Son of Hephaestus
27 Chapter 27 - Decline
Notas iniciais
Allycia precisou de alguns segundos para absorver a oferta. Seu coração perdeu uma batida e ela havia notado Nico erguendo a cabeça para a menina naquele instante.
– Imortalidade, habilidades inimagináveis, autonomia, poder... E tudo que eu peço é que abandone a vida romântica ao lado de garotinhos e jure lealdade.
– Eu... Eu não sei o que dizer. — ela balbuciou — Por que tenho que abandonar garotos?
– Para não se tornar tola, fútil, insegura, nunca se importar com o que esta raça inferior pensa sobre você. Torna-se independente juntando-se a nós.
– Também não precisa atacar. Não somos tão ruins assim. — murmurou Leo.
Charlie deixou escapar um muxoxo descontente.
– A filha de Afrodite não acredita em mim. Por isso não tenho nenhuma seguidora do seu tipo. Acham que romance é mais importante que independência. Não a julgo, é a virtude de sua mãe. Ser submissa...
– Não sou submissa de ninguém assim como amar uma pessoa não te faz fraca e dependente. Muitas vezes te deixa mais forte ainda. — rebateu Charlotte, calmamente.
– Disse a menina que tem dois meninos salvando sua pele sempre que tem alguma batalha.
– Eles são meus amigos, meus parceiros de missão. Não estão salvando minha pele, estão me ajudando.
– Se você diz. — Ártemis deu de ombros, desinteressada.
– Uma vida sem Leo, Percy... Nico... Não é o tipo de vida que eu iria querer viver. — murmurou Ally, pensativa.
– E você já parou para pensar se eles se importam tanto assim? — questionou a deusa.
– Eles se importam, sei que sim... Todos eles, acho. — ela lançou um olhar de canto para Nico, ele não percebera.
– Sem mencionar o fato de que poderá ver Percy Jackson e Leo Valdez algumas vezes, só renunciará ao amor romântico.
Ela olhou para Leo, que devolveu o olhar intensamente. Charlie olhava para o chão, a expressão fechada. E então ela olhou para Nico. Ele tinha um olhar indecifrável para ela, como se quisesse dizer mil coisas mas não conseguisse.
– Eu... Perdi minha irmã para vocês uma vez. Eu não quero perder Ally também. — ele falou.
Charlie sentiu uma centelha de esperança. Esse era o Nico real, o que sentia e se expressava. Não o garoto confuso com seus sentimentos, o garoto fechado. O garoto que precisavam para fazer Ally mudar de ideia.
– Mas eu e Nico não... Por que eu... — ela parou, frustrada. O que ele dissera a desarmara completamente.
– Eu entendo, Nico di Angelo. Bianca foi uma ótima caçadora em seu curto tempo conosco. No dia que você perdeu uma irmã, eu também perdi uma. Todas somos irmãs aqui, todas somos iguais.
– Isso é pura besteira. Você não entende. Você a levou a de mim e agora quer levar Ally. Isso não é justo... — ele falou. A tristeza e magoa eram evidentes.
– Nico — interrompeu Thalia -, sei que é difícil acreditar, mas entrar para a caçada muda uma pessoa, para melhor. Sei o quanto doeu perder Bianca por que eu passei por isso.
– Jason voltou, Bianca não fara o mesmo. — ele cortou.
– Mas não é justo você bombardear Ally agora, a decisão é dela. — concluiu calmamente.
– Não foi minha intenção — ele falou, após alguns segundos em silêncio. — Eu quero que você pense com cuidado Ally. Quero que escolha o que te faz feliz. A caçada irá te proporcionar um crescimento inimaginável... Só quero que você saiba... Que estou com você, não importa o quê.
O pensamento daquela linha da profecia nunca se fez tao claro em sua mente. Então ela entendeu: "A Forja e o Mar, o amor conhecerá"
– Suas habilidades serão de bom uso conosco. — continuou Ártemis — Tenho lhe observando desde o torneio de arco e flecha n'O Olimpo. Terá devido reconhecimento conosco.
Após alguns segundos de silêncio, Ally lançou um olhar para os amigos no recinto. A cada um seu coração afundava, até seu olhar cair em Nico. Uma explosão confusa de sentimentos espalhara-se pelo seu peito. O que fazer? Sentia-se inclinada a aceitar a oferta. Nico a impedia, a fazia pensar demais.
– Eu preciso de um tempo. — ela anunciou, saindo da barraca, atordoada.
Ela correu até a van deles — que estava de costas pra barraca — e sentou-se no capô, abraçando os joelhos. A luz da lua desbotava tudo a sua volta com seu brilho prateado. Ela tinha a leve impressão de que tudo estava sem nenhuma cor. Nada além de preto e branco. Ela fechou os olhos fortemente, tentando impedir que chorasse. Isso só pioraria. Entrar para a caçada era algo enorme, bom, mas terrivelmente importante. Uma vez feito o juramento, era para sempre. E se não suportasse? E se desistisse? Lady Ártemis nunca a perdoaria. Ela soltou um soluço involuntário e então ouviu passos.
– Pare. — ela falou, duramente, mas a voz estava fragilizada. — Pare agora.
– Ally... — era Nico. Após alguns instantes, ele apareceu em sua frente, uma distância segura entre os dois.
– Pare, Nico. Por favor.
– Eu... desculpe. — ele se parou onde estava, frustrado, derrotado, incerto. Allycia sentiu ódio. Iria desistir tão fácil assim?
– Não.
Ele a olhou.
– O quê? — perguntou, perdido.
– Eu disse pare. Pare com isso. Eu não consigo mais.
– Pare com o que? — ele estava confuso, mas ela percebeu que Nico queria mesmo entender.
– Pare de me confundir. — ela estava com o rosto quente (e certamente avermelhado. As "vantagens" de ser ruiva) e sentia as lágrimas frias descendo pelo rosto. Nico se aproximou dela, assustado. — Pare de me torturar desse jeito.
– Eu não... Allycia, eu nunca faria isso.
– Eu já disse que não sou a garota que pensa. Pare de brincar comigo. Pare de ser ríspido e grosso e, no instante seguinte, calmo e amoroso. Pare de me confundir. Por favor... Eu estou enlouquecendo!
– Eu não faço de propósito. É você quem me confunde. É você que uma hora briga comigo e, depois, quer que eu fique com você no acampamento. É você quem... Me beija... E em seguida sai correndo irritada por algo que eu ainda nem sei o que é. É você quem dificulta.
– Eu te odeio tanto. — ela disse.
– Você...
– Eu tenho vontade de te socar e dar de comida para um ciclope e, ao mesmo tempo, de te beijar e dizer que sou apaixonada por você. Nico di Angelo, você é insuportável.
Nico a encarou por vários minutos. Como se quisesse lembrar de cada momento. Ela era muito diferente de Percy. Adoração heróica, ele lembrou. Mas ela era diferente. Era vulnerável e forte, destemida. Não tinha receio em demonstrar sentimentos. Diferente de Nico. Talvez ele gostasse tanto dela apenas porque ela era diferente dele.
Então ele também gostava dela, constatou.
Nico se aproximou da van, ficando de frente para Allycia. Ela o olhou com os olhos inchados e a pele rubra, a expressão carrancuda. Ele a achou linda. Ele segurou o rosto dela em suas mãos e, com o dedo, secou cada lagrima. Ela mantinha a testa franzida e a boca comprimida. Nico conteu a vontade de sorrir. Ela parecia uma criança fazendo birra e ele achara aquilo a melhor coisa do mundo. Por fim ele simplesmente sustentou o olhar dela e se aproximou. Antes que seus lábios pudessem se encontrar, ela o interrompeu, segurando-o pelos ombros.
– Se não for real, se não for recíproco e nem verdade, não faça isso. Se estiver fazendo isso por pena, vire-se agora e siga seu rumo, não piore as coisas.
Ele a beijou.
***
Ártemis compreendeu. Ainda bem que Ártemis compreendeu, pensava Charlie.
Ela não dormira a noite toda. Desde que pararam a van naquele penhasco ao lado da estrada, ela deitara no peito de Leo -que estava sentado no banco do motorista — e ali ficara aconchegada. Ouvindo o coração dele pulsando e a respiração calma durante o sono. Ela sentia mil arrepios pelo corpo quando estava perto dele, era confortável e feliz essa sensação. Mas o peso que sentia no diafragma a deixava nervosa. Como se coisas ruins estivessem para acontecer. Estava chegando ao fim. Dirigiram quase a noite toda e já estavam em Salt Lake. Mais algumas milhas e chegariam a Califórnia. E então... Era "só" umas questão de encontrar Afrodite e entregar seu espelho.
Mas seu mau pressentimento era insistente. Ela se levantou cautelosamente, para não acordar Leo, e saiu da van. Em sua rápida olhada para o banco de trás, viu Nico e Ally adormecidos de forma desconfortável, os dois sentados a uma certa distância, mas suas mãos estavam a alguns centímetros de se encontrarem.
Eles haviam se beijado, ela sabia disso, percebera o olhar no rosto dos dois, mas ainda mantiam uma polidez exagerada um com o outro.
Ela revirou os olhos e dirigiu-se até a beira do penhasco. Uma sensação nauseante de estar perto de uma queda livre tomou conta, mas a visão do nascer do sol mais acima a distraiu. Ela nunca vira um amanhecer. Era como se uma tinta escura se misturasse com branco ou algum diluente e clareasse gradativamente o dia. O azul escuro — sem estrelas por causa da iluminação — o índigo e o azul bebê com reflexos rosados. Ela sentiu alguém por os braços em volta de sua cintura e ofegou. Leo a assustara.
– Isso, me faça cair desse penhasco direto para a morte irreversível. — ela disse, sorrindo. Um revirar confortavel dentro dela.
Charlie sentiu o peito de Leo se agitar contra suas costas enquanto ria.
– Fale por si própria — ele disse, com a voz rouca. Charlie sabia que ele estava sorrindo. Aquele sorriso maroto, de lado. Como se tivesse planejado alguma pegadinha maldosa e apenas esperava ela se concretizar. Uma arrepio trespassou o corpo dela. Ela ainda não os superava, mesmo após todo esse tempo. — Por que acordou tão cedo?
– Eu nem dormi.
– Você tá bem?
– Na medida do possível. — ela deu de ombros. Leo apoiou o queixo no topo da cabeça dela. Tinham apenas essa diferença de altura.
– Na medida do possível? — repetiu ele.
– É... Acho que odeio minha mãe.
– Todos odiamos, por nos abandonarem e tal... — ele suspirou.
– Não... Não por mim... — ela disse, pensando. — Pelo meu pai. Ela deixou ele, sem mais, nem menos. E então... BUM! Charlotte aparece... — ela ficou em silêncio alguns minutos. — Ele nem sabia e a amava tanto.
– Sabe, a minha morreu, por minha culpa. — ele falou baixinho. — Quer dizer, não por minha culpa, mas por minha culpa. Entende?
Charlie franziu o cenho. Leo não fez isso, ela sabia disso.
– Como assim?
– Gaia... Ela estava lá, então... Tudo pegou fogo. A nossa oficina... — ela o sentiu sorrir desanimado. Podia imaginar ele olhando para baixo, com um olhar triste. — A gente tinha uma oficina. Aprendi grande coisas com ela. Minha mãe era a pessoa mais incrível que já conheci.
– Qual era o nome dela? — sussurrou Charlotte, seus olhos estavam marejados. Um Leo frágil daqueles, diferente do garoto que sempre fazia piadas. Era um Leo fácil de se apaixonar. Um Leo Valdez incrível. Ela o amava.
– Esperanza. — ele suspirou.
– Aposto que ela era linda.
– Claro que sim, ou acha que a minha beleza foi herdada de Hefesto? Quer dizer, você já viu ele? — ele riu, descontraindo.
Charlie sorriu, dando uma risadinha. A sra. Valdez ainda era algo delicado para Leo. O sol já havia saído completamente quando Charlie falou:
– Você sabe que não foi sua culpa. Quando Gaia está envolvida...
– É diferente.
– Não, não é. — ela se virou para ela. Seus olhos verdes encaravam os castanhos de Leo. Ela colocou as mãos em seu rosto e beijou cada bochecha, em seguida depositando um leve beijo em seus lábios. — Eu te conheço, Garoto de Reparos. Não foi sua culpa, eu sei que não.
Ele a encarou de volta pensando "O que eu fiz pra ganhar uma garota dessas? Ela era tão perfeita."
– Vamos lá, temos uma longa viagem pela frente. — Falou Leo, puxando sua mão suavemente até o carro.
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