Somos Todos Monstros?

2 Destinos entrelaçados


Há alguns anos, a Corporação começou a escavação da maior e mais antiga prisão da qual se tem conhecimento: A Torre de Thanatos. Meus mais bravos guerreiros tentaram subi-la para enfrentar aquele vil monstro. Os dois primeiros andares foram purificados com sucesso. Porém, no quarto, minha expedição pereceu. Nenhum voltou com vida. – O homem loiro discursou, com a voz solene. – Por isso, poucos meses depois, contratei um novo grupo de aventureiros para voltar a subir essa maldita torre. Eles foram deveras mais longe, mas pereceram também. E assim sucessivamente. Até que consegui mapear os treze andares da prisão. Muitos morreram pelo meu desejo. E ele ainda não está completo... – O fundador estreitou os olhos, fazendo uma pausa longa – até demais.

Armaia prendeu a respiração e segurou o braço de Harword enquanto estremecia.

Thanatos ainda está de pé! O monstro que dizimou nossa raça há mais de oitocentos anos ainda vive! O meu desejo é que ele pereça ante nossa força! – O discurso curto e fervoroso ergueu o ânimo dos convidados. – E eu quero que vocês, meus nobres heróis, sejam os responsáveis por isso!

Um urro encheu o salão. Armaia apertou ainda mais o braço do Mestre-Ferreiro, e agora parecia assustada. Harword permaneceu sério. Ygnizem sorria de forma divertida e Seyren estava igualmente sério. Wickebain e Eremes sorriam com a malícia e a cobiça estampadas no olhar. Rawrel permanecia indiferente, apesar de sua mestra sorrir com algum interesse. Magaleta parecia não ter processado a ideia, enquanto Erend balançava a cabeça em sinal de reprovação. Por fim, Shecil estreitou os olhos desconfiada, enquanto Kavak continuou impassível.

Harword, eu quero ir embora... – Armaia murmurou baixinho, apertando-lhe o braço com uma força desnecessária, que já chegava a machucar.

Tudo bem, pode ir... – O jovem cerrou os olhos. – Algo não me cheira bem nessa história...

N-Não! Eu não vou sem você! – A Mercadora exclamou, soltando-lhe o braço.

A-Armaia... – O rapaz arregalou os olhos, surpreso.

Eu sempre estive sozinha... Até você aparecer... Eu tenho uma sensação muito ruim sobre isso... E, se você vai ao fundo disso, eu também quero ir! – A loirinha encarou-o de maneira intensa e decidida.

... Você é uma boa garota, Armaia... – O Mestre-Ferreiro sorriu, afagando as melenas alouradas da colega. A garota ficou imediatamente corada.

Meus caros guerreiros, os que acham que não estão aptos para esta empreitada, por favor, as portas estão abertas. Para aqueles que acham que podem peitar aquele monstro, peço que sigam os meus criados para ganharem suas acomodações. E, para aqueles que ainda estão em dúvida, ganharão três dias para se decidirem. Obrigado pela sua atenção e tenham uma boa noite, senhoras e senhores. – E, com uma vênia pomposa, o homem sumiu atrás das pesadas cortinas que haviam no topo da escada.

Harword respirou fundo e acompanhou algumas pessoas, que eram guiadas por um homem de cabelos curtos e loiros. A outra metade era guiada para o outro lado do salão, por uma moça de cabelos ruivos e igualmente curtos. O resto deixou o salão, entre burburinhos assustados e murmúrios confusos.

~*~

Apesar dos aventureiros tomarem caminhos distintos no salão, o destino fora o mesmo. Depois de descerem um lance de escadas, acabaram em uma espécie de cafeteria. Havia uma mesa larga perto da parede embutida no chão, onde provavelmente seria servido o Buffet futuramente. O chão era de azulejos pretos e brancos, enquanto que a parede fora pintada de branco. Havia janelas compridas perto do teto, todas agora fechadas pelo horário. As mesas foram afastadas para os cantos, junto com os bancos. Havia apenas uma mesa central com uma grande urna de madeira e ali os guias subiram habilmente, com passos idênticos.

Muito boa noite, caros aventureiros! – A mocinha de cabelos ruivos meio rosados e olhos de igual cor cumprimentou, bem animada. Ela estava de mãos dadas com o homem loiro, e os trajes eram deveras parecidos.

Ambos usavam uma espécie de jaqueta vermelha com plumagens amarelas, como os Arruaceiros e Desordeiros. A garota trajava um top negro por debaixo da jaqueta e a calça era da mesma cor, assim como sua bota. Já o rapaz não usava nada por debaixo de sua jaqueta, deixando o físico bem definido à mostra. Sua calça era preta, assim como os sapatos.

Dentro desta urna está o número de seus quartos... Não troquem os papéis para não haver confusão mais tarde... – O rapaz falou de forma charmosa, passando os dedos da mão livre pelos cabelos. Foi possível ouvir algumas garotas suspirarem.

Por favor, apenas tirem um número e sigam para seus aposentos nos corredores, sem tumultos. – A jovem tornou a falar, abrindo a urna para que os aventureiros da frente pudessem tirar sua sorte.

Aos poucos o salão foi se esvaziando e os guerreiros sumiram pelo corredor, em busca de seus devidos quartos. Os últimos a saírem foram o Mestre-Ferreiro, a Mercadora e o Lorde.

Oh, tiramos a sorte. 47! – Seyren exclamou certamente animado. Ele e o rapaz de cabelos esverdeados tinham, em seus respectivos papéis, o mesmo número. Obviamente, haviam ficado no mesmo aposento.

Que droga... Por pouco... O meu é 49! – Armaia exclamou, balançando o papel energicamente na mão. – Espero ter essa sorte e ter ficado com a sua irmã. – A loira completou, com um sorriso gentil.

Enquanto o trio caminhava pelo corredor, observando o número das plaquetas prateadas sobre as portas e desviando de alguns aventureiros que passavam meio perdidos por ali, houve uma explosão, pouco mais à frente.

Isso só pode ser BRINCADEIRA! – Uma voz feminina berrou. Era possível ver uma silhueta alta e masculina levantar-se contra a parede no meio da fumaça, gemendo.

Tsc... E isso é ridículo... – O homem gemeu. Assim que a fumaça dissipou-se, Eremes Guile destacou-se, tirando a sujeira das roupas de Algoz.

Algum problema por aqui, senhores? – Seyren logo interveio, colocando a cabeça para dentro do quarto. Nele, uma Katrinn furiosa lançava farpas pelo olhar e ainda permanecia com o seu Cajado do Sobrevivente em posição.

Ahem... Este... Esta... Criatura rebaixada tentou invadir meu aposento... Mas já está tudo sob controle. – A Arquimaga respirou fundo e recobrou a calma, olhando para o Algoz com desgosto.

Sinto lhe dizer... Mas foi uma piada muito sem graça do senhor destino... – Eremes ciciou por detrás do cachecol vermelho, mostrando o papel. O número 44 estava impresso nele. O mesmo número do quarto da Arquimaga. E, sem esperar uma segunda permissão, o rapaz entrou no quarto novamente, sussurrando apenas para a mulher ouvir. – Espero que tenha o costume de dormir com um olho aberto... Não queremos acidentes, certo?

Agora vejo que serve qualquer um para dividir o quarto comigo... Não necessariamente sua irmã... – Armaia sorriu de uma forma amarelada.

No quarto anterior à este, Rawrel e Erend pareciam brigar como crianças para ver quem ficava com a cama voltada para a janela. Magaleta foi obrigada a sair do próprio aposento para resolver a briga infantil, passando um sermão no aprendiz.

Você pode realizar suas orações voltado para o céu depois que o seu colega acordar! – A mais velha sugeriu, e o Noviço apenas suspirou.

Tudo bem... – O loirinho então simplesmente adentrou o quarto cabisbaixo, caminhando para a cama ao lado da parede.

Todos os quartos eram extremamente simples. Duas camas – uma embaixo da janela e outra na parede oposta – com seus respectivos criados mudos e lamparinas e um armário grande. Havia também uma escrivaninha simples e rústica logo ao lado da porta. Apesar disso, era bastante aconchegante.

Ah, Magaleta. Já sabe com quem irá dividir o quarto? – Seyren aproximou-se da Sumo Sacerdotisa, que apenas suspirou de forma pesada e um tanto desanimada.

Ygnizem...

Eu... Hum... Boa sorte com ela, hehe... – O Lorde sorriu sem jeito. Antes mesmo de dar um passo, a caçula apareceu.

Boa sorte por quê? – A Espadachim estreitou os olhos, e não parecia muito animada com as palavras do mais velho sobre sua pessoa.

Por Odin, de onde você surgiu?! – Armaia exclamou, com uma das mãos sobre o peito.

O nosso quarto é o 46... Shecil que deu sorte... Tem o Kavak como colega de quarto... Ah, e ela está no 48... – Ygnizem já esclareceu, com o indicador no queixo e a expressão pensativa. Logo pareceu voltar a si. – E então? Por que boa sorte?!

Nada, nada... Melhor repousar, Ygnizem. Teremos um looooongo dia amanhã. – Seyren sorriu, pousando as mãos nos ombros da meia-irmã, virando-a e começando a empurrá-la na direção do aposento que fora destinado à ela.

Pelo jeito vai ficar com um desconhecido dessa vez, Armaia... – O Mestre-Ferreiro pousou a mão sobre o ombro da colega. Como resposta, recebeu um suspiro desanimado da pupila. – Vem, eu te acompanho.

A Mercadora então seguiu em frente. E, ao abrir a porta do aposento que lhe fora destinado por puro acaso, deu de cara com uma Gatuna deitada de forma desleixada na cama perto da parede.

... Harword, temos mesmo que ficar? – Armaia choramingou ao reconhecer a Gatuna. Ninguém mais do que Wickebain Tres.

Ora... Isso será interessante... – Sorriu a Gatuna, de forma maliciosa.