Sonhos
1 A menina do laço de sangue
Notas iniciais
Os raios de sol penetravam as venezianas, espalhando sua luz sobre o quarto branco de maneira dramática. Seus finos fios de cabelo castanho-claros brilhavam num tom dourado com a iluminação, duas mechas presas por um laço cor-de-rosa. Sua face, por mim desconhecida, encarava a parede, misteriosa.
Sorri como se ela estivesse olhando.
– Do que vamos brincar hoje? – perguntei, e ela riu, a agradável risada de uma menina de quatro anos, pelo que pareceram ser alguns minutos.
Embora gargalhasse alegremente, seu pequenino corpo permanecia completamente imóvel, rosto fitando a parede, como se estivesse congelada. Duvidei, por alguns momentos, que o som vinha realmente dela.
Sua doce risada cessou repentinamente, e em seu lugar deixou o leve barulho de seus passos agitados enquanto saía correndo, perfurando o corredor. Segui-a devagar, como se desconfiasse que o chão fosse me trair. Um pé após o outro, um, dois, três. Tirei o relógio do bolso, encarei-o e o pus de volta. Quatro, cinco, seis.
A lembrança de um tom gentil me atingiu. Ela gosta de você, é a única babá em quem confiamos. Apressei o passo, sete, oito, nove, dez, onze, doze.
Encontrei-a agachada no imenso jardim, observando na grama o que quer que fosse. Sempre de costas para mim, seu rosto sempre escondido, seu laço cor-de-rosa cobrindo parte de sua cabeça. Sentei em uma das espreguiçadeiras, peguei uma revista qualquer e comecei a folheá-la. Não a deixe brincar com os leões. Ela pensa que são bonzinhos, como naquele desenho... Como é mesmo o nome? Ah sim... Rei Leão..., tagarelava aquela mesma voz feminina, naquele mesmo tom gentil, enjoativa e carregada de doçura, dentro de minha cabeça.
– Nada de sair daqui sem me avisar, tá? – falei, sem ao menos mover os lábios ou desviar os olhos da revista, como se conseguisse me comunicar por telepatia.
Minha mente titubeou vagamente enquanto meus olhos estavam focados nas pequenas letrinhas impressas nas páginas cor-de-rosa. O quão caro seria um leão? E por que uma mulher e sua filha pequena teriam leões dentro de casa? E que casa... Tanto espaço para uma família tão pequena. Família. Minha avó. Quero ir para casa. Quanto tempo até ela chegar? Por que mal ficava com sua filha? Filha. No jardim. Nada de brincar com os leões.
Levantei os olhos, procurando a pequena figura que minutos antes estava agachada na grama e não a encontrei. Espichei-me, deixando a espreguiçadeira.
Chamei seu nome. Três vezes. Nada.
Caminhei pelo labirinto de arbustos, sem rumo, procurando-a. Parei ao ouvir um rugido feroz, seguido daquela familiar risada infantil. Corri na direção do som, até chegar em uma extensa área de lazer que carregava em si uma piscina comprida e de água esverdeada, tão suja que estava.
Dentro dela, havia um leão, que, eu tinha certeza, seria o maior animal que eu já havia visto assim, de perto. Ao seu redor, estavam leoas, observando, atentas, a pequena figura que, de costas para mim, tentava encostar no felino, rindo e se divertindo.
– Sai daí agora! – gritei, e dessa vez senti meus lábios se moverem, cuspindo as palavras urgentes. Os animais voltaram-se para mim, encarando-me como se me julgassem. Abaixei a voz, assustada. – Vem comigo. Vamos embora daqui.
Ignorou-me, como se não houvesse me ouvido, inclinando-se cada vez mais para tentar tocar o leão. Suas mãozinhas se esticavam no ar, pequeninas e frustradas.
– Eles não são seus amigos! – gritei.
Ela recolheu os braços, afastando-se um passo da piscina.
– Sai daí... Por favor... – choraminguei.
Ela não saiu. Estava imóvel, e por um momento pensei que fosse uma estátua, e que estava ficando louca.
Até que ela começou a rir. Aquela doce gargalhada de alguém que sente cócegas.
E pulou na piscina, confiante demais para uma coisinha tão pequena. Em meros segundos, o leão abocanhou-a, engolindo-a com apenas uma mordida. Fez-se silêncio, e a ausência de sua risada infantil me desnorteou.
A água estava manchada com sangue, e nada mais restara dela senão seu gigante laço cor-de-rosa, a mais honesta lembrança de sua imagem.
Que agora, afundando naquela água vermelha, parecia tão pequeno, e tão solitário... Como ela própria.
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