Sonho no gelo
4 Prodigio
Assim que entramos no ginásio e seguimos para o vestiário para nos trocar, percebemos que todos estavam especulando o motivo de nova antiga professora ter sido substituída. Um garoto chamado Peter dizia que talvez ela tivesse doente, já Patrick afirmava ter visto ela arrumando mudança para sair da cidade, havia uma garota que eu não sabia o nome dizendo que talvez o professor tenha comprado o ginásio e com esse comentário todos ficaram em silencio.
— Qual é gente, o que custa perguntar o cara? Ele não dar pite ou algo do tipo. Minha mãe sempre diz, quem tem boca vai a Roma. – Chris sugeriu enquanto todos permaneciam calados.
— Então vai ser você quem vai perguntar para ele espertinha? – A garota que eu não conhecia perguntou – por que eu não tenho coragem de ficar especulando a vida de um cara que acabou de chegar. Não acho que seja um jeito aconselhável de se conhecer alguém, principalmente quando esse alguém é um professor.
— Eu pergunto sem problemas, além do mais a minha amiga Jade aqui vai ir comigo, ne Jade?
— Você precisava me meter nessa ne?
Christina apenas riu e todos fomos para a pista com os patins em mãos, e não surpreendentemente, Nick estava esperando por todos.
— como vocês sabem desde ontem, sou o novo professor e já reconheço alguns de vocês da última aula, mas para quem não estava presente, me chamo Nicolau Bukin, mas se preciso me chamem de Nick. Alguma pergunta?
— minha amiga Jade aqui queria saber professor se o senhor sabe o motivo da saída da senhora Flockhart.
Eu iria matar Christina quando estivéssemos sozinhas.
— Posso lhe dizer senhorita Jade que quando desejar fazer alguma pergunta, seja direta e não envie outros para faze-la. Quanto a pergunta, devo responder que a senhora Flockhart se aposentou e voltou para sua terra natal, é somente o que ouvi dizer do antigo proprietário.
— Antigo proprietário? Alguém comprou o ginásio? – Patrick perguntou para ninguém em particular, mas como resposta o professor apenas sorriu e nos indicou a pista. Todos seguiram aos cochichos se perguntando quem teria tanto dinheiro para comprar um do grande ginásio do pais.
— Hoje eu quero que formem quatro grupos de três, e quero um revezamento de stroking e depois swizzles. Esse é só o aquecimento, quero saber até onde vocês conseguem ir.
Saímos para a pista e Chris e eu esperamos enquanto a garota desconhecida se aproximava.
— Meu nome é Tessa, e você eu já sei que é a Jade.
— Eu sou Christina, mas pode me chamar de Chris. Vamos, os outros já começaram.
Começamos a deslizar no gelo de forma rítmica, com Chris na frente, tessa no meio e eu atrás, e ao comando do professor mudamos para os swizzles. Eram passos de iniciante, realmente só para aquecer, mas ele estava muito observador, prestando atenção em quem escorregava de vez em quando, e em quem não acompanhava o ritmo. Não que isso fosse um treinamento para competições ou algo do tipo, era mais por diversão e alguns para exercício mesmo.
— Ótimo, agora quero uma sequência de footwork. Façam uma linha reta e observem. – Fomos para um canto da pista enquanto ele deslizava para o centro – prestem bem atenção pois depois vocês repetirão da melhor forma que puderem individualmente. – Ele começou devagar e em seguida estava voando, fez passos com um pé só, e depois um giro com os dois, coisa que você vê na tv. Depois deu um pequeno salto pousou com um pé só enquanto a outra perna estava a 90° em relação ao resto do corpo. Ele finalizou com um giro nessa posição e voltou a posição inicial. Eu nunca tinha visto tanta classe em movimentos tão simples.
Um por vez, todos fizeram o melhor que puderam, alguns caíram no salto, outros não conseguiram levantar a perna, outros escorregaram depois do último giro devido a tontura. Apenas quatro conseguiram fazer tudo direito, e depois de Christina, era aminha vez, ainda bem que fiquei por último. Chris foi para a pista e começou bem, fez o primeiro giro com quase perfeição, mas na hora do salto escorregou antes de sair do chão, não chegou a cair mas perdeu o equilíbrio. Pegou impulso de novo e saltou mas aterrissou com os dois pês, seu giro final foi perfeito, mesmo assim ela voltou meio chateada e eu entrei. Passei em minha mente de novo com eram os movimentos e comecei a planar, em seguida fiz o giro com dois pês e fui adquirindo velocidade, mal acabei de girar e tomei impulso para o salto com uma aterrisagem perfeita. Deslizei em um círculo com a perna ainda em 90° e comecei a girar, com mais velocidade que antes, terminando com a maior quantidade de classe que eu consegui.
Quando olhei para os outros, estes estavam surpresos, incluindo, meu professor. Admito que para iniciantes isso não é comum, mas sempre passo a maior quantidade do meu tempo no lago então tenho um pouco mais de facilidade com os giros. Voltei para o meu lugar e esperei com os outros por mais instruções.
— Me surpreendi com o desenvolvimento de todos, alguns de modo positivo outros não muito, porem para iniciantes, todos estão razoáveis. Entretanto cinco de vocês se saíram melhor, por favor quem eu chamar venha a frente. Tessa, Peter, scott, Jade e alicia. – Percebi que Chris havia ficado chateada por não ter sido chamada, mas ela sorriu em incentivo mesmo assim. Dei um passo à frente com os outros selecionados. – Gostaria de convida-los para fazer parte de um intensivo extra, que darei com o intuito de treina-los para o campeonato municipal de patinação artística no gelo. Os interessados por favor se dirijam a minha sala depois da aula, mas devo avisar que espero que levem o treinamento a sério. Intervalo de cinco minutos.
— Não é um máximo? Fomos convidadas para fazer parte de uma turma exclusiva.
— É legal mesmo, ei tessa você viu para onde a Chris foi?
— Acho que para o vestiário.
Fui até o vestiário e encontrei minha amiga trocando de roupa.
— Você está indo embora?
— Pois é, minha mãe pediu para voltar mais cedo hoje, sabe como é o billy está sozinho e tudo mais.
— Chris tem certeza de que não está indo embora pelo que aconteceu?
— Claro que não Jade, meu irmão realmente precisa de mim, além do mais você sabe que eu só patino por diversão. Falando nisso parabéns, você foi incrível lá fora, finalmente ficar tanto tempo naquele lago te favoreceu em alguma coisa.
— Você está bem mesmo?
— Eu too ótima Jade, boa sorte na aula de hoje, preciso mesmo ir. Tudo bem voltar sozinha depois? Se quiser peço minha mãe para te buscar mais tarde.
— Está tudo bem, não precisa. Minha casa não e tão longe. A gente se vê.
Chris saiu em direção a entrada do ginásio, e antes de fechar a porta mandou um beijo. Era estranho não ter minha melhor amiga comigo nessa nova experiência, mas precisamos aprender a passar por algumas coisas sozinhos. Voltei para a pista e junto com os outros fiz os exercícios que o professor mandava, alguns saltos e piruetas. Ao fim da aula eu já estava exausta e quando todos foram dispensados, Nick seguiu para sua sala, aguardando os interessados a competir.
Enquanto alguns seguiam atrás do professor eu fui me trocar antes de confirmar minha participação na nova turma. Depois de dez minutos procurando minhas chaves sai do vestiário e fui em direção a sala do professor. Quando bati a porta, ninguém respondeu então entrei no pequeno espaço onde só o professor estava, anotando alguma coisa na agenda enquanto alguém falava algo no telefone. Assim que me viu pediu que me sentasse e disse que depois falava com a pessoa no telefone.
— outra vez você é a última pessoa no ginásio. Alguma coisa que a faça ficar aqui depois que os outros já foram embora?
— Me desculpe senhor, eu não encontrava minhas chaves, além do mais não estou sozinha, o senhor está aqui também. – Alguém precisava me mandar calar a boca em situações assim, parecia que toda vez que eu precisava falar alguma coisa com ele as frases saiam carregadas de duplo sentido. E o pior é que ele sempre percebia. Ele se inclinou na mesa em minha direção e disse enquanto me encarava:
— Já lhe pedi que não me chame de senhor, se quer manter tal formalidade, ao mínimo me chame de treinador Bukin. Por outro lado, não lhe assusta ficar sozinha comigo em um lugar vazio? —Corei escandalosamente com o pensamento do que poderia acontecer em nossa privacidade do mundo lá fora. Ele percebeu meus pensamentos e sorriu como alguém que ganhou o melhor presente de natal. — Relaxa garota, você não corre perigo. Enfim, se veio até aqui é por que está interessada nos campeonatos. Devo dizer que de todas você foi a que saiu melhor. Patina a quanto tempo?
— quatro Meses senhor, digo, professor Bukin.
— Mas já patinava antes em sua antiga cidade, eu imagino.
— Seria um pouco difícil manter uma pista de gelo no Texas. Com uma temperatura tão alta, impossível o gelo não derreter. – Ele me olhou com diversão nos olhos.
— Então você é americana.
— Você é russo.
— Sou. Bom saber que não sou o único forasteiro por aqui. É impressionante que você tenha desenvolvido tanta habilidade no esporte, um prodígio devo dizer. Porém não é o bastante para competir, você precisa de muito treino e foco. Infelizmente o meu trabalho não pode ser voluntario. Esse é o preço das aulas.
Ele me passou um papel que parecia um contrato onde aparecia o número 100 ao lado de algumas observações.
— 100 Dólares por mês?
— Por semana.
— Mas senhor eu não tenho esse dinheiro.
— Sinto muito Jade, eu gostaria de te ajudar, mas as aulas que proponho são diárias e individuais. Terei muito trabalho e não posso faze-lo de graça. Ficarei feliz em instrui-la se tiver como participar das aulas, caso o contrário lamento dizer que só fara parte das aulas convencionais.
Eu estava arrasada, meu avô já reclamava de pagar as aulas que eu já estava tendo, e olha que era só 50 pratas por mês. Com certeza ela não aceitaria acrescentar mais 400 a essa quantia.
— Eu posso dar a resposta depois?
— Você tem dois dias até as aulas começarem, depois disso fecharei a turma. – Ele pegou o casaco e se levantou da mesa, arrumando as coisas da sala e indo em direção da sala. – Agora preciso ir, você vem?
— É claro.
Passei por ele e fui em direção a porta do ginásio. Mal dei três passos e ele já estava ao meu lado me acompanhando até a saída. Quando chegamos ao estacionamento eu segui reto e ele parou ao lado do carro.
— Precisa de uma carona?
— Não, obrigada. Estou bem.
— Sua casa não e tão perto assim, além do mais eu moro perto dali. Vamos, eu te levo até lá.
Ele saiu do carro e abriu a porta para mim, não havia como dizer não quando ele me olhava e sorria daquela forma. Entrei no carro e seguimos em direção a minha casa. A princípio ninguém disse nada, até que o ar pesou e Nick quebrou o silencio.
— Escuta Jade, eu quero muito te ajudar, mas o máximo que posso fazer já estou fazendo. Não posso investir em algo que não sei se vai dar certo. —Não disse nada até chegarmos a minha casa. Ele parou o carro e quando fui abrir a porta ele segurou meu braço, e eu congelei ao olhar o seu rosto. Nick tinha cabelos pretos, que sempre ficavam alinhados em perfeição, tinha um rosto esculpido e nariz reto. A boca não era fina, mas também ao era grossa, e seus olhos que eram verdes acinzentados agora estava de um cinza escuro. Ele também me encarava e os dois sabíamos que tinha alguma coisa a mais no ar.
— Preciso ir. – Disse, minha voz tão baixa que eu não tinha certeza se realmente tinha dito. No entanto, não me movi. Percebendo minha hesitação, ele levantou a mão e tocou meu rosto.
— Você é linda. – Foi o que disse e em seguida me puxou para um beijo. Não acreditei no que estava acontecendo, como um homem tão lindo como aquele se sentia atraído por uma garota simples como eu. Ele passou a mão por meus cabelos e os prendeu em seu punho me mantendo no lugar, enquanto a outra mão soltava o cinto e me puxava mais para a perto pela cintura. Já as minhas mãos eram mais tímidas, e se mantinham em seu cabelo, bagunçando o que antes estava tão arrumado. A medida que o beijo foi ficando mais intenso, ele parou e me afastou. Ambos tínhamos perdido o folego, e eu me sentia confusa e feliz ao mesmo tempo, mas quando olhei para o lado, ele encarava a rua a nossa frente e seu rosto estava serio enquanto ele recuperava o folego. Quando olhou para mim, seus olhos estavam cheios de culpa e arrependimento – me desculpe, isso não deveria ter acontecido. Lhe prometo que não voltara a acontecer, boa noite.
Mal acreditei quando ouvi suas palavras, como era possível este ser o mesmo homem de dois minutos atrás? De repente fiquei chateada e com raiva da rejeição, abri a porta e sai do carro sem me despedir.
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