acontecido naquela escola. Muita coisa entre ele e Josh. Muitos sentimentos estavam guardados, protegidos atrás das portas daquele colégio.
Eu te amo, a frase tomou vida, voltando à memória de Noah. Ele tinha dito aqui para Josh há muito tempo naquela escola.
Eu também te amo, Noah. E tinha sido a primeira vez que ele tinha dito de volta. A voz de Josh era tão viva na memória de Noah que era como se ele estivesse bem ao seu lado, sussurrando em seu ouvido aquela frase.
Mas ele não estava. Estava em uma cadeira de rodas, um futuro incerto sem saber se poderia realizar seus sonhos algum dia e com um filho que ele não sabia existir. O coração de Noah apertou. Era tanta culpa dentro dele que não sabia se ia conseguir encarar Josh naquela tarde pro ensaio.
― Noah? ― a voz de Any o arrancou daquele transe e ele se virou para o banco do carona. Any já estava com a porta aberta, se preparando pra sair ― Tá tudo bem?
― Tá tudo bem sim, eu só... ― Tava pensando no seu namorado. Não tinha um jeito bom pra explicar para Any o que estava acontecendo em sua mente. Junto com toda a culpa que ele já sentia por causa do acidente de Josh ainda tinha a gravidez de Any e as mentiras que Noah estava contando para aquela que deveria ser sua amiga.
Às vezes Noah pensava qual seria a reação de Any se soubesse o que estava acontecendo entre ele e o namorado dela. Bom, talvez ex-namorado agora. Com certeza não estariam em um carro no estacionamento do colégio como se tudo estivesse normal.
― Desculpa por ter jogado essa bomba em você ontem ― Any falou quando ele não continuou. Noah respirou fundo. Para todos os efeitos poderia colocar a culpa de tudo nesse segredo e não nos outros que escondia ― Eu sei que foi muito pra contar e que... Não deve ser fácil pra você.
― Não tem problema ― ele respondeu ― Quer dizer, é sim muit pra processar, mas deve estar sendo pior pra você ― por alguns segundos, nenhum deles disse nada. Noah não sabia o que se passava na cabeça de Any, mas sabia que ele estava tentando criar coragem para perguntar a pergunta que vinha queimando em sua língua desde o dia anterior ― Você vai contar pra ele? ― as palavras saltaram de sua boca ― Pro Josh.
Any suspirou.
― Eu não sei. Acho que tenho que contar, mas... Nem sei mais se estamos juntos. E também tem o acidente... Seria muita coisa pra ele.
― Seria ― Noah concordou. De novo, silêncio. Parecia que nenhum deles sabia como falar sobre o assunto, parecia que não conseguiam encontrar as palavras certas pra falar sobre ― Já sabe o que vai fazer com o bebê? Se você vai ter mesmo?
― Ainda não ― Any respondeu ― Você é a única pessoa pra quem eu contei até agora. Por favor, não fala nada pro Josh sobre isso.
Noah não respondeu com palavras, apenas moveu sua cabeça afirmativamente. Tanta coisa tinha mudado no período de tempo de uma semana: Josh não conseguia andar, Any estava grávida e Noah carregava tanta culpa e segredos em seu coração que achava que ia explodir. Tudo porque ele tinha beijado Josh. Tudo porque tinha se apaixonado por Josh.
― Obrigada, Noah ― Any agradeceu e o puxou para um abraço. Um abraço forte, solidário e carinhoso. Noah sentiu seu coração apertar ainda mais ― Você é um ótimo amigo, sabia?
Uma lágrima começou a se formar no olho dele. Não podia chorar agora, não enquanto abraçava Any. Seria muito difícil de explicar o que estava acontecendo. Ele apenas retribuiu o abraço, mesmo que sentir o toque da garota doía.
― Melhor a gente ir pra aula ― Noah falou, por fim, desfazendo o abraço. Any concordou e eles saíram do carro.
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