Sonho de primavera
3 Capítulo 2
Notas iniciais
Myriah
O dia parecia promissor. Seu pai estava trancado em algum quarto de Porto Real com sua amante e mais algumas prostitutas e provavelmente ficaria o dia inteiro ocupado, quando voltasse ela esperava que ele não tivesse energia suficiente para procurar por encrenca. Nenhum Tyrell tinha aparecido na sua frente e Sansa Stark estava contente com sua companhia e não mais procurava Margaery Tyrell com os olhos. Até o presente momento, tudo ocorria bem.
– Mais torta de limão? – Ela ofereceu a bandeja e a garota pegou e mordeu graciosamente. Tudo o que Sansa fazia era gracioso. – Diga-me querida, como é o norte?
– É frio e duro, mas é o melhor lugar do mundo. – Sansa tinha um brilho de nostalgia no olhar. – Meu pai costumava dizer que apenas os homens fortes podem sobreviver ao norte.
– Parece um lugar fascinante, eu pessoalmente nunca estive lá, mas meu pai já se aventurou por Porto Branco, foi onde conheceu minha mãe. Aposto que não sabia que minha mãe era uma nortenha. – Ela riu com a cara que Sansa fez. – Você deve saber a historia, a garota Cerwyn que acabou casando as pressas com a víbora de Dorne.
– Sua mãe era Lyna Cerwyn? Ouvi uma vez o Lorde Cerwyn dizer que seu roubada em um navio.
– Na verdade eu fui concebida antes mesmo dos dois entrarem no navio, quando chegaram em Lançassolar os sinais de gravidez se mostraram e o meu tio fez com que pai se casasse com a minha mãe. Meu pai nunca quis um casamento, sempre foi uma alma livre. – Sansa a olhou com aqueles grandes olhos azuis pedindo por mais detalhes e ela alegremente os deu. – Acontece que minha mãe Lyna também era uma alma livre, mas os costumes no norte parecem ser mais duros e fechados do que no sul. Casar-se com meu pai e se tornar uma Martell era uma forma de liberdade, meu pai disse que não se casou por que foi obrigado, mas por que minha mãe se tornou uma amiga para ele e então ele lhe deu esse presente. Eu bem sei que ele teve outras mulheres alem dela e alguns dizem que ela teve outros homens, mas os dois sempre se respeitaram, ou pelo menos é o que me contam. Eu era muito pequena quando ela morreu.
– Sinto muito.
Myriah sorriu e tocou nas mãos da garota.
– Você é uma verdadeira graça, — a menina corou e sorriu com o elogio – diga-me Sansa, Porto Real é tudo o que imaginou?
A garota demorou a responder.
– No inicio era, os banquetes, os bailes, os torneiros com seus cavaleiros de armadura.
– Imagino que agora esse lugar deva ser um pesadelo para você. – Sansa se sobressaltou e olhou para os lados como se alguém fosse aparecer a qualquer instante. Pobre garota, provavelmente todas as historias terríveis que lhe contaram sobre o que o rei garoto tinha feito com ela era verdade. Viver com um alvo em suas costas deve ser apavorante para uma menina como Sansa. – Não se preocupe querida, ninguém vai nos ouvir.
– E-eu...
– Você gostaria de visitar Dorne? – A menina olhou para ela sem entender. – É bem diferente do Norte com que está acostumada, mas é um bom lugar, as pessoas são mais livres lá e o inverno é menos rigoroso.
Uma ave alçou voou por cima dela e soltou um estridente canto.
– Nenhum Lannister põe os pés em Dorne em gerações. – Disse como se não soubesse o efeito daquelas palavras. – Sabe, qualquer um que entre sem ser convidado em Dorne sempre acaba mordido por uma serpente.
Belle
Seu sobrinho Tommen estava adorável brincando com seus bonecos de madeira e quando um de seus cavaleiros derrubou o outro ele sorriu para ela. Os olhos verdes eram iguais aos dela e os cachos dourados se pareciam cada vez mais com os de Jaime, ela tinha certeza que quando ele crescesse seria um belo rapaz e se os Deuses fossem bons, não teria nada de Joffrey.
Pensar no sobrinho mais velho trazia um terrível dilema ao seu peito. Ainda tinha na memória o dia em que sua irmã deu luz ao atual rei, na época Joff era um bebezinho chorão que exigia o peito da mãe. Com seus sete anos já amava o sobrinho com todo o coração. Ela tinha ficado imensamente feliz quando Cersei a permitiu segurar o príncipe.
– Cuidado Belle, você está segurando o futuro rei. – Tinha dito Cersei enquanto sorria o mais belo dos sorrisos. Foi uma das ultimas vezes que a vi sorri de verdade.
Se no passado ela amava Joffrey, no presente ela o odiava. Mas não devia, ele era da sua família, sangue do seu sangue e nunca se deve virar as costas para família. Tinha momentos em que desejava que Joffrey nunca tivesse nascido, as coisas seriam tão mais fáceis se Tommen fosse o herdeiro. Ou Myrcella se as leis fossem como em Dorne, ela seria uma adorável rainha.
– O que está pensando tia?
– Em como você será bravo e forte quando crescer, — o menino corou e sorriu, — todas as moças irão se apaixonar por você.
– Mamãe diz que se eu me esforçar poderei ser como Joff, — Tommen brincou um instante com os dedos antes de completar baixinho, — eu não quero ser como Joff.
Como sua irmã podia ser tão cega em relação ao filho? Ela é mãe e uma mãe ama acima de tudo.
– Você não será meu bravo cavaleiro, — com um gesto de mão ela chamou o garoto que foi até ela. Belle começou a pentear os cabelos dele com os dedos, — você vai ser como aqueles cavaleiros das canções; os justos, galantes e corajosos que inspiram centenas de musicas e historias.
Ela depositou um afetuoso beijo na sua testa.
– Mas não precisa se preocupar com isso agora, você tem muito tempo ainda.
O garoto voltou para seu brinquedo e a porta abriu revelando Tyrion.
– Olhe só para esse garoto, — Tommen sorriu, — vai botar medo até mesmo no montanha.
Belle observou enquanto o irmão sentava-se na cadeira ao seu lado e gentilmente pedia para que Tommen fosse brincar no cômodo onde ficava sua cama. O menino foi sem questionar e só depois que puderam ouvir o barulho dele fingindo uma luta com seus bonecos que Tyrion virou para ela com o olhar preocupado.
– Há algumas madrugadas Bronn me disse que viu um jovem bem apessoado de espessos cabelos ruivos andar para fora do corredor onde fica o seu quarto. – Belle fez sua melhor cara de desinteresse e deixou que o irmão prosseguisse. – Não acho que preciso de muito mais para descobrir o que aconteceu.
– Esse seu mercenário está vendo coisas.
– Então diz que ele não viu um jovem ruivo no seu corredor.
– Ele poderia até ter visto, mas o que isso tem haver comigo?
– Como se você não soubesse minha doce irmã, — Tyrion se serviu com vinho e sorriu um sorriso torto, — até parece Cersei desse jeito.
– Nossa querida irmã dorme com vários homens e eu nunca vi nenhum de vocês falando nada sobre ela.
Tyrion revirou os olhos.
– Os Deuses são bons e a única coisa que você tem de Cersei é a beleza e o amor pelas crianças. – Belle desviou o olhar para a janela. Estava fazendo um belo dia do lado de fora. – O que acha que vão dizer quando descobrirem que a prometida de Willas Tyrell anda fornicando com um rapaz qualquer.
– Ele não é um rapaz qualquer.
– Eu só quero o seu bem irmã e essa sua historia não tem final feliz, você sabe disso.
– Isso é injusto. – A imagem de Killian lhe veio à mente. Lembrou-se de quando eles costumavam escapulir para os tuneis do Rochedo onde nenhum homem passava, trocavam juras e beijos na calada da noite. Minha alma é sua Belle, a lembrança de sua voz fez seu coração bater rápido.
– O mundo raramente é justo.
Seu irmão soltou uma risada e então olhou-a com humor.
– Eu me casarei com a menina Stark em pouco tempo, pode imaginar casamento mais infeliz? – Ela riu junto com ele.
– Nossa irmã foi infeliz no seu casamento. Passou tanto tempo sonhando com um príncipe dourado e em troca recebeu um rei balofo e fedorento. – Lembrar-se de Robert Baratheon fazia seu estomago revirar. Odiava aquele homem, quando ele morreu quis fazer uma festa no grande salão e negou-se a vestir negro. Belle colocou seu melhor vestido carmesim e desfilou pela a fortaleza vermelha sem se preocupar com os olhares, foi Cersei quem a obrigou a usar um manto negro.
Aquele homem podre não merecia nenhuma lagrima.
– Essa é uma das leis para ser um Lannister querida irmã... – Tyrion pulou da cadeira e foi até ela depositando um beijo na sua bochecha. – Não podemos amar. Uma pena que todos nós falhamos miseravelmente nisso.
Sansa
– Senhora Sansa, sou Oberyn Martell, irmão do príncipe de Dorne. – Ele parecia simpático, mas ela desconfiava dele. Tinha ouvido que o homem não tinha honra e que os dorneses eram pessoas perigosas e traiçoeiras. Mas Myriah é gentil... – Vim em nome de minha filha, Myriah.
Ela estava assustada, mas jamais podia esquecer a educação.
– Senhor Príncipe, o que vossa filha quer comigo?
Rapidamente ela olhou para trás do homem. Quatro guardas Martell esperavam pelo seu senhor. Nenhum Lannister, aquilo a animou, mas por pouco tempo.
– Ela está jantando na arcada das donzelas, junto com algumas moças Tyrell, pediu para que eu a acompanhasse até sua presença, ela gostaria muito de conhecê-la. – A primeira coisa que lhe veio na cabeça foi Margaery e sua avó, elas tinham lhe feito um convite parecido tempos atrás, fizeram promessas e sorriram. Agora eu não tenho nada.
Sansa hesitou em responder. Talvez façam outras promessas, não importa, vou perder tudo de novo.
– Seria uma honra senhor.
Ainda que desconfiada, não podia dizer não a um príncipe. É Myriah e Margaery, elas não lhe farão mal.
Andaram lado a lado pela a fortaleza, a luz dos archotes iluminava os corredores, porem projetavam estranhas sombras nas paredes. Elas pareciam dançar enquanto passavam. Um arrepio subiu na sua espinha, o silencio trazia uma estranha sensação. Discretamente ela apertou o pano da saia, desejando que Lady ainda estivesse ali.
– Alguma vez já foi a Dorne?
– Nunca senhor. – Já tinha ouvido falar, era um lugar árido e quente, completamente diferente do norte. As pessoas eram estranhas lá, disseram-lhe uma vez, tinham alguns hábitos que divergiam do resto do reino.
Nunca pensei em ir a Dorne, meus sonhos sempre estiveram em Porto Real e depois na Campina. Sonhava com a brisa fresca batendo em seu rosto, com o sol brilhando por entre as arvores, com cantores e bobos e principalmente com cavaleiros e príncipes. Não sonho mais. Todos os sonhos haviam morrido dentro dela.
– Uma senhora do norte estranharia Dorne, é um lugar diferente de tudo que já deve ter visto. Nossos homens e mulheres também são diferentes, — ele falava com um sorriso no rosto – mas há muitas belezas lá. Ouso dizer que mais do que aqui.
Em outra vida, Sansa Stark teria duvidado dele, Porto Real era como uma canção se tornando realidade e seu galante príncipe era tudo o que ela desejava no mundo. Naquela época, nenhum lugar seria mais belo que a fortaleza com seus duelos e bailes, mas agora tudo se tornou escuro e sem cor, qualquer lugar era mais bonito que Porto Real.
– Imagino que sim senhor.
Desceram um lance de escadas. Ele não parece ser um homem traiçoeiro, o príncipe de Dorne era gentil, mesmo com aquele olhar estranho que lhe lançava às vezes. Quando ela tropeçou em uma pedra ela a segurou com gentileza e lhe ofereceu o braço.
– Essa fortaleza pode ser bastante perigosa às vezes, não concorda senhora Sansa? – Ela maneou a cabeça concordando e ele completou, — porem nada se compara com as pessoas dentro dela.
A ultima parte saiu como num sussurro e fez seu coração saltar no peito.
– Fale-me sobre seu irmão querida, gostaria de ouvir sobre esse jovem lobo.
Ela olhou nervosa para os lados, como aquele príncipe podia pedir para ela falar do irmão traidor no meio do pátio?
– Não passa de um traidor senhor, ele e a senhora minha mãe traíram o nosso bom rei e merecem que a justiça do rei caia sobre eles. – A mentira lhe saiu fácil, já estava costumada.
– Não quero saber se é traidor, quero saber se luta bem.
– Luta senhor príncipe, — sua voz era baixa e fraca – é feroz e tem um lobo chamado Vento Cinzento, eu também tinha um, era uma loba e se chamava Lady – e está morta como todos os outros.
– Eu tive uma irmã, deve saber dela, a princesa Elia, nós éramos muito próximos quando crianças. Eu amava minha irmã, amava muito, um dia ela casou-se com o príncipe dragão e se tornou a princesa de Westeros. – Ela conhecia a historia, Elia de Dorne tinha dado ao príncipe dois filhos, mas ele fugiu e raptou minha tia Lyanna. – Ela era gentil e esperta, ninguém nesse reino teve um coração maior que o seu.
– Devia ter sido muito bonita senhor príncipe.
– Foi sim, mas eu a perdi... Sabe como ela morreu?
– No saque... ela...
A voz falhou, quando seus olhos azuis encontraram com os escuros dele, se deu conta que havia algo além, o sorriso tinha sumido e a raiva... Conheço bem a raiva, é só o que sinto. Tinha raiva pela a irmã, mas por que não teria?
– Dizem que foi estuprada antes de morrer e o homem que o fez tinha o sangue do seu filho nas mãos.
Sansa se encheu de piedade.
– Sinto muito senhor.
– Chegamos.
Ela assustou-se com a rapidez em que seu sorriso voltou à face. Mas ele ainda está machucado, Sansa quis falar-lhe algo, porem nada do que dissesse faria alguma diferença. Não podia trazer os mortos, se pudesse o primeiro que teria trazido era o seu pai.
A porta de madeira escura se abriu der repente e então Myriah Martell surgiu com um sorriso.
No centro uma mesa de madeira foi posta e varias velas iluminavam o lugar. O cheiro de leitão fez sua boca inundar de saliva, mas como uma boa senhora ela não demonstrou.
– Bem vinda Sansa. – Disse Myriah quando fechou a porta atrás de si. – Margaery?
Sansa notou a amiga ali e quase pulou de susto. Ela vestia negro e estava encostada na parede quase se fundindo as sombras.
– Que bom revê-la Sansa.
– Sansa está aqui. – Myriah informou.
A senhora Olenna saiu de uma estreita porta e sorriu com seu rosto cheio de rugas. Atrás dela veio uma mulher bonita que ela reconheceu como sendo a amante da víbora vermelha. Sansa corou e as cumprimentou.
– Sente-se querida, vamos comer enquanto ainda está quente.
Myriah sentou ao seu lado e Margaery do outro. Der repente começou a tremer, havia algo de estranho naquilo tudo. Um jantar em um quarto pequeno e escuro com apenas cinco pessoas? Margaery sempre estava acompanhada das primas e das outras moças da Campina e Myriah havia trazido algumas damas de companhia e um cantor. Algo ruim aconteceu, foi tudo o que conseguiu pensar.
– Está nervosa Sansa? – A dornesa mais velha perguntou.
– Acho que assustamos a pobre menina, não fique assim criança, estamos fazendo isso para o seu bem. – Olenna Tyrell olhou furtivamente para a neta. – Coma um pouco enquanto lhe contamos algo que você deve saber.
Ela começou a comer pequenos pedaços de leitão enquanto Margaery começava a falar. A menina pôs a mão em seu braço como se quisesse lhe confortar.
– Descobri algo terrível hoje minha querida, Tywin Lannister pretender casá-la com o duende em uma quinzena.
– Ou talvez menos. – Myriah complementou.
Ela arregalou os olhos não acreditando naquelas palavras. Ele não podia fazer aquilo, não era seu pai. Seus olhos se inundaram de água e ela tentou conter o grito que lhe veio na garganta.
– Foi por isso que empurrou sua filha Belle para Willas, se eu não tivesse aceitado o casamento ele provavelmente não teria esperado para lhe colocar na cama daquele homenzinho. – Olenna disse com o tom afiado. – Não chore querida, tenho você como uma neta e não deixarei que a casem com aquele homem.
– Mas como... ? – Sua voz sumiu e ela soluçou baixinho sendo logo abraçada por Margaery.
– Diga a ela o plano Ellaria.
– A rainha já mandou fazer seu mando de donzela e muito breve deve estar pronto. Precisamos ganhar tempo e fazer com que os olhos do castelo se voltem para outra coisa, assim poderemos tirar você daqui. – Ellaria retirou da sua manga um frasco com um liquido incolor. – Beba um gole disso e você cairá doente, vai sentir dor de cabeça, dores pelo o corpo e provavelmente não vai segurar nada na barriga.
Sua imagem vomitando lhe provocou nojo, mas então pensou no casamento com Tyrion Lannister. Mil vezes pior.
– Não poderão lhe casar doente e com isso teremos tempo até meu neto Willas tomar a leoa como esposa. O resto querida Sansa, deixe conosco, até lá, beba um gole a cada duas noite e não fale sobre isso com ninguém, nem mesmo com o seu travesseiro, entendido?
– Sim senhora.
– Nem uma palavrinha sequer, nem mesmo quando achar que está sozinha. Nesse lugar até mesmo as paredes tem ouvidos.
– Eu prometo, prometo... Não vou falar nada. Juro. Juro.
Suas mãos tremeram quando ela pegou o frasco e então sentiu um arrepio na barriga. Se descobrirem Joff matará todas nós por traição, mas se ele não descobrisse ela estaria livre...
– Posso fazer uma pergunta.
– Claro querida. – Myriah sorriu gentil para ela.
– Para onde eu irei? – Sansa logo pensou em Jardim de Cima, mas Belle Lannister também estava indo para lá. Sor Loras não pode casar e seu outro irmão já tem uma esposa...
– Você vai gostar, — Ellaria lhe respondeu. – Dorne é um lugar de muitos encantos.
Fale com o autor