SongFic - Now

1 Let's paint the ocean of red.


Notas iniciais
Me incentivem a escrever mais! Favoritem, recomendem, e deixem comentrios. Me deixa bem feliz. ♥

Don't try to take this from me
Don't try to take this from me
Now

– Vossa Majestade. – a voz ecoa pelo cômodo antes que os passos batam na madeira úmida. A mulher se limita a tomar uma respiração mais profunda, fitando pela janela redonda o tecido azul escuro que se estendia até onde sua vista alcançava, e lá no final, bem na linha do horizonte, uma coluna de rocha se estendia em uma torre e ela tinha certeza que a água do mar continuava calma até colidir com a costa. Com esse pensamento, a morena se voltou para o homem que havia adentrado sua cabine. Tinha barba grossa, mais que mal feita, pele queimada pelas horas ao sol com marcas de expressão e olhos cansados, porém dentro do cansaço, por baixo de toda fadiga, Liriel enxergava a determinação daqueles que perderam tudo, e agora não tinham mais nada a perder; enxergava o conhecimento de um comandante que a achara digna de sua liderança.

– Sor Teach. – Agora o homem realmente conseguira sua atenção. A menina se transformara em mulher em pouco tempo, e até seu timbre de voz se modificou. Era firme, sensata e até um pouco sábia. O tipo de voz que faz com que se espere grandes frases, e que motiva milhares a seguirem seus passos. Liriel era esse tipo de mulher. Esse tipo de Rainha. Os cabelos eram de um negro profundo, e os olhos de um azul que era a cópia fiel do mar que a pouco encarava. O corpo, antes escondido por espartilhos e vestidos, agora se encontrava embaixo de uma camada grossa de vestes rústicas e maleáveis, um pouco desgastadas pelo longo tempo em que vinha as usando. Na cintura, exatamente em sua bainha, uma espada de punho dourado era bem segura pelo punho real, e depois de todos os acontecimentos, era o lugar em que Liriel sempre vinha buscar apoio.

– Eles sabem, minha senhora. – O velho começou, tirando o chapéu da cabeça em sinal de respeito e abaixou o olhar antes de a encarar nos olhos com um pedido de compreensão estampado nas rugas de sorriso que a tempos ele não utilizava. Deve ter sido um belo rapaz, Liriel pensou o analisando e em seguida deixou todo o ar se esvair de seus pulmões por entre os dentes. Eles descobririam a qualquer momento, foi apenas um pouco mais cedo do que o esperado. – Eles sabem que a senhora sobreviveu ao ataque da Costa.

Feels like I'm waken from the dead
And everyone's been waiting on me
'Least now I'll never have to wonder
What it's like to sleep a year away

– Tem certeza disso, Teach? – perguntou apoiando as mãos na mesa de madeira alta a sua frente. Um mapa que a cobria por inteiro tinha os marcadores do exército de Southern Mountains. Segundo a atualização matinal de seus infiltrados, o navio estava cercado. Malditos! Liriel praguejou mentalmente, deixando a cabeça pender para frente enquanto respirava fundo, contendo o desespero que começava a afundar o peito. Não pode deixar de evitar o pensamento de que seu pai saberia controlar muito bem a situação, mas logo depois disso se lembrou que seu pai estava morto. Que eles o mataram, assim como a sua família inteira e metade do seu povo. Seu povo.

Lost the battle, win the war
I'm bringing my sinking ship back to the shore
We're starting over, well, head back in
There's a time and a place to die but this ain't it

– Apronte os canhões.

If there's a future we want it
Now

O velho homem ergueu o rosto do chão rangente em poucos segundos. Os olhos antes frágeis, agora cintilavam com uma animosidade monstruosa, mas ainda assim hesitantes.

– Tem certeza, minha senhora? – ele desejou não ter feito a pergunta assim que a última sílaba escapou de seus lábios secos de rum. Liriel ergueu a cabeça lentamente, ainda apoiada nos braços e o encarou por alguns segundos, os olhos azuis profundos e com o decorrer dos segundos, selvagens. Um sorriso cruel e amargurado nasceu nos lábios delicados, tirando toda e qualquer dependência do rosto da menina.

Menina, não. Mulher.

– Ah, eu tenho. Apronte os canhões, Sor Teach, reúna os marinheiros no convés, distribua as armas e a pólvora do paiol. Quero todos, sem exceção. Evacue as mulheres e crianças, mas apenas aquelas mulheres que desejarem ser evacuadas. Pode abaixar os botes e as enviar para... – Liriel tomou uma leve pausa para observar o mapa entre suas mãos. Achar uma brecha não poderia ser tão difícil assim. Um vinco se formou na testa da mulher, e os dedos de unhas curtas tracejaram um possível caminho calmamente — Costa à oeste? Sim... Entendido? O mais rápido possível, Teach. – Ela reforçou seu sorriso, mostrando os dentes de uma forma mais sombria do que o esperado – Hoje terminaremos com isso.

Don't try to take this from me
Don't try to take this from me
Now

Com uma reverência exagerada e um sorriso de concordância, o velho saiu da cabine, colocando o chapéu encardido mais uma vez na cabeça calva na parte de trás. Liriel soltou o ar, circulando pela cabine até se voltar novamente para a janela que encarava antes de receber as novas. O mar estava calmo, como se a incentivasse a ficar assim também, mas o coração da Rainha Legítima, como ficou conhecida, martelava em seu peito como um beija-flor prestes a alçar voo. As respirações profundas eram o que a acalmavam, por isso depois de mais uma, se esticou para a poltrona negra que apoiava seu longo casaco bordado em azul e dourado, as cores do brasão da Costa Sul. Do seu reino. A morena o colocou sobre os ombros, encaixando os braços nos lugares certos e deixou aberto para que o punho da espada prateada ainda fosse visível. Ao subir as escadas até o convés, a bota bateu e rangeu contra a madeira que cheirava a rum e pólvora, e assim que a luz do sol bateu em seus olhos, a visão lhe fugiu por alguns segundos. Assim que se acostumou, rodou os olhos pela área, observando todos os marinheiros que já haviam se reunido ao seu chamado. Liriel rezou a todos os deuses que sabia da existência para que fosse suficiente.

- Obrigada por me atenderem tão rápido. – começou, se colocando no ponto mais alto do convés, ao lado do timão. Olhos curiosos e famintos por informação a encararam imediatamente, e ao invés de se sentir impedida de falar, Liriel ergueu o queixo, apoiando a mão no punho da espada. Antes que abrisse a boca para continuar, um grito ecoou por todo o mar, e navio.

- Traidor! Traidor a bordo! – Os olhos azuis da Rainha se direcionaram para o pequeno tumulto que se formava. Sor Teach e outros quatro homem agarravam um capacho deformado, com o rosto disforme e ombros tombados para o chão – Traidor a bordo! – um dos homens gritou mais uma vez, e antes que todos os outros começassem a baderna, Liriel aumentou a voz.

- Já entendemos, marujo. – gritou com a maior autoridade que conseguia reunir. Todos a sua volta se calaram, e voltaram novamente os olhos ávidos para a mulher. – Tragam-no a mim. – pediu e com isso chamou a atenção do homem a quem chamavam de traidor. Ele a olhou e aos poucos o grupo que o segurava se aproximou dos pés cobertos da Rainha.

- Vossa Majestade. – Sor Teach fez uma breve reverência, assim como os outros quatro. Um silêncio tenso se estabeleceu enquanto Liriel esperava, e a deixava impaciente ter de pedir.

- Do que esse homem é acusado e com quais fundamentos, Sor? – insistiu erguendo as sobrancelhas enquanto continuava a encarar o homem que parecia olhar para todo o oceano, menos para o rosto de sua Rainha.

- Traição, Majestade. – Sor Teach ergueu um saco de couro para a rainha, e pelo peso Liriel já sabia do que se tratava – Ouro. – Sor Teach confirmou com um olhar de repugnância para o homem imundo a quem agarrava o braço. – Forneceu informações a comandantes do exército de Southern Mountains em troca desse ouro. Informações sobre nosso navio, nosso armamento e... Sobre a sua permanência na terra dos vivos, minha Rainha.

Ao fim da frase, os marinheiros que prestavam atenção a cada palavra explodiram em gritos de “Traidor!” e “Escória!”. O homem que evitava o olhar da Rainha agora ergueu seu olhar e Liriel se lembrou de onde o conhecia.

- Bertlov, estou correta? – perguntou o encarando nos olhos com as feições mais geladas a cada instante. A raiva borbulhando em seu peito.

- Sim, eu mesmo. – a resposta foi dada sem nenhum sinal de respeito à mulher a sua frente. E Liriel se surpreendeu apenas por um momento com seu descaso.

- Se me recordo bem, o senhor foi o último a subir a bordo. Estou correta, Bertlov? – Ela se lembrava daquela noite. Se lembrava daquele homem. Na noite em que fugiu do ataque à sua casa, na noite em que Sor Teach a levou para o navio, ele pediu ajuda:

- Por favor, minha senhora. – ele disse. E ela o ajudou. O colocou a bordo mesmo quando os soldados estavam prestes a encontrar sua rota de fuga e descobrir que a princesa ainda respirava. Ela o ajudou.

- Sim, está. – dessa vez foi a única coisa que o homem respondeu. Seu rosto deformado se contorcia em espasmos, e Liriel apertou o saco de ouro entre os dedos, tomando uma respiração longa e em um único movimento atirou o ouro ao mar.

- Pegue. – disse depois de esperar tempo suficiente para que o ouro pudesse afundar no mar. Observou o homem enquanto sua boca se abria lentamente e ele assimilava a ordem. Sor Teach a observou por alguns instantes e em seguida soltou o homem, sendo seguido com hesitação pelos outros quatro que o mantinham no lugar. Bertlov se manteve parado, observando o lugar onde seu ouro havia sido jogado. – Eu disse: pegue. – Liriel repetiu lentamente.

- Minha senhora... – Bertlov ergueu os olhos para ela, soltando soluços deformados por sua boca caída.

- Eu disse: Pegue. Não me faça repetir. Você foi o último a subir, tenho certeza que é capaz de subir a bordo mais uma vez, senhor. E com o seu ouro. – Ela sorriu para ele e acenou com a cabeça para o mar novamente. – Pegue.

O homem caminhou lentamente até a borda do navio, olhando para trás em pedido de uma misericórdia que não veio. Se equilibrando com dificuldade, o homem pulou.

Wish I could find a crystal ball
For the days I feel completely worthless
You know I'd use it all for good
I would not take it for granted
Instead, I'd have some memories
For the days I don't feel anything
At least, they would remind me
Not to make the same mistakes again

Um silêncio desconfortável se instalou no navio depois que o barulho do pesado homem caindo na água se esvaiu com o vento. Todos prenderam a respiração e esperaram que ele voltasse, mas todos também sabiam o resultado. Naqueles minutos de silêncio, Liriel encarou o mar, ponderando suas atitudes e nesses segundos, um estandarte laranja e amarelo tremeluziu na linha do horizonte, e a mulher até achou que fosse apenas um truque de luz, mas poucos minutos depois um novo estandarte passou a tremeluzir com o vento. Cada vez mais perto, cada vez mais visível.

- Baixar velas! – Gritou correndo para o timão e o virando na direção dos navios. Na direção da possível morte de todos ali. – Carregar canhões e distribuir pólvora e ferro! – Os marinheiros ainda assimilavam o que estava acontecendo e aqueles que encaravam o horizonte se apressavam para realizar todas as ordens. Sor Teach a olhou por um tempo, sorrindo em aprovação para depois se apressar em dar ordens pelo convés. Em poucos segundos, o ar a volta do navio ficou carregado de medo e apreensão, de alegria insana por parte dos mercenários, de cheiro de urina, pólvora e vômito, assim como risadas e tlintar de ferro contra ferro.

Os navios se aproximavam tanto do sul como do norte, e no mínimo seriam seis deles. Liriel agarrou o timão com ambas as mãos, afastando a leve vertigem, e trincou o maxilar com o pânico que começava a se apossar de seu corpo. Aos seus ouvidos chegavam os soluços de desespero, gritos de “Os canhões!”, “Para a popa!” e “Mais pólvora!”. Alguns enchiam a cara e outros se desesperavam, ponderando se atirar no mar.

- Atenção! – Liriel gritou em um surto de esperança ou medo, até hoje não se sabe. – Atenção, por favor! – os gritos aos poucos se cessaram, e os marujos, seu povo, a encararam em um silêncio tumultuado. Os navios se aproximavam devagar, deslizando pelas águas como víboras prestes a atacar e Liriel não sabia se seria imune a esse veneno. Subindo na borda do navio e se apoiando em cordas, a mulher varreu os olhos pelos homens a sua frente, respirando cada desesperado e suando cada grão de pólvora.

Lost the battle, win the war
I'm bringing my sinking ship back to the shore
We're starting over, well, head back in
There's a time and a place to die but this ain't it
If there's a future we want it
Now

– Marujos... Senhores. Meu povo. – Ela engoliu em seco, descendo o bolo em sua garganta e o trocando por determinação. O vento batia nas velas abaixadas e o navio continuava sua direção lentamente para a armadilha de homens fardados que os aguardava – Não posso pedir mais do que já estão me oferecendo. Não posso querer mais do que estão dispostos a me dar. Suas vidas. Suas armas. Seus gritos de guerra e suas gotas de suor. Mas em troca eu lhes ofereço liberdade. Eu lhes ofereço terra e calma. E não é por mim ou por mera vingança que os trago para mar aberto, que deixo o inimigo navegar em nossa direção com armas, sede de sangue. É por suas mulheres. Por suas crianças. Por seus netos, bisnetos e por suas filhas.

If there's a future we want it
Now

- Por todos esses que peço que tenham tanta fome e tanta sede quanto aqueles que desejam tirar nossa terra! E eles que vem como aqueles monstros marinhos que assombram as histórias dos nossos antepassados, encontrarão aqui nesse navio os marinheiros que não desistirão por medo de suas presas. Que aqueles que devem dar suas vidas, deem , mas com um propósito e com algum valor. Que, se for necessário, o aço corte nossa pele, e a pólvora queime nossa carne, mas que levemos o maior número possível de serpentes para o inferno, e que aqueles que lutarem bravamente por suas famílias cheguem ao Paraíso em paz. Que morram como heróis!

“Aqui nesse navio, faremos história e mostraremos a eles que não!, senhores. Que eles não podem nos tirar o que é nosso. Mostraremos que número não faz diferença quando se trata da nossa casa. Mostraremos a ele como fazemos justiça”.

.

There's a time and a place to die
There's a time and a place to die
And this ain't it

Até o ultimo marinheiro prendia a respiração, e Liriel se encontrava ofegante, com lágrimas nos olhos e um sorriso nos lábios. O cheiro de urina ainda dominava o ar, mas algo maior que isso atingia os céus. Esperança. Coragem. Medo. Porque afinal, não existe um sem o outro.

- Nós mostraremos a eles, senhores. – Liriel sussurrou pulando da borda e assim que ela tocou madeira que rangia, todos explodiram em gritos. Ergueram suas armas e olharam para os céus em uma oração barulhenta, em um pedido de misericórdia e ajuda aos deuses. Porque eles não podiam falhar. Aqueles homens não queriam falhar.

- Apontar canhões! – um dos marujos gritou por sobre os gritos e ao sinal da Rainha Legítima, as bolas foram atiradas em direção ao inimigo, quebrando com o barulho da madeira e queimando o que houvesse em seu caminho. Atingiram o alvo com o mar se agitando sob os cascos dos navios, como se soubesse que seria palco de uma guerra.

There's a time and a place to die
There's a time and a place to die
And this ain't it

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