Songfiction: O Desafio
1 Wherever you will go - Aonde quer que você vá
Notas iniciais
“Fale.” A ordem foi simples e necessária. Ele a observava atentamente e tinha certeza que poderia identificar aqueles batimentos cardíacos a quilômetros de distância. Algo a incomodava e ela estava receosa em lhe contar. O olhar dele se perdia no ato contínuo que ela executava ao escovar os cabelos compridos e ele pode notar que ela estava distante.
“Estou preocupada.” Ela largou a escova sobre a penteadeira. “Ultimamente venho me perguntando...” Ela desviou o olhar incapaz de completar a sentença. Ele percebeu e rapidamente a encarou.
“Você não precisa ter medo de mim. Pode falar.” Ela levantou-se e sentou-se na cama, encarando-o. Ele continuou deitado coberto pelos lençóis.
“Quem estará lá para tomar meu lugar quando eu me for e você precisar de amor para iluminar as sombras em seu rosto?” Seus olhos em formato de amêndoas brilharam e indicaram que ela estava triste. Ele sorriu em consolo.
“Você estará lá para mim.”
“Eu sei que agora, realmente sei, minha vida e meu amor podem continuar em seu coração e em seus pensamentos. Vou ficar com você por todo o tempo.” A franqueza dela era rara, mas volta e meia em ocasiões como essa se manifestava e ela não tinha pudor em declarar que se apaixonara por um assassino confesso, um foragido da noite.
“Você tem razão, querida.” Ele continuava sério enquanto seus pensamentos corriam direto para aquele lugar. Lugar que ele não gostaria de visitar. Não queria cogitar a hipótese de nunca mais poder ouvir suas veias pulsando ou de se alimentar dela pela última vez.
“Se uma grande onda se abatesse sobre nós, entre pedras e areias, você conseguiria se virar sozinho?” Ela esboçou um sorriso que logo sumiu de seu rosto. Que pergunta tola ela havia feito a ele: vivera durante anos antes de conhecê-la sem ela e ainda por cima com outras mulheres. Era óbvio que ele sobreviveria muito bem.
Ele acomodou-se na cama e sentou-se de frente para ela com uma agilidade incrível. Se ela não estivesse acostumada, jamais teria notado que ele havia se movimentado. Ela acreditaria, como fizera no passado, que ele era capaz de teletransportar-se.
“Se uma grande onda cair sobre todos nós, espero que haja alguém lá que possa me trazer de volta para você, baby.” Ele a encarou e ela desviou o olhar. Normalmente fazia isso quando não estava satisfeita com as respostas que ele dava. Ele sabia que ela estava pensando com carinho na mesma hipótese que ele teimava em refutar.
“Se eu pudesse, iria para onde quer que você vá. Para cima ou para baixo, para onde quer que você fosse.” Ela fez uma pausa e parou de brincar com as mãos para apoiá-las na cama e se aproximar dele. “Eu vou envelhecer um dia e não estarei mais aqui. Talvez eu descubra um modo de conseguir voltar algum dia para te vigiar.” Ela sorriu com lágrimas nos olhos. “Pelo menos para te guiar nos seus dias mais escuros.”
“Minha querida, superamos barreiras o suficiente juntos. Não quero que você se preocupe comigo depois que partir. Eu ficarei seguro.” O sorriso desapareceu do rosto dela e uma lágrima escorreu. Ele havia dado a resposta errada: ela era só uma jovem e imaginava que ele poderia amá-la. Quisera ele que isso fosse possível. Gostar era um sentimento simples. Era fácil adorar os momentos que passavam juntos, mas amar era algo que ele não conhecia. Nunca havia sentido em vida e havia perdido as esperanças com o sentimento alguns anos após sua transformação.
“Se eu pudesse voltar no tempo eu iria onde quer que você fosse e faria você ser meu.” Ele sentiu os batimentos dela mais tranquilos e percebeu que ela falou aquilo sem pensar. Vendo-a ali, na posição que estava, ele sabia que não era apenas seu encanto que agia sobre ela. Havia algo mais e ele não podia negar que sentia prazer em brincar com esses sentimentos.
“Não me obrigue a fugir de você, querida.” Ele riu demonstrando que estava brincando, mas ela não entendeu dessa forma. Franziu o cenho e levantou-se da cama bruscamente, virando de costas para ele por um momento. Ele ficou impassível, aguardando sua próxima reação.
“Fuja e leve junto meu coração. Fuja com minha esperança, com meu amor, se você é tão egoísta.” Ela estava com raiva e fechava os punhos ainda de costas para ele. Ele aproximou-se dela por trás e beijou seu pescoço. Particularmente adorava quando ela ficava descontrolada e ele podia ouvir tudo estralando dentro dela: era quase como uma melodia bem executada em um dia agradável, um prazer incomparável.
“Não faria isso. Não vou me afastar de você, minha querida.” Ela tremeu quando ele a abraçou, levando uma onda de frio ao seu corpo e fazendo sua raiva se dissipar. Ela segurou as mãos pálidas e gélidas dele por sobre seu ventre e mentalmente agradeceu por aquele ser um dia quente. Era mais agradável ainda ficar perto dele nesses dias.
“É uma promessa?”
“Não prometo nada, baby.” Ele a viu curvar os lábios para baixo novamente através do reflexo do espelho. “Mas pode ter certeza que você é minha.”
“Quero ser mais do que isso!”
Ele a virou rapidamente de frente e a encarou apertando os olhos por um momento. Beijou sua bochecha rosada e, sem pudores, mordeu seu pescoço. Seu corpo imediatamente preencheu-se com o poder do líquido viscoso e quente que ela cultivava. Ele pode ouvir um suspiro dela enquanto apreciava sua refeição. Tomou o apenas o suficiente e removeu seus dentes suavemente para que ela não sentisse dor. Traçou o caminho do pescoço dela à sua orelha e sussurrou. “Você é mais do que tudo que eu já tive!”
Seu coração de menina disparou mais uma vez e ela o beijou, sendo logo correspondida. Sabia que estava sendo usada e que ele provavelmente logo a descartaria, mas não iria perder a oportunidade de desfrutar de cada momento juntos. Ela pertencia a ele e sabia que poderia, um dia, ser forte o suficiente para encantá-lo para que pertencesse apenas à ela.
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