Sonhos Ambulantes
1 Prólogo - Todas as minhas noites em um só ruivinho
Notas iniciais
Acordei num susto, com o barulho dos pratos da pia caindo no chão.
– Rapha... ah que droga... — Levantei-me, sai de dentro do cobertor e fui correndo em direção a cozinha.
Era provavelmente o mesmo problema de todas as noites, o sonambulismo de Raphael, desde os nove anos eu acordo toda as noites no meio da madrugada, com o som de alguma coisa quebrando, estalando, teve uma vez que foi com o som de uma vizinha gritando, mas isso não vem ao caso.
Abri a porta da cozinha e vi Raphael quase colocando a mão dentro do liquidificador, graças aos Deuses, o liquidificador não estava na tomada; Eu o segurei por trás, coloquei o braço dele por cima do meu ombro e o arrastei comigo calmamente até o seu quarto, os passos eram lentos, mas se eu fizesse algo muito brusco, ele acabaria acordando, e acordar um sonâmbulo enquanto o transtorno está em ação, é péssimo.
– Não come meu doce...
Virei-me para o lado, pensei que ele tivesse acordado, mas ele ainda estava de olhos fechados, com a expressão serena, o cabelo vermelho caia sobre seu rosto, ele só falou dormindo, se bem que "Não come meu doce" não é algo que alguém diria numa hora dessas.
Eu abri a porta do quarto dele, com um pouco de dificuldade, coloquei ele na cama, ajeitei o travesseiro para que ficasse confortável para ele ( caso o contrário, ele levantaria de novo ), peguei o cobertor marrom dele e o cobri, estava frio, não sei por que ele sisma em dormir sem uma camisa.
– Consegui!... — Respirei profundamente e logo, me sentei ao lado da cama dele.
O quarto dele estava uma bagunça, as roupas jogadas pelo chão, o armário do lado direito da cama com o espelho completamente embaçado por causa da poeira, a única coisa que estava devidamente eu seu lugar eram os mangás que ficam na estante que esta em cima da mesa do computador, que não surpreendentemente, estava arrumada.
– Quando estiver de manhã, eu arrumarei isso tudo... Mas eu estou com tanto sono... — Cruzei os braços por cima da cama de Raphael e fiquei para ele enquanto dormia, a expressão calma que ele tinha enquanto dormia, parecia que ele estava tendo um bom sonho, já que puxou um leve sorriso de canto — Você gosta de me dar trabalho, não é? — Falei para ele enquanto ele dormia, dei um sorriso leve e senti meus olhos pesarem — Eu estou exausto...
Apoiei minha cabeça por cima dos braços e logo, adormeci.
Senti o toque de uma mão na minha cabeça, fazendo um movimento parecido com o de acariciar.
– Peter — Ouvi uma voz familiar chamar meu nome, despertando-me.
Ergui minha cabeça devagar, e quando abri os olhos, vi Raphael com o rosto de frente ao meu, me olhando com os olhos castanhos claros dele.
– Vem aqui, deita na cama, sai desse chão frio — Ele falou tirando a mão do meu cabelo.
Eu olhei em volta, ainda era noite, e quando olhei para o relógio, vi que não tinham se passado nem uma hora desde que Raphael teve o último transtorno, esfreguei os olhos e me levantei, senti um pouco de frio, isso claro, além de dormir no chão frio, estava apenas com minha camisa azul, minha cueca-box branca e meias brancas, eu levantei tão desesperadamente pra trazer Raphael devolta pra cama que esqueci de colocar as calças.
– Sua mãe já chegou? — Perguntei com uma voz grogue por causa do sono.
Ele foi até o armário e tirou a calça jeans preta que estava usando, pegou uma camisa azul que estava pendurada no cabide dentro do armário.
– Já, eu acordei um pouco antes dela chegar, deu tempo de arrumar os pratos quebrados... — Ele pensou um pouco — Fui eu ou foi você quem os quebrou?
Fiz uma pistola com a mão direita e apontei pra ele.
– Foi você — Eu dobrei o polegar, pra similar o disparo da arma.
Ele se jogou na cama assim que recebeu o "tiro", depois, virou-se e olhou pra mim.
– Desculpe fazer isso com você todas as noites — Ele falou enquanto mexia no próprio cabelo.
Olhei para o cabelo dele, a cor estava mais escura do que da última vez que tingi, talvez seja por que a tinta tenha desbotado, espero que não, por que se desbotou, serão mais coisas a serem limpas.
– Não tem o menor problema, estou à cinco anos nessa casa, já me acostumei com seus ataques de sonambulismo.
Ele deu uma risada baixa.
– Bem... — Eu coçei minha cabeça — Eu vou pro meu quarto.
Ele ergueu-se rapidamente e segurou minha camisa com a mão direita.
– O que foi? — Perguntei com a voz ainda grogue
Ele me puxou com força, fazendo-me sentar na cama.
– Dorme comigo hoje, por favor — Ele pediu
Eu estranhei o pedido dele, ele nunca havia me pedido pra eu dormir junto com ele, exceto claro, nas vezes que ele passava mal e queria que eu ficasse junto com ele pra socorrer em caso de alguma crise.
– Por que você quer que eu durma com você?
– Por favor — Ele colocou a mão no meu ombro e começou a me sacudir de leve. — Quando eu durmo com alguém, eu não tenho transtornos, você sabe disso.
Eu olhei pra ele, dei um peteleco em sua testa e resmunguei:
– Então quando você casar isso vai parar né? — Falei com os olhos cerrados. — Tá bom, eu durmo.
Ele deitou-se novamente, como a cama era de solteiro, eu tinha quase certeza que ficaria expremido no canto da cama que é virado para a parede.
Eu me deitei e peguei o cobertor marrom que estava ao meu lado, me cobri e logo consegui me aconchegar.
– Ei, qual é o seu problema? não vai se cobrir não? — Perguntei em tom de repreensão. — Além de você estar só de cueca e camisa, está muito frio. Pegue outro cobertor no armário.
– Não tem outro cobertor no armário, o que tinha está no seu quarto, lembra?
Ele tinha razão, o meu cobertor está lavando e tive que pegar o dele emprestado. Eu estiquei meu braço pra trás e joguei uma parte do cobertor pra ele.
– Se cubra, podemos dividir o cobertor — Falei com a voz rouca.
– Esse cobertor é pequeno, feito pra uma pessoa dormir — Ele falou.
Eu me descubri, joguei o cobertor por cima dele e me encolhi no canto da cama.
– Então toma, está fazendo muito frio. — Falei com tom de voz baixo.
Raphael passou o cobertor por cima de mim e me abraçou.
– Agora dá pra gente dividir.
Eu corei, mas não podia reclamar muito, estava muito frio, e por mais que ele tenha dormido sem camisa no frio, Raphael estava muito quente, estava aconchegante, eu não resisti e dormi.
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