Sonhos De Uma Outra Vida
51 Capítulo 51
Notas iniciais
Olhava atentamente o lugar onde estava, um velho galpão afastado da cidade e, apesar do lugar parecer desabitado e sem a mínima chance de uso, ele esperava que seus filhos estivessem ali. Colocou a mão na parte de trás do paletó que usava a fim de se assegurar que a arma estava bem colocada e ao alcance de suas mãos. Ele podia até ter ido aquele local sozinho, mas não era estúpido o suficiente para ir desarmado. Se Karin pretendia algo, ele estaria preparado para revidar com o que fosse. Faria tudo que podia para salvar os menores.
Caminhou a passos largos até adentrar no local. O recinto era amplo e pouco iluminado, não parecia haver nenhum sinal de que havia alguém ali, tudo o que via eram imensas vigas de madeira que sustentavam a construção e algumas caixas encobertas com lençóis brancos empoeirados, cerrou os punhos se perguntando onde estavam seus filhos e começou a andar, observando o espaço a sua volta. Mais ao fundo ele notou que havia uma porta, dividindo o recinto e do outro lado uma escada que levava para o segundo andar, questionava-se onde devia procurar primeiro, quando ouviu o som de algo vindo da porta e resolveu averiguar quem estava ali.
Cautelosamente, abriu uma pequena fresta da porta para tentar ver o que lhe aguardava, mas não houve mais nenhum ruído, apenas um silêncio angustiante, então resolveu entrar para verificar o cômodo mais a fundo. Seja quem fosse que estava lá, havia ido embora. Sasuke percebeu que aquele local parecia uma espécie de sala, havia um sofá no meio e uma pequena mesa no centro com diversos papéis espalhados e algumas fotos, aproximou-se para ver do que se tratava quando foi surpreendido por uma figura vinda de um canto escuro da sala e sua voz grave:
– Não é muito educado mexer no que não é seu, Uchiha! – Sasuke se levantou, calmamente, mesmo que por dentro estivesse fervendo de ódio, e encarou a figura que saia das sombras.
– Então, você também está por trás disso?
– E porque não estaria? Karin é minha mulher e eu a amo! Faria de tudo para vê-la feliz! – respondeu Juugo.
– Mesmo que isso signifique acabar com a vida de outra família? – disse entre dentes.
– Você é o único culpado disso! Destruiu Karin e por sua causa a minha mulher nunca mais foi a mesma! – bradou de volta, deixando o Uchiha confuso.
– Eu não fiz nada contra Karin! Só quero os meus filhos de volta! Onde eles estão? – indagou raivoso e Juugo riu se aproximando do moreno.
– Não fez nada? Por sua causa, Karin perdeu a vontade de viver, entrou em depressão e quase... – hesitou e desviou o olhar para baixo, antes de reerguê-lo novamente, a face repleta de dor e angústia – ...eu cuidei dela durante todo esse tempo e quando ela me disse que queria se vingar de você e de Sakura, eu não hesitei em aceitar! – sorriu antes de dizer – Karin voltou a sorrir e isso era tudo o que eu queria!
– Você só pode ser louco Juugo! Tão louco quanto Karin! – rebateu sentindo asco pelo homem a sua frente – Mas agora, devolva os meus filhos!
– Não devia falar assim com quem está com os seus fedelhos! Mas... isso me lembra alguma coisa, o que será? – indagou para si como se estivesse refletindo, até se voltar para Sasuke – Ah sim! A pivetinha, a garota, também tinha uma língua bem afiada, pena que não durou por muito tempo!
Aquilo foi o bastante para que a ira de Sasuke tomasse conta de si e ir de encontro ao ruivo. Só de imaginar Saori ou Daisuke feridos seu sangue fervia a ponto de querer matar o homem a sua frente.
– Seu desgraçado! – disse ao desferir um golpe no rosto de Juugo que revidou, fazendo ambos se atracarem e rolarem no chão.
Sentia o sangue escorrer pelo o seu rosto, mas Sasuke não parava de bater em Juugo que respondia da mesma forma. Em um movimento, Sasuke acabou sendo atingido fortemente na cabeça pelo ruivo, o deixando zonzo por alguns momentos. Juugo se aproveitando disso, empurrou o moreno de cima de si e se levantou, limpando o rastro de sangue com a mão.
– Depois que eu terminar com você e seus filhos, Karin vai me agradecer imensamente e, finalmente, vamos poder ser uma família feliz! Sem fantasmas do passado para nos assombrar! – disse Juugo pegando um revólver da cintura e apontando para Sasuke.
– Juugo, não faça algo que vai se arrepender! Eu só quero os meus filhos de volta! – disse a fim de conseguir algum tempo para alcançar sua arma sem que percebesse.
Sasuke conseguia ver o brilho assassino no olhar de Juugo e sabia que se não fizesse algo, estaria tudo perdido.
– Me arrepender? Eu me arrependo é de nunca ter feito isso antes! Quantos problemas eu teria evitado se tivesse acabado com você desde o início! – disse destravando a arma pronto para atirar.
Sasuke utilizou o cotovelo para se apoiar, ele só teria uma chance e deveria ser rápido o suficiente para sacar a armar e atirar em Juugo, mas antes que pudesse fazer algo a mais houve um disparo. Arregalou os olhos ao ver uma mancha vermelha se formar na altura do peito e o corpo de Juugo cair aos seus pés. Atrás do ruivo ele pode ver a figura de Karin com o revólver em punho. Ela havia acabado de atirar no marido.
– K-Karin... – murmurou o ruivo fracamente enquanto uma poça de sangue era formada ao seu redor e cuspia sangue.
– Desculpe, Juugo querido, mas eu quero o divórcio! – respondeu com um sorriso macabro no rosto, ainda apontando a arma na direção do ruivo e depois se voltou para Sasuke – Espero que não esteja muito machucado Sasuke-kun!
– Karin... – não sabia o que dizer. Não entendia as ações de Karin, afinal, se ela queria se vingar, porque o deixou vivo e atirou no marido?
– Finalmente as coisas estão dando certas! Não se preocupe, Sasuke-kun! Ninguém desconfiará de nada e logo estaremos juntos! – Karin disse sorrindo de forma afetada e despertando Sasuke.
– Nani? O que está dizendo? – indagou se levantando com dificuldade – Eu já sei que foi você quem atacou a Sakura! – acusou e Karin apenas alargou o sorriso.
– Ela disse é? Então quer dizer que ela sobreviveu? Uma pena! Pensei que finalmente havia me livrado dela, pensei mesmo! – Sasuke cerrou os punhos e fez menção de tirar a arma, mas a ruiva percebeu e somente desviou a mira da arma para si, forçando-o a parar.
– Lie, Sasuke-kun! Não seja apressado! Agora, por que não me dá essa arma? Você pode se machucar! – falou manhosa e Sasuke se via sem alternativas a não ser acatar a ordem. À contragosto deixou a arma aos seus pés para em seguida chutar para perto da ruiva, no canto da mesa.
– Agora, você quer saber o que eu planejei? – perguntou animada, piorando o humor do moreno – Sabe, o plano inicial era me livrar da pivete primeiro, mas as coisas mudaram quando vi que era Sakura ali e, não me contive! – disse rindo para em seguida franzir o cenho – Eu só não contava que aquela vadia rosa fosse tão forte a ponto de me bater daquela forma! – e passou a mão no rosto que ainda continha os resquícios dos machucados feitos por Sakura.
– Você não conhece a minha esposa! – disse com um sorriso de escárnio e notou o modo como o corpo da ruiva ficou tenso e como os orbes avermelhados escureceram.
– É...eu a subestimei, se não fosse Juugo aparecer e segurá-la... – massageou a têmpora e respirou fundo antes de se voltar para Sasuke – O fato é que eu consegui feri-la, mas ela já havia conseguido chamar muita atenção, então tive que entrar na brincadeira e me fingir de boazinha mais uma vez!
– O que você planejava com isso? Porque você estava perseguindo a Saori? – bradou Sasuke, sem aguentar as provocações da ruiva, ao mesmo tempo em que procurava um meio de bolar um jeito de tirar aquela arma do poder dela.
– Sasuke-kun, você é tão bobo! – disse rindo de forma escandalosa – Esse tempo todo você queria a sua filha de volta e nem foi capaz de reconhecê-la ao encontrar com ela! – debochou, irritando ainda mais o Uchiha.
– Eu já sei disso! O que quero saber é como você descobriu isso? – Karin se aproximou do moreno que recuou a fim de manter uma distância segura.
– Sasuke-kun, se se afastar desse jeito eu não vou poder contar o meu segredinho, se bem que acho que todos já devem saber por causa da vaca rosada! – desdenhou e antes que o Uchiha retrucasse, continuou – Você nunca conseguiu descobrir quem foi o autor do incêndio, não é? – indagou e Sasuke arregalou os olhos.
– O quê? – murmurou, sentindo o peito apertar. Não podia ser. Karin nem estava na cidade quando tudo aconteceu.
– Pelo jeito não! Mas não o culpo, afinal o plano foi meticulosamente estudado, eu esperei muito para que tudo acontecesse da forma como eu queria... mas eu não fiz tudo sozinha!
– Quem? – questionou Sasuke cerrando os punhos.
–*-
A voz da pessoa ao seu lado ainda ecoava dentro de si e era isso que a fazia não desmaiar naquele local, afinal, ela queria saber a verdade. Além disso, havia o fato de que havia alguma coisa familiar no timbre da pessoa que passava delicadamente o pano no seu rosto para limpar seus ferimentos. Fechou os olhos com força e respirou fundo para ver se as coisas ficavam mais focadas, estava odiando estar daquele jeito, queria recuperar os movimentos do corpo e ver se Daisuke estava bem. A simples menção ao nome do garoto a fez se contorcer e lutar contra os braços que a apertavam para se manifestar:
– D-Daisuke... – murmurou.
– Calma! – respondeu a voz e Saori se debateu mais uma vez e cerrou os olhos tentando se lembrar de onde conhecia aquela pessoa – Você se lembra de mim, Saori? – indagou e a menina arregalou os olhos, surpresa.
– Foi você... quem... a carta... – disse um pouco apreensiva, se afastando para observar melhor o rosto dele, mas sem sair de seus braços. Percebeu que sua voz já parecia um pouco mais forte do que antes e recuperava aos poucos os movimentos do seu corpo.
– Hai! Mas é só isso que você se lembra? – Saori forçou seus olhos e logo os borrões começaram a ficar mais nítidos. Ela pode ver os orbes avelãs a observando, os traços fortes e as madeixas ruivas emoldurando o rosto da figura a sua frente. Prendeu a respiração ao ver que realmente o conhecia.
– V-você! – gaguejou, assustada e a pessoa a sua frente sorriu.
– Acho que nunca fomos apresentados formalmente, meu nome é Akasuna no Sasori! – disse para a menina que ficou mais chocada ao ouvir aquele nome e, imediatamente, saiu do enlace do ruivo se arrastando para longe dele – Não precisa ter medo! Eu não vou te machucar!
– Sakura-san...você... – estava confusa e ela não sabia o que dizer, balançou a cabeça para organizar os pensamentos – Você foi o cara que machucou a Sakura-san, não foi?
– Eu nunca machuquei a Sakura, nunca conseguiria isso! Eu a amava! – rebateu um pouco irritado.
– Eu me lembro de você... – disse e colocou a mão na cabeça, onde ficava o seu machucado — ...foi você quem me deixou no hospital, mas...
– Me deixe te explicar tudo! – pediu e viu o conflito da menina a sua frente para confiar em si, mesmo assim resolveu continuar – Eu conheci a Sakura há muito tempo, na época ela não namorava o Uchiha... – Saori franziu o cenho ao notar o desprezo na voz do Akasuna ao falar de Sasuke, porém permaneceu calada apenas ouvindo — ...eu me apaixonei por ela, mas ela só tinha olhos para outro...
– O Sasuke-san... – interrompeu irritada pelo jeito do ruivo e apesar de ele não ter gostado, apenas suspirou e continuou a falar:
– Sim. Para mim era inconcebível que ela ficasse com um cara que só a fez sofrer e eu tentei mostrar para ela que eu era o melhor...
– Por isso armou pra ela? – proferiu Saori ainda mantendo uma distância do ruivo que apenas meneou a cabeça.
– Eu estava fora de mim, não conseguia raciocinar, fiz coisas horríveis, mas na época eu dizia a mim mesmo que era para ter o amor de Sakura para mim.
– O que quer dizer? – Saori encarou os orbes avelãs e o ruivo suspirou.
– Karin me procurou na época e quando disse que Sakura estava grávida do Uchiha eu fiquei louco de ciúmes, então nós bolamos um jeito para separar os dois...
– Mas só deu certo por pouco tempo, não é? – cortou Saori, já sabia o desfecho dessa história.
– Hai, no fundo eu pensava que Sakura só estava agindo dessa forma por causa do filho que ela carregava... eu passei a nutrir um sentimento negativo pelo bebê... desejei que ele não vivesse... – disse puxando os cabelos, nervoso – então, um dia nós discutimos e ela passou mal e quase perdeu o bebê!
Ouvir isso realmente surpreendeu Saori que não sabia que a culpa para o quase aborto fora do ruivo. Sasori ao ver como a garota ficou assustada, resolveu continuar para se explicar:
– Eu não planejei aquilo! Apenas aconteceu! E eu viajei para o exterior depois disso para que não me culpassem por qualquer coisa que viesse a acontecer com o bebê...
– Mas você voltou...
– Hai! Saori... eu tentei mudar de vida, esquecer Sakura e tudo o que eu sentia por ela, mas... eu não consegui! – disse em tom de súplica, suspirou e bagunçou mais uma vez os cabelos – E quando Karin veio me procurar, falando sobre a família de Sakura e como tinha descoberto um modo para eu ficar junto dela, eu pensei “É a minha chance! Depois de todos esses anos eu vou ter a Sakura só para mim!”.
– Eu ainda não entendi! Porque você está me contando tudo isso? – indagou Saori, colocando a mão na cabeça que parecia voltar a doer. “Droga, porque isso agora?”
– Você já vai entender! – retrucou Sasori antes de continuar a narrativa – Eu voltei para o Japão sem que ninguém soubesse e durante alguns dias observei a rotina da Sakura e do Uchiha e vi que eles tinham tido mais um filho, ou melhor, uma filha. Nós esperávamos somente o momento certo para agir, foi quando apareceu aquele jantar...
Flashback on
Não acreditava na sorte que tiveram ao saber que Sakura e Sasuke estavam saindo de casa para um jantar e iriam deixar os filhos em casa! Já havia se passado mais de uma semana e era a primeira vez que aqueles dois se separavam dos pirralhos e ele não aguentava mais esperar! Já estava entediado de apenas observar a família feliz.
Sempre via o momento que Sasuke saia para trabalhar e levava o filho para escola, enquanto Sakura ficava em casa e somente saia no período da tarde quando Sasuke chegava junto com o filho mais velho. Dificilmente ele avistava a garota, provavelmente ela ficava em casa a maior parte do tempo, já que ainda não devia ter idade para ir à escola, somente saía quando os pais a levavam para passear.
Mas agora era questão de tempo para todos os seus problemas se resolverem! Ligou para a ruiva informando a notícia e ficou a espera de Juugo que o ajudaria a executar o plano.
Aguardaram pacientemente até ver os Uchiha’s saírem de casa. A única pessoa que entrara na residência durante esse ínterim fora a babá, mas ela não seria um problema. Combinaram de se separar, Juugo entraria primeiro na casa e iria para o andar de cima, onde os menores estariam e ele ficaria encarregado do andar inferior. Quase fora visto pela velha senhora que tomava conta dos pirralhos, mas esta logo se esqueceu de si ao ver o fogo que se alastrava com rapidez e até ele se surpreendeu com a velocidade de Juugo em começar o trabalho.
Colocou a máscara para poder respirar enquanto a fumaça se espalhava e tratou de jogar gasolina pela casa a fim do fogo se propagar com mais facilidade. Subiu para o segundo andar e viu o primogênito dos Uchiha’s gritar pela irmã, sorriu e tirou a arma que levava presa atrás da calça, antes de se pronunciar:
– Devia se preocupar mais com você pirralho! – Sasori não pode conter a onda de felicidade ao ver o modo como o pequeno tremia.
O pirralho ainda havia tentado confrontá-lo, mas logo este saiu correndo com o olhar cheio de pavor ao ver a arma em punho. Riu da situação e resolveu terminar de fazer o serviço e se virou para um dos cômodos da casa. O plano era bem simples de se executar, apenas tinham que se dividir e tocar fogo nos cômodos para que a casa incendiasse de maneira rápida e as labaredas fossem fortes o suficiente e ninguém conseguisse entrar ou sair sem ajuda. Ele não tocaria em um fio de cabelo dos pirralhos, deixaria que as chamas fizessem o resto do trabalho para não criar maiores suspeitas.
Olhou o trabalho bem feito e limpou o suor que escorria de seu rosto, já estava bastante quente ali, era a hora de saírem. Foi a procura do companheiro e viu enquanto este apontava a arma para algo no chão.
– Diga suas últimas palavras, querida! – e viu a menina chorando com o rosto sujo de fuligem e sangue, implorando pela ajuda do pai que eles sabiam que não viria.
Sasori não soube explicar o que aconteceu para que ele se aproximasse e impedisse Juugo de atirar, talvez fosse o fato de que era a primeira vez que via a menina de perto e, de alguma forma, ela lhe lembrara de Sakura, ou talvez fosse o fato de que o outro ruivo iria estragar tudo se disparasse contra a menor, ou poderia ser também o fato de que havia alguma coisa naqueles orbes ônix que o fizeram ter vontade de vê-los mais uma vez. Fosse o que fosse, isso fez com que Sasori segurasse o ombro de Juugo, atraindo a atenção para si, enquanto a menina apagava logo em seguida.
– O que pensa que está fazendo Juugo?
– Estou terminando o serviço! – vociferou retirando a mão do Akasuna de perto de si.
– Se você fizer isso vão descobrir que foi tudo armado!
– Até parece! Você acha que eu não vi você assustando o garoto? – Juugo rebateu e Sasori franziu o cenho ao perceber o erro que cometera.
– Juugo, me escuta! Esquece isso! Os dois pirralhos vão morrer de qualquer forma, não vai demorar muito para essa casa cair aos pedaços, mas nós precisamos sair daqui rápido antes que os bombeiros ou mais alguém apareça!
– Karin pediu que eu me certificasse que eles não sobreviveriam... – murmurou indeciso e Sasori bufou, irritado.
– Esqueça Karin agora! Precisamos sair daqui! O moleque está desacordado, não está? – Juugo afirmou com a cabeça, afinal ele próprio havia apagado o garoto – Então, a menina também! Não tem como eles se salvarem, nosso trabalho acabou! – disse antes de puxar o Utatane para fora da casa e seguir na direção oposta.
– Onde você está indo? – indagou Juugo, estranhando a atitude do ruivo.
– Vamos nos separar para que ninguém nos veja saindo e nos encontramos depois, certo? – disse Sasori e viu o outro acenar, relutante, e partir desviando das chamas que cresciam cada vez mais.
Virou-se em direção a menina que estava desacordada no meio do corredor e vacilou, sem saber ao certo o que fazer. Ele sabia que estava perdendo tempo ali enquanto ouvia o crepitar da madeira conforme as chamas devoravam tudo ao seu redor, mas havia uma parte dele que hesitava deixar aquele pequeno ser indefeso a mercê do fogo. Aproximou-se da menina e observou seu rosto um pouco coberto por fuligem e o sangue que caia abundante da testa da menor. Fisicamente ela era igual ao Uchiha que tanto odiava, franziu o cenho ao se dar conta disso e continuou a andar, ignorando a garota e decidido a ir embora.
Já estava perto das escadas quando ouviu um murmúrio e observou que a menina parecia se movimentar. Não entendeu o motivo de prestar atenção nisso, porém quando deu por si já havia estancado a beira da escada em chamas. Irritou-se consigo, se demorasse mais um pouco ele não conseguiria sair, se virou para dar uma última olhada na garota antes de ir embora e foi quando viu mais uma vez aqueles orbes ônix que, apesar de parecerem desfocados e confusos, o atraíram e mais uma vez o lembraram de alguma forma da sua Sakura. E ele soube ali que não teria coragem de deixá-la para morrer. Deu meia volta e visualizou a menina perder os sentidos mais uma vez.
Flashback off
–*-
– Foi muito fácil convencer o Sasori! Ele só estava à espera de uma chance e eu proporcionei isso a ele! – Karin disse, encarando o moreno a sua frente que cerrava os punhos, furioso – E Juugo... – abriu um sorriso afetado, olhando para o ruivo agonizando no chão — ...bom, sempre foi fácil controlar Juugo! Eu sempre soube da paixão que ele sentia por mim!
– P-por que... – gemeu Juugo, cuspindo sangue, estava usando as suas últimas forças.
– Por quê? – repetiu a pergunta, colocando a arma no lado do rosto como se refletisse para em seguida bradar furiosamente – Porque o Sasuke-kun sempre foi meu! É por isso! Eu sempre o amei e sei que ele me amava também, mas aquela rosada tinha que aparecer e estragar tudo!
– Eu nunca fui seu! E nunca te amei! – contrapôs Sasuke, sem acreditar no que ouvia. A ruiva se voltou para si com o olhar desesperado:
– Mas teria sido! Eu sei! E nós quase ficamos juntos se ela não tivesse tido aquele bebê maldito! Foi isso que nos separou, mas eu pensei em um meio para ficarmos juntos de novo, Sasuke-kun! – disse com um sorriso assustador.
– Eu...pensei... n-nós... – Juugo tentava inutilmente pronunciar alguma coisa, mas ele sabia que não conseguiria. Ele sabia por que Karin havia feito isso, mesmo que no fundo não quisesse acreditar.
– Nós? – indagou antes de rir – Nunca houve “nós”! Eu apenas me aproveitei do “amor” que você disse que sentia por mim para conseguir o Sasuke-kun! E você não sabe o sacrifício que foi ter que aturar você por todos esses anos!
Sasuke não conseguia acreditar no que ouvia, olhou com pena para Juugo por ter caído nas mãos daquela megera e, apesar de não poder ignorar o fato de que desejava que ele pagasse por todo o sofrimento que causara em si e em sua família, não ansiava a morte do ruivo que agonizava a sua frente, contudo não havia mais nada que ele pudesse fazer por ele. Pelo menos não enquanto Karin o ameaçasse com aquela arma.
– O único problema foi que eu não contava que o pirralho fosse sobreviver! – Karin continuou a narrativa, detendo mais uma vez a atenção de Sasuke – No final, Juugo se mostrou mais uma vez incompetente – disse fuzilando o ruivo com o olhar e depois se voltou para o moreno – mas quando soube que pelo menos a pivetizinha havia morrido, pensei que nem tudo estivesse arruinado, então resolvi voltar e iniciei o meu teatrinho.
– Todos nós pensávamos que você tinha mudado! Sakura pensou que você estava arrependida e até virou sua amiga, como pode fazer isso com ela? Comigo? – bradou Sasuke, precisava arranjar um modo de pegar a sua arma, mas Karin não se afastava e a todo tempo empunhava o revólver em sua direção.
– Sasuke-kun, eu não queria enganar você, mas fazia parte do plano, sei que vai entender com o tempo! – disse melosa, abaixando a arma, mas logo sua feição ficou séria e ela voltou a mirar no moreno – Além do mais não pode me culpar por isso Sasuke-kun! A culpa foi sua também! Não devia ter me dispensado! – gritou, completamente fora de si.
– Mas eu resolvi te dar mais uma chance! Se era aquele bastardo que fez você voltar para Sakura, então, bastava eu me livrar dele, eu já até havia conseguido me livrar de um mesmo! – Karin continuou – Eu demorei muito tempo para que tudo se encaixasse perfeitamente e ninguém desconfiasse de nada do que planejei. E com a morte daquela pirralha, eu tinha certeza que não iria demorar muito para que você estivesse livre para voltar para mim! E quanto mais eu via Sakura se afundando em depressão, me sentia cada vez mais viva! – disse com um sorriso delirante.
– Desgraçada... – murmurou Sasuke ao ouvir a risada de felicidade da ruiva.
– Mas antes que isso acontecesse, Sakura botou na cabeça dela que a filha não tinha morrido e quando dei por mim vocês estavam mais juntos do que nunca. – disse apertando com mais força a arma – Foi aí que vi que não bastava mais eu apenas me livrar do garoto. Eu me atentei que havia algo errado nessa história... – pausou encarando o moreno.
– Juugo me disse tempos depois que Sasori não o deixou atirar na garota e resolvi procurá-lo, mas o desgraçado havia sumido do mapa mais uma vez! – bradou furiosa levantando ambas as mãos para cima – Você não sabe o quanto é difícil encontrar esse ruivo, Sasuke-kun! Não sabe! Mas eu já havia ligado os pontos, apenas queria confirmar minha suspeita – reclamou impaciente.
– Quer dizer que... – a frase morreu antes que Sasuke pudesse concluí-la. Não conseguia acreditar que o Akasuna que tanto odiava e quase provocou a morte de seu filho, havia sido o responsável por salvar a vida de sua filha.
–*-
– Saori, pare de se mexer! Ainda está machucada! – Sasori tentou se aproximar da garota que apenas recuou mais uma vez enquanto colocava as mãos na cabeça.
Sentia algo latejar e uma dor se apoderava de si enquanto ouvia as palavras do ruivo, havia algo nelas que fazia seu coração se apertar e seus olhos se encherem de lágrimas. O que era isso? Parecia que havia alguma coisa rachando dentro de si e ela não conseguia fazer parar. Nunca havia sentido uma dor tão forte quanto essa. Nem quando Karin havia a surrado há pouco.
– Saori...
– LIE! Pare! Onegai, pare! Eu não quero mais ouvir! – gritou, soluçou e apertou ainda mais a cabeça a fim de que aquilo terminasse. Lágrimas já teimavam em rolar por seu rosto, mas ela não ligava, só conseguia se concentrar na dor.
– Eu não posso! Você tem que saber tudo, Saori! – rebateu o ruivo segurando os braços da garota que começou a se debater para se livrar do agarre.
– Pare! Me solte! Porque eu tenho que ouvir isso? – protestou desolada.
– Porque essa é sua história! – respondeu e por um momento Saori parou de lutar, os olhos arregalados e chocados só conseguiam focar na figura ruiva a sua frente. Instantes se passaram sem que nenhum dos dois pronunciasse uma palavra, o silêncio só era rompido pelos soluços que emanavam da garota.
– O-o q-quê? – gaguejou e mais uma vez sentiu sua cabeça latejar. Fechou os olhos enquanto imagens eram desenhadas em sua mente.
“Então a senhorita achou que podia vir brincar e nos acordar desse jeito e não iria ser castigada?”
“Sasuke, acho que ela já aprendeu a lição, deixe-a respirar!”
“Saori, não chore! Deixa a mamãe ver o seu machucado!”
“Baka, não me bate, isso dói!”
“Saori-nee, vamos brincar?”
“Tô me arrumando oka-san, como a senhora, pra sair com vocês! Mas é difícil andar com esses sapatos. Como a senhora consegue?”
“Hime, nós não vamos nos separar, eu e a mamãe vamos sair apenas por algumas horas mas logo estaremos de volta, não fique assim, sabe que não gosto de lhe ver triste.”
“Saori, não corra tanto! Fique perto do papai, está bem?”
“Eu te amo otou-san! Eu te amo oka-san... muito!”
“Nós também te amamos muito, querida!”
Como se algo tivesse se quebrado dentro si, Saori gritou como se algo tivesse sido arrancado de dentro de si, enquanto imagens de Sasuke, Sakura e Daisuke e dela mais nova eram revividas em sua mente. Uma fraqueza se abateu de si e se não fosse por Sasori lhe segurar, mais uma vez, desmaiaria ali no chão. Era muita coisa para ela digerir de uma única vez e estava física e mentalmente exausta. O Akasuna a apoiou em seus braços e a acalentou enquanto observava os olhos da menina ficarem nublados, espasmos percorrerem o seu pequeno corpo e o choro que pareceu se intensificar. Ela estava em choque.
–*-
Sasuke arregalou os olhos ao ouvir um grito ecoando pelo galpão.
– Saori! – bradou, sentindo um frio na espinha ao reconhecer a voz da filha. Droga, ele estava perdendo tempo ali sem saber onde estavam os seus filhos. Começou a andar na direção da saída, ignorando a ruiva a sua frente. Ele tinha que salvá-los, mas foi parado ao ouvir o zumbido de um disparo perto de si.
– Eu não gosto de ser interrompida ou quando não me dão atenção, Sasuke-kun! – falou a ruiva e Sasuke somente cerrou os punhos, enfurecido.
– Chega de historinhas, Karin! Onde estão Daisuke e Saori? Você quer a mim, não é? Então, deixe-os em paz!
– Não é tão simples, Sasuke-kun! Quem me garantirá que depois dos pirralhos estarem a salvo você não voltará para a Sakura? Lie! Eu não sou burra! Não me arrisquei tanto por nada! Eu quero você só pra mim e eu terei! – respondeu com um sorriso insano.
–*-
– Você sabe que o que eu estou dizendo é verdade, não é Saori? – indagou de forma serena ao ver a menina se tranquilizando, mas esta preferiu não lhe responder, havia muita coisa acontecendo dentro de si naquele momento.
Era estranho como em um momento a sua vida era um branco total e agora diversas recordações de quando era criança pareciam saltar sob seus olhos, como um filme ou um sonho. As coisas, aos poucos, iam se organizando dentro de si, ao mesmo tempo em que mais imagens apareciam em sua mente: dela e Daisuke brincando, de como Sakura a colocava para dormir e como Sasuke a protegia e andava de um lado para o outro junto de si. Quando achou que já estava melhor, saiu dos braços do ruivo, limpando o rosto e mesmo se sentindo um pouco zonza, o encarou e disse:
– Por quê? Foi você que me salvou, não foi? Mas porque mentiu depois, no hospital?
– Porque eu não sabia o que fazer! Saori, entenda! O meu objetivo era... matar você e seu irmão e eu não consegui fazer isso! – o ruivo falou um pouco exasperado. – Eu estava confuso e no momento eu não pensei no que fazer, apenas queria que você sobrevivesse – disse acariciando o rosto da menor.
Flashback on
Quando deu por si já estava passando pelas portas do “Konoha Central” com a menina nos braços. Ele não sabia o que fazer, não podia levá-la para algum lugar perto, pois descobririam quem ela era ou pior poderiam relacioná-lo ao incêndio e ele não correria esse risco, sabia que se Sakura descobrisse nunca o perdoaria. Mas, ao mesmo tempo, ele não conseguiu abandonar a menina em qualquer lugar, não entendia porque se importava tanto com a vida daquela criança.
Enquanto observava os médicos prestando os primeiros socorros a ela, pensou que pudesse ir embora, mas disseram que ele deveria fazer o registro da menor e informar o que havia acontecido, pelo jeito era obrigatório crianças serem acompanhadas por alguém enquanto recebiam tratamento. Praguejou contra si e contra a menina por estar em um problema desse tipo, não sabia o que responderia caso a garota acordasse, o jeito seria fugir, mas antes que pudesse fazer isso um médico apareceu e explicou a situação da menina. Ela havia tido uma lesão no córtex cerebral e parecia que sua memória estava prejudicada. Sasori não acreditou na sorte que tivera.
Ela não se lembrava de nada? Nada mesmo? Ficou curioso e resolveu ele mesmo dar uma olhada na garota, portanto, seguiu o médico até a pequena sala onde estava. Ao chegar lá se deparou com grandes orbes ônix lhe encarando com curiosidade e notou que havia um pequeno curativo de um lado da sua testa. O médico tentou falar com a menina, mas ela não respondeu, apenas ficou lhe encarando e por algum motivo aquilo o incomodou. Ele não entendia o porquê daqueles olhos lhe perturbarem tanto. Viu quando o médico deixou-os a sós e foi só naquele momento que a menor se pronunciou:
– V-você me conhece? – a voz insegura e ingênua da menina o paralisou por um momento e ele não soube o que responder, até ouvir algo que o fez se lembrar do Uchiha e o deixou furioso – Você conhece o meu papai? Somos parentes? Qual o seu nome?
– Não sou ninguém importante! Seus pais a abandonaram e eu fiquei com pena ao te ver, por isso lhe trouxe para cá, mas acho que o melhor lugar para alguém como você agora é o orfanato! – falou sem piedade, mas achou que fosse melhor assim, afinal não podia voltar atrás depois de ter feito tudo o que fez. Ele ainda queria Sakura e aquela menina iria atrapalhar tudo.
– N-nani? P-por que está dizendo i-isso? – indagou a menina e sentiu um aperto no peito ao vê-la se desmanchando em lágrimas. Ignorou aquilo.
– Porque essa é a verdade! Eu vi quando eles a deixaram machucada em um beco perto da minha casa para morrer! – disse e ouviu a menina chorar ainda mais alto, se irritou por não entender o motivo de não querer vê-la chorar. Ele não gostava nenhum pouco de crianças e essa em especial ele devia odiar, pois por causa dela havia perdido a pessoa que amava – Talvez eles tenham te abandonado por ser tão chorona, – resmungou irritado, chamando a atenção da menor — mas seja lá qual seja o motivo eu já fiz a minha parte! – terminou se dirigindo a saída com a intenção de deixar Saori sozinha. Não podia mais ficar ali.
– Matte! – gritou a mais nova, correndo na sua direção e agarrando as suas pernas. Sasori congelou no lugar ao sentir as pequenas mãozinhas e o modo desesperado que ela falava consigo – O-onegai, eu...vo-você pode me...me ajudar? – perguntou nervosa e sem saber o que fazer.
Ele refletiu um pouco, ela realmente não se recordava de nada, ele poderia dizer qualquer coisa que ela acreditaria nele. Balançou a cabeça, negando que pensara em cuidar da menina. Devia estar ficando louco.
– Me solte garota! Não posso e nem vou lhe ajudar, se vire sozinha! – retrucou, ele queria Sakura de volta, ela e somente ela. Afastou-se da garota, indo em direção à porta, mas ainda teve o vislumbre da menor caída no chão se sentindo mal.
Flashback off
– Eu achei que o melhor era me afastar de você e ficar com Sakura! – terminou a explicação – Mas eu já tinha te salvado, então inventei aquela história para que mesmo se algum dia você se encontrasse com ela não descobrisse a verdade!
Saori cerrou os punhos com raiva, estava triste, frustrada e feliz ao mesmo tempo. Eram tantas coisas que sentia que estava confusa! Finalmente havia descoberto quem era sua família e ela não podia estar mais feliz por isso, ela sempre fora amada e não maltratada ou odiada como lhe fizeram pensar. Mas saber que a culpa por sofrer tanto no orfanato era por causa daquele homem a fazia ter ódio por ele, queria poder bater nele até se cansar por ter mentido para ela e tê-la feito acreditar em uma mentira. Além disso, foi por culpa dele que se separou de sua família, porém ele também a salvara... duas vezes e, agora, havia lhe contado a verdade. Não sabia o que pensar do homem a sua frente.
– Você fez tudo isso e acabou me salvando de novo. – afirmou e Sasori resolveu se justificar:
– O tempo passou, mas eu não consegui me esquecer de você e do que eu havia feito. Eu me lembrava dos seus olhos chorosos e de como você parecia desamparada – disse passando a mão pelo rosto da mais nova que franziu o cenho em uma ordem silenciosa para que parasse. Sasori suspirou e baixou a mão antes de continuar – Eu vi o quanto Sakura sofreu por pensar que você estava morta e aquilo me destruiu e não saber o que tinha acontecido com você começou a me corroer por dentro.
Nem ele sabia explicar o que havia acontecido consigo, mas ele se recordava bem de que tentou procurá-la em alguns orfanatos na época e até conseguiu encontrá-la, mas nunca tivera coragem de vê-la ou falar com a menor, até porque nem saberia o que dizer. Depois ele acabou percebendo que, talvez, fosse melhor dessa forma e tentou voltar com sua vida no exterior. Contudo, aquele sentimento o torturou durante todos esses anos.
– Eu me arrependi de tudo o que fiz e quando Karin veio até mim para saber sobre o que havia acontecido há dez anos eu soube que estava na hora de me redimir. – tocou mais uma vez na face da mais nova – Quando ela soube a verdade, Karin ficou furiosa, mas ela não sabia quem você era ou onde estava, mas resolvi me aproximar para ficar sabendo dos planos dela. Eu prometi que dessa vez faria a coisa certa e te protegeria Saori!
– Onde o Hikari entra nessa história? – indagou ao se lembrar do moreno que também fazia parte do plano.
– Karin e Juugo te viram em alguma festa e desconfiaram de você e quando eu a vi soube que eles haviam te descoberto. – disse ao se lembrar da foto que Karin havia lhe mostrado da menina – E usaram Hikari para saber mais sobre o seu passado, para confirmar sua identidade. Você entendeu? Tudo o que eu fiz, foi com o propósito de te proteger ao ficar do lado deles!
Desviou o olhar do mais velho, sem saber se acreditava nele, e balançou a cabeça ao se lembrar de que ela tinha que sair de lá o mais rápido possível junto com Daisuke, antes que Karin voltasse. Ela não podia se dar ao luxo de se preocupar com Sasori ou o que ele pretendia, mas se ele estava realmente arrependido, aquela era a hora de provar!
– Então me ajude! Eu preciso sair daqui com o Daisuke e voltar para casa! – retrucou tentando se levantar, utilizando a parede como apoio.
– Lie! – Sasori rebateu segurando o braço da menina quando esta ameaçou cair – Você não pode voltar! Karin vai matar você, Saori!
– Demo, Daisuke...o meu... irmão... – falou pausadamente se desprendendo do ruivo e iniciando uma nova tentativa. Tinha que fazer os seus pés se firmarem, droga!
– Já deve ser muito tarde para ele ou para Sasuke! – disse e Saori arregalou os olhos e se virou para encarar o Akasuna.
– Do que está falando? O Daisuke... – meneou a cabeça se recusando a pensar naquela possibilidade e reformulou a pergunta – O Sasuke-san está aqui? – viu quando o ruivo abaixou o olhar e soube que era verdade, Sasuke havia vindo salvá-los. – Onegai Sasori, preciso que me ajude com Daisuke! Precisamos sair daqui! O Sasuke-san...
– Saori! – chamou a atenção da garota, agarrando o braço dela – Juugo quebrou duas costelas de Daisuke e uma das pernas deve estar quebrada também!
Ela congelou no lugar ao ouvir aquilo, se virou para onde havia visto o mais velho, sem importar com Sasori foi em direção a Daisuke e, somente quando deu o primeiro passo foi que sentiu uma forte dor aguda no abdômen e soube que, provavelmente, o Uchiha não devia ter sido o único a fraturar uma costela. Balançou a cabeça, agora ela também era uma Uchiha. Tentou ignorar a dor, colocando a mão na barriga e foi ver como o moreno estava.
– Daisuke! – murmurou, sentindo os olhos lacrimejarem ao ver o sangue seco grudado no rosto alvo do rapaz e como ele parecia machucado. Agradeceu internamente por nenhum dos ossos estarem expostos e por ele estar respirando. Não era tarde demais como Sasori falou. Mas ela não sabia o que fazer, não conseguiria sair com ele dali sozinha estando machucada também, por Kami, talvez nem conseguisse mesmo que ela não tivesse um arranhão! E ela não podia acordá-lo, a dor que ele estaria sentindo devia ser horrível.
– Entende o que eu digo agora? – ouviu a voz de Sasori atrás de si.
– Sasori, onegai, me ajude com ele! Eu preciso enfaixar as costelas e... e tenho que tirá-lo daqui e levá-lo para o hospital! – implorou para o ruivo que se aproximou e começou a limpar as lágrimas que escorriam pelo seu rosto.
– Saori, esqueça isso! Karin não vai desistir até ver vocês mortos, ela só quer o Uchiha e vai fazer de tudo para tê-lo!
– Como pode pedir para eu esquecer tudo, depois do que me contou? Depois de finalmente ter me lembrado de quem eu sou e quem é a minha família? – bradou furiosa – Se não quer me ajudar, tudo bem, mas não me atrapalhe!
– E o que pensa que vai fazer?
– Vou seguir o conselho que me deu há muito tempo e me virar sozinha! – retrucou de maneira ácida e começou a tentar levantar o rapaz, inutilmente, já que não conseguia nenhum avanço e suas feridas começaram a protestar contra o esforço.
– Saori, eu não vou permitir que você se machuque! – disse parando a menina e fazendo-a olhar para si – Eu não gosto do seu pai, também não tenho afeto por seu irmão e sua mãe já me magoou muito... você é a única com quem ainda me importo daquela família! Eu não tenho motivos para ajudar Daisuke quando posso simplesmente te tirar daqui!
– Mas eu estou machucada! Ver Daisuke assim me machuca, não entende? – disse vertendo lágrimas, estava ficando desesperada, mas ela não conseguia parar, seu tempo estava se esgotando e ainda tinha Sasuke que também estava correndo perigo. Ela precisava fazer alguma coisa!
– Saori...
– Onegai, onegai, eu preciso da sua ajuda! Se você quer o meu perdão pelo o que fez, me ajude mais essa vez! – suplicou e aquilo fez o Akasuna refletir durante um momento.
–*-
Andar estava se mostrando uma aflição. Seu corpo implorava por descanso tanto físico quanto mental. Buscou a parede mais próxima para se escorar, graças ao Akasuna que havia enfaixado seu abdômen a sua costela não doía tanto, apenas um desconforto muito grande, porém o seu maior problema era o fato de que ainda sentia os efeitos da droga que aplicaram em si, mesmo estando bem melhor por causa dos cuidados de Sasori. Suas pernas tremiam e sua visão ainda estava um pouco distorcida, mas ela tinha que continuar e encontrar Sasuke.
Ao descer as escadas, pode perceber onde estava mais claramente, aquele era um dos esconderijos de Hikari e se xingou por não ter percebido isso antes. Ouviu vozes vindas de um lado do galpão, escondidas por uma porta e ela soube que Sasuke devia estar ali. Aproximou-se o mais discretamente possível e observou pela fresta o que acontecia e não pode evitar prender a respiração ao ver uma poça de sangue no chão, mas não conseguia identificar de quem era. “Onegai, que não seja do Sasuke-san!” pediu e continuou a sondar o ambiente.
– Você só pode estar louca Karin! – ouviu uma voz colérica e agradeceu internamente ao reconhecer de quem era. “Ele está bem!” pensou ao vê-lo somente com alguns machucados no rosto.
– Sim, posso estar louca, mas por você, Sasuke-kun! – rebateu a ruiva, ela estava de costas para ela e de frente para o moreno. Aquela era a sua chance! Tinha que chamar a atenção de Sasuke para indicar que ela e Daisuke estavam bem! – Assim que eu acabar com aqueles pirralhos, você vai entender, sei que vai! – disse rindo desvairada.
– Não vou permitir que toque nos meus filhos! – bradou e Saori se surpreendeu. “Então, ele já sabe de tudo também?”.
Saori não pôde deixar de ficar um pouco emocionada com o que escutara, mas isso acabou fazendo com que se distraísse e a porta acabou rangendo, chamando a atenção dos outros dois.
– Quem está ai? – indagou Karin e ao ver um vulto passar – Eu perguntei quem está ai? – bradou antes de começar a atirar em direção a porta a fim de assustar quem quer que fosse.
Sasuke se aproveitou dessa distração e chegou perto da mesa de centro para recuperar a sua arma, estava quase a alcançando quando escutou um gemido que o fez paralisar e olhar em direção à porta. Saori! Arregalou os olhos ao ver a menina tombar para dentro do recinto.
– Saori! – gritou, indo em direção a menina, mas foi interceptado por Karin que ameaçou atirar em si.
– Nem pense nisso Sasuke-kun! – disse furiosa, mantendo a mira no moreno e se voltou para a menina a sua frente que segurava o braço, um dos tiros havia a acertado de raspão, e por causa do impacto acabou se desequilibrando. – Olha, quem resolveu aparecer! – disse a ruiva, sarcástica.
– Ela não tem nada a ver com isso! Deixe-a ir, Karin! – protestou Sasuke.
– E perder toda a diversão, Sasuke-kun? – indagou risonha e se aproximou da menina, puxando os seus cabelos para que a encarasse – Como você fugiu?
– Com pó mágico! – retrucou Saori, colocando a mão sobre a da ruiva para impedir que ela continuasse a lhe machucar.
– Você continua atrevida não é? E se eu estourasse esse rostinho lindo, hein? Talvez, você aprendesse bons modos? – inquiriu ao apertar a arma no rosto da menina. – Você sempre foi um problema, você e o seu irmão! – a menção a Daisuke fez Saori sorrir e aquilo despertou a curiosidade da ruiva – Por que está rindo?
– Porque em breve você vai apodrecer na cadeia! – disse, deixando a ruiva desconfiada.
– Nani? Onde está o Sasori? Sasori! – chamou a ruiva ao se afastar da menina, estava começando a se desesperar. Onde ele estava? Devia estar ali para lhe ajudar! O outro garoto havia realmente conseguido escapar também? – Não se mexa Sasuke-kun ou juro que eu atiro em você e nessa garota! – bradou ao ver o moreno se aproximar, precisava se acalmar e recuperar as rédeas da situação.
– Tarde demais! Você está sozinha, ruiva! Seu plano não funcionou! Daisuke está a salvo! – disse Saori a enfurecendo ainda mais.
– Cala a maldita boca! Eu vou acabar com você e seu irmão e, finalmente, eu e o Sasuke-kun vamos poder ficar juntos! Ninguém vai ficar no nosso caminho!! – bradou prestes a atirar na garota a sua frente.
– Eu não vou permitir! – Sasuke gritou.
Karin estava tão concentrada em esbravejar contra Saori que não havia percebido o moreno junto de si até ouvi-lo se pronunciar e impedir que a menina se machucasse. Sasuke só tinha uma oportunidade e, agora que Karin havia se distraído, era a hora de agir. Forçou a mão da ruiva que segurava a arma para cima e ouviu o disparo enquanto que com a outra mão agarrou o pescoço da mulher e colidiu o corpo dela na parede mais próxima a fazendo gemer de dor. Era a hora de dar o troco por tudo o que ruiva lhe fez.
– Você é idiota ou apenas se faz? Eu nunca que me apaixonaria por você! Eu amo a Sakura, sempre amei! E amo meus filhos, eles são tudo para mim! – vociferou apertando o pescoço de Karin.
– S-Sasuke-kun... – chamou Karin amedrontada, mas Sasuke a ignorou intensificando o agarre no seu pescoço.
– Tudo o que você fez somente fez eu te odiar a ponto de querer te matar! Como pode alguém ser tão monstruoso quanto você? – continuou Sasuke. Fervia de raiva, há quanto tempo desejava encontrar a pessoa que havia destruído sua família?
– S-Sa..S-Sasuke... – a ruiva começava a sufocar, se debatia para afastá-lo de si, mas seus esforços pareciam inúteis.
– Ouvir tudo o que você fez, tudo o que você tramou e quantas pessoas você enganou, até o seu marido você foi capaz de se livrar! – Karin nunca havia visto o moreno com tanta raiva na vida, os olhos ônix que sempre amou estavam tão escuros e frios que era quase palpável a fúria contida ali – Você me deixa enojado! E nem que você fosse a última mulher da terra eu ficaria com você!
Sasuke estava cego de ódio, não via nada ao seu redor e não ouvia nada a não ser o seu desejo de concluir a sua vingança. Há muito tempo jurou que descobriria quem havia lhe tirado tudo e agora sabia que essa mulher fora a responsável por todo o seu sofrimento e de Sakura. Ela havia tentado matar o seu filho e afastou Saori de perto de si por anos, permitiu que ele e Sakura se culpassem pela morte da menor, possibilitou que Saori vivesse nas piores condições possíveis, sendo vítima de maus tratos e tendo que viver nas ruas e, quando tudo iria melhorar para todos, Karin voltou a machucar sua esposa, ferir e sequestrar seu filho e tentar matar Saori mais uma vez. Não, aquilo tinha que ter um fim!
– Eu nunca vou te perdoar por ter afastado a minha filha de mim e por machucá-la! – bradou, fechando a mão em volta do pescoço da ruiva que começava a desmaiar, a arma já estava jogada no chão e Sasuke fez questão de chutá-la para longe. Ela não tinha mais forças para lutar. Seria o seu fim. – Acha divertido ameaçar alguém? Causar dor nos outros? O que você sente Karin enquanto desfalece em minhas mãos?
– Sasuke-san, pare! – pediu Saori com lágrimas nos olhos.
Ela não aguentava mais ver aquilo! Pensou que tudo ficaria bem quando Sasuke conseguiu render Karin, mas... ele estava fora de si! Sabia que o moreno sempre se culpou pelo incêndio, lembrava-se do modo como ele ficou quando entrou no quarto da filha dele, quer dizer, no seu quarto, mas não imaginava que a angústia e o ódio que ele sentia pudessem ser tão fortes a ponto de deixá-lo daquele jeito. Ela escutou tudo o que ele disse a Karin e por mais que ruiva tentasse se soltar Sasuke não permitia. Ela não o reconhecia ali, agia como um selvagem, havia deixado os seus instintos e a sua sede vingança falarem mais altos e ela não suportava ver isso.
Onde estava o Sasuke-san que conheceu? Aquele que brigava com ela por ser desbocada e não lhe obedecer, mas também sempre a defendia? Onde estava o Sasuke-san que a acalentou quando teve pesadelo e que a ajudou a passar no exame da “Gaiken”? Onde estava o Sasuke-san com quem se divertiu no parque de diversões e quando viajaram? As lágrimas já se alastravam por seu rosto, era aquele Sasuke que ela queria de volta. Ela queria o seu pai de volta e não aquela pessoa que estava a ponto de matar Karin na sua frente.
– Saori... – murmurou Sasuke, voltando a si.
– Onegai, não faça isso! Não se torne um monstro também! – suplicou chorosa.
Ela já havia visto muitas pessoas se machucando, não queria que por causa de um erro seu pai fosse tirado de si, não depois de finalmente reencontrá-lo. Ao compreender o motivo da garota, Sasuke deixou Karin que caiu semi-inconsciente no chão e foi em direção a menina a abraçando com força, como sempre quisera fazer.
– Gomen! Você está bem? – indagou preocupado e a menina maneou a cabeça em concordância. Claro que estava ferida, mas nada de grave, agora tudo iria se resolver! – Onde está Daisuke?
– Eu...eu consegui tirá-lo daqui! E vim procurá-lo, eu quis ajudar! – disse se sentindo ridícula por ver que, provavelmente, deveria ter mais atrapalhado do que auxiliado Sasuke.
– Menina tola! – disse sorrindo e acariciando o rosto da menor. Suspirou aliviado por saber que Daisuke já estava longe daquele lugar – Vamos sair daqui agora, está bem?
– Hai! – disse se levantando com a ajuda do mais velho, olhou em direção a Juugo e franziu o cenho ao ver o sangue no chão. Sasuke ao notar o jeito da mais nova se manifestou:
– Vá ligar para Naruto e peça que ele mande a polícia, ele sabe onde estamos – disse passando o celular para a menina – Eu vou ver se consigo ajudar Juugo!
– Hai! – disse sorrindo para o Uchiha que percebeu que até o presente momento a menina não havia o chamado de “pai” e se perguntou se ela tinha conhecimento de tal fato. Balançou a cabeça e foi em direção ao ruivo, ele teria tempo para conversar com Saori depois e ele tinha muito a falar e se desculpar.
– Juugo, vou tentar estancar o sangue! – disse ao observar o ferimento aberto que jorrava o líquido vermelho, mas antes que pudesse fazer qualquer movimento, o ruivo lhe parou, chamando a sua atenção.
– P-p-por... quê? – questionou, ele não entendia como Sasuke podia lhe ajudar depois de tudo o que fez.
– Não me entenda mal, eu não gosto de você e ainda quero que você pague por seus crimes, mas não com a morte! Além disso... – pausou por um momento antes de continuar – ...acho que você já sofreu bastante pela Karin! – disse encarando o ruivo que não pode deixar de dar um sorriso ensanguentado para si.
– Eu liguei para o Naruto-san, a polícia já está a caminho! – disse Saori com o telefone em mãos, falava com alguém na outra linha, antes de se sentar no pequeno sofá que tinha ali. Ela estava exausta, seu corpo clamava por cuidados e ela precisava dormir um pouco, mas estava feliz que tudo terminara bem.
– D-Desgraçado! – murmurou Karin para si, ainda caída no chão. Tudo pelo o qual lutara havia sido em vão. Ela iria terminar na cadeia e sem o seu Sasuke-kun. Ele não a amava. Ele amava Sakura e aquela pivete. Não, aquilo não podia ser verdade.
Depois de tudo o que fizera, era isso que recebia? Desprezo, ódio e uma quase morte por aquele quem jurou amar? Não, não podia acreditar nisso. Tentou se levantar, mas parecia que toda a energia do seu corpo havia sido drenada de si, ainda respirava com dificuldades devido à força que Sasuke exercera e ainda estava em choque com tudo o que acontecera. Mas ela não iria desistir, viu o revólver jogado no chão e se aproveitou da distração de todos para se arrastar até alcançá-lo.
– Se eu não vou ter o meu final feliz, você também não terá o seu Sasuke-kun! – disse apontando a arma para a menina.
– S-Sasuke... – sussurrou Juugo de olhos arregalados e apontando para algo atrás de si.
O Uchia só teve tempo de visualizar a ruiva apontando a arma para uma Saori distraída antes de seu corpo entrar em movimento de forma automática. Não! Não de novo! Não perderia Saori mais uma vez! Não podia perdê-la! Ouviu o som do disparo e notou quando a mais nova percebeu o que estava prestes a acontecer, mas já era tarde demais!
Sentiu quando o projétil perfurou sua carne e começou a queimar tudo dentro de si, gemeu com a dor, mas logo a ardência deu lugar a dormência. Colocou a mão no peito apenas para observar o líquido carmesim que agora saia de si e sua visão começou a nublar e escurecer. Ouviu alguém gritar, mas parecia tão longe, já não conseguia distinguir muito bem as coisas, tudo parecia um imenso borrão a sua volta. “Então, morrer é assim?” pensou. Suas mãos tremiam e um frio lhe subia pela espinha, não era assim que imaginava o seu final. Antes de perder a consciência ainda pode ver dois orbes negros lhe fitando preocupados e balbuciando algo incompreensível para si.
–*-
“Onegai...”
“Onegai... volte!”
“Eu preciso de você!”
Abriu os olhos lentamente, tentando se acostumar com a claridade que irrompia por eles, havia muita luz e seu corpo estava pesado, mas havia algo diferente ali. Passou a mão ao redor do corpo e percebeu estar flutuando sobre a água. Onde estava? Virou o rosto para observar o seu redor, mas tudo o que via era a mesma claridade irritante de sempre.
“Você pode me escutar? Onegai, aguente firme!”
“Você vai ficar bem!”
Ouviu vozes e procurou ver quem era, mas não havia mais ninguém ali consigo. De repente uma dor se fez presente no seu peito como se algo o tivesse perfurado, levou a mão até a região, viu o sangue se espalhar e de repente tudo o que aconteceu lhe atingiu. Karin. O sequestro. Juugo. O tiro. E...Saori. Ele havia conseguido se jogar na frente da filha antes que a bala a acertasse, por isso estava ali, estava morto, não estava?
“Sasuke-kun! Onegai, salve-o! Meu amor, não me deixe!”
– Sakura... – murmurou, esticando o braço como se quisesse alcançar a voz da mulher, porém um entorpecimento foi se alastrando por seu corpo até que não teve outra opção a não ser se render e fechar os olhos mais uma vez, sem saber se iria acordar novamente.
–*-
“Gomen! Gomen, otou-san! Eu não queria...sempre o respeitei, eu...gomen!”
Abriu os olhos ao ouvir a voz de Daisuke e mais uma vez se viu inerte naquele mesmo lugar insuportavelmente claro, ainda não sabia onde estava e ainda não conseguia se mexer, mas não se importou e sorriu ao pensar como o filho poderia achar que ele estivesse com raiva ou algo parecido. Daisuke sempre havia sido o melhor filho que poderia ter e estava orgulhoso por ele tê-lo enfrentado daquela forma para defender a irmã, mesmo sem saber disso. Sabia que ele estava se tornando um bom homem, mesmo que não pudesse mais ver o caminho que ele trilharia.
Sentiu a mesma dor lhe preencher o peito e ofegou, inalando água no processo, quando deu por si estava debaixo d’água, mas, por algum motivo, conseguia respirar e aquilo só reforçou a sua ideia de que estava morto. Devia estar passando por algum tipo de purgatório. Fechou os olhos e pode escutar mais vozes ao seu redor.
“Sasuke-kun, Sasuke-kun, fique comigo! Onegai, eu preciso de você!”
“Sakura” pensou e esticou mais uma vez o braço como se conseguisse alcançá-la, queria tanto vê-la mais uma vez e como se fosse criado um reflexo na água vislumbrou na sua frente os olhos cor de esmeralda que tanto amava, inchados e vermelhos por causa dele.
– Não chore! – pediu melancólico com o coração apertado, não havia lutado tanto para vê-la chorar mais uma vez. Ela era o seu mundo, seu único amor, queria que fosse feliz, mesmo sem ele – Você vai ficar bem! Saori e Daisuke estarão com você agora! Eu consegui trazê-los de volta, como eu prometi! – e sorriu de forma torturada, o que não daria para estar de volta com a sua família? Lágrimas se formavam nos seus olhos, mas logo se perdiam na imensidão na qual estava submerso.
Mais uma vez a pressão da água o forçou para baixo, extinguindo a imagem de Sakura a sua frente e eliminando um pouco mais da luz a sua volta, estava sendo tragado para a escuridão e ele suspirou, pensando que gostaria que aquilo tudo acabasse o mais rápido possível e assim evitar mais sofrimento. Por um tempo o silêncio reinou no lugar até ouvir a voz de mais alguém.
“Teme, porque você está fazendo isso? Você precisa voltar! A Sakura precisa de você!”
“Você é o meu melhor amigo, não seja um panaca e se deixe vencer ‘ttebayo!”
– Naruto... como sempre escandaloso! – disse sorrindo de canto, queria brigar mais uma vez com o loiro como sempre fazia. O Uzumaki sempre havia sido o melhor amigo que pudera ter, sempre esteve ao seu lado e o amparou depois que pensara que Saori havia morrido, nunca o deixando só.– Cuide da minha família por mim! – pediu.
–*-
O tempo passou ali enquanto sentia seu corpo afundar cada vez mais e a luz sumir completamente. Durante aquele período refletiu sobre tudo o que aconteceu na sua vida e sorriu pensando que a havia aproveitado bem, apesar de tudo. Não se lembrava de ter nenhum arrependimento e mesmo se sentindo triste por deixar aquele mundo, sabia que todos ficariam bem. Fechou os olhos se entregando ao seu destino, parece que aquele era mesmo o seu fim.
“Não pode me deixar, não agora! Se fizer isso, nunca te perdoarei!”
Arregalou os olhos ao perceber que aquela voz era da...
– Saori... – murmurou e como aconteceu com Sakura pode visualizar o rosto da menina, repleto de lágrimas, gritando consigo.
“O senhor prometeu! Prometeu que nunca nos separaríamos! Não pode fazer isso agora que o encontrei novamente!”
E aquilo o despertou por um momento, havia ainda algumas coisas que ele precisava fazer, ainda não podia se permitir morrer sem lutar, queria ver o rosto da sua Sakura de novo, queria abraçar Daisuke e dizer que se orgulhava dele, queria pedir perdão a Saori por tudo o que fez e não apenas pensar. Agora não era somente o rosto da filha que aparecia, mas também Sakura, Daisuke, Naruto, Hinata... todos os seus amigos estavam ali por ele. Ele não podia desistir!
Forçou-se a nadar em direção a luz que outrora lhe cegava, mas a corrente da água parecia estar cada vez mais forte e determinada a lhe tragar para o fundo daquele abismo negro. Viu o rosto da sua família mais uma vez e recomeçou a lutar, não queria mais ficar ali, queria voltar para sua vida, recomeçar e acertar os erros do passado!
–*-
– Saori...onegai, não fique assim! – pediu uma Sakura chorosa, abraçando a filha que tremia em seus braços. Aquela era a primeira vez que a menina via Sasuke desde quando o trouxeram para o hospital e ficou internado em coma induzido por três semanas.
Daisuke também estava ali, mas ele não conseguia dizer nada, somente derramava suas lágrimas silenciosas mais uma vez. Não era justo perder seu pai depois de tudo, observou Sasame, sentada ao seu lado, segurando sua mão para lhe dar apoio. Estava usando uma cadeira de rodas para se locomover devido ter fraturado a perna, mas ninguém conseguiu o dissuadir a não visitar o pai. Arrependia-se por ter discutido com ele. Sua mãe e sua irmã estavam inconsoláveis, principalmente Saori que teve que presenciar o pai levar um tiro. Ao redor também estavam Naruto, Hinata, Hideo e Hana que ficavam revezando a entrada no quarto com os outros amigos que também vinham ver seu pai.
Mas ficar três semanas em coma já era considerado algo fora dos padrões e conforme o tempo passava, as chances de Sasuke acordar diminuíam. Até aquele momento Saori se recusara a vê-lo, sem saber como reagir e com medo do que veria. E ela tinha razão em ter medo, a sensação foi tão devastadora quanto ver Sakura naquela cama de hospital. De início, ela ficou inerte apenas o observando e pode ver sua mãe falando com Sasuke, pedindo para ele ficar com ela.
Sakura era quem mais conversava com Sasuke como se soubesse que ele podia ouvi-la e aquilo era devastador para Saori, ver o modo amoroso que Sakura agia a fazia se sentir ainda mais culpada pelo o que aconteceu. Quando a rosada a chamou para ir dizer alguma coisa para Sasuke, ela entrou em choque, sem saber o que fazer. Aproximou-se devagar da cama com seu coração martelando dentro de si e mordendo os lábios para não emitir nenhum soluço ou choro, mas não conseguiu e quando deu por si estava gritando desesperada para que ele acordasse e que não o perdoaria se ele a deixasse ali.
Por alguns minutos ninguém proferiu mais nenhuma palavra, somente os soluços das duas mulheres eram ouvidos por todos até que outro barulho se fez presente, chamando a atenção dos presentes que automaticamente se viraram na direção do som. Um grunhido que vinha na direção de Sasuke.
– S-Sasuke-kun... – sussurrou Sakura antes de ir ao encontro do marido que abria os olhos lentamente.
Estava confuso com o que havia acontecido e não se lembrava de muita de coisa, “havia sido um sonho?”, pensara aturdido enquanto via a mulher chorar em cima de si e ouvia Naruto gritar chamando por uma enfermeira para avaliá-lo, mesmo que sua esposa já fosse médica. As coisas começaram a fazer mais sentido somente um tempo depois, após tomar um pouco de água para aplacar a garganta seca e o médico responsável por si aparecer e lhe examinar.
– Você está bem? – indagou Sakura pela milésima vez e ele não pode deixar de bufar.
– Já disse que sim! Não se preocupe, Sakura! – respondeu e sorriu de canto para a esposa.
– Esse teme deve estar ótimo se já está resmungando por ai, ‘ttebayo! – Naruto disse sorridente – Você deu um susto na gente, teme!
– É eu sei! – disse enquanto alguns flash’s do seu sonho se faziam presente, balançou a cabeça para afastar tais pensamentos – Mas o que aconteceu depois que eu fui baleado? – indagou, olhando para Saori que não havia se pronunciado até o momento, somente o observava assombrada por ver que ele estava bem.
Ao ouvir o pedido do moreno sabia que cabia a ela responder, pigarreou e se recompôs antes de iniciar a sua narrativa:
– Depois... depois do tiro, bom, Karin enlouqueceu! – disse com pesar, não queria lembrar-se daquela cena, mas não tinha escolha, mais uma vez tinha que contar aquilo – Começou a dizer que não queria lhe machucar, que lhe amava e que a culpa era minha. Eu ainda estava atordoada com tudo e ela tentou vir para cima de mim...
– Ela te machucou? – interrompeu Sasuke em busca de algum ferimento a mais na filha, mas esta apenas meneou a cabeça, negando. Sua costela havia apenas trincado e seus ferimentos no rosto já estavam cicatrizando, não estava tão ruim.
– Lie! Juugo me salvou! – disse para surpresa do moreno que tentou falar algo, porém Saori não permitiu e continuou a falar – Ele gastou suas últimas forças para pegar a arma que estava perto da mesa e... atirou em Karin... ela morreu aos meus pés... – e se forçou a engolir o choro.
– Juugo...
– Não conseguiu suportar! – cortou o mais velho, passando a mão nos olhos e depois se virou para encarar o moreno, aflita – Gomen! Eu não queria que isso tivesse acontecido! Eu... – disse vertendo mais lágrimas – ...a culpa foi minha!
– Saori! – chamou Sasuke, assustando a menina – A culpa não foi sua! A culpa nunca foi sua! E se alguém deve pedir desculpas aqui, sou eu! – a menina ficou confusa e apenas arqueou a sobrancelha, sem entender – Me perdoe por não estar com você quando precisou, por não ter cuidado de você durante esses anos...
– Sasuke-kun... – Sakura murmurou emocionada.
– Me perdoe por todas as coisas que fiz quando você foi para casa, por meu preconceito, por te ofender... – seus olhos ardiam e ele não conseguia encarar a menina a sua frente, tinha medo da reação dela ou que ela não o perdoasse, então continuou a falar de cabeça baixa para não perder a coragem — ...eu fiz tantas coisas para você, duvidei, ameacei, mesmo tendo você ao meu lado eu não enxergava e, continuei a te afastar mais e mais, eu não agi como um pai e sei que não mereço o seu amor... – parou de falar ao sentir a menina lhe abraçar.
– Chega! Não importa o que você fez “otou-san”! Mesmo sem saber eu já te amava como pai! Muito antes! – disse Saori com a voz embargada.
Sasuke apenas retribuiu o gesto apertando a menor para junto de si, derramando lágrimas que há muito estavam presas, deixando que elas lavassem a sua alma mais uma vez. Sentiu quando Sakura também se aproximou, acariciando seus cabelos e quando a cama se afundou com o peso de Daisuke para participar do abraço em família. Família que agora estava completa.
– Acho que já chega desse abraço meloso, né? – disse Daisuke, limpando o rosto para esconder as lágrimas e Saori riu do jeito do rapaz.
Não quer ver anúncios?
Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.
Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!– Você é muito antissocial, Daisuke! Não sei como a Sasame te aguenta! – zombou Saori também escondendo os resquícios do choro.
– Olha só quem fala! A senhora antissocial! Quando não está brigando, está chorando feito uma torneira! – retrucou, irritando a menina.
– Eu não sou chorona! – disse fazendo biquinho, emburrada.
– Você sempre foi chorona! Vivia querendo dar uma forte, mas sempre abria o berreiro para a oka-san!
– Eu não sou mais assim! E você sempre corria atrás da oka-san como um garoto mimado querendo que ela fizesse tudo por você! – disse e começou a imitar a voz do garoto – “Oka-san, porque você demorou?”, “Oka-san, eu estava com medo!”, “Oka-san, não vai me dar banho?”.
– Eu não fazia isso! – reclamou Daisuke com o rosto fervendo de vergonha por todos estarem ouvindo tudo e rindo de si.
– Oe, parem os dois! Não acredito que já estão brigando! – disse Sakura apartando-os, mas feliz por tudo voltar a ser como era.
– Eu não acredito que você fazia isso, Daisuke! Não me lembrava mais disso! – disse Hideo rindo antes de se dar conta de algo – Matte, Saori, quer dizer que você se lembrou de tudo?
– Bom, tudo não! Mas as coisas estão voltando aos poucos! – disse com a mão na cabeça, ainda era um pouco estranho ter suas lembranças de volta.
Depois disso, Daisuke e Saori voltaram a discutir e falar de momentos embaraçosos um do outro quando eram crianças e Sakura tentava fazê-los pararem de brigar, mas a verdade era que estava radiante de poder ver esse cenário mais uma vez. No fim, ela sempre esteve certa em confiar no seu coração ao acolher Saori.
Sasuke por um momento ficou de fora da cena que se desenhava diante de seus olhos. Ele não conseguia crer que sua família estava novamente junta, que sua filha mais nova retornara para eles, sorriu ao pensar que, no fundo, ele já devia saber que havia algo a mais naquela garota impulsiva e teimosa que ele não conseguia explicar. Esse sentimento terno sempre esteve ali junto dele e sempre se fazia presente toda vez que a menina demonstrava os mais simples gestos. O problema foi que ele nunca quis realmente ver.
Estava tão amargurado e fechado em si mesmo que demorou a notar o quanto gostava da mais nova, daquele jeito marrento mesmo e que havia algo nela que ia além do que os seus olhos viam. Porém seu coração não se enganou em nenhum momento quando passou a acreditar nela. Suspirou feliz por ter recuperado a paz que sempre desejou.
– Daisuke no baka! – xingou Saori, sendo contida por Hideo.
– Pirralha! – rebateu o moreno cruzando os braços na frente do peito.
Revirou os olhos ao ver os mais novos discutindo, de novo. Bom, pelo menos havia recuperado um pouco da paz que sempre desejou, pensou sorrindo feliz para a esposa ao seu lado que também irradiava felicidade por ter sua família de volta. A verdade era que devia a sua esposa por unir a sua família de novo, por acreditar em algo quando mais ninguém acreditava. Mas isso não devia ser novidade para si, afinal, Sakura sempre foi e sempre seria responsável por iluminar o seu caminho.
Fale com o autor