Sonho no gelo

2 Nicolau Bukin


—_ JADE!!! JADE!!!

—_ não grite Chris, venha cá.

Puxo minha melhor amiga para dentro de um armário de vassouras.

—_ como não gritar? Você viu o que eu vi? Pois se viu precisa olhar outra vez, se não entenderia o motivo de meu alvoroço. – Seu sussurro parecia mais alto que o tom de voz normal.

—_ é claro que vi. Não sou cega, e mesmo que fosse uma visão como aquela me faria enxergar novamente. Se controle pelo amor de Deus.

—_ ele é um GATO!!!!!!

—_ CHRIS! Ele é o professor!!!

—_ não deixa de ser gato, na verdade isso o torna melhor.

Infelizmente não poderia discordar dela. Nunca imaginei que minha mudança para um dos países mais frios pudesse valer a pena. Pelo menos não até hoje.

—_ aposto que no Texas não tinha caras gatos assim.

—_ nem no canada. Se você não percebeu, ele é russo.

Ouvimos passos se aproximando e no momento em que Chris ia voltar a falar, eu tapei tapei sua boca e fiz sinal de silencio.

—_ é claro que não. Você sabe dos motivos de minha mudança. Eu não posso voltar cara. – Ao ouvir a voz de quem estava do outro lado do telefone, imediatamente percebemos de quem pertencia. – Escuta Charles, eu sinto muito, sei que é uma situação difícil para todos, mas esta é uma conversa inútil. Não vou voltar.

Depois de ter certeza que o novo professor não estava mais por perto, abri a porta lentamente e sai com Chris atrás de mim.

—_ quem você acha que é Charles?

—_ não faço a mínima ideia, só sei que precisamos sair daqui antes que fechem a gente aqui dentro. Vamos Chris, mas não faça barulho, não podem saber que estamos aqui...

—_ quem não pode saber que quem não está aqui? —Meu coração parou de bater, e por algum motivo a expressão de susto na cara de Christina me disse que o dela também. Nosso mais novo professor nos encarava com curiosidade e paciência enquanto ficávamos sem voz – ora vamos, vocês não vão me dizer nada?

—_ desculpe professor bukin, é que a gente estava procurando meu celular e acabou perdendo a hora, além do mais a gente já está de saída.

—_ reconheço você dá aula, Jade se não me engano, e você, me perdoe se me enganar, deve ser Christina.

Minha amiga de repente ficou ato vermelha que tive que rir. Ela me deu uma cotovelada e balbuciou alguma coisa parecida com com licença e desculpe. Enquanto nos afastávamos não conseguia parar de rir, e justamente por isso, minha amiga me olhava com sangue nos olhos.

—_ NOS VEMOS AMANHA!

O som da voz do senhor Bukin atrás de nós foi sufocado pelas minhas risadas que em pouco tempo contagiou Christina também. Assim que saímos para ar gelado de início de noite em Toronto senti uma falta imensa da minha antiga casa.

—_ OH MEU DEUS!!! Eu não acredito que ele sabe meu nome.

—_ relaxa Chris, ele é professor, nosso professor, é normal gravar o nome dos alunos.

—_ você curte cortar meu barato ne. Vem vamos para casa.

Chris foi a primeira pessoa que conheci quando me mudei pra Toronto no ano passado. Eu não conhecia nada do lugar, e entrar para uma escola novo no meio do ano letivo não é nada legal para uma garota do ensino médio. Infelizmente eu não tinha outra opção a não ser me mudar com minha mãe para sua terra natal, não depois de descobrirmos que meu pai tinha se mudado com uma estripe e levado toda a nossa grana. O jeito foi nos mudarmos para casa dos meus avós, já que minha mãe basicamente entrou em depressão e não conseguia parar em emprego nenhum. Eu tinha uma vida incrível, uma família unida, pais que me amavam e se amavam, uma vida simples, mas feliz. Não acreditei quando minha mãe contou o que meu pai havia feito, ele não era assim, pelo menos não para mim. A situação desandou e eu sai de um dos lugares mais quentes da américa e me mudei para um dos mais gelados.

Felizmente minha adaptação se tornou mais fácil depois de Christina. Foi ela quem me apresentou a patinação no gelo, e apesar de muitos arranhões e pês torcidos, acabei me apaixonando pelo esporte. Quem imaginaria, uma garota do Texas patinadora de gelo. Estamos nas aulas há quatro meses, a antiga treinadora dizia que éramos bebes pinguins que estavam aprendendo a andar. Ela não batia muito bem da cabeça, mas ainda assim a sua saída me deixou um pouco triste, ela era engraçada e uma ótima professora. Em compensação o professor de agora também não era nada mal, na verdade era bom demais, e apesar de um sininho em minha cabeça dizer que ele era velho demais para mim, eu ainda me sentia atraída por ele.

—_ terra chamando Jade. Tem alguém aí?

—_ O que? Que foi?

—_ sei lá cara, você deu uma viajada bonita. Eu estava falando com você sobre o professor, afinal porque um cara viria da Rússia pra Toronto dar aula de patinação?

—_ essa parte eu também não entendi, pelo que sei a Rússia é um dos países mais motivadores nesse tipo de esporte. Talvez ele não tenha vindo só para dar aula, eu acho que tem alguma coisa a mais nessa história, você não lembra que ele estava falando com um tal e Charles que não iria voltar? Talvez seja alguém do pais dele pedindo que retorne. Ele veio para cá por causa de alguma coisa que aconteceu lá...

—_ dá uma respirada Sherlock Holmes. Tu quer levantar a ficha do cara também? Não dá para ficar especulando só com um telefonema Jade. Além do mais eu curto o lance do mistério de sir Nicolau Bukin.

—_ fala sério que nome de velho é esse? O pessoal da Rússia já nasce idoso desse jeito. — Disse quando paramos na frente da casa da tia Elie. – Manda um beijo para sua mãe Chris, preciso ir andando.

—_ tudo bem, até amanhã Jade. Quer que eu te espere para ir para o ginásio?

—_ pode ser, eu passo aqui as quatro ok?

—_ falou. Tchau!

Assim que ela fechou a porta continuei meu caminho pra casa. Depois de uns 10 minutos começou a nevar e para melhorar a minha noite eu acabei escorregando em uma poça congelada e caindo na neve de mais cedo acumulada nas calçadas.

—_ porcaria de neve. PRO INFERNO TODOS ESSES PAISES COM INVERNO INFINITO!!!!!

—_ Precisa de ajuda?

—_ professor, ahnn, oi eu, ahn, não valeu. – Amem por Christina não ver a cor da minha cara nesse momento. Me levantei e bati a neve da minha calça enquanto meu professor continuava parado no carro ao meu lado. – O senhor precisa de alguma coisa?

—_ não me chame de senhor, pode me chamar de Nick por favor. Eu mal completei meus 37. Quer uma carona? Não está com as roupas certas para a neve, vai congelar antes de chegar em casa.

—_ há certo. Não precisa valeu, minha casa é aqui perto.

—_ eu insisto.

—_ beleza então. – Eu não seria ato louca de negar ficar em um espaço ato pequeno com um cara ato lindo. Entrei no carro e apontei a direção que ele devia seguir.

—_ me admira alguém que more em uma cidade ato fria e não ande com as roupas adequadas.

—_ eu não sou daqui me mudei tem seis meses. Ainda não sou acostumada, além do mais na minha cidade eu não precisava usar tanta roupa assim. – Assim que olhei para o rosto do professor vi um sorriso enorme de quem sabe de algo subentendido e percebi que tinha falado merda. – Ah não, não nesse sentido, digo no sentido de não ser necessárias toda essa quantidade de roupa e... – O sorriso em seu rosto só aumentava a medida que eu me atrapalhava mais para explicar.

—_ quer dizer que a senhorita não gosta de usar roupas? – Ele disse rindo do meu embaraço.

—_ só esquece o que eu falei. Minha casa é logo ali.

Ele parou poucos metros depois, em frente à minha casa e esperou que eu saísse.

—_ espero que esteja gostando daqui. Tenha um boa noite.

—_ obrigada professor.

—_ não há de que.

Sai do carro e subi as escadas com a sensação de olhos em minhas costas. Levando em conta de quem eram os olhos, a sensação era ótima.

Notas finais
vou tentar colocar um capitulo novo por dia. obrigada a todos que se interessaram ;)