Sonho E Aventura

6 Capítulo 3 - parte 3 -


Parte III — Vendaval Eterno

Sua visão retorna, Rafael está na saída de uma gruta numa parede rochosa a cerca de cinquenta metros de altura. Dali pode ver um imenso descampado com um lago e um castelo numa ilha no centro. Há também uma floresta nos arredores, alguém deve viver ali, uma fumaça sobe dentre as arvores, provavelmente uma fogueira. Não como descer, existe apenas um estreito caminho que leva um pouco mais a cima, ele o segue, sabe que não há tempo a perder. Em alguns minutos atinge uma área plana, uma espécie de patamar circundado por algumas rochas maiores. A sua frente, cravada na rocha uma grande porta parece abrir caminho pela montanha, mas se encontra fechada. Rafael se aproxima um pouco, então ouve o vento uivar, ao olhar em volta percebe uma caverna menor de onde vem uma forte ventania. Das sombras da caverna surge uma figura estranha.
?????: — Quem é você e o que deseja humano?
Rafael: — Me chamo Rafael. Venho em busca de poder, preciso dele para sair daqui e ajudar meus amigos. E você quem é?
Seth: — Sua franqueza é quase rude, rapaz. Mas considero sinceridade uma qualidade de poucos, por isso deixarei que parta. Meu nome é Seth, sacerdote de Hórus, o grande deus dos céus.
Rafael conhecia essa entidade, era um deus egípcio. E a figura a sua frente era sua personificação. O corpo de um homem, músculos fortes embora não tão desenvolvidos, a pele era morena com um leve tom dourado. Uma túnica branca envolvia sua cintura e chegava até os joelhos, pés descalços. Sua cabeça coberta por uma mascara de pedra imitava uma águia e em suas costas asas de pedra ficavam estendidas. Via-se ali o ser tantas vezes desenhado no interior das pirâmides antigas.
Rafael: — Agradeço a oferta, sairei assim que puder atravessar aquela porta. Algo dentro de mim me faz crer que é lá que preciso chegar. Sabe como posso fazê-lo?
Seth: — Você só precisa da chave. Contudo, minha tarefa é impedir que qualquer um adentre no templo. Se quiser mesmo entrar terá que me derrotar.
Ao dizer essas palavras sua aura negra se expande e sem que as asas de pedra se movam, ele alça voo parando a cerca de oito metros de altura e fica a observar Rafael.
Rafael: — Pela sua atitude, vejo que não haverá negociações. Então, prepara-se, pois não irei a lugar nenhum sem meus amigos.
Enquanto fala, Rafael tira o arco das costas e também expande sua aura, apenas como tom de desafio, ela brilha num leve tom esverdeado. Seus olhos estão fixos nos do oponente. Por um instante eles se encaram e então a batalha começa. Ele saca rápido uma flecha e a dispara, Seth se move para desviar-se. Rafael dispara outras duas flechas na sequência, seu inimigo é até mais lento do que esperava, conseguindo acertar uma flecha em suas asas de pedra, embora sem efeito, e a outra passa de raspão na perna esquerda de Seth abrindo um pequeno corte.
Seth: — Maldito seja, humano! Ferir a mim é como ferir a um deus! Como ousa?!
Rafael: — Heh, ao que parece deuses também sangram. Seta Veloz!
Ele saca outra flecha ao mesmo tempo em que sua aura a envolve. Quando dispara, uma rajada de vento a acompanha aumentando sua velocidade e capacidade de dano. Rafael pretende acabar logo com o confronto, seu inimigo não é rápido o bastante pra desviar. Dessa vez o atingirei em cheio, ele pensa.
Seth: — Asas Sombrias, Manto de Sombras!
Para desgosto de Rafael, surge em torno de Seth grandes asas negras que se fecham por um instante protegendo-o do ataque. Ele sorri.
Seth: — Tão tolo. Acreditou mesmo que poderia me vencer apenas com isso? Barreira dos Céus!
Por alguns segundos nada acontece, então o céu começa a mudar. Grandes nuvens parecer cercar o topo da montanha e um vento forte sopra sem parar, Seth de alguma forma consegue se manter, como se os ventos não o incomodassem.
Seth: — Agora é minha vez! Asas Sombrias, Lâminas Mortais!
As asas aparecem novamente, agora abertas. Uma dezena ou mais penas surgem soltas no ar e voam na direção de Rafael. Ele salta para trás, evitando por pouco ser atingido e as vê atingindo e fincando na rocha como se fossem adagas extremamente afiadas. Outra leva de penas é atirada. Rafael tropeça antes de conseguir sair da trajetória do ataque e cai. Teria seu peito atravessado por elas caso não as tivesse desviado no ultimo segundo.
Rafael: — Barreira de Ar!
Sua magia salva sua vida, mas não foi forte o bastante para evitar completamente o ataque, tendo assim sua perna direita e braço esquerdo feridos com um ou dois cortes. Antes que seu inimigo ataque de novo ele prepara outra flecha, o inimigo está na mira, ele dispara. Não há como errar, Seth não tem velocidade suficiente para desviar-se e ainda estava concentrado em seu ataque o que o impede de fazer sua barreira. Mas a flecha não o atinge. Cerca de um metro do alvo a flecha se desvia passando longe de acerta-lo.
Agora Rafael compreende a função da magia de seu adversário, com aquela ventania suas flechas se tornam inúteis. Ele se lembra de ter passado por isso em outras ocasiões, mas contava com a ajuda de Thais que com sua magia de pedra conseguiu dar mais peso as flechas.[²] Agora terá de se virar sozinho, mas a lembrança de sua velha amiga já faz ter uma ideia. Olha em volta e encontra o que precisa. O inimigo ataca novamente, Rafael salta para o lado e depois para trás evitando ser atingido. Corre alguns passos e recolhe do chão algumas pedras. Elas tem o tamanho aproximado de uma laranja cada uma, devem ser pesadas o suficiente para não se desviarem com o vento, ele pensa.
Antes que Seth ataque de novo, Rafael arremessa as pedras contra ele. Apesar de não terem sua trajetória desviada nenhuma delas o atinge, então Seth ataca novamente.
Seth: — Seu desespero me dá nojo, isso é o melhor que pode fazer? Asas Sombrias, Lâminas Mortais!
Rafael: — Não. Isso é o que posso fazer!
Rafael salta pra frente rolando no chão, por baixo do inimigo, enquanto se desvia. Se levanta rapidamente, as pedras atiradas por ele estão caindo.
Rafael: — Hurricane Kick!
Sua aura brilha, o vento gira a sua volta. Então desfere uma sequencia de chutes, primeiro com a perna direita, girando o corpo para a esquerda ele chuta com o calcanhar esquerdo, ainda girando chuta com a perna direita novamente e por fim um giro completo chutando com a perna direita enquanto salta. Com isso acerta quatro das pedras que caiam disparando-as novamente na direção do inimigo. Seth consegue aparar duas delas com as mãos, mas uma o acerta no abdômen e outra no rosto, quebrando assim uma parte da mascara de pedra. Ele oscila um instante, mas se recompõe. Um fio de sangue escorre pela lateral do seu rosto.
Seth: — Heh, tenho que reconhecer sua vontade rapaz. Contudo, são vãs suas tentativas de me derrotar. Admito que me surpreendeu essa sua estratégia, pena pra você não ter sido o suficiente e pelo que vejo não terá muitas chances de fazer isso de novo...hahahaha.
Ele dizia a verdade, embora Rafael o tivesse atingido o ataque estava longe se ser suficiente e não poderia repeti-lo outra vez, sua tentativa lhe custara caro, eram visíveis as marcas das pedras em seus pés, caso tentasse outra vez provavelmente não conseguiria nem colocar-se de pé novamente. O inimigo ataca novamente, Rafael não consegue evitar de ser atingido algumas vezes. Sua tentativa anterior de vencer Seth lhe cobrara mais do que esperava. Seus movimentos ficaram mais lentos, o que resultou em mais alguns cortes infligidos pelas penas negras de seu adversário.
Rafael: Droga! A cada minuto que passa parece que minhas chances de vencer se tornam menores. Ele nem sequer se irritou mesmo eu tendo tirado sangue dele. Mas eu me recuso a ser derrotando por esse maldito arrogante. Vou mostrar do que sou capaz.
Seth se prepara para atacar, as asas negras surgem novamente. Ele está certo de sua vitória, Rafael não conseguirá resistir muito tempo assim e agora ferido nem ao menos pode escapar de seu ataque. As penas surgem e são disparadas.
Rafael: — Asas Brancas!
Um par de asas translucidas surge em suas costas depois de sua aura brilhar. Seu corpo fica leve novamente o que lhe permite saltar pra trás evitando de ser atingido.
Rafael: — Agora, você cai! – seu tom era quase o de uma ordem – Sifão!
O brilho verde o envolve, ele ergue os braços formando um “X” e rapidamente os baixa lançando-os pra trás ao mesmo tempo em que se agacha. Os fortes ventos tomam forma e começam a girar entorno de Seth, que é pego de surpresa. A velocidade aumenta formando um pequeno turbilhão, os ventos giram em direção ao solo tragando-o como em um redemoinho. Ele não consegue resistir sendo então atirado violentamente ao chão. No mesmo instante Rafael já corre em sua direção, pretende alcança-lo antes que consiga se recompor, mas é obrigado a deter o avanço para se desviar de um novo ataque que Seth lança mesmo do chão. Rafael então está pronto para golpear Seth com as mãos, mas ele se ergue e sobe ao ar novamente ficando fora de alcance.
Seth vê o rapaz saltar, acha a tentativa inútil. Mesmo com as Asas Brancas o não conseguiria chegar até ele. Só não havia notado que após ter sido jogado contra o chão estava agora próximo as paredes da montanha. Rafael apoia-se contra as pedras e toma novo impulso chegando a altura de seu inimigo.
Rafael: — Hurricane Kick!
Novamente ele usa a sequencia de chutes atingindo agora o seu adversário diretamente. Acerta Seth em seu braço esquerdo, abdômen, peito e por ultimo na cabeça, fazendo com que sua mascara termine de ser destruída. O ultimo golpe atira Seth novamente contra o chão, levantando uma nuvem de poeira a sua volta. Rafael chega ao chão de maneira brusca, mas de pé, auxiliado pelas asas que agora sumiam de suas costas. Ele se agacha, fora um grande esforço combinar toda essa sequência de ataques, mas conseguira. Se levanta e vai até Seth. A chave está pendurada em seu pescoço, Rafael a pega e caminha com dificuldade até a grande porta cravada na rocha.