Sonhos Mortais

28 Capítulo 28 - Espelho Sombrio


Notas iniciais
Esse Capítulo vai ser narrado por Thomas...
Boa leitura :3

Nunca estive tão tranquilo com a ideia de morrer, sempre pensei na ideia de libertar minha alma, mas com um certo receio do que me aguardaria após a morte. O que realmente aconteceria com uma alma tão perdida em pecados quanto a minha? Mas agora era diferente. A única coisa que realmente me incomodava era o estrago que deixaria para trás com a minha partida. Andrew provavelmente agradeceria pelo meu fim... Mary se sobrevivesse duvido que se importaria. O único coração que eu estraçalharia era o de Demon... não suportaria a ideia de vê-la sofrer por mim. Queria fazê-la me odiar, para que tudo fosse mais fácil, mas por mais egoísta que pareça eu não queria fazer isso... queria que pelo menos alguém tenha uma boa lembrança de mim.

Demon estava aninhada em meu peito, suas lágrimas escorriam sem parar, naquela despedida silenciosa... quando o cansaço venceu e ela adormeceu. Eu surrei em seu ouvido, mesmo sabendo que ela não me ouviria:

_ Aguente… não podemos mudar o que passou, o que está destinado a acontecer... Apenas não tente se preocupar... siga seu caminho... quero que saiba que Você é o mais próximo do paraíso que estarei...

Pensei que aquela seria a ultima vez que a veria... me levantei e a deixei descansando. Dei uma ultima olhada em seu rosto, em como ele ficava em paz, livre de aflições enquanto dormia... talvez aquele seria seu ultimo momento de paz. Me abaixei e lhe dei um leve beijo. Então eu me afastei dela talvez para sempre. Se mortos chorassem, meus olhos estariam inundados de lágrimas... desci a escadaria e encontrei Andrew encostado na parede ao lado da porta, ele me lançou um olhar e disse:

_ Sinto muito.

Não sabia se ele estava sendo sincero, mas quis acreditar que sim.

_ Isso acontece todos os dias, pessoas morrem, pessoas sofrem pelos mortos_ respondia a ele.

_ Pare de falar como se não se importasse! _ disse ele com uma voz ameaçadora.

_Isso é meu maior problema, me importar_ suspirei_ Deixe-me acabar com isso logo!

Ele assentiu com a cabeça e deixou que eu adentrasse no cômodo onde “Mary” se encontrava, ainda acorrentada ela me fitava com um sorriso maldoso no rosto.

_ Nossa tava começando a sentir saudades_ disse ela sarcasticamente.

Não respondi então ela prosseguiu:

_ Você vai mesmo me possuir? _ Ela riu _ Sério? Eu tenho uma ideia melhor do que a gente pode brincar, gostoso.

Percebendo que eu não estava nem ai para o que ela dizia, eu me aproximei, ela sorriu sedutoramente para mim e disse com uma voz ameaçadora:

_ Sabe aquela garota que te levou pra cama só para se vingar do “namorado”, você lembra como ela era? _ ela riu _ você acha mesmo que a Mary, a santinha sem sal iria realmente fazer isso? A garota pela qual você se sentiu atraído era eu. Era eu já me manifestando nas ações dela... você quer mesmo me matar?

_ Sua manipulação não vai mudar em nada minha decisão...

Ela não respondeu suas expressões perderam a sensualidade e se tornaram demoníacas... ela sorriu sombriamente. Estiquei meu braço para que pudesse tocar seu rosto para que a transição fosse mais fácil, não tinha experiências em possuir corpos, mas o toque tornaria a passagem mais simples, faltavam poucos milímetros e um grito irrompeu o ar. Um gelo subiu pela minha coluna, novamente um grito, seguido por guinchados de dor. Eu agarrei o pescoço de Mary e a ergui no ar junto com a cadeira na qual estava presa.

_ O QUE TA ACONTECENDO, VADIA?

Mesmo sendo sufocada ela soltou uma leve risada sarcástica eu a soltei e ela disse:

_ Acho que Davena conseguiu recuperar o controle sobre o demônio de estimação favorito...

Novamente um gelo subiu pela minha coluna. Eu arranquei um pé da cadeira em que ela estava e lhe dei um golpe certeiro na cabeça para que ficasse inconsciente. Não tive tempo de sentir culpa. Sai correndo para o andar de cima, estava tudo quieto, olhei ao redor, estava sentindo o familiar cheiro de sangue, foi quando me deparei com o sofá onde Demon estava todo manchado de sangue, olhei para trás e vi que a parede estava toda manchada de vermelho também, mas não eram simples manchas eram letras:

Feito de veneno e sangue...

Condenação...

A canção infernal que me estrangulava...

Uma vez perdido nunca mais encontrado...

Quem não sabe Jogar deve morrer...

Meus pensamentos estavam a milhão, minha respiração ofegante.... as possas de sangue se estendiam até uma escuridão sobrenatural no cômodo. Praguejei-me por ter deixado isso acontecer, eu prometi que a protegeria, eu havia prometido que nada lhe aconteceria. Eu adentrei aquela sombria escuridão... imagens, sons, sentia algo se movimentando nas trevas, era tão surreal, não era normal, passos a minha volta, me circulando, me observando, tentei recuar, tentei sair da escuridão, mas em todas as direções ela era inacabável, quanto mais me movia parecia que mais ela me envolvia mais, me sufocava. Foi tão rápido não pude captar o que estava acontecendo. Um som ecoou em minha mente, insuportável, ensurdecedor, como se tivesse ficado fora do ar, minhas pernas cederam e eu cai. Me tornei uma prisão de mim mesmo, não consegui me levantar, só conseguia encarar a escuridão a cima de mim. Sentia que havia algo ao meu lado, queria me virar para ver, mas não conseguia mexer meu corpo. A Escuridão acima de mim parecia um espelho sombrio. As trevas foram tomando forma. Finalmente pude ver o que ele refletia.

Era eu, estava caminhando em uma estrada, solitário, era noite, não parava de andar. Andei até meus pés sangrarem, não aguentava. Quando cheguei a um velho portão devorado pela ferrugem. Era um velho cemitério, estava completamente abandonado. Estava andando através das lápides, todas em tal estado de abandono que não era possível mais ler os nomes. Era o mundo dos esquecidos, sem lembranças, sem nenhuma intervenção dos vivos. A morte tão perpetua, tão impiedosa... era isso que o lugar refletia. Somente uma fileira de lápides me chamou a atenção, elas se destacavam em meio as outras, eram relativamente novas. Aproximei-me e tirei o pó que cobria a inscrição de uma delas... não podia acreditar no que estava vendo... não era real.. não podia...

“Aqui Jaz Mary Harrison, nossa eterna Angel”

Uma leve garoa começou a cair, tornando possível ler as inscrições da lápide ao lado, e aconteceu o que mais temia também reconheci o nome, era a lápide de Demon. Foi como se uma faca me perfurasse por dentro, dilacerando tudo em seu caminho. Eu me debrucei sobre o túmulo e vociferei aos céus “POR QUE? POR QUE TUDO A MINHA VOLTA TEM QUE SE RESUMIR EM DOR E SOFRIMENTO?”

Então a imagem no espelho se dissolveu e eu recebi um choque de realidade, ainda estava deitado no chão daquele mesmo cômodo, tudo não passara de um “sonho”. Meu corpo estava todo dolorido, olhei por uma pequena janela e pude ver que ainda era noite, não haviam se passado mais que poucos minutos, talvez 10 desde que eu subira para ver o que estava acontecendo. Quando recobrei meus sentidos finalmente pude ver o que estava roçando meu braço ao meu lado. Era Demon com seus olhos tão permanentemente fechados, suas mão estavam frias, cercada em seu próprio sangue, não tinha coragem se checar seu pulso e talvez ver que ela havia partido. Parecia que o Destino queria mesmo que naquela noite nos separássemos, não importava a maneira. Eu levantei-me a segurei ainda inconsciente. Então me deparei com ele, olhos amarelados, pele pálida, uma áurea de escuridão, exibia um sorriso de branco surreal.

_ Andrew você tem que lutar contra o controle. Não deixe Davena te controlar. Pare! _ berrei para ele.

Pude ver seus olhos vacilarem entre o amarelo e o azul, ele estava resistindo. Eu sabia o que ia acontecer cedo ou tarde eu assenti com a cabeça, dizendo que ele poderia ir em frente, não haveria como evitar o inevitável. Com Demon ainda em meu colo a apertei com mais força contra meu corpo e simplesmente fechei meus olhos e aguardei...

Notas finais
Espero que tenham gostado *--*
E que não tenha ficado muito confuso ://