Sonhos Perturbados - Edição Publicada
1 Faces na Escuridão
Já era fim de tarde, quando James despertou de um intenso e profundo sono. Acordara debruçado sobre seu piano, rodeado por uma poça de saliva. Sentia uma dor imensa na cabeça, lembrava-se apenas de estar tentando tocar alguma música no instrumento quando algo aconteceu e o fez desmaiar por um período.
O pianista olhou pela janela e notou que o céu estava diferente ao de antes, agora parcialmente encoberto por nuvens carregadas com gotas de chuva que caiam lentamente. A paisagem estavam deixando-o hipnotizado, porém ele precisou se locomover para o corredor da casa, passando por alguns quadros, com retratos antigos nas paredes. Prateleiras com coisas velhas e sem utilidade abarrotavam a passagem. Seus passos eram leves e precisos e seus olhos ainda brigavam para se manterem fechados. Ele estava em estado de alerta apesar da tontura, ele precisava descobrir o que tinha feito-o desmaiar.
Ao passar ao lado da escada, pensou em ter visto alguém nas escadas. Ainda parado no corredor, olhou atentamente apertando bem os olhos, e é claro que não havia ninguém naquela casa. Estava delirando. Talvez pudesse ser um ladrão e não a presença de algo inexplicável.
Ele se virou para a direita e entrou no banheiro, vasculhou as gavetas à procura de seus medicamentos, mas infelizmente, os antidepressivos já haviam se esgotado. Respirou fundo, mas não escondeu um gesto atordoado. Rumou para a sala de estar, onde o enorme espelho emoldurado em prata com belos detalhes roubou sua atenção como sempre.
A vontade de ficar devaneando em frente ao espelho era tão forte, que sempre que James passava pela sua frente, sentia a necessidade de admirá-lo. A pele pálida e as olheiras profundas contrastavam com a pouca luz do ambiente, fazendo-o desviar a atenção do espelho, olhando assim, para si mesmo. Passou a mão nos cabelos castanhos para que ficassem um pouco mais ajeitados. O rapaz parecia uma pessoa intensamente perturbada, e de certa forma, sua aparência lhe atraía num profundo ato de narcisismo. Sua dor, seu capricho por estar arruinado. O espelho o refletia como um animal feroz, olhando friamente para sua presa. Era insano.
Sua expressão era fechada, rosto levemente inclinado para baixo, olhos centrados e levemente erguidos como se estive estudando sua vítima. No canto da boca, notava-se um sorriso sereno, porém maléfico.
Subitamente respirou fundo, e andou novamente pelo corredor, deslizando vagarosamente a porta de vidro da sala e fechando-a ao entrar, por fim, deitou-se no sofá.
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Com a televisão ligada, trocou alguns canais e logo pegou no sono. Sua cabeça ainda doía.
Coisas estranhas e fora do normal aconteceram e ainda acontecem em sua vida. De início ele pensou que fosse loucura, mas descobriu que a fonte desses problemas não era nenhum pouco distúrbio mental algum. Ele sabia que realmente existia algo lhe perseguindo. Uma presença. Procurava sempre se acalmar para não perder todo o controle e a razão, por toda sua vida ele sempre soube, no fundo, o que acontecia de verdade. Porém James sabia que ninguém iria acreditar nisso. Ele sempre acabava então procurando outras saídas, outras soluções e desculpas.
Não dando importância para as coisas que aconteciam, as experiências, ele pensava que iria se livrar. Mas o grande vazio que sua vida era, fazia-o sempre estar no caminho cruzado dos acontecimentos sobrenaturais de difícil entendimento para pessoas comuns.
James foi criado por parentes distantes, pois seus pais morreram em um terrível incêndio quando viajavam pelos Estados Unidos. A irmã de sua avó foi obrigada a ficar com o garoto, pois era a única pessoa mais próxima no momento, e com maior condições financeiras. Após isso, eles mudaram-se para a América do Sul, deixando o pesadelo para trás. Ele não tinha mais as pessoas que mais amava e estava num caminho obscuro e incerto. A relação com a nova família não era muito próspera, o que deixava as coisas ainda mais sérias.
A situação de desgosto que ele se encontrara no momento, era fruto de suas próprias ações. Porém, nos últimos seis meses, não tinha mais como ele ignorar os fatos que o perseguiam. Os acontecimentos bizarros passaram a acontecer com mais frequência desde que ele decidiu “abrir as portas”, dando início ao seu inferno pessoal ao qual estava fadado, corrompendo assim, sua alma, ou o que restara dela.
Sua mente não era mais a mesma, às vezes músicas altas e barulhentas ajudavam a afastar o medo, a insegurança e as idéias sombrias de seu pensamento. Isso todavia, não era o bastante. Em apenas seis míseros meses, todo o cuidado executado durante anos, foi se extinguindo. Ele estava depressivo, envolto numa nuvem obscura, destruindo-se a si mesmo fatalmente. Nenhum dos psiquiatras consultados conseguiram ajudar com a situação, eram apenas remédios em cima de remédios. Em suas crises, era correr para as drogarias no mesmo instante, até mesmo nas frias madrugadas da região.
Durante a manhã deste dia, James recebeu a visita de três médiuns paranormais, pessoas que trabalham com coisas relacionadas a outras dimensões, além da vida.
“Há uma força oculta muito grande que sufoca a sua vida. Isso tem tudo a ver com seu passado. Sua mente não está a salvo. Muito menos sua alma”. Foi o que eles disseram. James precisaria liberar sua mente para essas forças, para assim conseguir enxergar com clareza e tentar lutar contra. Seus traumas haviam forçado um espectro a se prender e se desenvolver em sua vida, eles acreditavam ser um poltergeist. Mas a mente inquieta dele, dizia que era bem mais profundo.
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Logo após despertar no sofá, a televisão estava desligada e já era tarde da noite. O relógio de chão ao lado da escada marcava 21:15. A chuva caía com força lá fora. Então, meio cambaleante, caminhou cautelosamente até a sala de música, pois havia esquecido seu livro na noite anterior onde não conseguia dormir, então decidiu ficar embaixo do seu abajur favorito enquanto lia um conto. Ao apanhar o objeto próximo aos pequenos sofás aveludados, ele olhou em volta e a sala parecia segura para continuar durante a passagem da noite.
Sua cabeça não doía mais,então retomou sua leitura. O livro possuia capa dura, revestida com uma cor verde esmeralda e narrava pequenos contos de fácil compreendimento, ideal para crianças. Conto sim, conto não, a narrativa era um pouco mais sombria, daquelas que se usam para fazer as crianças serem mais obedientes. Em alguns, ele não entendia sequer o contexto, pois ele apenas passava os olhos correndo entre as linhas. Ele tinha os ouvidos atentos na noite daquela quase primavera, e daquele lado do mundo, o vento soprava fortemente contra a grande floresta que rodeava a casa e atirava as gotas de chuva de encontro às persianas fechadas.
James teve uma idéia, pensou em tentar se concentrar mais uma vez, para ver se conseguiria fazer contato com a entidade e saber o que ela queria. Porém, quando fosse meia-noite, o relógio de chão ressoaria com o sino da torre da igreja colina abaixo, impedindo que o mesmo continuasse a prosseguir com algum tipo de ritual. Mas antes que pudesse iniciar, ouviu um barulho. Colocou o livro no colo e ficou imóvel, atento, olhando para os lados tentando identificar a origem. A luz vinda da lâmpada do abajur de cobre, banhava o rapaz iluminava apenas o círculo de proteção ao qual ele se encontrava. Era um facho de luz que fazia-o sentir-se protegido do resto da casa. Colocou o livro lentamente no criado-mudo do seu lado e levantou-se caminhando para fora do banho de luz. O resto da sala estava inundada na penumbra. Ele não se lembrava de ter apagado as demais luzes da casa. No fundo da sala de música, perto da grande porta envidraçada que dava ao jardim, via-se a sombra do piano de cauda, cuja sua silhueta brilhava demoniacamente. Em cima deste, havia um grande quadro de prata, emoldurando um retrato. Eram seus pais. Às vezes, o jovem tinha a impressão de que a imagem deles estava o observando. Do nada, um estrondo ecoou pelo chão do segundo andar da casa fazendo-o pular instantaneamente para o círculo de luz de baixo do abajur. Ele estava apavorado, pois aquele barulho era muito real.
Ele caminhou vagarosamente para a porta do cômodo, seus passos fizeram o assoalho ranger. Parou entre a porta e o corredor e resmungou — Deveria ter chamado Madame Minerva e o Senhor Pascoalli para dormirem aqui. — Madame Minerva era a governanta da casa, preparava refeições, fazia limpeza dos móveis e cuidava de praticamente todos os problemas. Porém ela passou a morar no vilarejo após seu marido ter adoecido, fazendo-a trabalhar apenas meio período do dia. Enquanto o Senhor Pascoalli, era o caseiro, jardinava, fazia reparos e manutenções dos equipamentos, ele mora numa pequena casa de madeira próximo a estradinha de terra. Porém, desde que seus medicamentos acabaram, ele quase não deu muita atenção aos idosos.
Ouviu-se um novo estrondo vindo do mesmo lugar no andar de cima. Talvez pudesse ser algum animal que tivesse atravessado a floresta e tenha se perdido. James acelerou o passo até a porta da entrada, que fica disposta a frente da escada. Certificou-se de que estava bem trancada. O pesado cadeado estava perfeitamente colocado. Ele ligou o interruptor dos lustres da escada, que iam subindo conforme os degraus cresciam. Um vento forte fez a porta estremecer. James olhou para fora pelo vitral na lateral da porta, a chuva escorria pela escadaria de pedra e as luzes das casas lá embaixo iam se apagando aos poucos, uma depois da outra conforme ventava e chovia. No fim do vasto jardim a luz da casinha do Senhor Pascoalli ainda estava acesa, mas logo também se apagou. O rapaz estava totalmente sozinho naquele momento.
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Sozinho nas trevas, foi até a sala de jantar para acender as luzes, se o barulho no segundo andar persistisse ele teria que ir ver o que estava acontecendo. Caso precisasse, ele iria correr pedir ajuda ao caseiro. O espelho parecia estar o chamando. Ele olhou de relance pois sentiu calafrios. Após deixar as luzes acesas, correu de volta para a sala de música. Sua pulsação estava um pouco acelerada, e a respiração levemente ofegante. Não ouviu mais nenhum barulho por um período, então sentou-se no pequeno sofá ao lado do abajur, tentando retomar sua leitura. Novamente ouviu outro barulho, dessa vez vinha de uma das janelas da sala. Ele fechou o livro rapidamente e ficou observando cada uma delas para distinguir de qual veio o barulho. Sua garganta estava seca. Tentou ficar parado ao se levantar, mas seu nervosismo o impedia. Ele sabia no fundo que uma hora ou outra ele iria ter que enfrentar.
Hesitou em seu lugar, procurando por todos os lados. Mas nada se ouviu. O silêncio tinha tomado conta do ambiente, onde ele se sentia sufocado. Ao se retirar do cômodo, se deparou com os objetos das prateleiras estilhaçados no chão. O vento não poderia ter feito aquilo, sendo que a casa estava toda fechada. Jame abaixou-se e começou a recolher as coisas. De repente, soou meia-noite. O susto foi tão grande, que ele acabou caindo pra trás, pois o sino da igreja tocava ao mesmo tempo em que ao seu lado o grande relógio badalava sombriamente. Ele começou a passar mal. Sua mente estava bagunçada, sua respiração ofegante. O rapaz foi se arrastando para o pé da escada, agarrou o corrimão e foi se colocando em pé lentamente. Ao ficar ereto novamente, sentiu o ar dos seus pulmões fugirem totalmente. Engoliu em seco e apertou com força o corrimão da escada.
Havia um espectro em sua frente, olhando-o com ódio do alto da escada. Não era humano. Suas pernas cambalearam e sua voz não saiu. Ele queria gritar.
Um enorme estrondo ensurdecedor veio de trás de suas costas. Era ainda mais surreal. A porta de entrada casa se arrebentada com uma enorme força. James descongelou e conseguiu correr para a entrada. Lá fora a escuridão era revelada além das luzes da casa. Rajadas de vento traziam as mais gélidas gotas de chuva ao seu encontro. Mesmo assim ele iria ter que correr dali.
No momento em que decidiu, um sopro frio segurou seu pescoço. Seu estômago parecia estar sendo arrancado. Ele virou-se lentamente apavorado tentando pensar no que fazer para escapar daquilo. O espectro não estava mais alí. Era a hora de correr.
Levantou-se depressa e correu diretamente para o andar de cima com o primeiro vestígio de força que encontrara. Viu os degraus da escada e não pensou em outro lugar a não ser lá em cima, pois achava que não teria escapatória na noite fria lá fora. Seu desespero por sobreviver o impulsionava a cada degrau. Seus pensamentos estavam tão frenéticos quanto sua respiração, mas ele não podia deixar de se questionar sobre aquilo que o atacou.
Ele teve um trauma de infância em sua vida, cresceu relutando para não acreditar naquilo, mas ao mesmo tempo o alimentava. Até chegar ao ponto em que não quisera mais fugir. E aquilo, tinha vindo lhe buscar.
Pulou os últimos degraus pensando que algo lhe iria agarrar os pés e lhe arrastaria para algum buraco. O impacto da subida foi tão brusco, que ofegante parado no topo da escada, sua visão começou a turvar. Seu coração parecia que estava prestes a explodir em seu peito. As luzes estavam estáticas, mal podia enxergar. Ouviu-se gritos por todos os lados dos quais achava que estavam dentro de sua cabeça. Voltou a correr.
Sem saber qual direção seguir, simplesmente rumou corredor a dentro, quando de repente o chão parecia estar vivo. A longa tapeçaria estava forçando-o a diminuir a velocidade. James caiu. Era hora de desistir, pensou.
O rapaz fechou bem os olhos e ficou murmurando para aquilo terminar de vez, para que aquele espectro o levasse embora. O chão foi engolindo-o de pouco em pouco, apertando seu esqueleto como se estivesse o comprimindo num caixão. E por um momento a dor foi embora. O desespero foi deixando-o lentamente. O frio foi desaparecendo e o medo sumiu. Sua respiração estava normalizada quando ele decidiu abrir os olhos, e aliviado percebeu que estava sentado de frente ao aparador da sala de jantar, com o enorme espelho o encarando. Soava meia-noite e ele havia apenas adormecido, mais uma vez.
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