Sonhos E Delírios De Uma Mente Insana
8 A Fada e o Gato
Notas iniciais
Camila acordou com uma corrente gelada de ar arrepiando todo seu o corpo e percebeu que estava atrasada ao ver o ponteiro do relógio indicando oito horas. Seu dia seria muito corrido, iria encontrar Selene e começar a investigação para a vampira albina. Precisava se apressar. Olhou o seu guarda roupa e viu apenas sua roupa de trabalho e o vestido de gala que havia usado na noite anterior. Tinha esquecido que sua bagagem havia sido extraviada quando veio para São Paulo. Maldita companhia aérea!
A ruiva resolveu apelar para boa vizinhança. Pulou sobre a cama e começou a analisar as fotos pregadas em sua parede, uma delas lhe chamou a atenção, a loira com óculos Dolce E Gabbana que carregava um ar mesquinho e superior. Com o dedo seguiu a linha azul até o seu lado esquerdo e leu parte da rotina da moça, descobrindo que a mesma deveria estar na lavanderia do condomínio.
Confiante com sua escolha tomou um banho e se embrulhou na toalha azul que Álvaro, o vizinho do andar de baixo, havia gentilmente “emprestado”. Puxou uma das portas de sua entrada principal sem dificuldade, apesar de ser imensa, e sentiu a madeira lisa como uma pena acariciando suas mãos, sem dúvida o Jacarandá era magnífico. Com passos leves atravessou o corredor enfeitado com frágeis estátuas de mármore e um pequeno aparador com os girassóis que a própria Camila havia instruído a colocarem ali. Estava atenta a qualquer movimentação, mas não havia ninguém, apenas o quadro de uma condessa inglesa que parecia lhe encarar com olhar altivo. Alcançou a porta à sua frente e inclinou a cabeça. Nenhum barulho.
“O passarinho abandonou a toca.” Riu baixinho com tal pensamento, enquanto tirava o grampo do cabelo e enfiava na tranca que logo se abriu com as ágeis mãos. Entrou silenciosa se esgueirando cuidadosamente entre os móveis importados da fina decoração e quando alcançou a suíte principal se surpreendeu ao ouvir o chuveiro ligado. A vizinha ainda estava em casa, precisava ser rápida.
A espiã abriu a porta de espelhos e se viu imersa em um imenso closet com roupas, calçados e acessórios de marcas famosas. Após analisar as prateleiras escolheu uma calça jeans do seu tamanho e pegou uma regata preta de seda sem achar nenhuma blusa que chamasse sua atenção. Olhou para o lado, e viu um casaco vermelho sobre a cama, junto com um conjunto que provavelmente era a escolha do dia. Sua vizinha tinha bom gosto, talvez voltasse para mais algumas visitinhas. Camila sorriu ao pensar isso. Já tinha causado alguns problemas às antigas vizinhas.
Distraiu-se por instantes admirando certas peças raras e exclusivas que apenas uma pessoa extremamente rica ou importante teria, mas então percebeu que o chuveiro tinha sido desligado. Apressada, pegou o casaco, correu em direção à saída e trancou a porta, entrando em seu apartamento. Ela se vestiu, colocou os únicos sapatos que tinha, seu scarpin preto e pediu um taxi. Tinha devolvido sua Ferrari com muita relutância, pois havia alugado apenas para o evento da noite anterior que ocorreu na capital.
Seus pensamentos voavam longe, imaginava como iria se infiltrar ente os vampiros que Tamily havia mencionado quando o interfone tocou. Seu táxi chegara. Pegou a chave que estava cuidadosamente guardada no fundo falso de seu guarda-roupa e a colocou no bolso.
A ruiva andou em direção ao elevador e com o canto dos olhos notou sua vizinha provedora de roupas atrás de si. Disfarçadamente fechou o casaco para que ela não visse a blusinha de baixo. As duas entraram no elevador e Camila reparou que a mulher segurava uma bolsa bem grande, provavelmente com a roupa suja.
– Bom dia. – disse naturalmente.
– Bom dia. – respondeu a loira com ar de desdém. Analisou-a de cima a baixo, como se tentasse descobrir se a ruiva era digna de sua atenção, então seus olhos se fixaram na peça vermelha:
– Que lindo esse casaco. – a vizinha parecia dar graças por não ter encontrado o seu, odiava quando alguém usava uma roupa igual a sua. A espiã agradeceu, mas tentou não prolongar o assunto, não queria nenhum tipo de suspeitas logo no início de sua estadia no condomínio.
O elevador parou no térreo e Camila se despediu educadamente, enquanto a mulher continuou até o primeiro subsolo, onde ficava a entrada da lavanderia. Quando a porta metálica fechou, a vizinha se lembrou de que tinha comprado seu casaco em uma pequena cidade no interior da Inglaterra. Estranho.
***
O táxi estava se aproximando do Parque Vicentino Aranha, o destino final da ruiva, e ela percebeu que a corrida quase havia saído do seu orçamento. Enquanto seu apartamento era na zona oeste, o parque ficava no centro da cidade, foi uma longa jornada e um tanto lenta também. O motorista olhava pelo espelho retrovisor desconfiado. O que uma garota bonita e bem vestida iria fazer naquele parque? O homem passou a mão pela careca negra tentando secar o suor que escorria enquanto observava o rebolado da ruiva que o hipnotizava ao se afastar, mas sacudiu a cabeça ao lembrar-se da origem do lugar, o antigo sanatório que lhe causava certos arrepios na espinha. Deu partida no carro e voltou para seu ponto, onde um novo cliente estava a sua espera.
Camila já tinha ido até a casa de Selene duas vezes. Em uma das ocasiões havia concordado em trocar o colar da fada pela chave, só conseguiria cumprir seu objetivo se possuísse o artefato e agora ele seria seu. Seguiu a trilha, passando por diversas árvores espalhadas entre os quiosques vazios e notou dois perus que procuravam comida sob uma das mesas de madeira. Passou por um dos prédios antigos com duas janelas quebradas e avistou a laranjeira que estava procurando. Aproximou-se da árvore e colocou a mão no bolso, apertava a chave com força imaginando seus planos em andamento, estava muito ansiosa.
Pegou uma pétala da flor que estava acima de sua cabeça e a engoliu, sentindo o gosto levemente adocicado e um tanto nostálgico que a fazia mergulhar nas lembranças de um passado distante. Sentiu-se uma criança novamente, tinha encolhido até ficar do tamanho de uma noz. Pegou a pedrinha branca que estava na base da árvore e desenhou na casca grossa e úmida. Deu um passo para trás, e viu que a tentativa de retângulo acabou ficando tão torto que não se comparava a nenhuma figura geométrica. O rabisco era alto e um tanto cumprido, caberiam duas dela ali.
Em instantes viu uma pequena luz surgir na base e seguir o contorno branco, por onde passava, a casca parecia ser cortada profundamente. Quando a luz se extinguiu, a ruiva empurrou com força o centro do desenho, até que a casca cedesse e se abrisse como uma porta.
***
– Você está atrasada.
Selene estava sentada em sua poltrona favorita tomando chá.
– Comecei sem você. – disse apontando para a mesa decorada de bolos e bolachas que pareciam deliciosos, a maioria das fadas tem uma grande habilidade manual, principalmente na cozinha.
Camila olhou para a fada que tinha o cabelo loiro preso num coque, usava o mesmo vestido verde de sempre, com pequenos triângulos invertidos onde deveria ser a barra. Pegou uma xicara do chá fumegante e sentou-se perto da fada.
Arquimedes, o gato, dormia tranquilamente em um tapete felpudo perto de seus pés. Seus pelos cinzas, aparentemente macios, possuíam mechas que mudavam de cor constantemente. Dessa vez estavam azulados.
Sorveu parte do líquido, diferente de qualquer chá conhecido pelos humanos e devolveu a xícara ao pires sobre a toalha de renda rosa. Com receio pegou a chave do bolso, não queria entregar um objeto tão precioso como aquele, mas devia esse favor à fada:
– Aqui está, como prometido.
Selene tocou o objeto como se fosse extremamente delicado e frágil antes de a tomar para si, examinando-a com a tenção.
– É mais poderosa do que eu imaginava. – refletiu consigo mesma. – Obrigada Camila. Sabia que podia confiar em você. – dizendo isso, se levantou indo até uma estante cheia de artefatos antigos e pegou uma pequena caixa de madeira com entalhes de criaturas místicas e assustadoras.
Os olhos da espiã brilharam ao encostar no pequeno baú, era tão leve que quase podia sentir o medalhão em suas mãos. Abriu-o cuidadosamente e pegou o objeto admirada com tanto poder emanando para dentro de si. Enfim poderia vingar-se das criaturas vis que lhe roubaram a família. Enfim sua vingança se iniciaria.
***
Selene segurava o artefato mágico com cuidado. Parecia uma chave comum, mas aquela era um dos poucos portais existentes no mundo humano. Por isso as pessoas não acreditam mais em magia, era quase impossível cruzar as fronteiras entre os mundos. Uma fada como ela, que já vivera tanto tempo, vira quase todas as chaves de portal e como algumas tiveram que ser destruídas diante à ambição da humanidade.
Enfim Selene poderia voltar pra casa, tentava conter seu entusiasmo, mas disfarçava muito mal. Andava de um lado para outro pegando objetos aleatórios e largando em lugares improváveis.
– E agora? O que vai fazer com a chave? – Arquimedes estava curioso, tentou fazer com que a fada se concentrasse depois que a mesma largou o bule sobre o sofá.
– Vamos arrumar as malas e voltar pra onde pertencemos. – respondeu eufórica, enquanto pulava na poltrona novamente.
– Tem certeza? Ela ainda está atrás de você...
– Eu não me importo mais! Preciso ver Peter! – exclamou fazendo biquinho. – Você vem comigo? – encarou-o com olhos pidões.
– Até o fim do mundo.
O gato pulou no colo da fada e a encarou:
– Sei que você o escolheu, mas eu não desisti ainda. – disse abrindo um sorriso insano.
– Pretende voltar a sua forma original? – perguntou se controlando para não rir da audácia e perseverança do bichano.
– Duvida de mim?
O gato olhou-a desafiador e a fada desviou o olhar de seus olhos azuis. Até em forma de gato ele a intimidava, isso a irritava profundamente.
– Vamos – disse ainda sem encará-lo – Ainda precisamos achar Beatrice. – e levantou-se fazendo Arquimedes pular de seu colo.
O gato assentiu sem nada dizer. Sabia que ela sentia algo por ele, e agora tinha a oportunidade de voltar a sua verdadeira forma. Ela seria sua.
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