Sonhos

30 Whole Lotta Love


Notas iniciais
Okay, o último galerinha. Capítulo grandinho e notas finais, também. Espero que gostem.

O som rimbombava em seus ouvidos.

Era uma vez meus tímpanos, ele pensou, o grande headphone em sua cabeça tampando qualquer som externo. Ele estava naquela loja de discos em Los Angeles, e tudo aquilo era tão ele que ele se sentia um grãozinho de pó perdido na vastidão de discos.

Quando o pensamento voou para Jason, ele tentou aumentar o volume do aparelho que lia discos na loja, não conseguiu, soltando um bufar irritado. Nem toda aquela barulheira conseguia o livrar daquele loiro maldito.

A letra da música veio certeira.

Way down inside, woman, You need love

Bem lá no fundo, mulher, você precisa de amor

Um sorriso doloroso pintou-se em seus lábios. Mulher ele não era, só era gay, mesmo. Assim como aparentemente Jason também era.

Lá fora o tempo era seco, tão seco que o fazia querer beber um caminhão de água. A semana fora longa, uma das mais longas que vivera. Agora no último dia dela, seu coração parecia palpitar forte. O último dia da semana.

Ele tinha prometido sobre o Rio Styx ir ver Jason ao menos uma vez a cada sete dias, e ele não poderia quebrar a promessa. Ainda que temesse se aproximar do loiro, teria que se aproximar. Talvez para ouvir mais uma dessas bobagens de que o filho de Júpiter se apaixonara por ele, talvez para ouvir ao outro dizer que se confundira com os sentimentos e que, de fato, se enganara com a proporção deles.

Mas ele tinha certeza que Jason não se enganara. Ele conhecia aquele olhar, do mesmo modo como ele próprio caíra por Percy, Grace acabou caindo por ele.

E deuses, como Nico sentia pena do outro por isso.

Grace não tinha os mesmos problemas que ele tinha com a sexualidade, não importava quanto pesquisasse, quanto tentasse colocar na cabeça que o que sentia era normal, as lembranças de homossexuais sendo perseguidos em uma Europa fascista sempre o assombrava.

E sério, como exatamente o loiro conseguiu se apaixonar por ele, era um mistério. Ele mal tinha atributos físicos, um garoto mirrado de quatorze anos de idade. Mal penteava os cabelos, mal sabia manter uma conversa funcionando, como Jason conseguia olhar para isso e ver alguém que queria ficar junto?

Comparado a Piper, ele era quase um ogro; e se comparado ao humor de Leo, ele era uma folha de papel. Não havia, absolutamente, nenhum bom motivo para o loiro gostar dele.

E mesmo assim, só de lembrar as palavras, puxadas à força em um caminho perdido de sua memória, ele conseguia sentir que a declaração do outro não poderia ter sido mais sincera.

Ele sorriu ao lembrar dos gestos do outro, e sim, também havia um pouco daquele sentimento todo nele. Mas era diferente, Grace parecia gostar dele, de verdade. Ele tinha uma queda pelo outro, o tamanho da queda podia ser grande, mas não era como o que sentia por Percy.

Nunca deixara de gostar do Percy afinal.

Ele guardou com os dedos finos o disco que ouvia, e tirou o Headphone sem nenhuma vontade, enquanto saía, mal se despediu do atendente que sempre o tratava bem, embora ele nunca comprasse nada, e cruzou a porta dura e enferrujada da loja de discos.

Seu corpo sendo tomado por uma ânsia verde enquanto viajava pelas sombras, as ruas de Nova Roma se delineando em um contraste entre o negro e claro antes de ficarem completamente visíveis.

Quando olhou ao redor, ele viu Jason e Reyna parados ao longe, olhando alguma vitrine. Assim como ela tinha jurado que ia acontecer: Rachel não errava previsões. A ruiva o contatara, a voz dura de uma oráculo menina o alertando que devia escolher o futuro sabiamente.

Escolhas, era sempre uma questão de escolhas, não é? Hazel diria sobre as encruzilhas de Hécate, Rachel falava de futuro, mas o que era o futuro além do presente de amanhã?

Reyna se despedia de Jason lá na frente, e ele se tratou de esconder nas sombras de um beco escuro entre dois comércios. Ainda assim, sentiu a faca afiada do olhar da Praetora de Nova Roma se fincar entre suas costelas e doer. O olhar dela doía e soava como “Não estrague tudo, criança idiota”. E ele mesmo queria que doesse mais, para aprender a não ser idiota e não estragar tudo.

O olhar de Jason veio como sua segunda facada, essa mais funda do que o de Reyna. O olhar cansado, as olheiras que ele estava acostumado a ver só no espelho, a pele macilenta... E quando o outro passou por si, em um andar desmotivado, e nem o notou, ele não conseguiu se segurar em puxar o outro e encostá-lo na parede de tijolo fria.

Quando os olhares se encontraram, ele viu um olhar de céu nublado, e jurou que iria chover. Seus dedos se apertaram no colarinho do outro, ver aquilo não era o que queria. O filho de Júpiter apertou firme seu pulso, não para livrar-se das mãos, mas para segurá-las mais perto.

E Nico conseguiu ouvir os batimentos firmes, quase como uma bateria das bandas que escutava, e tudo correndo. Parecia que ia explodir, e ele se culpou mil vezes para não ter se atentado a esse detalhe antes.

— Nico, me desculpe... — Ele ouviu a voz como um rasgo. — Desculpa, mas eu tenho certeza que gosto de você.

E isso quase valeu um suspiro com um soluço. Se Jason tivesse pedido desculpas e falado que se enganara, os dois nunca mais conseguiriam ser amigos; porque ambos sabiam que seria mentira, e pior do que lhe esconder fatos, era mentir.

Ele não pôde deixar de se sentir orgulhoso pelas escolhas de Jason, pela firmeza do outro.

Diferente de si mesmo.

— Eu não gosto de você nessa intensidade, Grace.

— Mentira.

— Por que você acha que eu mentiria?

— Eu não acho que está mentindo, só que o que diz é mentira. — O outro disse como se de fato, houvesse algum sentido nisso. — Você só não consegue se livrar dos seus fantasmas, e se recusa a ter um pouco de felicidade.

— Que prepotência, e acha que minha felicidade está em você? — Por que caralhos ele não conseguia ter uma conversa normal, sem ser ofensiva, com o outro?

Um sorrisinho despontou em Jason. — Acho que sua felicidade está em suas escolhas. — Acrescentou alfinetando. — E você deveria aprender a lidar com elas.

Ele próprio quase sorriu com isso. Jason provavelmente não sabia, mas isso era filosofia de alto nível, que ele só encontrara em filósofos existencialistas. Era filosofia válida, e que se confirmava na boca de um leigo. Mil livros naquela boca e mil sentimentos em palavras.

— Uma chance, Nico, só uma — Jason lhe disse, o brilho azul voltando a despontar por entre as nuvens densas. — E nem que eu tenha que te mergulhar no Lethe eu te faço esquecer daquele cara.

E Nico quase riu fraco dessa vez, deuses, os dois não eram feitos para aquele drama todo, os dois se alegravam. Jason era o único que o conseguia fazer se sentir desse jeito, e por mais que ainda não estivesse apaixonado como era por Percy, e um banho no Lethe fosse um exagero, ele amara aquelas palavras.

— Não, uma chance não. — Ele viu o olhar do outro se nublar um pouco, mas ele próprio tinha certeza que estava tão vermelho quanto um fim de tarde, e seu corpo era tão crepúsculo que parecia se dissolver em tudo aquilo. — Uma experiência, uma hipótese científica, — E completou com um sorriso. — tem mais probabilidade de dar certo.

Ele recebeu um choque e um sorriso de Jason. Aparentemente, o outro não conseguia segurar sua estática quando ficava feliz. Nico o puxou pelo colarinho onde o segurava, e o beijou. Aquele era, oficialmente, seu primeiro beijo.

A cena toda era ridícula, ele sabia. Jason era bem mais alto que ele, e seus dedos do pé já doíam de tentar ficar sobre eles para ficar no mesmo nível do outro; por sorte, o cabeça de vento fizera alguma coisa, e o ajudara passando o braço por sua cintura e o trazendo para mais perto.

Ele era tão inexperiente, que mal sabia o que fazer depois disso. O loiro não pareceu ligar, abrindo um caminho com calma com a língua e fazendo as duas se tocarem. Tudo era ainda úmido demais, quente demais para que Nico se sentisse confortável, mas ele gostou, e quando Jason passou o nariz por sua bochecha em um carinho tímido, ele jurava que sentiu-se desfazer. O beijo não lhe tirarara o fôlego, mas ele sentia-se sem ar, o coração em arritmia.

— Você não é perfeito, Nico, mas eu te amo mesmo assim.

Seus dedos apertaram firme o tecido da camiseta do outro, em um gesto que ele manteria por anos, e que nunca saberia, mas era o favorito de Jason; assim como os dedos do outro, se enroscando entre seus cabelos, seria o seu gesto favorito. A carícia o fez sentir-se em casa, e ele inspirou o cheiro do outro.

— Você está cheirando a pó.

Grace pareceu constrangido. — Ah, desculpe.

— Não, não assim. É bom, poeira de estrela, cheiro de novo, de construção.

E ele tinha certeza que não era esse o cheiro, era provavelmente um desodorante qualquer, que por sorte, ainda não tinha vencido; ou o próprio cheiro de Jason impregnado nas roupas; mas o realismo que vá ao tártaro por alguns minutos, porque era um cheiro bom. Muito bom.

xXx

Ele já estava acordado havia algumas horas, era um milagre que tivesse conseguido dormir de noite sem que os fantasmas o irritassem.

O dia tinha cheiro de carro novo, mal tinha raiado ainda, apenas uns poucos raios, em um azul e branco, limpos. Estavam longe do apartamento em New York, perdidos entre as montanhas do Canadá em um chalé da família de Zhang.

Jason tinha tido essa ideia após o Natal com os amigos, e os dois acabaram passando o fim de ano juntos e sozinhos. Não era nem preciso dizer que Nico adorava essa privacidade toda, que adorava Jason dormindo ao seu lado só de cueca em uma cabana moderadamente quente, e uma noite sem sonhos ou surpresas, envolvido por um calor e cheiro que amava.

Ele sentiu o outro se mexer no seu lado, dormindo tão desengonçado quanto nunca seria acordado. Seus olhos se abriram, preocupados.

— Pesadelo?

— Não, só pensando.

E ele murmurou um uhum meio rouco demais, e tentou voltar a dormir. Nico sorriu de canto, contando até cinco antes que ouvisse de novo.

— Maldita incapacidade de te ignorar. — Um suspiro. — Sobre o quê?

— Sobre nós. — Respondeu simples.

Jason se aproximou, interessado, começando a brincar com a camiseta que Nico usava para dormir, grande e velha, e com uma estampa de caveira desbotada.

— Mesmo?

— Quer saber o que é?

— Se vossa majestade sentir o ímpeto e bondade de agraciar seu humilde súdito com tais conhecimentos... Por favor. — Nico riu fraco. Além de tudo, era um ótimo professor, Jason estava aprendendo com sucesso a usar o sarcasmo.

— Estava pensando que você é a melhor escolha que eu já fiz.

O olhar de Jason se abrandou, e seu sorriso brilhou, provavelmente mais forte que o sol nascendo lá fora.

— Também acho, Nico. Parabéns por suas escolhas. — Disse-lhe Jason, fazendo Nico bater fracamente em seu ombro.

O loiro abriu um espaço em sua coberta, e Nico se aproximou, deixando os braços fortes o envolverem e os dedos se perderem em seus cachos.

— Você é quem me ajudou a achar o que eu sou, Nico. E eu sei que você odiaria me ouvir falando que é tudo para mim, mas bem... É próximo disso.

— Não seja careta, Grace. — Ele apenas viu o loiro assentir, ainda que não significasse nada, porque o loiro sempre seria um careta e cafona. — Jay?

— Hum?

— Olhar idiota.

Jason sorriu, fechando os olhos. — Desculpe.

Notas finais
Bem, antes de tudo, acho ótimo terminar a história, e fico feliz de ter escrito uma Jasico antes de Sangue do Olimpo ser liberado. Não sei bem como reagir se os spoiler forem reais. Agora sim, obrigado ao pessoal que acompanha, que escreve reviews, que deu favoritos, que escreveu recomendação. Sério, foi muito mais gostoso escrever com vocês todos aqui. E não vou fazer agradecimentos diretos aqui, para não ser injusto, mas vocês têm uma participação grande na minha motivação em não ter largado isso daqui. Segundo, essa fanfic está sujeita a alterações. Me refiro a corrigir erros de gramática e grafia que eu deixo passar, e vocês safados não falam que tão lá, arrumar descrições, ajeitar... Todo um pequeno trabalho de revisão, que não consigo fazer direito pela pressa. Ela vai continuar a mesma coisa. Nessa cronologia louca que eu escrevi, mesmo. Quem sabe depois do Blood of Olympus, eu não me sinta motivado para escrever algo com mais calma? MAs até lá, eu agradeço a atenção e o porre por me aguentarem. Valeu, e vejo vocês por aí. Beijos. PS: Cuidado com as eleições, galerinha. xD. Sério, votem direito.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!