Sonhos E Delírios De Uma Mente Insana
12 A Bela e a Fera - Parte II
Notas iniciais
“Bela voltou ao vilarejo e observou de longe sua antiga casa. Gaston, seu irmão, estava do lado de fora cortando madeira e ao seu lado Maurice lia na cadeira de balanço. Bela correu para os braços do pai, sem acreditar que ele estava vivo. Os dois abraçaram Bela, surpresos. Pensaram que estava morta. Seu pai explicou que quando esteve viajando se perdeu e Felipe, o cavalo, fugiu assustado com os uivos dos lobos. Por isso tivera tanta dificuldade para voltar e demorara tanto.
Os dois perguntaram onde ela estivera todos esse anos, e Bela explicou que quando o pai desaparecera, decidiu ir atrás da Fera, o maior suspeito, e acabou sendo aprisionada, mas que agora tinha sido libertada.
Gaston, dominado pela fúria foi atrás da Fera, determinado a matá-la. Bela tentou impedir, mas foi em vão. Naquela noite Gaston matou a Fera, mas pagou um preço muito alto. Os dois caíram do penhasco e Bela perdeu os dois de uma só vez.
Chorou tanto que começou a sonhar com o reencontro com os dois, sua mente já não estava bem e ela cortou os pulsos, numa tentativa de juntar-se a eles. Maurice, desesperado implorou à Fada Azul, para que ela ajudasse sua filha, mas os cortes haviam sido muito profundos. A Fada não deixou que Bela morresse, mas não conseguiu recuperar suas mãos. A moça acabou ganhando mãos de lata, moldadas por Gepeto, que funcionavam graças à magia da Fada. Bela não morreria agora.
Ainda não.”
O gato ouvia a história absorto com seus grandes olhos curiosos. O espelho parou de falar e pareceu dar um grande suspiro.
– Vai querer que eu conte a história inteira agora? – disse parecendo sofrer.
– Pare de reclamar, Espelho. Conte logo tudo. – respondeu a garota sem paciência.
Selene sentou da maneira mais confortável que conseguiu e deixou que o felino apoiasse a cabeça em seu colo, ronronando enquanto ela lhe coçava as orelhas.
“Bem... Continuando.
Bela, desesperada, pediu à Fada Azul que trouxesse a Fera e seu irmão de volta a vida, mas a Fada não mexia com magia negra e recusou seu pedido com tristeza. Disse a ela que mesmo que alguém fosse capaz de trazê-los de volta, não seriam os mesmos. Seriam algo tenebroso. Azul tentou alertá-la para que ficasse longe disso, mas Bela não desistiu em seu coração.
Muitos anos se passaram e em suas tentativas fracassadas, de tentar trazer seus amados de volta a vida, Bela acabou se envolvendo com pessoas perigosas e acabou se machucando gravemente. Um feiticeiro prometeu que a ajudaria se ela lhe entregasse suas pernas. Ele a enganou, devorando suas pernas sem nada dar em troca, e mais uma vez seu pai, o bom Gepeto moldou de lata novas pernas que foram encaixadas no corpo da garota com a ajuda da Fada Azul.
Em uma de suas viagens às Terras Desconhecidas, buscando algum tipo de magia que pudesse ajudá-la, Bela conheceu uma tirana rainha que a manteve prisioneira e depois cortou-lhe por pura diversão. ”
– A Rainha Vermelha. – sussurrou Selene
“Sim. E mais uma vez a Fada Azul a resgatou, impedindo que morresse.”
– Teria sido melhor que tivesse me deixado morrer. – disse simplesmente a garota de lata com os olhos perdidos.
“Arrasada, Bela voltou para casa e refugiou-se em seus livros. Seu pai, não sabia mais o que fazer por ela e cortava-lhe o coração vê-la daquela maneira. Vivia dizendo que precisava deixá-los ir, assim como ele havia feito, mas ela nem o escutava.
Um dia espalharam-se rumores pelo vilarejo sobre um feiticeiro capaz de fazer qualquer coisa, seu nome era Rumpelstiltskin. Ela seguiu os rumores, mas foi em vão, pois nada encontrou.
– Rumpelstiltskin não é encontrado, ele encontra você. – Foram as palavras de um velha considerada lunática pelos moradores do vilarejo.
Quando Bela ouviu isso, soube o que fazer. Na mesma noite foi em direção ao bosque, onde o feiticeiro havia sido visto pela última vez.
– Rumpelstiltskin! – gritou para a escuridão, sem obter resposta.
– Rumpelstiltskin! – gritou outra vez, com mais força. Sentiu lágrimas se formarem em seus olhos e mordeu os lábios com força, lutando contra elas. Esperou alguns minutos, mas tudo que ouvia era o canto dos grilos e sua respiração entrecortada.
Quando gritou pela terceira vez e nada aconteceu, virou-se para voltar para a vila, mas um cheiro no ar a fez parar. Uma estranha neblina começou a envolver seu corpo e assumiu uma coloração roxa, foi então que ela o viu escondido nas sombras.
– Ora, ora. O que temos aqui?! – o estranho homem de pele esverdeada disse exibindo um sorriso.
– E-eu quero fazer um acordo! – gritou a garota tentando controlar seus nervos.
– Claro que quer. Todos sempre querem alguma coisa. – disse alargando o sorriso que ficava cada vez mais sinistro. – Diga-me o que quer, criança?
– Quero que traga meu irmão, Gaston, e a Fera de volta a vida.
– Minha cara. Trazer de volta os mortos? Não é uma boa ideia. – disse passando os dedos no queixo. Então um brilho escuro dominou seus olhos e ele continuou: – Mas, me sinto particularmente generoso hoje. O problema será seu. Encontre-me daqui três noites. Direi o que você precisará fazer e o custo. Toda a magia vem com um preço!
– Eu não tenho muito dinheiro, mas posso conseguir. Só faça.
O homem gargalhou.
– Minha querida, eu não quero seu dinheiro. Eu quero algo muito mais precioso.
– O que? Diga e eu darei.
– Daqui a três noites você saberá.
Dizendo isso ele desapareceu nas sombras.
A garota aguardou ansiosa e quando finalmente a terceira noite chegou, ela correu até o bosque. Não o encontrando lá, sentou na grama e esperou.
Muitas horas se passaram e o nenhum sinal do feiticeiro. Ela tentou chamá-lo, mas antes que terminasse seu nome ele apareceu.
– Olá, minha cara. – disse oferecendo-lhe um sorriso.
Dessa vez a luz da lua iluminava todo o bosque e a garota conseguiu enxergar a aparência do estranho homem. Ele era muito alto e magro, tinha um nariz grande e pontudo e sua pele era estranhamente esverdeada. Usava um sobretudo preto e em suas mãos se encontrava um pequeno baú.
– Você pode fazer? – hesitou a garota.
– Claro que eu posso! Eu posso fazer qualquer coisa. Mas...
– Mas?
– Toda magia vem com um preço. – disse alargando o sorriso.
– Apenas diga. Eu faço qualquer coisa.
– Antes devo alertá-la que ao trazer alguém dos mortos essa pessoa pode voltar diferente, afinal, não sabemos de fato o que acontece quando ela morre.
– Eu não me importo!
– Há outra coisa. Eu só encontrei o corpo de um deles.”
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