Sonhos
2 Can't Take My Eyes Off You
Notas iniciais
Ainda que não fizesse o gênero dele essa coisa toda de felicidade e talz, os Campos Elísios ele gostava de visitar. E se você pensa que o Elísios é aquele lugar em Paris onde tem o Arco do Triunfo, pare. Por favor. Vá ler um pouco dos clássicos e pare de assistir filmes românticos franceses, pelos deuses. Deixe Amélie em sua esquizofrenia, sozinha.
Aliás, um local que Nico não gostava era Paris. Aquela cidade fedia a Afrodite, e que Hades o proteja das artimanhas daquela mulher.
Ele fechou os olhos, se jogando na relva verde, sentindo um calor tão real, tão puro quanto o do próprio Sol, mas que ele sabia que não era real. Afinal, era isso que o Elísios era, não? O Local da ilusão. Teoricamente, era o mais preparado e perfeito local para se “viver” após a morte. Mas verdade seja dita, era apenas uma cápsula dos seus conceitos de felicidade.
Só que isso não interessava agora. O calor que ele sentia, era agradável, e ‘tá, normalmente ele odiava calor, fato notável pelo acentuado bronzeado nulo de sua pele, mas ali naquele local, isso não o incomodava mais. Ele tirou a jaqueta de aviador a utilizando como um travesseiro e ficou observando seus arredores.
O mundo inferior era um local extremamente extenso, tão extenso que era impossível ser mapeado, Nico duvidava que mesmo os deuses conhecessem a amplitude dos domínios de Hades. Nico duvidava que o próprio Hades conhecesse.
Ele não iria mentir, tinha encontrado coisas muito boas ali, pessoas interessantes... Tinha encontrado Hazel.
Tinha ganhado uma irmã, e perdido uma...
Justo.
Ele fechou com força os olhos, tentando desviar sua mente desses assuntos. E talvez ele devesse ter conduzido seus pensamentos de forma mais sábia, em um piscar de olhos ele lembrou-se de Jason, lembrou-se daquela cicatriz nos cantos dos lábios que ficava extremamente sexy quando ele dava aqueles sorrisinhos de prepotência enquanto lutava, ou daqueles olhos estupidamente azuis que pareciam mais profundos que o Tártaro e pareciam entendê-lo de forma completa.
— Certo, eu realmente preciso de um Hobby. — Ele bufou, enquanto tampava os olhos com o antebraço, a luz repentinamente o incomodando. — Filho de Zeus idiota.
Era mais do que claro, até mesmo para sua consciência que gostava de negar fatos, que o motivo dele ter fugido era Jason. Aquele maldito tinha conseguido muito de sua atenção. E ele se odiava por isso, por ser tão facilmente atingido por um rostinho bonito e uma fala gentil.
— Aposto que aquele idiota está sobrevivendo à pizza e miojo, de novo. — O que era, provavelmente, verdade.
Jason era um péssimo cozinheiro, e sério... Você já imaginou um loiro daqueles na seção de hortifrúti? Batendo em uma melancia para ver se ela está madura? Pois é... Não aconteceria. Nico tinha certeza que Jason conhecia de cor e salteado, pelo menos, metade dos serviços delivery da cidade.
Quando Jason começou a persegui-lo, Nico durante quase um mês tentou afastar o Grace de perto de si, o mandando embora, e de vez em quando, mandando uma cesta de frutas para o garoto porque ele não merecia morrer com colesterol alto tão cedo.
Sem contar a falta de tato para afazeres domésticos. A última vez que Nico tentara fazer o loiro lavar alguns pratos, se provara um completo desastre: Uma mão cortada e Nico quase se eletrocutando, porque Jason por algum motivo achou que podia controlar a torneira elétrica com a sua própria eletricidade.
Um gênio, não?
Nico, não pôde deixar de sorrir com a lembrança do dia. Jason não conseguia executar aqueles afazeres, Jason era um soldado... E agora Nico tinha feito o outro se decidir por largar a carreira como soldado em Nova Roma e estudar para viverem no mundo “normal”. Que direito ele tinha para fazer isso? Jason podia ser um pouco impulsivo, às vezes. E se a decisão se mostrasse um erro no futuro?
E o pior é que tinha medo de falar isso com ele, e Jason esquecê-lo, deixá-lo. Claro que ele poderia viver sem a figura do outro, ele vivera sem laços verdadeiros por anos, mas de novo?
Ele suspirou, se levantando, a mão desarrumando um pouco mais o cabelo, como se já não estivesse a imagem do caos em detalhes, e pegando sua jaqueta com sua espada no chão.
— Okay, hora de voltar. — Disse, enquanto se jogava nas sombras.
xXx
Até as estrelas pareciam tremer junto com o ar da madrugada glacial quando ele saiu da confusão de sombras em que viajava, que embora já estivesse acostumado, era sempre uma experiência interessante.
Saiu no apartamento de Jason. O local estava tão frio quanto uma geleira, e ainda era Outono. No inverno, provavelmente, o local seria inabitável. Não demorou para que encontrasse caixas de pizzas na sala ou uma quantidade assustadora de latinhas de refrigerante. Teoria confirmada.
A essa altura, Jason já sabia que ele estava no apartamento.
Quando Nico atravessou a porta do quarto e se encontrou com o olhar azulado de Jason, foi impossível não sentir o frio característico no estômago e um arrepio descendo a sua coluna. Ele quase conseguia sentir-se eletrocutado só pelo olhar, sentiu-se culpado logo de cara, mas não conseguiu desviar o seu próprio do dele.
— Você está bravo, não é? — Perguntou, como se fosse uma criança de sete anos.
— Trinta segundos atrás, antes de você cruzar essa maldita porta, eu estava. — Jason disse, suspirando. — Me dê dois minutos para eu ficar bravo de novo. — Nico sorriu, Jason conseguia ser extremamente doce às vezes. — E sem esses sorrisos, você sabe que eu não aguento.
Nico mordeu o lábio inferior, caminhando lentamente para se sentar ao lado do outro.
— Desculpa, Jason. — Ele murmurou. — Mas... A gente precisa conversar.
— Então converse, e não suma por uma semana; eu fiquei que nem um louco te procurando... Você sabe que eu preciso de você. — Algo brilhou no olhar do loiro, dando um sorrisinho. — To warm the lonely nights, I need you, baby. — Ele cantarolou, bem humorado. — Especialmente nesse frio.
Dessa vez Nico não conseguiu segurar a risada, dando um leve soco no braço do outro e murmurando um “idiota” que mais parecia um elogio do que qualquer coisa.
— Depois fala mal das minhas músicas...
Jason estalou a língua.
— Sobre isso... Sem querer, eu ‘tava meio frustrado ouvindo seus discos, e meio que os quebrei. — Disse simplesmente.
— Ahn?! Esse é um disco de 67!
— Exatamente, velho já... Vivemos na era da informação, existe MP3, sabia? E você mereceu, de qualquer forma. — Quando o olhar assassino de Nico encontrou com o dele, ele entendeu que talvez estivesse mais próximo do Elísios. Sorriu torto tirando um deck de cartas do bolso. — Uma partida de Mythomagic?
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