Sonhos De Uma Outra Vida
32 Capítulo 32
Notas iniciais
Obrigada a todos os reviews e logo os responderei!!
Boa leitura!
Quando lhe ligaram do colégio de Daisuke, esperava ouvir qualquer coisa menos que seu filho estava envolvido em uma briga! E o pior que a garota por quem estavam sendo responsáveis era quem havia iniciado a confusão e ferido dois colegas. Bufou irritado! Aquela garota teimosa, inconsequente! Era o seu segundo dia e ela já fazia isso? E ainda levava o seu filho junto? Daisuke nunca havia lhe dado motivos para ir ao colégio a menos que fosse para ver o filho receber uma medalha de honra ao mérito e agora estava lá, em frente à Tsunade, sua antiga diretora de colégio, com um cara de poucos amigos esperando para ouvir quais seriam as consequências daquele ato. Internamente não pode deixar de recordar as inúmeras vezes que estivera naquela sala, na mesma situação quando ainda era aluno e se metia em encrenca por seu temperamento esquentado.
- Sasuke! Quanto tempo! – cumprimentou Tsunade, fazendo-o sair da sua onda de nostalgia e apenas responder com um aceno – Como está Sakura? Ela não virá?
- Lie! Ela estava fazendo uma cirurgia, não tinha como vir! – respondeu e Tsunade deu um sorriso ao ouvir falar sobre sua protegida. Parecia que a carreira de médica de Sakura estava progredindo muito bem.
- Entendo! Diga a ela que em breve a farei uma visita, tenho muita coisa a conversar com ela! – disse se referindo a menina de cabelos escuros que tanto chamou a sua atenção.
- Hai! Mas vamos direto ao ponto, tenho uma reunião importante daqui a pouco! – Sasuke resolveu cortar a mais velha, não estava com bom humor para aturar papo furado – O que houve? – Tsunade franziu o cenho com o jeito rude do rapaz.
- Vou chamá-los e eles explicarão o que houve, pois eu ainda não entendi também! E parece que os responsáveis de Isao e Hoshi não poderão comparecer! – Tsunade falou se lembrando da maneira como os pais dos dois rapazes disse-lhe que apenas lhes informassem o que eles haviam feito e que os castigassem da melhor maneira possível. Balançou a cabeça, não concordava com a atitude dos pais, mas não podia se meter nesses assuntos.
Mandou os mais novos entrarem na sala, Isao e Hoshi foram os primeiros a entrar e lhe encarar seriamente como se dissessem que esperavam que ela fizesse alguma coisa a respeito do que havia acontecido, logo em seguida apareceu Hideo totalmente despreocupado e por último cruzou a porta Daisuke e Saori, que ficaram tensos após cruzarem os olhares com o Uchiha mais velho na sala.
- Bom, agora que estão aqui eu quero que vocês me expliquem o que aconteceu! – exigiu a diretora. E Hoshi foi o primeiro a se manifestar:
- O que aconteceu foi que a senhora deixou essa vadia, delinquente, entrar na escola! – falou furioso apontando para a garota que apertou os punhos, mas não revidou o comentário. Sasuke franziu o cenho perante a forma como aquele moleque falou de Saori assim como Daisuke e Hideo, porém foi Tsunade quem reagiu de forma brusca ao bater na mesa e se levantar para falar ao loiro:
- MEÇA AS SUAS PALAVRAS GAROTO!! NÃO VOU PERMITIR QUE DESACATEM AS MINHAS ORDENS E TÃO POUCO QUE INSULTEM NINGUÉM NA MINHA FRENTE!! – respirou fundo para se acalmar e continuou – Agora se expliquem!
- A bolsista nos agrediu! Foi isso que aconteceu! Ou a senhora ainda não percebeu o estado em que estamos? – disse Isao sem temer o modo como a diretora falou, pois sabiam que ela nada poderia fazer contra eles.
- Olha o respeito rapaz, sou a sua diretora! – Tsunade falou trincando os dentes de raiva.
- Saori isso é verdade? – Sasuke se manifestou antes que Tsunade explodisse outra vez.
Saori sentiu um frio na espinha ao olhar para Sasuke, sentia a raiva e a frieza contida naqueles orbes negros. Ele já havia a condenado antes de lhe ouvir, então para que falar? Já havia acontecido a mesma coisa naquele dia com o policial a diferença era que agora seu carrasco seria Sasuke. Cruzou os braços em frente ao peito, não estava arrependida do que fez, pelo contrário se tivesse a oportunidade bateria quantas vezes fosse preciso naqueles dois desgraçados. Virou-se para o moreno, determinada, o encarou e disse:
- Hai! Eu bati neles! – disse convicta e surpreendendo a todos, até mesmo Hoshi e Isao que não esperavam que a garota fosse desistir tão fácil — Mas Daisuke não tem nada a ver com isso, ele apenas me impediu de continuar socando a cara desses imbecis! – finalizou ainda encarando Sasuke nos olhos vendo quando este desviou do seu olhar, decepcionado pelo que ouvira.
- Então não há mais nada a se discutir aqui! – Sasuke disse se levantando – Tsunade! – se virou para chamar a atenção da loira que estava chocada por ouvir aquilo, afinal, ela imaginava uma discussão épica pelo que percebera ser o temperamento da garota – Qual será a punição por isso? – perguntou de forma séria, esperando a resposta da loira.
- Bom...se é assim... – Tsunade dizia um pouco atordoada quando foi cortada rispidamente por Daisuke.
- Mas que diabos você está fazendo, sua baka? – perguntou furioso para a menina ao seu lado, só agora ele havia conseguido se recuperar das palavras de Saori. Esperava que ela se defendesse e dissesse toda a verdade sobre os dois e não que fosse ficar passiva e assumir toda a culpa.
- Só estou dizendo a verdade! – Saori respondeu sem olhar para o moreno. Estava decidida a aceitar as consequências de seus atos.
- Essa não é toda a verdade e você sabe disso!! Por que não se defende? – Daisuke não conseguia acreditar no que estava ouvindo.
- Quer parar de se meter onde não é chamado Daisuke? A menina confessou, aceite! – disse Hoshi tentando encerrar aquela discussão.
- E bem que isso te convém, não é Hoshi? – Hideo se pronunciou debochado e depois se voltou para Saori, suavizando a voz – Você não precisa temer nada, ninguém vai lhe julgar! Diga apenas a verdade! – “Já estou sendo julgada!” pensou Saori ao ver Sasuke voltar a se sentar, suspirar e olhar para o relógio querendo que isso terminasse o quanto antes.
- Essa é a verdade! – respondeu resoluta. Daisuke não aguentava mais aquilo e se ela não queria se defender, ele faria isso por ela.
- Pois eu digo que não é! E tenho como provar! – falou Daisuke atraindo a atenção dos demais que estavam na sala e Isao e Hoshi tiveram um mau pressentimento sobre isso – Saori já conhecia Hoshi e Isao, eles tentaram a estuprar uma vez e a culparam pela morte de uma pessoa! – as palavras fortes de Daisuke assustaram a Sasuke e Tsunade que eram os únicos que não sabiam daquilo.
- Então é verdade que ela bateu neles, mas Saori teve um motivo para isso! – continuou ao ver o choque da diretora e de seu pai — E se eu não tivesse intervido, provavelmente, Hoshi e Isao teriam batido nela ou feito coisa pior! – finalizou apontando para os dois, tremendo de raiva.
- Daisuke... – Sasuke não sabia o que dizer, nunca havia visto o filho agir daquela forma, não era de seu feitio mentir ou acusar aos outros e tão pouco defender alguém desse jeito. Olhou para a menina para tentar identificar se aquilo era verdade, mas ela apenas encarava o chão sem dizer nada. E pensar que isso pudesse ser verdade fez o peito de Sasuke se apertar.
- BAKA! FICOU MALUCO? NÓS NEM A CONHECIAMOS ANTES DE HOJE! COMO PODE AFIRMAR ISSO? – Isao gritou irritado, tentando mostrar-se ofendido com o que foi dito.
- Daisuke essas acusações são muito sérias! Tem certeza disso? – Tsunade questionou franzindo o cenho para o garoto. Se aquilo fosse verdade...
- Eu já disse que tenho como provar! – respondeu Daisuke tirando do bolso da calça um pequeno gravador. Saori arregalou os olhos com as palavras de Daisuke, como assim podia provar? Daisuke voltou um pouco a fita e pôs para que todos ouvissem o seu conteúdo, e as partes mais importantes:
– Você! – vociferou ao se dar conta de quem se tratava, “a garota do beco”. Isao sentiu uma fúria se apossar de si, dos dois ele foi o que mais sofreu com a sem-teto, havia fraturado o nariz e seu braço ainda estava com pontos pelo corte que fora feito tempos atrás. E agora ela aparecia ali na sua frente, debochando de si, antes que pudesse fazer qualquer coisa Hoshi foi mais rápido e a prensou na parede.
*
– O que você está fazendo aqui? – Hoshi não acreditava no que via, pensava que havia se livrado daquela garota e agora ela aparecia do nada na sua escola, aquilo não podia estar acontecendo!
*
- Já ouvi isso hoje! Mas não tenho medo de vocês, desgraçados! – retrucou Saori com raiva – VOCÊS SÃO UNS BASTARDOS! POR CULPA DE VOCÊS EU FUI PARA O INFERNO! SÃO UNS FILHOS DA PUTA, VOCÊS MATARAM AQUELE SENHOR!! – gritava exasperada, sabia que estava brincando com fogo, mas não conseguia parar, tinha que dizer tudo que estava engatado na garganta desde o dia em que foi presa e levada de volta ao orfanato.
– Não seja tola! Se você não reparou, não há ninguém aqui! E quem acreditaria no que você fala? – Hoshi se controlava para não avançar na garota, alguém tinha que se controlar e percebeu que Isao não faria isso.
*
– Você é uma idiota! – murmurou ameaçadoramente Isao, se aproximando de Saori que estava um pouco tonta pela batida — Foi muito fácil nos livrar de você daquela vez e agora não seria diferente!
*
– DESGRAÇADA! NÃO VAI FUGIR, VOU TERMINAR O QUE DEVIA TER FEITO NAQUELE BECO! – gritou Isao.
*
– CRETINO! ME SOLTE! – puxava o braço para se livrar agora do loiro que apenas intensificava o aperto, Saori estava muito agitada e fazia de tudo para se soltar, levantou a mão arrebatada pelo momento e desferiu um tapa no rosto de Hoshi que se enfureceu ainda mais.
– PERDI A PACIÊNCIA COM VOCÊ! AGORA VOCÊ VAI APRENDER QUE NÃO SE MEXE COMIGO! – vociferou, sentindo a face esquentar pelo tapa, era a segunda vez que ela lhe batia.
Depois que Daisuke parou a fita um silêncio mórbido se fez presente no lugar. Hideo trincava os dentes, tentando se controlar pelo que ouvira, não suportava covardia contra mulheres e aqueles dois já tinham extrapolado a sua paciência. Tsunade estava pasma, aquilo estava tomando um rumo que ela não esperava e se via obrigada a ligar para a polícia e repassar aquelas informações. Hoshi e Isao não sabiam o que dizer, se viam sem saída depois daquele maldito gravador.
- Isso... isso não é verdade, nós... – Hoshi tentou dizer, mas foi impedido pela voz de Tsunade.
- Chega! Não quero mais uma palavra de vocês! Agora vocês terão que se explicar para a polícia e ligarei para os seus pais também!Isso não pode ficar assim! – esbravejou a loira e depois se dirigiu a Saori, falando suavemente – Não se preocupe Saori, você não será castigada por nada!
Saori não acreditava no que estava ouvindo, ela não seria culpada? Lutava contra as lágrimas, impedindo-as de escorrer pelo rosto, estava aliviada por acreditarem nela e por poder continuar na escola, agora, sem presença de Hoshi e Isao. Acenou com a cabeça e se retirou da sala junto com Hideo e Daisuke, apenas Sasuke, Tsunade e os outros dois permaneceram lá. Suspirou aliviada, como se um peso saísse de cima das suas costas e percebeu que tinha que agradecer tudo isso a Daisuke! Virou-se para olhá-lo, notando um pequeno sorriso de canto se formar no rosto do moreno e ela entendeu algo.
- Você... – Saori disse quebrando o silêncio e tentando controlar a voz embargada – você armou isso?
- Eu prometi que pensaria em algo, não é? Só que você que você é muito impaciente! – retrucou Daisuke contente. Ele teve a simples ideia de fazer Saori esconder um gravador consigo e confrontar Isao e Hoshi e manipulá-los para que eles contassem a verdade, mas esperava poder contar seu plano antes para a morena e não ter que agir como agiu. Deu de ombros, o importante era que as coisas haviam se resolvido.
- Do que está falando? Eu lhe dei um dia antes de fazer qualquer coisa! – disse fingindo estar com raiva para depois abrir um sorriso e se jogar em Daisuke que corou pela atitude da garota e sussurrou em seu ouvido sem poder conter as lágrimas – Arigatou!
Daisuke sentiu algo dentro de si se aquecer, parecia que tudo estava onde devia estar, se lembrou da sua irmã e como gostaria que fosse ela em seus braços o agradecendo. E por um instante imaginou que fosse sua imouto ali, a abraçou com força, impedindo que saísse de seus braços e pensou que ele finalmente havia conseguido protegê-la, finalmente havia cumprido a promessa feita ao seu pai há muitos anos atrás. Hideo apenas assistia a cena, se sentindo um intruso e um pouco confuso, afinal, nunca havia visto Daisuke ser tão carinhoso com alguém e se perguntou se ele estava gostando de Saori e se ela também sentia algo diferente pelo moreno. Franziu o cenho com o pensamento, não gostando do rumo dos seus pensamentos.
- Oe, loiro! – ouviu uma voz doce lhe chamar, interrompendo seus pensamentos e quando viu a sua frente estava Saori lhe olhando confusa.
- Nani? – perguntou um pouco sem jeito por ela lhe encarar daquela forma.
- Mesmo você sendo um chato, irritante e eu continuar não gostando de você... – começou a garota séria para depois abrir um sorriso terno – Eu também tenho que te agradecer por me ajudar! – disse estendendo a mão para o garoto. Hideo fez uma careta diante da declaração, não gostando também dela apenas querer apertar sua mão e com Daisuke ter dado um abraço, mas não iria desperdiçar a oportunidade, então deu um grande sorriso, segurando a mão da garota e a puxou para si dando um beijo estalado em sua bochecha.
- Por nada gatinha! Estou sempre a sua disposição! – disse baixinho em seu ouvido para depois se afastar e ver a garota corar. Não pode deixar de sorrir por ter conseguido deixá-la assim, só não sabia se ela havia corado de vergonha ou raiva.
- Baka! Como se atreve a fazer isso? Você vai ser seu loiro de farmácia!! – Saori gritou com raiva, com a mão preparada para desferir-lhe um soco, e começou a correr atrás do garoto que ria alto, tendo sua dúvida respondida. Daisuke apenas bufou irritado pelo comportamento do amigo, mas ele que se virasse agora com Saori e começou a caminhar em direção a saída da escola.
-*-
Sasuke não havia saído da sala da diretoria e esperou, pacientemente, que Tsunade resolvesse todos os assuntos com aqueles dois bastardos, chamasse a policia e ligasse para os seus pais. Tsunade não perguntou nada sobre o motivo de ainda estar lá, e mesmo que perguntasse ele nada responderia. Ao ouvir as palavras de seu filho e aquela gravação Sasuke sentiu seu sangue ferver e uma raiva descomunal se apossar de si ao imaginar aquela garota sendo vítima de estupro por esses dois, por incontáveis vezes se obrigou a apertar o braço da cadeira, na qual estava, para não se levantar e terminar a surra que Saori deu naqueles moleques. E por Kami, teve que segurar a língua para não dizer que ela deveria ter batido ainda mais. Entretanto, não podia fazer isso, pois se supunha que ele era o adulto ali e deveria se manter calmo e não arrebentar os dentes do loiro e do ruivo a sua frente.
Tsunade já havia percebido o comportamento estranho de Sasuke, como ele não parava de bufar irritado e lançar olhares mortais aos dois garotos. Ele não sairia de lá enquanto não falasse o que queria para os dois garotos, por isso arrumou uma desculpa de avisar o porteiro sobre a visita da policia e deixou Sasuke a sós com os dois, sabia que mesmo isso sendo imprudente pela forma como Sasuke estava agindo, ele não faria nada com os menores, mesmo eles merecendo, pensou. O moreno agradeceu internamente ao ver Tsunade sair, pois não estava mais se controlando. Encarou os dois rapazes sentados no canto da sala, murmurando sobre coisas ininteligíveis e se levantou com as mãos no bolso, andando até eles.
Hoshi cutucou o amigo ao verem o pai de Daisuke se aproximar de si com um rosto impassível e não pode deixar de se perguntar o que ele queria? Eles já estavam ferrados o suficiente graças aquela pivete e ao imbecil do Daisuke, a única coisa que queriam era poder pensar em algo para não levarem a pior e, agora, o pai do Daisuke resolve lhes perturbar? Suspirou pesadamente e se virou para o “velho”.
- Qual o problema? – perguntou Hoshi rispidamente. Sasuke arqueou a sobrancelha com a ousadia do garoto e respondeu:
- O meu problema são vocês! Então prestem atenção! – a voz estava baixa e rouca, mas carregada de uma fúria contida que fez os jovens sentirem a espinha gelar com o timbre do mais velho.
- O que quer dizer? – perguntou Isao não gostando daquela conversa. Sasuke se aproximou mais segurando ambos, um em cada mão, pela gola da camisa e voltou a falar com a voz fria e cortante:
- Agradeçam a Kami por vocês terem parado na diretoria antes dessa história chegar a mim! E se eu souber que vocês ousaram chegar perto da Saori novamente, ou sequer imaginar que vocês a estão perturbando de qualquer modo, eu juro que vão preferir estar no inferno! – finalizou soltando-os e se retirando da sala com uma batida forte na porta, sem ver os olhares petrificados dos garotos. Ainda estava com raiva pelo que havia acontecido, mas não podia e não iria bater em dois moleques, a polícia e os pais se encarregariam de lhes ensinar uma lição! Respirou fundo, procurando por forças e paciência pelo que estava por vir, ainda tinha que fazer uma coisa muito importante!
-*-
Estavam voltando para casa e Sasuke havia insistido para que Saori fosse consigo, enquanto Daisuke iria em seu próprio carro. Por causa disso estava no banco do carona, observando a paisagem e fazendo de tudo para não pensar no que o moreno diria para si, se é que ele diria alguma coisa, pois já estavam chegando a casa e continuava o mesmo clima pesado e o silêncio sufocante ao seu redor. Suspirou pesadamente e olhou de esguelha para Sasuke que continuava a dirigir sem desviar seu olhar da estrada e voltou a se concentrar em observar a janela novamente. Se ele não diria nada, ela também não diria!
Sasuke não sabia como começar a falar com a garota ao seu lado e ela não estava facilitando em nada com esses suspiros e lhe olhando daquela forma como se estivesse o pressionando a dizer alguma coisa. Apertou o volante com raiva, conseguia persuadir qualquer pessoa a fazer o que quisesse, intimidava seus adversários e inimigos com um simples olhar, mas quando se tratava de enfrentar essa fedelha e pedir desculpas, aquilo parecia um desafio épico. Em parte a culpa era sua e do seu grande orgulho que não aceitava dizer que estava errado ao julgar a garota e nem ouvir o seu lado da história. Além disso, era Saori sobre quem estava falando, se fosse qualquer outra pessoa Sasuke não se importaria tanto com isso e, talvez, nem tentaria justificar seus atos, mas ele sabia que desde o começo sempre julgou, erroneamente, a mais nova e sempre exigiu respeito pela sua casa, sua família, disse coisas para a garota e sempre a tratou mal, porém não importava o quanto ele exigia Saori, esta sempre se comportou em conformidade com suas regras.
Então, o mínimo que poderia fazer era reconhecer que a menina era corajosa por enfrentar tudo aquilo sozinha, mesmo não sendo a melhor forma de resolver as coisas, e que deveria tratá-la melhor, a menina já havia sofrido muito, merecia um pedido de desculpas. Suspirou chamando a atenção da garota e parou o carro, já estavam em frente de casa. Saori arqueou a sobrancelha, confusa com a ação do moreno e resolveu sair do veiculo, no entanto foi impedida por Sasuke que começou a falar:
- Matte! Quero conversar com você! – Saori se encolheu no banco e fechou os olhos esperando pela bronca de Sasuke – Gomen! – Sasuke disse rápido e Saori arregalou os olhos encarando o moreno, surpresa pelas palavras proferidas.
- N-nani?
- Não devia ter me precipitado nas minhas conclusões! – continuou a dizer para a garota que ainda lhe olhava espantada, mas logo espanto se transformou em mágoa e interrompeu o mais velho.
- Já estou acostumada com isso e das outras pessoas sempre me julgarem!
- Eu não sou como as outras pessoas! – Sasuke respondeu sério, mesmo errando não queria que Saori pensasse que ele era como outras pessoas que ela havia conhecido — mas isso não justifica o motivo de você não ter se defendido! Se Daisuke não falasse nada você poderia ser até expulsa, sabia? – isso era algo que ele não entendia Saori sempre demonstrou ser uma garota que levava suas ideias até as últimas consequências, então porque não se defendeu?
- E como poderia me defender se o senhor mesmo estava sendo o meu carrasco? Se já tinha me condenado e dado a minha pena? – Saori retrucou e Sasuke se surpreendeu, quer dizer que ela não havia se defendido por causa dele? E sobre o que ele pensava de si? Sentiu-se mal por ouvir isso, por ser o culpado da sua quase expulsão e mais ainda por não ter dado nem um voto de confiança na menina. Suspirou, balançando a cabeça e encarou a garota.
- Escute bem uma coisa, não importa quem seja, nunca deixe que alguém a faça desistir de si mesma! Insista sempre e lute pelo que você acredita! – disse o moreno. Ele não podia mudar as suas atitudes anteriores, mas tentaria não ser mais tão repressivo com a garota a partir de agora. Dar-lhe-ia uma chance de Saori mostrar o seu valor sem recriminá-la.
- O problema é que às vezes você se cansa de lutar! – Saori respondeu com um sorriso triste – Às vezes é mais fácil desistir e aceitar! E... – falava até ser interrompida.
- Pode ser o mais fácil, mas não quer dizer que é o certo! – Sasuke respondeu lembrando-se de quantas vezes teve vontade de jogar tudo no lixo e se deixar levar pela tristeza e a dor de perder sua filha. Por quantas vezes não quis se entregar, desistir de lutar e de seguir em frente, mas não o fez pensando em Daisuke e Sakura? Quantas vezes não teve que se mostrar forte para esposa e ajudá-la a sair depressão que a acometia? Saori percebeu novamente aquele brilho de tristeza que sempre via em Sakura e Daisuke e se perguntou qual era o motivo disso, o que será que havia acontecido com aquela família? Quis perguntar sobre isso, afinal era a primeira vez que conseguia conversar mais civilizadamente com Sasuke sem que fosse sobre matérias da escola, mas foi interrompida por Sakura e Daisuke que apareceram ao lado do carro.
Sakura quando soube o que aconteceu por Daisuke se prontificou a sair correndo e verificar se a garota estava bem e fazer milhões de perguntas como “eles te machucaram?”, “tocaram em você?”, “está se sentindo bem?”, “está sentindo alguma coisa?”. Foram tantas as perguntas que Saori se sentiu tonta sem saber qual responder primeiro. Não entendia o porquê da rosada sempre disparar tantas perguntas de uma só vez quando ficava ansiosa ou nervosa consigo, mas não podia dizer que não gostava dessa demonstração de atenção consigo, mesmo que nunca soubesse o que responder Sakura. Virou-se para Sasuke, mas este já não estava dentro do carro, estava a caminho da mansão e parecia perdido em pensamentos. Suspirou um pouco chateada por não poder saciar sua curiosidade, e sorriu ao pensar que pelo menos parecia que Sasuke não brigaria consigo pelo que aconteceu na escola.
Não demorou muito e ela se encontrava no quarto que começava a considerar como seu e não pode deixar de sorrir, mesmo o dia sendo muito turbulento o desfecho dele estava sendo melhor do que esperava. Havia conseguido se livrar de Hoshi e Isao, Daisuke havia lhe ajudado nisso, a protegeu e a defendeu, algo que ninguém além de Sakura havia feito antes. Sakura também demonstrava gostar cada vez mais dela e só para melhorar o seu humor mandou fazer um doce para o jantar, algo que Saori adorou, nunca ninguém lhe fez algo tão gostoso, nunca ninguém lhe fez algo! Sorriu ao pensar no jeito alegre da rosada ao elogiar a comida e até mesmo Sasuke, que não gosta muito de doces, comeu um pouco. Sasuke... recordou a conversa que teve com o mais velho e ele parecia não estar tão antipático e rude como antes, talvez as coisas estivessem melhorando para si, pensou ao se deixar levar para o mundo dos sonhos.
-*-
Estava em um lugar escuro e não conseguia ver um palmo a sua frente, andava sem ter uma noção de onde estava e para onde estava indo, mas seus pés pareciam ter vida própria e a levavam a um lugar desconhecido. Caminhou sem rumo, apenas os sons dos seus passos ecoavam até que uma pequena brecha de luz se fez presente. Correu em direção à luz, ansiosa para sair daquele lugar e quanto mais corria, mais a luminosidade aumentava até chegar a um ponto no qual não se via mais nenhuma escuridão, apenas uma claridade tão intensa que chegava a cegar. Colocou a mão no rosto para se proteger dos raios luminosos e tentar enxergar algo quando ouviu um riso infantil.
Resolveu seguir aquele som e tentar encontrar alguém que a explicasse onde estava, andou até conseguir identificar uma árvore grande e forte, de raízes profundas e uma folhagem com um verde tão vivo e vibrante que a fizeram parar e observar o local. Parecia estar em um campo e atrás da imensa árvore passava um pequeno riacho, ou pelo menos achou que fosse isso. A água era cristalina e límpida e pode ver que havia mais alguém por lá, porém não conseguiu ver quem, pensou em se aproximar quando uma voz infantil chamou a sua atenção com uma risada. Virou-se e viu uma menina bem pequena, não conseguia distinguir perfeitamente o seu rosto devido a forte luz do local, mas notou que parecia bastante feliz, se divertindo em um balanço de madeira pendurado em um dos galhos da árvore.
- Oe, você pode me ajudar? – perguntou, mas a garotinha no balanço não a ouviu, ou fingiu que não a ouviu, e quando estava prestes a falar novamente, outra voz se fez presente no local.
- Querida! Entre, está na hora do almoço! – de onde conhecia aquela voz? Franziu o cenho, tentando focar na pessoa que havia chamado a menina, mas só conseguia ver um borrão um pouco mais ao longe, de uma mulher com um vestido branco.
- Onegai! Só mais cinco minutinhos!! – pediu a menina manhosa. A mulher suspirou e respondeu docemente:
- Só mais cinco minutos e depois entre! Se não vou chamar seu pai, está bem?
- Hai! Arigatou Oka-san! – agradeceu a menina voltando a se balançar feliz. Oka-san? Olhou na direção da mulher que ficava cada vez mais desfocada e sentiu algo se apertar e uma necessidade crescer dentro de si, gritando que devia ver quem era aquela mulher. Deu uma última olhada na pequena garota antes de se afastar e seguir a mulher. Tinha que ver o seu rosto.
Correu para alcançar a mulher, mas esta parecia se distanciar cada vez mais, forçou suas pernas ao máximo e começou a ficar ofegante enquanto a mulher desaparecia aos poucos na sua frente. Não, não... eu tenho que saber quem você é!
- MATTE! – gritou estendendo a mão para impedi-la de sumir, mas era tarde demais e toda a luz do local que antes lhe cegava voltava a ser escuridão. – NÃO!! – gritou caindo de joelhos e sentindo as lágrimas escorrerem pelo seu rosto.
Não soube ao certo quanto tempo ficou chorando, mas ao ouvir um barulho estranho levantou o rosto para ver o que era e percebeu que estava em um lugar completamente diferente, se assemelhava a uma casa, pensou. Olhou em volta e um temor percorreu o seu corpo, seus pelos se eriçaram e o cheiro de queimado invadiu seu nariz, estava com medo. Mas de quê? Onde estava? Levantou-se e notou que tinha alguma coisa diferente consigo, mas não conseguia identificar o que era. O barulho de algo se quebrando chamou sua atenção e arregalou os olhos ao notar que tudo estava pegando fogo ao seu redor, assustada, começou a correr para se afastar das labaredas que ficavam mais intensas a cada momento.
Suas pernas pareciam mais curtas e não conseguia controlar as lágrimas que caiam livremente pelo seu rosto, sentia seu coração bater mais forte quando dobrou em um corredor e viu o fogo se alastrando com pressa, gritou de medo e não reconheceu sua voz, estava mais estridente, infantil. O que estava acontecendo? Sentiu uma violenta dor de um lado da sua cabeça, a fazendo cair de joelhos no chão e colocar a mão no lugar para tentar fazer aquela dor passar, nunca havia sentido nada como isso! Tirou a mão da cabeça e se espantou ao notar a tonalidade carmesim que banhava seus dedos, chorou mais alto, clamando por ajuda enquanto tentava se esquivar do calor do fogo, começou a tossir por causa da fumaça que se espalhava pelo local e procurou se acalmar para conseguir respirar melhor. Continuou a correr, ignorando a dor e o medo que sentia, em busca de uma saída, não podia desistir!
Avistou uma escada ao longe e correu até lá, mas acabou tropeçando em alguns pedaços de madeira que haviam se soltado e caiu no chão machucando as mãos pequenas e frágeis, gritando de dor. Não aguentava mais, onde estava? Por que estava sozinha? Sentia uma aflição tão grande, queria o colo da sua mãe e o abraço do seu pai, por que eles não estavam com ela?
- OTOU-SAN!! – gritou desesperada, esperando que a figura paterna aparecesse para salvar-lhe – OKA-SAN!! ESTOU COM MEDO!! – tentou de novo, mas nada aconteceu. Viu o móvel ao seu lado desabar por causa do fogo e se afastou antes que ele caísse perto de si. Notou o porta-retratos com a foto da família ser jogado ao chão e se aproximou para salvar o objeto de ser destruído pelas chamas. Abraçou-o com força, desejando que seu pai estivesse ali e a salvasse, olhou a foto tentado gravar o rosto do seu irmão, o sorriso da sua mãe e o olhar de seu pai quando ouviu o som de passos se aproximar de si, fazendo sua atenção se desviar.
- OTOU-SAN!! – gritou com esperança ao pensar que seria seu pai ali para salvá-la. Entretanto, seu sentimento logo se transformou em pavor ao ver um homem mascarado surgir por entre as sombras e andar em sua direção.
- Venha aqui garotinha! Me deixe te ajudar! – disse o mascarado ao se aproximar.
- NÃOO! VÁ EMBORA!! ME DEIXE EM PAZ!! – gritou novamente, apavorada, e se ergueu o mais rápido que pode e mesmo cambaleante se pôs a correr para longe daquele homem. Não sabia quem era ou o que queria, mas sabia que ele era malvado, ele havia lhe machucado, se lembrou.
O homem riu em escárnio e seu corpo pequenino tremeu com aquela voz, seu coração batia acelerado enquanto o suor escorria por seu rosto devido ao calor que aumentava junto com as chamas. Ainda não havia largado o retrato da sua família e tentava a todo custo impedir que as lágrimas lhe atrapalhassem a visão, mas não conseguia evitar que elas molhassem seu rosto. Sentiu uma mão agarrar seu ombro e um arrepio percorrer sua espinha, gritou com todas as forças:
- ME SOLTAA! OTOU-SAN SOCORRO!! – gritava se debatendo, tentando se livrar de todas as formas daquele homem que tanto lhe amedrontava – OTOU-SAN, OTOU-SAN!! ME AJUDE!!
- Ninguém vai aparecer! – disse o mascarado – Você já era garota! – falou a segurando com uma mão enquanto a outra apanhava um revólver e apontava para si – Diga suas últimas palavras, querida! – falou debochado.
Agarrou mais forte o porta-retratos contra si, as lágrimas banhavam seus rosto e soluços já eram ouvidos, desesperados, escapando da sua garganta, seria o seu fim, pensou. Queria tanto ver seus pais novamente, seu irmão... E quando ouviu a arma ser engatilhada gritou o máximo que seus pulmões conseguiram.
-*-
- SAORI! SAORI! ACORDA!
- OTOU-SAN! – gritou a menina desesperada ao acordar banhada em lágrimas. Ela apenas viu o vislumbre de olhos negros, preocupados, e ainda sentindo os efeitos do pesadelo que teve, o abraçou com força, chorando alto, soluçando e molhando a camisa do moreno enquanto murmurava coisas sem sentido aparente.
Sasuke havia ouvido uns barulhos estranhos vindos do quarto da garota e avisou Sakura que iria verificar o que era. Mas ao chegar lá viu a menina chorando e murmurando coisas sem sentido até começar a gritar e fazê-lo agir para tentar despertar a garota. No entanto, não estava preparado para o que ouviu, ficou estático com a reação da garota e mais ainda ao ouvi-la lhe chamando de “otou-san”. Novamente, sentiu aquele aperto dentro de si ao vê-la tão assustada, tremendo de medo, e como se devesse protegê-la agiu por impulso envolvendo a menina em seus braços e afagando seu cabelo para tentar acalmá-la.
- Calma, está tudo bem! Foi apenas um sonho! – murmurou com a voz suave, como fazia quando Daisuke ou sua filha tinham um pesadelo. Estava tão absorto com a garota em seus braços, preocupado, em fazê-la se acalmar que não viu duas figuras paradas a porta observando a cena.
- Oka-san... – cochichou Daisuke sem saber ao certo o que falar.
- Não se preocupe! Está tudo bem agora! Amanhã nós saberemos o que houve! – disse de forma branda, mandando seu filho dormir enquanto olhava uma última vez aquela cena com um sorriso meigo nos lábios.
Notas finais
Beijos e até o próximo capitulo!
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