Somos Todos Monstros?
3 Mistérios
— Você não me parece exatamente do tipo aventureiro...
Harword abriu os olhos preguiçosamente quando ouviu aquela voz feminina e indiferente perto de si. Porém, cerrou-os devido ao sol que incidia em seu rosto e foi obrigado a erguer a mão para proteger os orbes castanhos de tamanha luminosidade. O que viu foi apenas a sombra de uma Atiradora de Elite de longos cabelos levemente cacheados.
— Ah... Você é... Shecil, certo?
A moça apenas anuiu com a cabeça e sentou-se na grama verde ao lado do rapaz.
O jardim da Corporação Rekenber era magnífico. Provavelmente até mesmo o Rei Tristam III invejava o ambiente. Um largo caminho de pedras largas e claras que ia do portão até a grande porta do edifício era ladeado por um gramado verde vivo. Pequenos canteiros salpicados com flores multicolores seguiam esse caminho. Violetas, campânulas lilases, rosas selvagens e outra infinidade de flores coloriam o local. No centro de cada um dos gramados havia duas fontes idênticas, jorrando água fresca pelo vaso que uma Obeaune segurava displicente nos ombros.
— O que faz aqui fora? – A loira observou uma das estátuas de maneira distraída, como se não tivesse outra coisa para olhar.
— Eu cansei dessa mesma rotina... Treinos, avaliações, mais treinos, testes... Além do mais, aquele tal do Removal me dá arrepios. – O Mestre-Ferreiro murmurou de mal humor.
Removal. Esse era o nome de um dos cientistas de cabelos azulados de que dispunha a Corporação Rekenber. Desleixado, era dono de um senso de humor misterioso, para não dizer duvidoso, além de sempre carregar consigo sua máscara de solda. Era ele o responsável por cuidar dos equipamentos e da segurança de toda a equipe de cientistas e heróis. Ele também ajudava no reparo dos equipamentos – por isso a máscara – e dos trajes de batalha, e não escondia sua satisfação quando via as garotas lhe visitando para seus serviços.
— Hm... – Foi a única coisa que a mulher respondeu. O olhar continuava focado na estátua.
— Então... O que foi aquele comentário anterior? – Harword sentou-se. Havia percebido somente agora o quão rude estava sendo deixando seu peito bronzeado à mostra como se ele estivesse em uma praia qualquer.
— Nada demais... Apenas não sei o que pensar de alguém como você num lugar como este. – Shecil foi incisiva, parecendo um pouco mais à vontade agora que o rapaz estava devidamente sentado – mesmo que não estivesse devidamente coberto.
— Simplesmente... Acho esse lugar estranho. É algum crime?
— Longe disso... – A Atiradora de Elite deu de ombros, dando o assunto por encerrado. E então ergueu o olhar, como se quisesse alcançar o céu azul apenas com o pensamento.
O Mestre-Ferreiro observou o gesto da loira, mas não conseguiu tirar os olhos dela. Não do rosto, ou das melenas belamente penteadas. Mas sim dos olhos cinzentos da jovem. Pareciam tristes, ou misteriosos demais para definir que sentimento eles passavam. Mas agora era óbvio que transmitiam apenas o jeito sonhador da loira ao seu lado.
— Você tem lindos olhos... – Harword murmurou. E depois observou uma das campânulas coloridas perto de si distraidamente. Obviamente não fora um elogio com segundas intenções, mas só Odin saberia o que Shecil pensaria dele agora.
— Hm... – A garota murmurou meio distraída, no entanto o rubor em seu rosto denunciava que ela escutara perfeitamente o comentário despretensioso do homem ao seu lado. – Logo haverá as batalhas finais, você sabia? – A Atiradora de Elite passou uma mecha de seu cabelo para detrás da orelha, tentando mudar de assunto.
— Ah, sim... Apenas os melhores irão, não é? – O Mestre-Ferreiro ergueu os olhos para uma nuvem que passeava preguiçosa pelo céu, como se não houvesse amanhã. – Isso está cada vez mais estranho... – Ele riu de maneira seca, sem humor algum.
— Eu sabia que você não era do tipo aventureiro... – A loira murmurou mais para si mesma do que para ele. Mas antes que Harword pudesse perguntar, Shecil levantou-se e deixou-o sozinho, caminhando silenciosamente de volta para o prédio da Corporação Rekenber.
— Você goooooosta dela... – Uma voz baixa e feminina ronronou ao pé do ouvido do Mestre-Ferreiro, que teve um sobressalto.
— Com mil Deviruchis, Armaia! Quer me matar do coração?! – O rapaz de cabelos verdes pousara a mão no peito, sentindo o coração martelar com tanta força que mais parecia um tambor. Como resposta, Armaia apenas deu uma risadinha marota.
~*~
— Vamos, vamos, por aqui, meus caros. – A garota de cabelos róseos chamou alegre, sendo acompanhada pelo rapaz loiro.
— Vocês não querem comer uma janta fria, não é? – O loiro sorriu de leve, seguindo-a enquanto enlaçava a jovem pela cintura e seguia para a mesa onde era servido o Buffet.
Dezenas de guerreiros começaram a adentrar o salão pela porta dupla. A maioria parecia cansada e abatida. Outros ainda estavam sujos de terra. E uma pequena minoria parecia bem, apenas com alguns pequenos curativos nos braços.
— Eu odeio tirar sangue, Harword! – Armaia choramingou, enquanto sentava na mesa junto com o colega. Assim que havia se ajeitado, olhou feio para o curativo, como se ele fosse o culpado pela dor da agulha.
- Você tem que deixar de ser chorona, Armaia. Eu disse que você não precisava ter ficado. – O mais velho suspirou, sentando-se também. Mas, no fundo, ele estava feliz por estar junto da Mercadora. Ele também exibia o curativo no braço. E o mesmo curativo estava no braço de Seyren, Ygnizem e dos outros.
— Ela parece um caco, não é? – Magaleta murmurou para Armaia, apontando para Katrinn, que se sentava em uma mesa ao longe. Profundas olheiras podiam ser vistas logo abaixo dos orbes azuis da Arquimaga que, fora isso, parecia bem.
— Eu não a culpo. Eremes deve estar dando trabalho para ela a noite. – Seyren murmurou. Quando notou o olhar de todos sobre si, a ficha pareceu cair e ele pigarreou, levemente enrubescido. – N-Não esse tipo de trabalho, claro. E-Ele deve estar, ahem, assustando ela.
— É... Faz quase duas semanas que estamos aqui. Eu não me admiraria se Eremes já tivesse atentado contra a vida de Katrinn. – Shecil balbuciou de olhos fechados, enquanto remexia em sua comida sem vontade. Kavac afirmou silencioso com a cabeça, enquanto comia da mesma forma.
O jantar fora silencioso. Fora alguns comentários sobre o treinamento, nada de muito importante fora dito. Harword notou como Armaia ficava desconfortável com tamanho silêncio, por isso resolveu quebrá-lo com algum assunto trivial.
— Aqueles dois fazem um... Hmmm... Bonito casal. – O Mestre-Ferreiro murmurou, enquanto encarava o guia loiro ainda com a mão enlaçada na cintura da jovem de cabelos ruivo-rosados. Depois se bateu mentalmente ao notar que, além de trivial demais, seu comentário ficou mais do que estranho. Porém, ninguém pareceu perceber.
— Ah... Eles não são um casal. São irmãos gêmeos. – A Atiradora de Elite murmurou, empurrando o prato limpo para o centro da mesa.
Com exceção de Kavac, todos na mesa arregalaram os olhos, pasmos. Erend até mesmo se engasgara com o pedaço de pão que comia. Magaleta logo foi acudir o aprendiz, dando-lhe tapinhas firmes nas costas.
— Gê-Gêmeos?! – Seyren exclamou embasbacado. Shecil anuiu com a cabeça indiferente.
— Foi o que eu ouvi em um dos meus treinos de sentidos.
Esse era um dos treinamentos em que Arqueiros, Caçadores e Atiradores de Elite eram submetidos, para saberem quão aguçados eram os sentidos dos mesmos. E Shecil parecia ser a melhor dos melhores.
Porém, antes mesmo que pudessem continuar a conversar sobre o estranho assunto, os tais “gêmeos” aproximaram-se da mesa dos aventureiros, ambos com um largo sorriso no rosto. Magaleta até mesmo suspirou apaixonada, sem tirar os olhos do rapaz loiro. Erend deu-lhe uma cotovelada forte nas costelas para que a mestra retomasse a compostura. E isso ela fez imediatamente, lançando um olhar feio para o aprendiz, que apenas deu de ombros.
— Viemos avisar que estão liberados do treinamento dos próximos dois dias. – A garota falou, sem deixar de sorrir.
— Vocês passaram em todos os testes com louvor, e merecem um descanso. Já estão qualificados para as batalhas finais. – O loiro passou a mão pelos cabelos de forma charmosa, sem deixar de sorrir igualmente.
— E... O que são essas batalhas finais? – Seyren estreitou os orbes, encarando os dois com desconfiança. Porém a garota apenas deu uma risadinha alegre.
— Ora, não seja bobo. Vocês lutarão com os que sobrarem aqui. Se forem realmente os melhores...
— Terão a honra de enfrentar Thanatos! Bem, tirem os dias de folga. Vemos-nos nas finais. – O loiro acenou, enquanto caminhava até a mesa onde Eremes e Whikebain jantavam. O grupo apenas acompanhou-os com o olhar. A sua “irmã” foi até a mesa de Katrinn e Rawrel.
— Finais uh? Veremos o que a Corporação Rekenber está escondendo logo logo. – Seyren murmurou baixo e misterioso, enquanto encarava os gêmeos. Harword apenas afirmou com a cabeça, seguindo-lhe o olhar.
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