Sonho Imortal
6 Atrás da porta
Notas iniciais
Acompanha aí'---'
Voltamos da casa de praia e eu estava sentada na cadeira de
balanço da varanda, quando o Markin chegou com seu caderno. Lembrei-me de
pergunta-lo o que ele desenhava.
-Ei, o que tem aí?
-É melhor você ver.
Abri um papel de tamanho médio e encontrei um desenho a
lápis de um garoto e uma garota. Estavam abraçados, uma lágrima escorria pelos
olhos da Garota, mas ele parecia consolá-la. Era muito lindo!
-Somos nós?!
-Esse sou eu e essa é você.
Ele forçou um sorriso e eu percebi que alguma coisa errada
estava acontecendo.
-O que há?
Ele suspirou e fitou o chão.
-Eu tenho uma coisa para lhe...
-Maaaarkin! – minha mãe gritou do quarto dela.
-Tenho que ir.
Ele levantou da cadeira e foi até o quarto da minha mãe. Não
demorou nada e eu percebi que a voz dos dois estavam alteradas. Subi as escadas
de mansinho, pra eles não perceberem. Ouvi toda a conversa.
-Você não poderia aparecer, Markin. Não mesmo.
-Eu lhe disse que nunca a deixaria! Continuei amando-a.
-Você contou alguma coisa a ela?
-Não, mas foi um deles que a afogou lá na praia, tenho certeza. Quando cheguei
para pegá-la, havia uma mancha negra na água.
-EU SEI! Aquele provavelmente contou aos outros onde ela está eles vão chegar
mais cedo ou mais tarde. Ainda bem que ela não sabe de tudo que ela é capaz e
quem ela é.
-Mas temos que contar a ela, ela poderá combate-los com a nossa ajuda e essa
guerra acabar logo.
-Não se atreva.
-Adrian, você vai os deixar matarem-na sem nem mesmo saber quem era e do que
era capaz? Você sabe que dessa vez não tem mais volta, ela só voltou porque foi
uma profecia da Linett, você sabe muito bem disso Adrian!
-Eu sei, somos três, contra quantos? Milhões?!
-Existem mais de nós por aí.
-Nenhum que a gente tenha um pacto de confiança. Você precisa dizer a ela, quem
ela é.
Desculpem-me, mas só suportei ouvir a conversa até esse
ponto. Uma estranha sensação embrulhou meu estômago, a sensação de todos ao seu
redor estarem contra você, mentindo tentando te colocar no fundo do poço. De
repente você abre uma porta e encontra um homem com uma adaga envenenada na
mão, pronto para te matar. Todos ao meu redor se parecem com esse homem agora.
O que eles estavam escondendo de mim? O que eu não podia saber? O que eu era,
que habilidades eu tinha? Afinal de contas, quem estava atrás de mim, da onde
todos eram? Porque me queriam? Porque eu não posso saber de nada? Quem era
Adrian?
Cobri a boca com as duas mãos e corri para o meu quarto, no caminho tropecei em
um tapete e dei mau jeito no pé esquerdo, o que me fez dar um gritinho de dor.
Levei as mãos a boca novamente, bati a porta com força e o calendário acima
dela balançou. Agarrei o travesseiro e enfiei-me debaixo da coberta. Estava
chorando... Estava sendo enganada, completamente enganada! Mas iria tirar essa
história a limpo. O despertador começou a tocar skinny love. Mirei-o com raiva.
Estava ao alcance da minha mão... Era um novo na certa!
Peguei-o com raiva e atirei no chão, o que fez a música repetir, como em um
disco arranhado!
-Inferno! Droga.
Aaaaaaaaaaaaaaaah. Odeio todos vocês!
Pelo jeito a conversa ainda seguiu porque só depois de uns
arrastados minutos alguém bateu a porta. Eu não estava com saco pra falar com
ninguém no momento, então eu não fui educadinha e perguntei quem era ou mandei
entrar. Fui mal-educada, muito, até. Eu literalmente explodi.
-Saaaaai daqui, me
deixa em paz. – e mais baixo falei – Que droga, vocês são todos uns mentirosos.
Estava vermelha de tanto chorar, quem foi, saiu. Eu fiquei
lá agarrada ao travesseiro, com um despertador quebrado no chão e uma raiva que
não passava nem em sonho!
***
Meus olhos já estavam fundos de tanto chorar, e porque eu não havia dormido. A
manhã estava fresca, eu estava com muita fome. Vai lá garota, essa é sua vez. Foi a frase que veio em minha
consciência. Tomei banho, quente, e joguei bastante água, gelada, no rosto para
as marcas do choro e do sono se apagarem. Estava com um vestido florido e o
cabelo preso em um coque alto. Com os olhos e as bochechas um pouco vermelhas
eu desci as escadas pra tomar café. Não havia ninguém na mesa, então eu peguei
um pouco de torradas e fiz um copo de leite quente, já ia subir para meu ninho
quando minha mãe me repreendeu.
-Que história é essa de se trancar
no quarto, Leslie? É greve de fome?
-Não, é greve de vocês!
-O que aconteceu?
-(Runf’) Eu que deveria perguntar O QUE ACONTECEU? Talvez vocês me devessem
alguma explicação, não?
-Não sei do que está falando...
-Nunca soube o que estava falando, porque era tudo mentira né? Eu sei que tem
alguma coisa que você não quer me contar, que eu não posso saber, porque, hein?
-Nada do que você está falando faz sentido. Está perturbada, querida?
-Porra, você quer dizer que eu to maluca agora? Malucos são vocês que escondem
a verdade de uma filha, e pelo que eu soube você vai deixar eles me matarem não
é? E se pra você, que sabe de toda a verdade, não faz sentido, imagina pra mim?
Com certeza você acha que eu estou me fazendo de vítima, não é?
-Escuta...
-Eu já escutei demais, quer saber? Vão se fu%@ todos vocês!
Peguei o as torradas em um prato de
plástico e o copo de leite quente (que agora estava morno) e subi as escadas.
Quando estava na metade, mais ou menos, uma voz grossa, masculina, familiar chamou
pelo meu nome. Achei que fosse o Markin e já ia explodir com ele também.
-Olha aqui...
-Eu posso explicar!
Olhei pasma, aquele homem. Era ele,
reconheci imediatamente. Alto, forte, com aparência jovem, louro, olhos
esverdeados, mais ou menos 47 anos. Era ele, o homem que cuidava dos meus
machucados quando eu caia de bicicleta, que me levava pra escola, era o homem
do patinho amarelo. ERA MEU PAI! Sem
perceber, já estava chorando... Havia 10 anos que ele se fora e minha mãe
dissera que ele havia morrido em um acidente, mas era mais uma mentira dela. O
copo de leite caiu da minha mão, logo em seguida o prato de torradas, eu estava
soluçando.
-Pai?!
Ele sorriu pra mim, mas minha
reação foi outra. Eu apenas caí de joelho na escada com o rosto entre as mãos.
As lágrimas caiam entre as aberturas dos meus dedos e eu esquecera de tudo
aquilo, por um breve momento.
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