Sonhos E Delírios De Uma Mente Insana
1 A Chave
Notas iniciais
Ela percebeu que aquele vestido não a deixaria concluir sua missão, precisava de uma roupa mais leve e solta. Quando notou um garçom indo em direção ao banheiro, agarrou a chance, esperou que ele entrasse e seguiu-o. Ele nem a notou.
O banheiro estava vazio. Podia notar as paredes mofadas e encardidas, o espelho estava cheio de manchas, algumas cabines não possuíam portas, e as que tinham estavam todas riscadas e arranhadas. O cheiro era uma mistura de água sanitária, perfume barato e suor. Nada extraordinário para um banheiro de empregados. Observou que o rapaz era bem magro e parecia lento. Riu em seus pensamentos, aquela seria uma presa fácil.
Quando ele virou para sair do banheiro, finalmente a notou parada junto à porta. Ele até que não era feio, pensou ela. A espiã sabia seduzir um homem de tal maneira que poderia roubar seu uniforme sem que ele notasse, mas ela estava entediada.
O rapaz abriu a boca para falar alguma coisa, mas o que se ouviu foi um urro ininteligível que ele soltou ao ser atingido com um chute improvisado, por causa do vestido extremamente justo. Camila tinha que ser rápida, antes que alguém notasse o sumiço do garçom. Ele caiu no chão e não levantou mais. Satisfeita, roubou o uniforme e prendeu seu cabelo num coque, empurrou o rapaz dentro de uma das cabines fétidas do banheiro e só o deixou com sua samba canção do Pernalonga. Não pode deixar de rir com aquela visão.
Saindo do banheiro se dirigiu ao andar superior, onde estava o segundo salão e um escritório. Neste cômodo havia uma chave, que não servia para abrir uma porta, mas sim um portal. Provavelmente a chave estaria muito bem protegida. Mas ela era Camila! Uma das melhores espiãs da atualidade.
Dois enormes seguranças protegiam a entrada do escritório. No salão havia mais de 200 pessoas, seria fácil sumir na multidão, mas era muito arriscado entrar pela porta da frente, chamaria muita atenção. A espiã se dirigiu a saída mais próxima do ar condicionado e deu graças de não ter muitas pessoas por perto. Ela tirou uma de suas presilhas do cabelo e começou a desparafusar a grade do ar condicionado. Fez isso com tal rapidez e precisão que ninguém notou a ruiva agachada, que logo sumiu na entrada da tubulação do ar condicionado.
Pode se mover livremente graças ao uniforme recentemente adquirido. Sem fazer nenhum barulho engatinhou pela tubulação até achar a saída que dava diretamente para o escritório. O esquema de segurança daquele lugar não era muito eficiente, passou a mão entre uma das fendas da grade e começou a desparafusar. Nessas horas agradecia pelo treinamento espião extensivo que teve, era muito difícil abrir grades, estando presa do lado de dentro. Com um pouco de dificuldade Camila conseguiu desprender a grade da parede e entrou sorrateiramente na sala.
A primeira vista, aquele parecia ser um escritório normal. Um espaço amplo, com um carpete marrom e móveis de muito mau gosto. Muitos papéis repousavam sobre a mesa, juntamente com vários tipos de canetas e atrás dela havia uma estante lotada de livros e estátuas gregas que salvavam o resto da decoração. Obviamente a chave não estava ali.
A mulher, então, decidiu examinar os livros e as estátuas com mais atenção e percebeu uma fina rachadura que se estendia de um lado ao outro de uma das obras, com muito cuidado forçou a estátua pra frente e a estante se moveu para o lado. Clichê. Camila já estava acostumada com passagens secretas, ainda mais as que envolvem estantes. Empurrou um pouco mais a estante para o lado e passou pela entrada com muita cautela, olhando atentamente para o chão a procura de fios nylon que poderiam disparar o alarme e revelar sua posição. Não havia nenhum.
O corredor era estreito e comprido, havia uma luz pálida longe, provavelmente no final do corredor. Presa na perna da espiã, havia uma pequena lanterna que ela se apressou em ligar, iluminando seu caminho. Viu desenhos da mitologia grega desenhada nas paredes, e no chão, grandes lajotas quadradas e coloridas que poderiam conter armadilhas. Então ela pegou as facas presas a sua perna, e foi jogando uma a uma. A primeira faca caiu em um quadrado vermelho e nada aconteceu, a segunda caiu no quadrado azul e o chão se moveu, no mesmo instante um jato de fogo saiu da parede.
Depois de 15 segundos o fogo parou e a ruiva tentou não chegar perto dos quadrados azuis. Como no vermelho não tinha acontecido nada, ela jogou outra faca em um vermelho mais a frente, mas não apenas ele se moveu, mas quase todos os quadrados ao redor começaram a se mover também. Camila não pensou duas vezes. Correu rapidamente, desviando dos jatos de fogo e de algumas facas lançadas das paredes, uma passou de raspão em seu braço, e outra quase atingiu seu rosto.
Quando finalmente ela saiu dos quadrados, caiu rolando em um solo irregular de terra. A lanterna tinha caído da sua mão e ela pode vê-la alguns metros a sua frente, quando sentiu alguma coisa peluda subindo pela sua mão e uma coisa escorregadia e fria subindo pela sua perna. A luz da lanterna estava voltada pra ela, então Camila pode ver que o que tinha na sua mão era uma tarântula!!! Camila não pode conter um grito que fez com que a cobra que subia em sua perna espremesse-a. A espiã usou a faca na cobra e no desespero quase cortou a própria perna. Quando a cobra parou de se mexer, Camila a desenrolou de sua perna e começou a se levantar pra pegar a lanterna, mas quando olhou para o chão, e viu a quantidade de aranhas e cobras, nem pensou, saiu correndo e chutando o que quer que estivesse tentando escalar sua perna. Ela tinha horror a aranhas e cobras.
Correu e correu até bater de frente com uma parede que tinha algumas pedras salientes presas bem firmes, segurou uma delas e percebeu que poderia escalar. A ruiva começou a subir pela parede e rapidamente chegou ao topo, lá em cima o chão era de terra batida e, ao andar, algumas tochas que estavam presas a parede começaram a se acender automaticamente.
Camila não relaxou. Achava que ainda poderia ter uma surpresa. Ela continuou andando lentamente, quando finalmente chegou até uma porta de madeira toda entalhada com símbolos antigos e observou atentamente, muito admirada com tamanhos detalhes e perfeição dos entalhes. Empurrou a porta devagar sem encontrar resistência, entrou cautelosa e viu que estava em um pequeno salão cheio de pinturas antigas, estátuas e objetos de prata e ouro. No meio do salão, um pequeno altar com um bauzinho de prata incrustado com rubis chamou sua atenção.
Ela sabia que não podia ser simples.
Pegou o spray, que nem eu sei aonde ela guarda, e espirrou um pouco no ar. Logo vários fios de nylon cruzados pela sala se tornaram visíveis. Havia muitos deles, e o espaço era pequeno. Que bom que havia emagrecido alguns quilos naquele mês. Pensou.
Olhando mais atentamente, a ruiva enxergou sangue coagulado em alguns dos fios. Camila fechou os olhos, respirando calmamente, e quando voltou a abri-los, começou a pular por entre os fios, ora com delicadeza de uma bailarina, ora com rapidez e agilidade de uma capoeirista. Chegou perto do altar e notou alguns fios cor de fogo no chão, ela deixaria uma lembrancinha para seu “patrocinador”.
A espiã se sentia muito bem humorada, ainda mais depois de passar por todos esses obstáculos, praticamente ilesa, e estar diante de um objeto tão precioso como aquele. Depois de tanto tempo procurando pela chave, estar diante dela... Ela quase não conseguia respirar de ansiedade, abriu a caixinha e viu a chave reluzindo com o reflexo dos rubis. Parecia uma chave comum para pessoas que não sabiam o significado dela. Camila pegou-a, cuidando com qualquer detalhe que poderia ativar o alarme. Quando foi suspirar de alivio, notou um rubi que estava escondido sob a chave, ele estava brilhando de um modo estranho.
A ruiva olhou pra trás, e viu todos os fios de nylon se soltarem e caírem no chão. Surpresa, percebeu que tinha sido descoberta. Ela se virou para correr, quando ouviu um barulho vindo de trás das paredes. Não quis ficar pra descobrir o que era, e começou a correr como nunca tinha corrido em sua vida.
Ela ouviu a parede atrás dela ser estraçalhada quando algo a atravessou.
Camila olhou pra trás por reflexo e logo se lamentou de tê-lo feito. Com terror e espanto viu a fera correr em sua direção. Só pode ser brincadeira! Onde diabos conseguiram um touro? Era o maior touro que já tinha visto em sua vida! Ele corria muito rápido e parecia furioso, quase fincou os chifres nas costas dela, mas antes que ele fizesse isso, ela chegou à parede que havia escalado. Sem pensar, pulou e quase caiu de cara no chão, mas conseguiu se equilibrar. Sentiu um pouco de dor na perna, afinal a parede não era tão baixa, mas correu por cima das cobras sem olhar para o chão. A altura havia atrasado um pouco o touro e ela ganhou tempo, passando pelas lajotas coloridas que agora estavam desativadas.
Ela ouviu o touro se aproximando com passadas fortes no chão e baforadas que podiam ser ouvidos a vários metros de distância.
A ruiva correu para a entrada do ar condicionado e nem se preocupou em parafusá-la de volta, quando começou a engatinhar, pode ouvir o touro ir de encontro a estante e destroçá-la por completo. Ele pareceu confuso ao não ver ninguém na sala, então notou a porta. Camila esqueceu o touro e engatinhou o mais rápido que pode até a saída, que também deixou sem parafusar. Vendo os guardas desesperados e os convidados correndo de um lado para o outro, num misto de pânico e confusão, a espiã se misturou na multidão e voltou ao banheiro, tirando o uniforme e jogando sobre o garçom que continuava desacordado. Colocou o vestido e foi em direção à porta de saída. Viu cada vez mais guardas surgindo para resolver a confusão com o touro e provavelmente procurando por ela. A chave estava segura agora.
E, aproveitando a confusão dos convidados, correu até a sua Ferrari, indo embora daquele lugar horrível.
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