Sonho e Realidade
1 Sonho e Realidade
Notas iniciais
tive um sonho
mundo estranho, completamente novo
felicidade reina, absoluta
amor existe, obsoleto
e a lua brilha como nunca
teu ser perfeito, perante meus olhos
és a miragem! És uma ilusão
olhos azuis, únicos
fios dourados, reais
sorriso, sorriso
toda a parte, vejo você
sinto tua pele, veludo vermelho
vejo teu corpo, puro paraíso
ah! quem me dera, pudesse desejar
tu... deste sonho nunca irá me acordar
Isadora Salas — Absoluta
SONHO E REALIDADE
Por Ephemeron
História escrita para o Amigo Oculto de Fanfics promovido pela comunidade Saint Seiya Superfics Journal.
Os dias passavam ora depressa, ora devagar. Era uma estranha sensação que normalmente eu tinha quando estava ainda em treinamento na Sibéria. A brancura do tempo e do espaço fazia com que nos perguntássemos se era dia ou noite, se era inverno ou verão, e por muitas vezes esquecíamos de contar os meses até. E ainda que eu estivesse em meio ao calor, no colorido da Grécia, eu tinha naquele momento a mesma impressão.
Eu não sabia mais sobre o tempo. Eu só sobrevivia a ele.
thoughts remain without an answer
Afraid and uninvited
he slowly drifts away
De um aspirante na Sibéria, passo eu a detentor da sagrada armadura de Aquário. O único dos ditos Santos de Athena a permanecer no Coliseu, ou melhor, a voltar para ele. Passaram-se alguns anos, é verdade. Eu acho. Aconteceu tão rápido, que me lembro pouco. Sei que quando Seiya e Saori declararam publicamente seu amor e casaram-se, tudo mudou.
Parecia que aquela atitude era o que faltava para todos saírem por aí resolvendo seus próprios problemas e esquecendo-se de suas obrigações como guerreiros. Shiryu retornou à China com a, agora também, esposa Shunrei. Shun, contrariando todas as expectativas, partiu em busca dos remanescentes da Ilha de Andrômeda. Ikki, bom, ninguém sabe ao certo seu paradeiro. Vez ou outra temos notícias dele, mas eu não sei se me importo muito.
Não digo que não tentei também entrar nessa “mudança” toda. Realmente tentei. Fui ficando no Orfanato Filhos das Estrelas, em busca de alguma coisa (ou alguém) que me fizesse sentir o mesmo que os meus amigos sentiam. Mas houve um dia em que vi a loira moça, por quem eu nutria tanto carinho, dando um sorriso tão verdadeiro para Mino que... acabei entendendo que o coração dela já era de outra pessoa.
Quando dei por mim, estava novamente na Casa de Aquário, com a armadura nas costas e um fardo pesado nos ombros. Athena me designara para isso, já que nenhum candidato aparecera e eu... eu não sabia mais o que fazer. E depois de muitas luas e sóis passados na porta daquele templo foi que entendi que eu estava sozinho.
E o fato é que hoje eu estudo Medicina na escola grega, enfim realizando um antigo sonho.
Breaking delicate wings
Pra ser honesto, eu já não estou gostando tanto da ideia. Depois de 5 anos estudando feito um louco, eu não consigo enxergar muito bem aonde isso vai chegar. Eu gosto do que faço. Cuidar das pessoas é algo que mexe comigo, sempre mexeu. Sempre fiz uma relação desse cuidado com a minha emotividade excessiva. E, no entanto, todos ficam insistindo que eu sou um cavaleiro frio.
Largo os óculos de aro fino em cima da mesa, com pilhas de livros e papéis espalhados. Olho o relógio na parede e passo a mão nas têmporas. Não há muito espaço para pensar, eu já estou atrasado para a residência.
- Se vocês não fossem tão fisicamente diferentes um do outro, eu diria que era o Camus que estava sentado aí.
A risada é inconfundível. Outro dos cavaleiros antigos. Aldebaran dizia que não tinha para que ou por que voltar para o Brasil. Afinal, ele nunca aprendera nada além de guerra; não saberia o que fazer com tanta paz por lá. No fundo são as mesmas razões que as minhas, mas eu nunca comentei isso com ele.
- Quer uma carona? Aioria e eu estamos indo pra cidade comprar uns mantimentos.
Eu mal tinha percebido a presença do Cavaleiro de Leão no recinto. O brilho que antes existia na vida dele se extinguiu quando Marin o deixou. Não sei que terrível mania era essa, mas ela assumiu um caso com Shina. Alguns ficaram chocados, mas eu – em meu silêncio – o compreendia. Infelizmente, muito bem.
E pareceia que neste dia tudo me faz lembrar mais e mais da minha solidão.
off a Dream once broken
She can turn a drop of water
Into an ocean
Quando eu fui pro terraço do hospital tomar um café eu percebi que já era noite. E foi só aí que me dei conta de que eu já estava havia pelo menos 5 horas trabalhando. A rotina está me deixando maluco. Estou cansado. Me policio pra não desejar que haja alguma outra guerra, que voltemos a lutar juntos. Fecho os olhos com força, como se essa atitude fosse fazer tudo desaparecer.
- Yukida?
Mas é só uma ilusão.
- Sim, Krato.
- Você sabe falar inglês?
- Um pouco, por quê?
- Precisamos de você, é um turista com fratura.
Enquanto eu desço exasperado, as gotas pesadas começam a cair na rua. A chuva castiga a cidade de Atenas. E eu só penso que faltam mais 6 meses para eu enfim poder me livrar desse hospital publico e poder trabalhar com Medicina de verdade.
A ficha da paciente em mãos, aguardo o médico responsável para me acompanhar. Mas ele não vem. Escuto pela comunicação interna que houve um grave acidente com um ônibus, os médicos reais estão ocupados demais. O tempo mais uma vez brinca com minha cara.
Era uma fratura de punho, provavelmente. Pelo menos a reclamação era essa. Não devia ser nada de mais. Uma passada de olho rápida pelo saguão e encontro a aprovação de enfermeiros e outro residente para continuar meu trabalho. Tudo ou nada. Pelo menos alguma agitação naquela noite.
E eu nem imaginava o quanto.
Tears of sorrow wash his mind
Drifting with the current
This stream of life flows on
- Srta. Salas?
Os olhos castanhos dela se arregalam de espanto quando entro. Não sei bem se eu a assustei entrando tão de repente ou se foi algo em minha aparência desgrenhada. Fato é que alguma coisa no rosto dela me faz ter algum tipo de memória.
- Boa noite, sou o Dr. Yukida.
Ela não responde. Aperto um pouco os olhos para a moça de longos cabelos cor de chocolate na minha frente. Será que não tinha entendido o que eu falei? Meu inglês era bastante razoável, afinal eu tive que aprendê-lo e reaprendê-lo para usá-lo tanto no Coliseu (aquela Babel) quanto nos estudos.
Percebo-a dando um longo suspiro e o rosto corando violentamente. Olho a ficha mais uma vez; a enfermeira anotara apenas que ela tinha um problema no pulso, mas com certeza tem mais alguma coisa errada com aquela mulher.
- Bo...a noi...t...te.
Dou um sorriso simpático diante de tamanha demonstração de nervosismo. Não devia ser nada fácil estar em um país distante e ter que “visitar” um hospital. Deixo a ficha ao lado da maca em que ela estava sentada e tomo seu braço. Posso ver a pele dela se arrepiando inteira e eu, longe de meu famigerado autocontrole ou qualquer ética profissional, me pego lembrando de onde a conhecia.
Dos meus sonhos.
- Templo de Athena.
- O quê?
Por um instante, perco completamente a noção do que eu estou fazendo. No automático, devo ter feito algumas perguntas de praxe.
- Eu caí. No Templo de Athena.
waiting on his hands and knees
The chill of winter\'s darkness sits quietly
A voz dela é suave e tem um sotaque melodioso que reconheço, mas não sei exatamente de onde. Talvez dos meus próprios devaneios. E eu a todo custo me esforço para focar atenção na contusão. Não há sinais de fratura, apesar de saber que logo ela terá um belo hematoma escuro envolvendo parte do braço.
- Vamos tirar um raio X para avaliar melhor, mas acredito que não foi nada além de uma forte pancada.
E enquanto eu faço a guia de encaminhamento, sinto que ela me observa. E quando entrego o papel nas mãos dela, posso ver grande parte do conteúdo dos livros que carrega.
- Você gosta de mitologia?
Não sei o que me fez perguntar a ela. Talvez os desenhos de deuses tão conhecidos por mim, talvez as constelações estampadas na capa de um daqueles grandes encadernados. Talvez minha vontade simples e totalmente plausível de me envolver com alguém que não sabe absolutamente nada sobre minha vida de Cavaleiro.
- Eu acredito na mitologia.
Ela toma o ar como quem toma um grande gole de coragem. E diz, olhando tão profundamente em meus olhos que suspeito que sabe de tudo:
- Eu acredito em você.
E antes que eu possa dizer alguma coisa, a porta já foi aberta e o barulho do hospital engolfa minha mente.
Moved by desire and fear
he takes a few steps away
Mais algumas horas passam sem que eu me dê conta. No íntimo, desejo que a Srta. Salas volte com seu exame. Mas com tantas emergências chegando, acredito que isso fique a cargo de algum colega. Não a vejo em mais nenhum momento daquela noite.
E no passar da madrugada, aquilo tudo realmente me parece um sonho.
São 4 e meia da manhã quando eu, enfim, consigo me livrar do supervisor e jogar jaleco e estetoscópio dentro do armário. Tento me lembrar do rosto dela, mas o cansaço já deixa um rastro de névoa na lembrança. Alguns flashes me passam na mente, coisas que não vivi, mas que desejei. E a imagem dela se forma mais nítida em minha memória.
O frio da noite me agrada. Substituo a roupa branca por um jeans e camisa escura. Com as mãos no bolso, decido voltar a pé e passar pela orla. E penso em tudo o que possuía na minha vida. Chego à conclusão de que não é muita coisa. E isso me desespera de uma forma que eu mesmo não sabia que seria capaz de fazer.
Será que a realidade é assim tão dura? Será por isso que meus sonhos se tornam mais agradáveis que meu simples dia-a-dia? Ou por conta de tudo o que passamos nós, guerreiros, é que ficamos assim no fim?
Fim?
Meu corpo para de caminhar. Olho a cidade à minha volta e me sinto estranho. Pela primeira vez em anos me lembro de coisas como amizade, família, amor... E algo em mim dói.
Talvez a realidade seja mesmo dura demais. Mas sonhar é ainda mais difícil, pois me dá uma falsa noção de esperança.
E então eu vejo. Vejo uma silhueta não tão familiar, mas conhecida. Ainda mais porque estava com uma tala no braço direito.
Esperança é a última a morrer, não é?
off a Dream once broken
She can turn a drop of water
Into an ocean
- Estar sozinha a essa hora é um pouco perigoso.
O susto que ela toma quase a faz cair do parapeito em que está sentada. Com agilidade, seguro os ombros dela firmemente para apoiá-la. O que não sei se é exatamente uma forma de ajudar, porque ela se encolhe um pouco e vejo mais uma vez aquela cor vermelha em suas bochechas.
Então é isso. Não tem nada a ver com um problema de saúde. Ela só está envergonhada.
Não sei por quê, mas acho aquilo divertido. Instintivamente sorrio.
- Tenha calma, está tudo bem.
- Obrigada.
A voz dela não passa de um sussurro, e sem pensar demais, sento ao seu lado.
- Você está melhor?
Os olhos dela estão fixos em mim, mas tão distantes que ela não atenta para a pergunta. A simpatia que tenho por ela começa a aumentar consideravelmente. E então aponto para o braço machucado, tentando estabelecer algum outro tipo de comunicação que não nossos olhares.
- Hã? Ah, sim! Está ótimo… foi só uma torção.
- E pelo visto não está impedindo você de muita coisa...
Dou uma risadinha quando a vejo fechar rapidamente o caderno que estava escrevendo e baixar a cabeça ainda mais sem graça. Não me lembrava como era agradável conhecer alguém... Ainda mais alguém tão encantadora.
- Vai ficar para o nascer do sol?
- Na verdade...
Mais uma vez aquele suspirar profundo, de quem tem algum segredo que deseja contar, mas não pode sob hipótese alguma. E pelo visto, dessa vez ela consegue se controlar.
- ...na verdade eu estava esperando o trem voltar a funcionar. Acabei gastando boa parte do dinheiro com os livros e, bem, fiquei sem grana pra voltar pro hotel de táxi.
Relaxo os ombros, sem saber que antes else estavam tensos. Aquela sim é a primeira frase que ela me fala com total franqueza.
- Else começam a circular só depois das 6 da manhã. Até lá, o sol vai estar bem alto no céu.
- Então posso ficar para o nascer do sol, com certeza.
O silêncio dela me pareceu tanto uma aceitação quanto um convite. Sentados no parapeito do cais, olhamos o mar e o céu escuro por alguns minutos.
And she listens openly
- Gosto muito das estrelas. Elas me fazem pensar que não estamos sozinhos no universo.
Não sei por que falo isso. E ao mesmo tempo em que me parece uma tolice, de alguma forma eu sei que com ela não tenho nada a perder. Eu posso ser simplesmente eu mesmo.
Ela treme um pouco, e não sei se é por conta do vento de maresia ou se pelo que eu lhe falei.
- Nós nunca estamos sozinhos, sabe? Mesmo sem ninguém ao nosso redor, ainda temos a nossa mente para nos encher de ideias. Não precisamos buscar ajuda nas estrelas, mas sim uns nos outros.
Acho que nenhum golpe me atingiria da maneira que aquela frase faz. Inconscientemente, aperto um pouco mais as mãos no frio concreto onde estamos sentados.
- Não sei se tenho essa capacidade...
- Todos temos. Ao menos temos imaginação, e isso às vezes nos salva de algumas enrascadas, não acha?
- Eu acho que você diz isso porque consegue ter ânimo para escrever páginas mesmo com o braço contundido...
Ela dá uma risada que mistura constrangimento com cinismo e, pela primeira vez, encara meu rosto plenamente... sem medo.
- Pode ser. Mas enquanto eu crio mundos com minha imaginação, você cuida da realidade da vida das pessoas com o mesmo dom.
Mais um golpe. Meu peito dói. Ela mexia com alguma coisa dentro de mim que eu teimara em esconder por tempo demais.
reflecting the mystery
She carries him away
and the winds die slowly
- Às vezes precisamos sair mesmo um pouco da realidade…
- Mas pra isso não precisamos mudar nossa vida. Não precisamos sequer sair do lugar, sabe? Nossa mente dá conta do recado...
Uma tonalidade azul cobalto vai tomando o céu devagar. Uma emoção toma meu coração de assalto; é demais para mim. Uma pessoa totalmente desconhecida me faz abrir os olhos, enfim. E eu me questiono que razões eram essas para me fechar num mundo solitário, se eu tenho tanto ao meu redor.
Ninguém me isolou, afinal.
Fui eu que me isolei.
Mais uma vez percebo que ela tenta se conter de alguma coisa, e dessa feita, faz um movimento de negativa com a cabeça, como se tentasse mandar as ideias embora.
Eu abro a boca para falar, mas ela é mais rápida.
- Minha constelação preferida é a de Cisne...
Viro completamente para ela, embasbacado demais com a afirmação para tentar me conter. Os olhos castanhos dela me encaram estranhos, e de novo a sensação de reconhecimento.
- Porque você diz isso? Acabou de me dizer que não gosta de estrelas...
- Não disse que não gosto, só disse que não acho que temos que nos prender a elas.
Elevo uma sobrancelha e ela ri, colocando a mão na frente do rosto. Reúno toda a minha coragem e toco seus dedos, deixando o sorriso dela a mostra e seu rosto novamente bastante vermelho.
- E porque você gosta mais desta constelação?
Minha voz sai um pouco mais baixa do que o habitual; ela engole em seco.
- Não sei ao certo... Talvez porque eu consiga realmente ver o pássaro com suas asas abertas e voando em direção ao seu objetivo...
Ela lentamente entrelaça os dedos nos meus, tímida. Eu apenas permito, diante de palavras tão verdadeiras.
- ... mesmo que sozinho no céu.
- Interessante...
É a única coisa que consigo dizer naquele instante.
- Você é como else, não é? Você é um cisne...
And she listens openly
Uma faixa laranja começa a despontar no horizonte adiante. O dourado do nascer do sol inunda de energia a praia ateniense e os traços marcantes do rosto da mulher à minha frente. Não tenho capacidade de responder; apenas a observo longamente.
- E você é um sonho...
Ela aperta minha mão com um pouco mais de força, num ato falho de ansiedade e fuga. Mas eu não deixarei isso acontecer, e toco seu rosto com a outra mão, levemente...
- Eu conheço você.
Ela respira com dificuldade. Alguma coisa nela me faz simplesmente agir. E é porque eu sei quem é aquela moça na minha frente. É por tantas noites ela ter povoado minha mente.
Vejo pequenos pontos brilhantes no canto de seus olhos, e uma sincera confissão vem num fio de voz:
- Eu também conheço você.
- Que bom, porque assim eu não vou me sentir tão culpado pelo que vou fazer agora...
A boca dela fica trêmula apenas por um instante embaixo da minha, até o beijo realmente se concretizar. Sinto o corpo dela relaxando; os lábios se abrem delicadamente e roçam nos meus, lascivos. Meus dedos tocam seu pescoço e me arrepio junto dela. Aquele que vinha sendo um ato banal nos últimos anos acaba se tornando ali, com aquelas reações todas, algo quase sagrado.
Ela solta um suspiro no meio do beijo e me falta controle. Puxo-a para perto pela cintura e ela enlaça meu pescoço. Aprofundamos o beijo até onde conseguimos, sem timidez, sem pensar, sem medo. O sol vai nascendo.
Nos afastamos devagar. Ela tira meu cabelo do rosto. Sorrimos, e não me lembro de sorrir assim para outro alguém.
- Bom dia...
A voz dela é firme, clara, límpida. As palavras atingem em cheio todos os meus sentimentos, e chego a pensar que eu não conseguirei segurar as lágrimas. Como pode aquela simples frase ser tão transformadora nesse instante?
O sorriso dá lugar à risadas descontraídas. Envolvo seus ombros com o braço e ficamos assim, juntos, até o sol estar alto no céu.
- Preciso ir agora.
off a Dream once broken
She can turn a drop of water
Into an ocean
Apesar de me sentir como nascido novamente, eu sei que esse momento com ela não durará para sempre. Desde o início meu coração soube que ela é apenas a chave para me libertar. Mas por ela também ser livre, não se prenderá a outro país... Ou a outra pessoa.
Acompanho a moça até a estação de trem mais próxima, conversando amenidades. Não me sinto tão feliz em anos. Nem tão motivado.
- Não sei como agradecer.
- Não precisa. Você fez mais por mim do que eu por você, acredite.
Ela dá mais um de seus olhares misteriosos e respira fundo. Escutamos o trem se aproximar.
- Gostaria de te encontrar de novo.
- Não posso.
O trem para na estação com um barulho surdo, quase abafando a resposta direta que ela me dá. Eu realmente imaginei que não podia, por algum motivo que não sei explicar, mas quisera tentar. Ela me atrai com esse jeito raro e único, tal como os desenhos de um floco de neve.
Toco seu rosto devagar, numa despedida sutil.
- Você não me disse seu nome...
- Me chamo Isadora.
Dou um sorriso me aproximando. O primeiro sinal da partida do trem soa para a madrugada e um beijo suave é trocado. Os olhos dela permanecem fechados mesmo depois de eu me distanciar de seu rosto.
- Foi um prazer conhecer você, Isadora...
- Pode ter certeza de que o prazer foi o meu, Alexei.
O último sinal toca, indicando a partida iminente. E Isadora olha para mim apenas por um instante.
Então, ela se joga em meus braços como uma criança. Rápido demais, mas com tempo suficiente para me aquecer o coração. Não consigo alcançá-la e a porta do trem se fecha. Só então posso ver que ela deixara um de seus cadernos comigo naquele abraço. De propósito.
E como é que ela sabia meu nome?
E vejo então o título na capa de suas histórias: “Os Cavaleiros do Zodíaco”. Sou tomado pela incredulidade. Eu já havia percebido que ela sabia mais sobre mim do que eu sequer pensava, mas aquilo...
Folheio o caderno curioso e vejo todas as batalhas ali. Toda a esperança e todo o sofrimento. E o futuro. Pelo menos o futuro que Isadora imaginava para nós.
E é um futuro cheio de felicidade.
Dou um sorriso emocionado e surpreso. Sinto que não me cabe entender o que se passara ali. Eu preciso apenas vivenciar o momento.
Fico ali, parado a observar o trem sumindo na cidade, pensando nos meus amigos e na faculdade e nos templos antigos e em tudo o que eu ainda tenho para viver e que eu posso viver. E penso nela.
Não sei quem é. Não sei como ela soube de tudo isso, ou se o destino brincou com nossos sentimentos.
Não me importa, na verdade.
Eu farei de tudo para que o que ela imaginou se concretize.
Olhando o caderno em minhas mãos, eu, eterno Cisne, só tenho certeza agora de que sonhos podem, sim, se tornar realidade.
Lifting Shadows off a Dream
FIM
Notas finais
Espero que você goste, pois fiz com carinho e pensando em tudo o que você gosta (ou odeia, como no caso do Aioria...rs. Acho que ferrei ele de vez, né? ^^) Não conheço muito você, mas me lembro de alguns comentários espalhados pelo Panbox (tanto no site quanto no fórum ^^). E acabei fazendo uma pesquisinha básica pra saber como colocar você na fic.
Essa fic pode ser tratada como uma one-shot, mas acredito que se você (ou alguém ou eu mesma) quiser fazer uma continuação, dá pra trabalhar bem legal também. Gosto de histórias que dão margem a outras histórias. Coisa de ficwriter mesmo...rs
Bom, desejo a você um ÓTIMO 2010! Que você continue essa pessoa alegre, criativa e amiga que tanto vi nos sites e blogs que pesquisei! ^^
E o mais importante, Dora-chan...
Que todos os seus sonhos se realizem!!!!
Beijos e abraços de Ephe-chan!
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