Guilherme tinha 13 anos. Há cinco meses ele havia recebido a notícia da morte, em uma cama de hospital, do pai, e há cinco horas havia recebido a notícia do acidente sofrido por sua mãe grávida de oito meses e meio. O bebê foi retirado a tempo, mas corria tanto risco de vida quanto a mãe, que estava internada na UTI.

Guilherme estava perdido. Ele andava sem rumo por uma das ruas desertas de seu bairro em plena madrugada de terça-feira. A rua era silenciosa, ele só ouvia a própria respiração e seus passos lentos. Ele, exausto, se sentou na beira da calçada suja e cheia de folhas e pegou o celular para ver as horas: 3:45. Guilherme, não ligando para mais nada além da saúde de sua mãe, se deitou na calçada e voltou a chorar.

Seu destino estava por um fio. Em algumas horas ele poderia receber a notícia e tudo mudaria para sempre. E o que o deixava com uma sensação péssima era que a mãe só havia dirigido nessa noite porque Guilherme dormiu a tarde inteira e não comprou o jantar, portanto a mãe, já exausta, teve que sair de noite para comprar.

Mas parte da linha de raciocínio de Guilherme foi interrompida quando ele ouviu o som de um carro se aproximando. Era um carro dos anos 50, preto e conservado, que passava pela rua lentamente com seus grandes faróis redondos acesos. E o carro parou. A uns 10 metros de Guilherme.

Ele, então, achou melhor se levantar e ir embora dali chamando o mínimo de atenção possível (o que ia ser difícil, afinal, não é qualquer dia que se vê um menino deitado e chorando na calçada, muito menos quase 4 da manhã).

Ele se levantou, enxugou as lágrimas e seguiu o caminho, mesmo sabendo que ia ter que passar por perto do misterioso carro preto, que agora estava com os faróis apagados. Enquanto se aproximava do carro (cerca de 5 metros restantes) seu coração batia mais rapidamente, ele podia sentir. Um dos batimentos veio mais forte quando ele se assustou ao ouvir a porta traseira da direita (o lado por onde ele passava) ser aberta e sua respiração ficou ainda mais ofegante quando ele viu uma pata parecida com a de um bode saindo do carro para pisar no asfalto.

- Oh, queridinho! – disse a voz feminina e estridente de quem saía do carro. – Está muito tarde – ela falou e saiu definitivamente do carro, revelando seu corpo magro, seus seios enormes, as duas patas de bode sob uma saia curta, um rosto formado por olhos totalmente pretos e brilhantes inclinados para dentro como a metade superior de um funil bidimensional, suas narinas que (sem estarem em um nariz) se distanciavam para cima e cabelos longos e tingidos de vermelho. Ela era alta. – É muito perigoso para um menininho da sua idade ficar andando por aqui numa hora dessas – ela disse enquanto virava a cabeça lentamente como um pombo enquanto admira uma porção de arroz jogada no chão. Ela aproximou, também lentamente, suas mãos longas e finas do rosto de Guilherme. – Ah, você estava chorando? – ela falou e forçou por dois segundos um choro falso como uma criança quando quer dizer “eu não quero comer isso... por favor”. – Ah, eu não gosto de ver menininhos tristes – ela disse e o abraçou. – Por que você está chorando?

Os batimentos cardíacos de Guilherme estavam mais fortes do que nunca. Os seios da mulher-bode estavam quase o sufocando e suas unhas gigantes alisavam suas costas dando a estranha sensação de que iam cortá-lo a qualquer momento.

- Hein? – ela insistiu, ainda delicadamente, enquanto segurava de leve a cabeça dele na direção da dela, deixando-os olhando diretamente um nos olhos do outro por uma distância de menos de 30 centímetros.

- Eu... eu estou perdido – ele mentiu com voz rouca e baixa.

- Oh! Não há porque se preocupar, queridinho. Entre no carro, nós te levamos de volta para casa.

- É... não, obrigado – ele disse, retirando os braços dela das costas dele, e voltou a andar. – Eu acho melhor eu ir.

- Não! – ela gritou estridentemente com uma expressão triste, seguindo Guilherme. – Você não faria isso nem pela sua mãe?

Agora os batimentos ficaram realmente fortes. Ele parou e se virou.

- O... o que você disse?

- Sua mãe, Guilhermezinho... ela está doentinha – a “mulher” disse repetindo novamente aquele choro forçado e sem lágrimas.

- Olha, eu não sei quem é você nem...

- Mas eu sei quem você é, Guilherme, e eu estou te oferecendo uma chance. – E ela novamente forçou o choro.

Guilherme olhou para o carro, pensou na mãe e em como ele provavelmente se arrependeria se não entrasse no carro.

- Está bem, eu entro no carro.

A mulher abriu a porta e Guilherme se aproximou, olhando como podia o que havia dentro do carro. Era bem escuro.

- Feche os olhinhos – ela disse e ele fechou.

Após se sentar no banco de trás, Guilherme ouviu a porta fechar.

“Será que eu já posso abrir meus olhos?”, ele pensou.

- Ainda não – ele ouviu. Era uma voz masculina, porém diferente. Dois tons, um agudo e um médio, na mesma voz.- Não abra ainda. E, mesmo depois que abrir, quem garante que eles vão realmente estar abertos? Até que ponto você tem certeza de que está vivenciando algo real? E até que ponto você tem certeza de que um sonho não é real? Guilherme, todos morrem. Muitos morrem de doenças, como câncer, Alzheimer ou tuberculose, alguns têm ataques cardíacos ou AVCs, muitos morrem em acidentes de trânsito, outros são assassinados e alguns simplesmente morrem de velhice. Esse termo “morrer de velhice” é um tanto relativo, afinal, geralmente a verdadeira causa da morte é algum problema de saúde consequente da idade. Dizem que a única certeza das pessoas é a morte. A verdadeira morte de velhice está além da sua realidade. As poucas pessoas que chegam à terceira idade com saúde e não possuem um “obstáculo” morrem dormindo, e essa é vista por vocês como a morte mais tranquila. A questão é: o que leva uma pessoa a morrer enquanto dorme? Será que o coração simplesmente para de bombear o sangue? Será que a pessoa sente que deve partir? Será que a pessoa sonha com a morte? Um último sonho. Um pesadelo final. E até que ponto a pessoa pode influenciar o próprio sonho? Guilherme, você alguma vez teve um pesadelo e quis acordar, mas não conseguiu? Você alguma vez soube que estava em um pesadelo, mas por se sentir em um perigo tão real quis acordar, e demorou a conseguir isso, como se seu subconsciente quisesse que você vivenciasse aquilo? Até onde você pode confiar na sua própria mente? E até que ponto seus sonhos são frutos da sua mente? Aliás, até que ponto você tem certeza de estar vivenciando algo real? Você já parou para pensar na nossa existência? Na nossa realidade? Nós nascemos em um mundo onde as coisas são do jeito que são, mas poucas vezes nos perguntamos: por que as coisas são assim? Por que a realidade existe? Será essa a única realidade? Será que existem outras realidades, sem massa, cor ou espaço, mas com outros elementos que, para vocês, simples mortais, parecem impossíveis de imaginar? Até que ponto essa partícula insignificante do enorme universo (ou, quem sabe, um multiverso) chamada raça humana pode interpretar a natureza da realidade em que vive? Até que ponto a ciência se resume ao que possui uma identidade física? Aliás, Guilherme, até que ponto essa realidade do jeito que nós conhecemos realmente existe? Será que existem outras versões dessa realidade? Será que os sonhos são formas de acessar (ou, quem sabe, criar) realidades paralelas, onde elementos que aqui são considerados essenciais simplesmente não se aplicam? Será, Guilherme, que antes de tudo isso surgir nada existia, nem mesmo a escuridão e o silêncio? Por que o simples “existir” passou a existir? Como uma pessoa reagiria se fosse para um outro universo onde esse simples “existir” seria completamente diferente? Um universo, Guilherme, que nenhuma pessoa pode imaginar, nem mesmo no sonho mais complexo. Abra seus olhos.

E ele abriu.

O homem que conversava com ele tinha uma pele totalmente branca, como um palhaço, suas pupilas em formato de estrela de quatro pontas pertenciam a olhos grandes e malignos, seu sorriso grande e constante era formado por dentes finos, longos, acinzentados e pontudos, sua cabeça era coberta por um chapéu simples e redondo, que deixava escapar boa parte de seus longos cabelos pretos, ele era muito magro e alto (mais de dois metros) e usava um terno preto de forma desarrumada.

- Repare, Guilherme, que estamos em um local bem diferente do que você imaginava – ele disse e Guilherme olhou. Realmente era. Ao invés do interior do carro, eles estavam em uma sala grande e escura e cada um estava sentado em uma cadeira de frente para o outro, a cerca de cinco metros de distância. – E repare, também, que não há nenhuma fonte luminosa aqui, mas mesmo assim nós estamos nos vendo perfeitamente. Eu sei que tudo isso pode parecer muito estranho e assustador para você, principalmente agora que suas mãos estão presas – ele disse e Guilherme imediatamente olhou para as mãos, que estavam agora fortemente algemadas à cadeira onde estava sentado -, mas você já esteve em lugares piores antes... nos seus sonhos – ele disse e abriu um enorme sorriso assustador.

- Quem é você? – Guilherme perguntou depois de ter certeza de que não ia conseguir soltar as mãos da cadeira.

O homem o olhou com um tom desafiador, ainda mantendo o sorriso, e respondeu:

- Eu sou Somnium, o Mestre dos Sonhos. Eu faço aquilo que vocês acham que é obra das suas mentes: eu faço com que suas noites virem noites de terror. Eu faço com que a dor sentida durante um torturador pesadelo seja sentida durante o sonho e suma ao acordar. Eu faço com que sua voz suma quando você mais precisa gritar. Eu faço com que seus olhos permaneçam fechados quando você mais precisa acordar. Eu faço com que não haja saída quando você mais precisa escapar. Eu faço, Guilherme, com que um carro vire uma sala escura onde ninguém irá te escutar.

- E agora? Isso é real?

Somnium deu uma risada e respondeu:

- Tão real quanto tudo o que você já viveu e tão real quanto todos os seus pesadelos. Para mim, existem poucos limites de tempo, espaço ou dimensão. Eu sou apenas eu: um simples mortal com o poder de controlar realidades, inclusive aquelas que surgem cada vez que uma pessoa dorme.

- E por que você me trouxe aqui?

- Seu pai morreu e sua mãe e o bebê Gustavo estão no hospital – ele disse e riu. – Você quer que sua mãe morra, Guilherme?

- O que?! É claro que não!

- Então eu lhe darei uma chance de salvá-la. Você entrará no maior pesadelo da sua vida. Nesse pesadelo, você terá que destruir seis corações. Em cada coração estará uma chave. Com todas as chaves em mãos, você terá a chance de salvá-la. Durante o pesadelo, eu não vou interferir nos seus pensamentos, mas eu vou interferir no sonho. E muito.

- Essa é minha única opção?

- Por que, Guilherme? Você quer sair daqui e deixar sua mãe morrer?

- O que?! Não!

- Eu acho que você é um covarde. UM COVARDE! – Somnium gritou com uma voz grave e monstruosa enquanto suas mãos viravam facas giratórias. Ele se levantou e foi andando lentamente em direção a Guilherme. – EU VOU CORTAR SEUS OLHOS PARA QUE VOCÊ NÃO POSSA VER O QUE EU ESTOU PRESTES A FAZER COM VOCÊ!

- Não! Eu aceito o desafio! Eu vou pegar as seis chaves!

- AGORA JÁ É TARDE DEMAIS! – ele disse aproximando as facas do rosto de Guilherme. – NÃO SE PREOCUPE, VOCÊ NÃO VAI VER NADA!

Guilherme tentou passar as mãos pelas algemas, mas não conseguiu. As facas giravam rapidamente e estavam chegando perto de seus olhos. Ele desistiu. Fechou os olhos e esperou que as facas viessem e o torturassem até a morte. Ele esperou e nada aconteceu. Ele resolveu abrir os olhos.

Guilherme estava deitado em sua cama. Estava de manhã, e ele estava suando. “Que pesadelo horrível”, ele pensou. Esse foi um daqueles sonhos que são tão ruins, que, ao invés de sentir alívio ao acordar, a pessoa sente agonia, de tão real que foi. Então Guilherme sorriu, pois se lembrou que sua mãe estava bem.

- Mãe! – ele gritou.

- O que foi, filho?!

Guilherme quase chorou de felicidade, enquanto saía da cama e corria para a cozinha, de onde a voz vinha.

Ele entrou na cozinha e a viu tirando uma lasanha do forno. Ele correu e a abraçou.

- Eu tive um sonho horrível.

- Fica tranquilo, filho... nossa, você tá suando!

- Eu pensei que nunca mais ia te ver – ele disse.

- Tá tudo bem, Guilherme – ela disse, olhando nos olhos dele. – Agora que tal você dar uma volta? Você precisa pegar um ar fresco e descansar depois desse tal sonho.

- É... é, você tem razão – ele concordou sorrindo, se virou e foi andando em direção à porta e parou. “Será isso um sonho?”, ele pensou. “Será que ela realmente é minha mãe?”. — Mãe... quantos meses faltam pra o Gilberto nascer?

- Filho, daqui a duas semanas eu entro em trabalho de parto, aí você já vai poder ver o Gilberto – ela respondeu.

Foi como se toda a pressão do ar ficasse contra a cabeça de Guilherme. Ele percebeu o tom incandescente que tomou conta do lugar. Guilherme pegou gentilmente uma faca que estava sobre a mesa, sem que a “mãe” percebesse, e a escondeu atrás das costas.

- Mãe – ele disse delicadamente enquanto se aproximava dela devagar. Ela continuou cozinhando e cantarolando uma música que no momento estava apenas contribuindo para manter o clima sinistro. – Mãe – ele repetiu.

Ela virou lentamente a cabeça para olhar para ele.

- Sim? – ela perguntou e sorriu.

- O que é aquilo? – ele perguntou apontando para trás dela.

- O que? – ela perguntou e se virou para ver. Guilherme avançou com a faca para cima das costas dela que, ao receber a facada, soltou um rugido monstruoso e estridente.

Suas unhas viraram garras, seus dentes ficaram pontiagudos e seus olhos ficaram vermelhos. Ela se virou e empurrou Guilherme no chão, arranhando profundamente seus braços e costelas. Guilherme segurou firmemente a faca enquanto sentia seu peito ser lentamente perfurado pelas garras, então esfaqueou a garganta da criatura dezenas de vezes até que ela parasse de se mexer definitivamente.

Guilherme soltou um grito de dor, alívio e tensão e começou a examinar os cortes. Ele ignorou o cadáver, pegou um pano que estava na mesa e começou rasga-lo para enfaixar os braços. “É, parece que eu vou ter bastante trabalho pela frente”, ele pensou e guardou a faca na lateral da calça. Então ele notou que alguns sons estranhos vinham de trás dele.

Guilherme se virou e se deparou com a seguinte cena: o cadáver da criatura grávida recém-assassinada não era mais o cadáver de uma criatura grávida, pois a barriga dela estava aberta e um bebê-criatura verde acinzentado com asas grandes (se comparadas ao resto do corpo) e garras e dentes bem similares aos da mãe estava olhando para Guilherme, rosnando, sendo que o lado esquerdo de seu peito estava com uma iluminação vermelha. “Nesse pesadelo, você terá que destruir seis corações”, ele se lembrou e entendeu que o coração dessa pequena monstruosidade era o primeiro de seis.

Guilherme gentilmente pegou a faca que estava na lateral da calça e ficou parado, esperando que a criatura avançasse.

Seus olhos eram famintos e furiosos, ele mantinha um rosnado lento e baixo.

Guilherme não queria avançar, pois não sabia qual era a velocidade do monstrinho, e não queria sair dali, pois isso provavelmente o atrairia. Ele ficou parado, mas o bebê-monstro não.

Suas asas rapidamente começaram a bater, enquanto ele iniciava um crescente e ensurdecedor grito. Ele avançou com as garras em direção a Guilherme, que estendeu a faca e protegeu a cabeça com o braço esquerdo. O bebê desviou da faca e mordeu o ferimento do braço direito de Guilherme, que sentiu sua pele e sua carne serem perfuradas com força em uma dor forte e angustiante, muito maior do que qualquer outra que ele já tenha sentido. Depois de tentativas sem sucesso de esfaquear o bebê segurando a faca com a mão direita, ele a passou para a esquerda e a enfiou na cabeça do bebê tão fundo que a atravessou e perfurou ainda mais seu próprio braço.

Guilherme tirou o bebê do braço e, ignorando o ferimento, o colocou sobre a mesa e, com a faca, abriu seu peito, que era recheado por tripas escuras e um sangue tão negro e viscoso quanto o da mãe. Guilherme cortou o pequeno coração e enfiou a mão para pegar a chave. Ele a limpou e a examinou. Era uma chave enferrujada e grande, e ele a guardou no bolso. Guilherme pegou o pano rasgado e colocou no braço, tampando o ferimento e fazendo com que o sangue parasse de jorrar. Ele deu uma última olhada na cozinha para se certificar de que estava tudo normal (na medida do possível) e resolveu sair de casa, para ver quais surpresas Somnium preparara em sua rua.

Ele abriu a porta e se deparou com um corredor longo e escuro.

- É... essa não é a minha rua.

Agora Guilherme entendia que nessa realidade sua casa era apenas a entrada para um sombrio pesadelo que continuaria depois desse corredor.

Guilherme pisou no corredor e se virou para trás, já que essa talvez fosse a última vez que ele veria sua cozinha. Ele olhou para frente e seguiu em direção ao pesadelo.

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