Songfics
5 Clarisse
Notas iniciais
02:30 da manhã. Anna estava deitada em sua cama com os olhos arregalados, não conseguia dormir, uma insônia a perseguia a alguns dias e ela não conseguia tirar aquela música do modo repeat.
“Estou cansado de ser vilipendiado,
incompreendido e descartado
Quem diz que me entende nunca quis saber.”
Ela se identificava com aquela música, quem a escreveu parecia a descrever, ela concordava, realmente era assim, ninguém nunca entende, ninguém nunca quer realmente saber das coisas, as pessoas só perguntam por educação.
“Aquele menino foi internado numa clínica
Dizem que por falta de atenção dos amigos, das lembranças
Dos sonhos que se configuram tristes e inertes
Como uma ampulheta imóvel, não se mexe,
não se move, não trabalha.”
Com isso a garota também concordava, falta de atenção e lembranças fazem coisas terríveis conosco. Todo mundo precisa de atenção, nem que seja pouca. E lembranças, dependendo de quais são elas acabam nos maltratando, Anna achava que seria a próxima a ser internada e nomeada louca.
“E Clarisse está trancada no banheiro
E faz marcas no seu corpo com seu pequeno canivete
Deitada no canto, seus tornozelos sangram
E a dor é menor do que parece
Quando ela se corta ela se esquece
Que é impossível ter da vida calma e força.”
Anna se identificava ainda mais com essa parte, o refrão da música. Ela se sentia como Clarisse, fazia como Clarisse: se trancava no banheiro com qualquer objeto cortante e minutos depois assistia seus pulsos sangrarem. A dor dos cortes não era nada para ela, existiam dores maiores que aquela, o sangue que escorria toda vez que se cortava não era nada, ela desejava que saísse mais.
Calma e força era o que ela menos tinha, se estressava com tudo e com todos, mas também quem não se estressaria com dias sem dormir e tendo que fingir que só está com frio quando na verdade os pulsos estão ardendo embaixo das mangas do casaco, você aguentaria? Aguentaria tudo calado sem ao menos ficar nervoso? Acho que não, mas não se sinta fraco por isso, Anna também não aguentava, Clarisse não aguentava e eu também não aguentava.
“Viver em dor, o que ninguém entende
Tentar ser forte a todo e cada amanhecer
Uma de suas amigas já se foi
Quando mais uma ocorrência policial
Ninguém entende, não me olhe assim
Com este semblante de bom-samaritano
Cumprindo o seu dever, como se eu fosse doente
Como se toda essa dor fosse diferente, ou inexistente.”
As pessoas costumam fingir se importar, mas é mentira, só querem que os outros pensem que eles são bons quando na verdade não são.
As pessoas costumam ignorar os mutiladores, costumam dizer que é para “chamar atenção”, mas veja só, não é melhor chamar atenção de outro jeito? Acham mesmo que alguém sente dor para chamar atenção? Claro que não, as pessoas não se importam com a dor dos outros.
A garota vivia se perguntando por que ainda estava ali, qual era o motivo de continuar viva? Ela não tinha nada nem ninguém que a prendesse naquele lugar, talvez só não tivesse coragem para fazer o que queria, como a amiga de Clarisse tinha.
“Nada existe pra mim, não tente
Você não sabe e não entende
E quando os antidepressivos e os calmantes não fazem mais efeito
Clarisse sabe que a loucura está presente
E sente a essência estranha do que é a morte
Mas esse vazio ela conhece muito bem.”
Ninguém entende e nunca vai entender, os mutiladores sofrem quietos por isso, ninguém nunca nos entende, na verdade as pessoas só entendem as outras quando passam elas mesmas pelo mesmo sofrimento, se não apenas ignoram, dizem que é loucura.
Anna também conhece esse vazio, essa essência. E você? A conhece? Se não, nunca queira conhecer.
“De quando em quando é um novo tratamento
Mas o mundo continua sempre o mesmo.”
Não são os mutiladores ou os doentes que precisam de tratamento, são as pessoas que julgam que precisam, são as pessoas que se acham perfeitas que precisam, enquanto essas pessoas não se tratarem a vida não melhorará.
“A falta de esperança e o tormento
De saber que nada é justo e pouco é certo
E que estamos destruindo o futuro
E que a maldade anda sempre aqui por perto
A violência e a injustiça que existe
Contra todas as meninas e mulheres
Um mundo onde a verdade é o avesso
E a alegria já não tem mais endereço.”
Estamos matando a esperança de pessoas inocentes com nossas palavras cruéis, estamos matando pessoas indefesas com nossas “simples” palavras. Palavras podem matar muita gente, muitos sonhos e muitos futuros, nós estamos matando tudo e todos com apenas palavras, palavras que matam mais que atos.
A maldade não existe só com meninas e mulheres, a maldade existe com tudo, somos maldosos com tudo. E a alegria? A alegria simplesmente desapareceu, não só de Anna e de Clarisse, mas de todos nós, ninguém consegue ficar alegre por muito tempo, sempre chega alguém e destrói a felicidade dos outros, como se fosse prazeroso, como se fizesse bem a ele.
“Clarisse está trancada no seu quarto
Com seus discos e seus livros, seu cansaço
Eu sou um pássaro
Me trancam na gaiola
E esperam que eu cante como antes
Eu sou um pássaro
Me trancam na gaiola
Mas um dia eu consigo existir e vou voar pelo caminho mais bonito
Clarisse só tem 14 anos.”
Anna também gosta de se trancar e ficar sozinha com suas coisas, apesar de que sozinha seus pensamentos a matam, mas é melhor se matar sozinha do que morrer com a ajuda dos outros.
Ela não tem esperança de que ainda vai voar, ela não tem esperança de que vai continuar viva por muito tempo, ela não tem esperança de que vai se livrar desse vício, ela não tem esperança em mais nada, o mundo matou todas as esperanças que ela tinha e vai acabar matando-a junto.
Anna também é jovem como Clarisse, se identifica com a garota da música mais do que gostaria.
“E Clarisse está trancada no banheiro
E faz marcas no seu corpo com seu pequeno canivete.”
Anna continua deitada com os olhos arregalados, não consegue dormir e muito menos esquecer a letra da música, ela tem quase certeza que daqui a poucas horas será ela no banheiro, com os pulsos sangrando, gritos silenciosos que ninguém jamais ouvirá.
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