Sonhos De Uma Outra Vida
8 Capítulo 8
Notas iniciais
boa leitura!
Havia se passado alguns dias desde que Saori descobriu onde Sakura trabalhava mas durante esse período não havia conseguido entregar a jóia por causa do marido da mesma. Sakura se encontrava na sala de cirurgia, uma menina de aproximadamente cinco anos havia sido baleada e necessitava de atendimento urgente e como a rosada era uma das melhores cirurgiães do país, havia sido chamada para o caso.
Sakura estava apreensiva com a cirurgia, não só pelo fato da operação ser de alto risco, como também pelo fato da paciente ser uma garotinha, uma linda menininha de cabelos castanhos e olhos azuis que tinha a mesma idade que sua filha tinha na época. Colocou a mão no peito e fechou os olhos, procurando se acalmar e retirar qualquer pensamento incômodo ou lembrança daquele dia para se concentrar em salvar aquela menina. Aquilo seria difícil já que a bala se encontrava muito perto do coração, tendo se alojado no pulmão da criança, mas Sakura estava determinada a salvar a garota como se fosse sua filha, Saori, ali, como se aquele fosse o momento em que a redimiria pelo que não havia conseguido realizar dez anos atrás: manter Saori viva.
-*-
Andava devagar como se um caminhão houvesse passado por cima de si, estava com um corte superficial no rosto, outros no braço e sua calça havia sido cortada em alguns lugares, mas nada realmente muito grave, só a dor a incomodava. Tinha se metido em uma briga no dia anterior e o desgraçado apareceu com um canivete quando viu que estava perdendo a luta, por causa disso estava com aqueles cortes, além dos hematomas espalhados pelo corpo dos socos e chutes distribuído durante a luta.
Parou quando estava em frente ao hospital, se escorando em um muro perto para ver se conseguia devolver a pulseira e se livrar disso o mais rápido possível e seguir com sua vida. Mas mal teve tempo de respirar direito e viu um vulto cor de rosa passar apressado por si. Observou que se tratava da mulher que havia lhe ajudado, mas estranhou o comportamento da mesma, parecia estar abalada com algo ou alguém para sair daquele jeito do hospital, suspirou tentando recuperar as forças e seguiu a mulher, quem sabe assim conseguiria devolver a pulseira de uma vez por todas?
-*-
Sakura olhava suas mãos sem conseguir acreditar naquilo. Havia falhado pela segunda vez. Não pode salvar a menina. Ela havia morrido em suas mãos. Lembranças dolorosas que estavam cicatrizadas voltaram a sangrar com força total. Não pode salvar sua filha. E nem pode abraçá-la pela ultima vez. Seu coração disparava, parecia que em sua mente só havia o vazio e a dor como naquele dia. Não conseguia se focar em nada a não ser que tinha perdido a criança como há dez anos perdeu Saori. Sentiu alguém tocar o ombro e virou-se meio desnorteada para a pessoa.
Ino percebeu que Sakura havia ficado abalada desde o momento em que aquela garotinha havia aparecido no hospital, sabia que sua amiga havia se lembrado da filha e que deveria estar sofrendo tanto quanto a verdadeira mãe que aguardava noticias da pequena na sala de espera. Tentou reconfortar a amiga colocando a mão sobre seu ombro e dando seu melhor olhar de compreensão e compaixão, palavras não eram necessárias naquele momento. Voltou seu olhar para o pequenino corpo inerte a sua frente, ainda teriam que dar a noticia do falecimento. Suspirou pesadamente e disse a amiga:
- Sakura, sei que não está bem! Então, tente descansar um pouco, irei dar a noticia a mãe da menina.
-Não Ino! – Sakura se apressou em dizer – Ela era minha paciente...é minha obrigação! – não podia se dar ao luxo de continuar dessa forma tinha que tentar superar isso, talvez isso fosse uma lição que Sakura deveria fazer para amenizar a dor que sentia.
Ino se espantou com as palavras da amiga mas acabou concordando, pois conhecia o jeito forte e determinado de Sakura. Voltou com seus afazeres ainda de olho na rosada, preocupada, que saia da sala para cumprir sua obrigação.
Sakura se aproximou da mulher de cabelos castanhos que estava sentada em uma cadeira a espera de noticias de sua filha. Ao ver a médica, se levantou e foi logo perguntando como sua filha estava, se podia vê-la. Sakura percebeu que a mulher estava com profundas olheiras no rosto, talvez de preocupação, talvez de tanto chorar por sua menina, saiu de seus devaneios ao ouvi-la perguntar novamente pela garota. Respirou profundamente, tentando ser profissional e não se deixar levar pelo que sentia.
- Sinto lhe informar, senhora... – não conseguiu terminar de falar pois a mulher a sua frente começou a gritar de dor, prevendo o que a médica lhe diria.
- DIGA QUE É MENTIRA! MINHA FILHA ESTÁ BEM, EU SEI QUE ESTÁ! A SENHORA ESTA MENTINDO!
Sakura entrou em choque, não sabia o que fazer, ver aquela mulher fazendo isso lembrou a si mesma anos atrás, lembrou a dor que sentiu e mais uma vez a ferida dentro de si voltou a abrir jorrando mais sangue dentro dela. Não podia ficar ali vendo aquilo, se sentia impotente como naquele dia, e ver outra pessoa sentindo a mesma dor que a sua a fazia ficar pior, pois Sakura se achava culpada por não ter conseguido salvar a menina. A mulher estava descontrolada e Sakura não conseguia ficar vendo, sentindo, aquilo pela segunda vez. Saiu apressada da frente da senhora e correu em direção à saída do hospital.
Ouviu alguém lhe chamando ao longe, mas sua mente se encontrava em completa agonia e desespero, aquela dor fazia seu coração se apertar e sua garganta formar um nó tão grande que se sentia sufocada. Começou a correr pelas ruas, tentando se livrar da dor que a consumia de novo, mas era inútil. Se viu voltando ao dia do incêndio, as imagens de sua garotinha pedindo para que a levassem, o jantar, o medo que a consumia ao ver a casa em chamas e o vazio que sentiu ao descobrir que sua pequena criança não havia sido encontrada.
O ar já faltava aos pulmões, estava ofegante, mas não conseguia parar de correr, queria fugir de tudo isso, queria ir pra casa e ver sua filha, abraçá-la mais uma vez. Aquilo não era justo, haviam-na tirado de si de forma tão cruel. Sentiu o gosto salgado das lágrimas que transbordavam pelo rosto, sua visão já ficava turva e mal conseguia enxergar alguma coisa a sua frente, mas não precisava enxergar mais nada só o que queria ver era o rosto de Saori que estava bem nítido em sua cabeça.
Ouviu um ruído perto de si mas não conseguiu distinguir o que era, ouviu alguém gritando algo mais parecia tão longe que não quis se virar e ver o que era, continuou correndo, porém, o ruído foi ficando cada vez mais alto até que percebeu do que se tratava, era a buzina de um carro, parou para ver onde estava e viu um carro em alta velocidade indo em sua direção, ficou paralisada sem saber o que fazer.
Saori não estava entendo aquela mulher, ela não parava de correr e para acompanhá-la teve que apressar o passo, sem correr para que não percebessem sua aproximação, no entanto aquilo estava se tornando algo difícil de realizar já que a mulher parecia correr cada vez mais rápido. Como ela continuava a correr feito uma doida pela rua, sem se importar com os carros se desesperou e começou a gritar para a mulher parar de correr, o que foi inútil. Começou a correr atrás dela tentando chamar a atenção da mesma, mas parecia que a rosada estava em transe.
Viu um carro em alta velocidade ir de encontro à mulher que havia parado pelo som da buzina, “que maravilha! A buzina ela ouve!” pensou ironicamente. No entanto, quando viu a dona não sair do lugar, seu coração se apertou com a cena que se seguiria em sua frente. Sem pensar exatamente no que faria correu até a rosada, se chocando contra o seu corpo, antes do automóvel.
Pensava que seria o seu fim, não havia tempo o suficiente para sair dali, suas pernas haviam estancado e seu corpo estava exausto pela correria. Fechou os olhos e pensou que finalmente poderia encontrar com sua filha novamente, deu um sorriso com o pensamento e esperou a batida que seria sua provável morte. Mas ao invés disso, sentiu algo menor e mais quente ir de encontro a si, ouviu o som do carro tentando frear, e sentiu uma dor na cabeça ao se chocar ao chão com algo em cima de si, o que a fez constatar que não estava morta. Ouviu um gemido de dor escapar da boca de alguém e abriu os olhos, devagar e um pouco confusa, para ver o que havia acontecido. Sentiu o ar faltar e arregalou os olhos com a pessoa a sua frente, era um menino de boné com os cabelos e olhos negros, como Sasuke, e na verdade por um momento pensou ser seu marido mais jovem, até o mesmo abrir a boca.
- MAS QUE MERDA! A SENHORA ESTÁ DOIDA? QUER SE MATAR? – gritou Saori com raiva da atitude da mulher, se ela não tivesse se jogado com certeza o carro a teria acertado em cheio e não sobraria muita coisa para contar história.
Sakura estava atônita, não ligou para as palavras do jovem, aquele garoto era igual ao Sasuke e ao mesmo tempo diferente, parecia que o conhecia, mas não se lembrava de onde, sentiu um peso na cabeça e logo sua visão foi escurecendo, ainda tentou balbuciar algo mas não conseguiu.
Saori viu quando a mulher apagou na sua frente e antes que pudesse fazer alguma coisa se sentiu ser puxada para trás por alguém e cair de bunda no chão. Várias pessoas se aglomeravam para ver o que acontecia, pensavam que a mulher corria para escapar de ser assaltada e por isso quase foi atropelada. Sem preocupar com o estado da garota, afastaram-na bruscamente para prestar os primeiros socorros a mulher que estava inconsciente no chão.
Saori soltou um palavrão mas ninguém ligou para ela, viu que levavam a mulher para o hospital e se levantou para ir junto, mas logo sentiu seu joelho esquerdo ceder e caiu novamente no chão, sufocando o grito dentro de si. Olhou para seu corpo só agora se dando conta que havia se machucado mais do que já estava. Suas mãos estavam raladas e escorria um pouco de sangue mas nada comparado ao seu joelho, que estava todo esfolado, um lado de sua calça havia se rasgado com o impacto do asfalto, fazendo com que a pele ficasse exposta e abrisse um corte um pouco profundo, tingindo as vestes de vermelho.
Tentou ficar de pé novamente e, com muito esforço, conseguiu. Andou praticamente se arrastando até sair do meio daquele alvoroço e das pessoas que a olhavam com desprezo, achando que ela deveria estar no lugar da mulher de cabelos rosas. Ouviu que alguns homens iam levar a mulher para o hospital mais próximo e sabia que o mais próximo era o mesmo no qual a rosada trabalhava, a passos lentos se encaminhou até o local.
Durante o percurso não conseguia entender o porquê de estar fazendo isso, nunca havia se preocupado tanto com alguém e agora ela havia se atirado na frente de um carro para salvar a vida de uma praticamente desconhecida. Suspirou, se sentia dolorida o suficiente para não querer pensar em nada e nem em ninguém e mesmo assim, não conseguia parar de pensar na mulher, na preocupação que sentiu, no aperto de seu coração ao pensar que ela poderia...morrer. Parou de andar sentindo a cabeça doer assim como todo o corpo, encostou-se em uma parede e deslizou até chegar ao chão.
Com o canivete que havia conseguido na ultima briga rasgou a parte de baixo da calça até o rasgo que havia no joelho e tirou o pedaço de tecido para depois amarrá-lo na articulação ensangüentada, não pode evitar o grito de dor ao amarrar o tecido grosso e nem algumas lágrimas que escaparam de seus olhos ao entrar em contato com o ferimento. Mas sabia ser necessário, precisava estancar o sangramento, ou poderia ser bem pior. Depois de um tempo tentando se recuperar, se pôs de pé e voltou a andar, mancando, para chegar ao hospital, não para ser atendida, tinha consciência que não conseguiria tal feito, mas para ver como estava a dona rosada.
Notas finais
beijos e nos vemos na próxima!
Fale com o autor