Sonho de primavera
2 Capítulo 1
Notas iniciais
Sansa
Ela estava deslumbrante como Joffrey gostava. Quando foi chamada para a audiência do dia, Sansa sentiu aquele conhecido frio na barriga e orou aos sete para que ele não lhe fizesse nada. Vestiu um vestido simples de cor azul e andou escoltada até a sala do trono. Toda a corte estava presente e ela percebeu, com certo alivio, que ao lado do trono estava a rainha Cersei, os tios do rei, Belle e Tyrion Lannister e o senhor mão, Lorde Tywin. Joffrey nunca lhe batia na frente da família.
Então por que mandou me chamar?
Suas perguntas foram silenciadas quando uma pequena comitiva dornesa foi anunciada. Sansa quase não pode vê-los de onde estava e a curiosidade ardeu dentro dela, mas o medo de chegar mais perto e ser notada por Joffrey era maior. Ficou ali paradinha e quietinha enquanto ouvia todos cochicharem ao seu redor.
– Bem vindo amigos de Dorne... – Joffrey começou seu discurso com um sorriso de escárnio. Sansa o tinha ouvido fazer piadas de mal tom contra os novos visitantes dias antes de sua chegada, esperava que o rei tivesse o bom senso de não fazê-las agora.
O discurso foi longo e logo as apresentações começaram. Sansa aproximou-se discretamente de uma mulher gorda e espiou para os desconhecidos na hora em que Oberyn Martell fazia seus cumprimentos. As pessoas junto ao príncipe Oberyn foram apresentadas uma por uma e no fim todos receberam a hospitalidade do rei. Sansa imaginou que a audiência acabaria por ali, mas a voz de Joffrey interrompeu seus pensamentos.
– Antes de dar por encerrada essa audiência, eu gostaria de lhes dar uma boa noticia nesses tempos de guerra. – Suas mãos gelaram quando ela olhou para o trono. O rei lhe deu uma olhadela com um sorriso cruel.
Robb; foi tudo o que pensou. Tinham vencido o seu irmão e agora ela seria morta ou pior...
– A esposa do traidor está morta. Os deuses a levaram como forma de justiça em nome do verdadeiro rei, em breve todos aqueles que apoiarem o traidor cairão mortos também. Hoje é dia de celebração e por isso haverá um banquete no grande salão, comam e bebam em nome do seu rei.
Todos bateram palmas e sorriram. Sansa estava cheia de horror. Robb vai matá-lo, vai arrancar a sua cabeça e colocar nos muros do castelo e depois vai desposar uma bela moça e terá vários e vários filhos. A corte foi dispensada e ela andou depressa para o lado de fora antes que Joff resolvesse lhe fazer algo. Ao sair do salão ela foi parada por uma mão no seu ombro e quase deu um grito de horror ao pensar que se tratava de algum cavaleiro de manto branco.
Mas ao se virar notou que era uma moça bonita de longos cabelos escuros e misteriosos olhos castanhos. A menina sorriu e Sansa então se lembrou de que ela era uma das senhoras que estava na comitiva dornesa. A senhora Myriah Martell, que segundo tinha ouvido na corte, era a única das filhas do príncipe Oberyn que carregava o seu nome.
– Sansa Stark. – Ela não tinha certeza se foi uma pergunta ou não, mas maneou a cabeça mesmo assim. – Myriah Martell, filha do príncipe Oberyn Martell.
– Um prazer senhora Myriah.
Rapidamente a garota entrelaçou o seu braço e a puxou para perto.
– Esse seu cabelo é tão bonito, — a dornesa pegou um tufo de fios vermelhos e deixou que deslizasse pelos seus dedos. – quando eu era bem pequena uma mulher de Bravos se hospedou em Lançassolar, ela era tão bonita, usava um belíssimo vestido rosa e tinha cabelos tão vermelhos quanto os seus, eu fiquei admirada. – Ela contou enquanto a guiava pelos corredores da Fortaleza. – Quando a mulher foi embora, eu corri até o meu pai e implorei que fizesse meus cabelos ficarem tão vermelhos quanto os daquela mulher, tudo o que o senhor meu pai fez foi rir e dizer que podia me dar muitas coisas, mas não aquilo.
A garota riu como se lembrasse de algo.
– Eu fiquei desolada por semanas até minha irmã Nym me dizer que eu era muito mais bonita de cabelos escuros.
– Seus cabelos são muito bonitos senhora Myriah. – Sansa lembrou-se de ser educada.
– Ora, alem de bonita é gentil – As duas pararam na frente de um dos pátios internos da fortaleza e ficaram de frente uma para outra. Myriah tomou suas mãos e sorriu. – És tudo o que me falaram senhora Sansa.
– Falaram de mim? – Ela não conseguiu esconder sua surpresa.
– Não se preocupe minha querida, só me disseram coisas boas.
Belle
Quando foi chamada para receber os dorneses na sala do trono ela tinha feito uma cara de tédio e reclamado que sua presença não era importante, mas Cersei insistiu e sua irmã sempre conseguia o que queria. Ela sorriu como uma dama bem nascida deve fazer e ficou em pé ao lado da sua irmã fingindo que realmente queria estar ali. Aquela maldita apresentação já devia ter sido feita, os dorneses se encontravam na fortaleza há uma quinzena, mas Joff quis fazê-los esperar.
Quando finalmente os lordes entraram o seu sorriso ruiu e seu coração bateu forte no peito. Ela sentiu as mãos ficarem geladas e a cabeça girar, temeu que pudesse cair ali mesmo. Sua primeira reação foi procurar algum Tyrell pelo o salão, mas como esperado nenhuma daquelas rosinhas petulantes estava presente. Depois olhou para o pai e para a irmã, os dois estavam alheios ao seu nervosismo. Suspirou aliviada, o único que sabia o seu segredo era Tyrion e ele não contaria a ninguém.
Enquanto as apresentações eram feitas, Belle se esforçou para olhar apenas a parede. No entanto, quando o nome dele foi dito ela caiu em tentação e direcionou seus olhos verdes para o rosto de quem tanto sentiu falta. Seu coração falhou e ela quis correr para debaixo das cobertas como uma garotinha assustada. Sentiu a mão de Tyrion no seu braço e então ela desviou o olhar.
Agradeceu aos sete quando finalmente seu sobrinho deu por encerrada a audiência. Como um furacão ela correu para fora e foi direto para o quarto ignorando qualquer pessoa que lhe cumprimentasse. Belle entrou no quarto e se jogou na cama tentando silenciar todos os sentimentos que vibravam dentro dela.
Fazia três anos desde que ela o vira pela ultima vez. Três anos enterrando aquele sentimento inútil no buraco mais fundo do seu coração. Três anos achando que tinha superado. Bastou um olhar para que as ondas a arrastassem de volta para aquele mar revolto.
Minutos depois alguém entrou no seu quarto e ela já sabia quem era.
Tyrion andou calmamente até sua cama e sentou ao seu lado alisando seus cabelos.
– Você costuma fingir melhor do que aquilo.
Uma risada sem humor escapou dos seus lábios.
– Não sei do que está falando.
– Pelos Deuses Belle, você tem sorte que Olenna Tyrell não estava lá para ver a noiva de seu neto corar para um dornês. – As palavras não eram duras ou repreensivas, mas aquilo a atingiu como uma lamina afiada. – Ou pior, pense no que o nosso pai faria se percebesse aquilo. Você ainda é a garotinha dourada dele, a que menos lhe deu desgostos...
– Eu já fui um desgosto suficiente quando nasci mulher Tyrion, — Belle suspirou e olhou para o irmão. – não pude controlar, sinto muito.
– Controle-se e não deixe que ninguém descubra. – O irmão saltou da cama e sorriu. – Eu sei como é estar apaixonado doce irmã, eu sei o quanto dói, esqueça isso e pense em seu noivo, você é a única de nós quatro que tem uma real chance de felicidade.
Ela concordou com um gesto de cabeça, mas sabia que aquilo era ilusão. Talvez Belle não terminasse tão infeliz quanto os irmãos mais velhos, mas felicidade era um luxo que nenhum ouro Lannister podia fornecer. Podia ser pior, você podia estar casando com Walder Frey.
Quando o céu escureceu, uma criada veio até seu quarto com a intenção de ajudá-la a se arrumar para o banquete, mas a Lannister a dispensou, não estava em clima para comemorações. Ficar trancada em seu quarto era a opção mais segura de que dispunha naquela noite. Quando a lua iluminou o céu, Belle retirou as vestes ficando apenas com uma camisola fina que usava para dormir, subiu na cama e se escondeu por debaixo das cobertas.
Quando dormiu ela se viu sonhando com lobos gigantes, serpentes vermelhas e com um tempo que jamais iria voltar. Em um segundo ela estava debaixo de uma arvore florida trocando seu primeiro beijo e no outro ela estava em Jardim de cima no meio de dezenas de convidados esperando para se casar com seu noivo Tyrell. Ela também viu a irmã Cersei ajoelhada chorando por alguém que ela não soube identificar e viu seu pai no Rochedo Casterly sorrir para uma bela moça de cabelos dourados. Acordou ofegante e confusa e jogou para o lado o lençol desejando que a brisa gelada ultrapassasse as cortinas e refrescasse o seu corpo.
Belle nem percebeu quando alguém furtivamente entrou no seu quarto e subiu na sua cama.
– E eu pensava que você não podia ficar mais bonita.
Ela deu um pulo na cama e se conteve para não gritar.
– O que? Como? Você ficou maluco? – A risada baixa dele foi como musica para os seus ouvidos.
– Você tem esse efeito sobre mim. – Belle estremeceu quando ele se aproximou. – Aquele banquete não tinha a mínima graça sem você.
Do mesmo modo que aconteceu na audiência, seu coração começou a bater rápido e forte no peito. Por um par de segundos achou que pudesse morrer. Morrer de amor, ele diria se pudesse ouvir seus pensamentos, não há forma mais bela de se morrer.
– Eu aposto que suas amigas dornesas estão sentindo sua falta.
Ele aproximou o rosto do dela sorrindo.
– Você sabe bem que é a única no meu coração. – E então a beijou – Senti tanto sua falta, — dizia enquanto distribuía beijos pelo seu rosto.
Não posso fazer isso. Ela começou a afastá-lo e olhou bem o seu rosto antes de proferir qualquer palavra. Ele não tinha mudado tanto assim, os cabelos ruivos caiam pela sua testa, os olhos eram azuis límpidos e claros e uma fina barba cobria parte do seu rosto. Killian Fowler continuava tão bonito quanto fora três anos antes e Belle o desejava tanto quanto o desejou naquela época. Mas ela tinha crescido, não era aquela garotinha cheia de ilusões no peito.
– Killian...
As palavras se perderam quando os dedos dele atingiram sua intimidade. Ela arquejou e colou a testa na dele esquecendo-se completamente da razão.
– Maldita Lannister, — ele sussurrou no seu ouvido, — sabe quantas vezes sonhei em fazer isso de novo?
– Então faça seu desgraçado.
E ele a beijou.
Catelyn
Catelyn segurava a primeira neta nos braços e enquanto lhe cantava uma canção de ninar pensou nas filhas. Anos atrás, em Winterfell, ela tinha embalado suas duas meninas daquele mesmo jeito, tinha cantado para elas e depois, quando ganharam mais idade, penteado seus cabelos e lhe contado todos os tipos de historias. Sansa tinha sido uma verdadeira senhora desde muito nova, o mesmo não aconteceu com Arya, mas ela amava suas duas meninas igualmente. Agora depositava todas as suas energias naquele lindo bebezinho que até então era a herdeira do seu filho.
A porta abriu atrás dela e Robb entrou com um semblante serio e cansado. Ela sorriu para o filho imaginando toda a confusão que se passava em sua cabeça.
– Como ela está?
– Forte e saudável, — o alivio no rosto do rei era evidente. Desde que a rainha tinha caído doente após o parto os meistre temiam que a princesa tivesse o mesmo destino. – ela tem os seus olhos Robb, vai ser muito bela quando crescer.
Seu filho se aproximou e ela depositou o bebê em seu colo.
– O que acha que vai acontecer agora? – O tom de insegurança em sua voz era preocupante, mas não infundado. – Lorde Frey não pode me obrigar a casar com outra filha ou neta dele, certo?
– Não, ele não pode. Você fez sua parte no acordo e aquele velho Frey tem o sangue dele na linhagem real.
– Ele ficaria mais satisfeito se Sierra fosse homem. – Sim ele ficaria, mas não havia nada que pudessem fazer sobre o assunto. – Os homens dizem que devo tomar logo uma nova esposa.
– Um rei precisa de sua rainha.
Ela sorriu. Estava prestes a lhe indicar uma garota nortenha quando a porta do quarto foi aberta com certa violência. Catelyn olhou irritada, mas sua expressão suavizou quando percebeu que era o seu tio. No entanto o olhar de preocupação dele a fez ficar tensa novamente.
– O que se passa tio? – Pergunto temendo a resposta.
– Lannister? – O filho já estava colocando a princesa em seu berço e pegando a espada.
– Não vossa graça, mas há um homem que traz uma carta com o selo de outra grande casa.
Seu coração se encheu de esperança. Talvez a irmã tenha finalmente mudado de ideia e mandado um mensageiro.
– Lysa?
– Não Cat, a carta vem da Campina.
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