Somewhere in Time
1 Único
Notas iniciais
Estava vindo. Podia sentir no modo como seu coração batia irregular, o efeito se intensificando, tomando conta de seu corpo. Ele estava lá, ele estava lá, ele estava lá. Voltando.
“Alfred?” Ele ouviu a voz em algum lugar atrás de si. Com todos os seus sentidos em alerta, ele se virou o mais rápido que pôde para trás, ansioso. Seria ele? O movimento brusco o fez cair e derrubar seus óculos. Ele ergueu o rosto, desorientado, a visão borrada e confusa. Tudo girava e brilhava. Aquele era...?
“Arthur!” Ele exclamou de volta para a figura à sua frente. “Arthur, me perdoa, eu... Eu voltei... Eu consegui voltar!” Ele estendeu a mão em direção à figura que tentava focar, mas contorno aparecia e desaparecia tão rapidamente que em algum lugar da mente de Alfred ele considerou que aquilo podia não passar de uma consequência de seus olhos piscando.
Escutou uma série de gritos e vozes que tentavam soar mais forte que outras, e de repente sentiu seus braços serem envolvidos e imobilizados atrás das suas costas, seu corpo ser erguido do chão, causando-lhe desconforto. Sabia que algo estava errado, mas Alfred só começou a gritar de fato quando percebeu que estava sendo afastado da figura de Arthur.
“Não! Me soltem! ME SOLTEM! Eu preciso voltar! Minha moeda... Cadê a porra da minha moeda?!”
Ele se debatia violentamente, chutando qualquer coisa à sua frente, o coração batendo louco, mas era inútil. Eles eram muitos, e mais fortes, e o tinham pegado de jeito. Sentiu uma intensa sensação em volta dos braços e pernas, e se percebeu imobilizado. Estava amarrado.
“Não! Arthur!”
Três dias antes.
O fim das aulas da manhã foi anunciado pelo tocar da campainha. Alfred soltou um muxoxo de decepção ao notar que, mais uma vez, as aulas de física haviam passado rápido demais. De todas as matérias que havia se cadastrado ao entrar na universidade, no início daquele ano, as únicas das quais ele não se arrependia eram física e história. As aulas sobre as guerras mundiais, o nazismo, fascismo e todos os acontecimentos influenciados pela guerra o causavam uma fascinação distinta e, naquele dia, o professor de física falava sobre buracos de minhoca, assunto que igualmente fascinava o americano. Ele observou o professor olhar em volta, confuso por uns instantes, mas logo sorrindo consigo mesmo.
“Então, pessoal, acho que, mais uma vez, perdi a noção da hora”, ele disse em tom de desculpas. “Continuamos o assunto amanhã. Dispensados.”
Alfred esperou um tanto impaciente boa parte da turma se esvair para se aproximar do professor, que ainda organizava seus papéis em uma pasta marrom um tanto antiquada.
“Oh, olá Alfred”, saudou o professor.
“Olá, professor!”
O tom energético de Alfred deu início a uma longa conversa sobre viagens no tempo e espaço, com direito a debates calorosos e tudo. Mesmo quando o professor começou a dar sinais de que queria encerrar a conversa, Alfred o seguiu até a sala dos professores, totalmente alheio à sua inconveniência. Mas o professor soube dispensá-lo.
“Veja, Alfred”, ele começou. “Eu preciso almoçar agora. Mas já que se interessa tanto assim pelo assunto, por que não procura ler alguns livros? Eu tenho alguns realmente bons, que certamente estão disponíveis na biblioteca central.”
“Ah, isso seria incrível, professor!” Ele exclamou, excitado.
O professor soltou uma gargalhada curta, mas sincera, em resposta à empolgação do garoto. Apesar de tudo, Alfred era um de seus alunos preferidos, uma vez que poucos demonstravam tanto interesse ou credulidade à sua matéria. O senhor anotou o nome de alguns livros que tratavam de diversas teorias e entregou o papel a Alfred, que aceitou com entusiasmo e rapidamente se despediu. O professor não precisava perguntar para saber que o garoto iria direto a procurar tais livros, passando talvez na lanchonete antes, para comer algo durante a longa caminhada até a biblioteca.
E assim Alfred o fez. Enquanto engolia seu hambúrguer de modo quase agressivo, encarava o papel com os nomes de livros anotados que o professor lhe entregara. Ao que parecia, Alfred não voltaria ao seu dormitório tão cedo aquele dia – como já ocorrera muitas outras vezes.
Ao chegar à biblioteca, Alfred já havia terminado seu hambúrguer. Ele sentou-se em frente a um dos computadores específicos para identificar em quais estantes estariam os tais livros, digitando seus títulos e autores. Optou por procurar primeiramente pelo que tratava das teorias sobre viagens no tempo.
Ao encontrar a estante, Alfred viu-se de frente a não só um, mas vários livros que tratavam sobre viagens no tempo – uma vez que os livros eram organizados por assunto -, ao que Alfred acabou por pegar não somente o livro recomendado, mas sim mais alguns três nos quais ele achou grande interesse. Ele sentou-se em uma mesa nos fundos do local, onde outros estudantes se encontravam estudando.
Ele ficou ali pelo que lhe pareceu minutos, mas, ao olhar em volta, percebeu que se tratou de horas. Ele já havia chegado à metade de um livro sobre viagens no tempo quando notou que era o único no ambiente. Bem, pensou, se ninguém se incomoda a ponto de me expulsar...
E continuou ali.
Leu o capítulo seguinte, e o seguinte, e o seguinte. Passava das duas da manhã, e ele já se perguntava se os seguranças haviam se esquecido de fazer a ronda naquela noite, até que chegou num tópico que tratava de experiências feitas sobre viagens no tempo, e foi quando todos os tipos de preocupação sobre rondas e horários sumiram. O autor descrevia precisamente como havia feito, e podia jurar que havia, de fato, estado por alguns instantes no passado.
“É necessário se desligar desta realidade”, dizia o livro. “Afastar-se de toda e qualquer coisa que remonte ao presente. O ambiente, as roupas, os objetos. Pensar numa data e lugar específicos é essencial. É necessário convencer a si mesmo de que está no passado, induzindo a si mesmo a um estado de transe ou hipnose.”
Cara... Pensava Alfred. O quão demais seria viajar no tempo? Seria totalmente incrível. Ele começou a cogitar a ideia, pensando em lugares para onde iria. Egito? Tempo dos dinossauros? Ou melhor... A segunda guerra mundial! Ele concluiu, sorrindo consigo mesmo.
E foi com esse tipo de pensamento cultivado em sua cabeça que Alfred decidiu que tentaria fazer aquilo. e seria naquele momento, afinal, Alfred sempre fora um garoto impulsivo.
Deixou os livros ali mesmo, em cima de uma das mesas – afinal, quem o diria que não podia naquela hora da noite? – e rumou para seu quarto. Se bem se recordava, possuía um conjunto de roupas do seu pai que, certamente, se adequariam à época. Tratou de vesti-las e pentear o cabelo para trás, como já vira muitas vezes os homens das fotos de época fazerem. Posicionou seu chapéu côco por cima e pronto. Tinha um visual que lhe parecia semelhante o suficiente.
"Você deve ter consigo um objeto que o lembre constantemente que está no passado, e não no presente. A qualquer momento que você pense estar no presente, você pode voltar, portanto, pensamentos desse feitio devem ser evitados durante a sua estadia. O objeto de época o auxiliará a controlar isso."
Certo. Alfred tinha decidido. Iria para 1932, ali mesmo, na Inglaterra, uma vez que não se sentia confiante o suficiente para tentar se imaginar em outro lugar. Ora, se imaginar em outra época já era suficientemente complicado!
Mas havia algo. Alfred não possuía um objeto da época. Droga! Devia ter aceitado comprar a coleção de moedas de Roderich quando teve chance...
Roderich.
Mas é claro! Seu colega de quarto possuía uma coleção de moedas antigas! Tudo que Alfred precisava fazer era pegar emprestada uma delas... Não era como se ele fosse sentir falta, de qualquer modo. Alfred faria uma visita ao passado, e quando voltasse Roderich nem teria percebido sua ausência, ou a da moeda.
Revirou o pote de moedas o mais silenciosamente que pôde, uma vez que Roderich estava dormindo, mas as circunstâncias não pareciam estar realmente ao lado de Alfred. Em meio a sua urgência, ele deixou o pote cair ao chão, espalhando moedas por todo o ambiente e provocando o terrível barulho do metal das moedas e do pote caindo no chão. Ele olhou em direção a Roderich, que se mexia debaixo das cobertas, e fechou os olhos com força, fazendo uma pequena e rápida oração aos céus para que interviessem ali, naquele momento, fazendo com que seu colega de quarto permanecesse adormecido.
Contudo, os céus pareciam estar igualmente indispostos a colaborar com o garoto. Seu colega se levantou ao som de algumas moedas que ainda rolavam e caíam.
"Alfred...?"
Droga.
Os joelhos de Alfred foram ao chão em uma fração de segundo, e seus olhos corriam em todas as direções, procurando. 1990, 1912, 1946...
"Alfred, droga! O que está fazendo?! O que está vestindo?! Essas são as...? Não acredito que estava mexendo na minha coleção! Eu vou fazer você juntar uma a uma de todos os cantos desse quarto, e se uma, uma sequer desaparecer eu...!"
1987, 1956, 1999, 1947... Diabos, onde estava? Não era possível que, em meio a tantas moedas, não houvesse uma sequer da época da guerra!
Foi quando ele viu ali, próximo ao pé da cama de Roderich, uma moeda. 1933. Um sorriso de alívio tomou conta de seu rosto e logo sumiu enquanto ele olhava para Roderich, que ainda gritava ameaças, soando indignado por Alfred estar inclusive em sua metade do quarto.
Alfred calculou e se lançou à frente, esticando a mão em direção à moedinha. Sentiu seus dedos se fecharem em volta dela e mais uma ou duas, mas não se importou. Ergueu o corpo de forma desajeitada e calculou uma forma de sair dali sem que corresse o risco de ser seguido por Roderich. Ele olhava para o colega enquanto calculava o percurso que faria pelo corredor, quando simplesmente olhou para o lado.
A janela.
Estavam no térreo, mas seus dormitórios ficavam bem próximos aos limites da propriedade universitária — propriedade essa que, aos fundos, encontrava-se com uma grande área de preservação. Durante as noites livres em seu quarto, Alfred lembrava-se de ver, pela janela, estudantes escalando a cerca e passando para o outro lado. A cerca ali já era um tanto deformada pelos pés e mãos que a puxavam constantemente. Aquela parecia a saída brilhante.
Ele foi em direção à janela e a abriu, ouvindo alguns protestos da parte de Roderich por isso. Mas foi somente quando ele colocou a primeira perna pra fora que seu colega se levantou.
"Alfred, o que diabos...! Você enlouqueceu?!"
Alfred, agora sentado na janela, impulsionou-se para frente e foi de encontro ao chão não muito distante de seus pés. Roderich soltou uma exclamação e colocou o tronco para fora da janela para observar, incrédulo, Alfred correr em direção à cerca.
"Alfred! Volte aqui!"
Alfred posicionou um pé e ambas as mãos na cerca de mais ou menos 4 metros de altura e começou a escalar. Isso é mais difícil do que eu esperava, ele pensou enquanto Roderich ainda o xingava da janela. Retornou ao chão, tomou distância e correu em direção à cerca, saltando o mais alto que pôde e se agarrando a ela em sua metade. Durante breves instantes Alfred torceu para que aquela cerca não cedesse, e quando isso não aconteceu, ele soltou um riso nervoso. Deu um passo e suas mãos já podiam alcançar a beira da cerca. Ele tomou impulso para cima, passou uma perna para o outro lado e olhou em volta. Somente Roderich estava assistindo sua façanha. E ele ainda gritava.
"Roderich!", respondeu Alfred. "Você vai acordar o campus inteiro!"
Pulou para fora da universidade enquanto suas risadinhas eufóricas ressoavam na noite.
✽
Após muito correr e muito ver do que acontecia fora dos limites da universidade, Alfred estava cansado, e arfava como um louco. Seu plano era encontrar uma árvore que parecesse grande o suficiente para ser realmente antiga, e, olhando para ela, recitar seu mantra de volta no tempo, mas, à medida que corria, descobrira que não era o único a tentar realizar seus interesses na reserva. Encontrou muitas pessoas ali, e entre elas as que mais lhe chamaram a atenção foi um grupo de pessoas ajoelhadas na terra, cuidando de uma plantação com folhas peculiares e um casal fazendo sexo.
Agora Alfred meramente se aguentava em pé, tamanho era o seu cansaço, com o som de água que indicava um córrego ali perto o induzindo ao sono. Quando olhou em volta, quase não acreditou ao perceber-se de frente à árvore mais frondosa que já vira na vida. Era de certa forma imponente, e possuía folhas largas e um tronco grosso. Em seu rosto, um sorriso cansado se formou, um pouco da empolgação de antes voltando, e ele cambaleou até a raiz da árvore para deitar-se olhando para as folhas acima de sua cabeça. Estava com sono. Já devia passar das três da manhã...
Ele pegou a moeda de 1933 do bolso do paletó e guardou as outras duas de volta. Olhava para a moeda e girava-a em suas mãos, encarando a data.
1933... 1933. Eu estou em 1933. É 21 de fevereiro de 1933, início da noite. O sol acabou de se pôr, e as primeiras estrelas estão aparecendo. Estou deitado abaixo de uma árvore, no ano de 1933. Eu pertenço a este ano. Eu nasci nesse século. A guerra está a todo o vapor, e eu estou no meio desse período. Ontem ouvi notícias de alguns judeus sendo caçados... Em pleno ano de 1933.
O nariz de Alfred percebeu um odor adocicado que veio junto com a brisa. Algo estava queimando, e a fumaça chegava ao seu nariz. Talvez um incêndio? Alfred deveria sair dali, então. Mas seus olhos pesavam enquanto ele repetia o mantra. Ele estava com tanto sono... E o cheiro não era tão ruim...
Eu estou em 1933...
Alfred adormeceu.
21 de fevereiro, 1933.
Ploc. Ploc ploc. Ploc.
Alfred abriu os olhos um tanto sonolento. Olhou para as folhas da árvore, verdejantes, fracamente iluminadas pela luz do sol que já se punha. Um som de pedrinhas caindo na água o incomodava.
Ele mexeu as mãos e sentiu algo entre os dedos. Era uma moeda de 6 pence, datando o ano de 1933. Oh, certo. Era o ano que se encontrava... certo?
Olhou para a moeda, tentando espantar suas dúvidas. Era sim o ano de 1933. Respirou fundo, sentindo o ar entrar nos pulmões e a mente esvaziar. O estado de meditação não durou muito tempo, e o primeiro pensamento que veio à mente do garoto foi: Ah... Ar de 1933.
Ergueu o tronco, sentando-se. Espalmava as mãos pela roupa, tentando se livrar do mato e da terra em suas vestes, e olhava em volta, procurando a origem do barulho, que foi rapidamente encontrada.
Um rapaz, parecendo não muito mais velho que o próprio Alfred, de cabelos loiros desgrenhados e corpo esguio encontrava-se de costas, um montante de pequenas pedras em uma das suas mãos em concha enquanto a outra atirava uma a uma no córrego.
Alfred se espreguiçou e levantou um pouco tonto, indo em direção ao rapaz. Ele vestia roupas verdes e botas — uniforme de guerra inglês, Alfred reconheceu. Aquele garoto era um soldado. Alfred logo se animou – falaria com um soldado! — mas quando se aproximou um pouco mais, pôde perceber que o semblante do jovem não era dos mais amigáveis. Tinha uma expressão pesada, como se carregasse um grande fardo em suas costas. Alfred tinha a impressão que o loirinho estava à beira das lágrimas.
"Ei, cara..." Alfred falou em tom tranquilizador, sem realmente atentar ao fato de que não deveria estar ali. Aquela expressão no rosto do jovem soldado o causava certa... Pena.
Quando o soldado ouviu a voz de Alfred, evidentemente se sobressaltou. Uma dura expressão de desconfiança assumiu seu rosto enquanto ele se virava para Alfred e segurava agora suas pedrinhas como se de repente tivessem se tornado armas letais. Alfred deu um passo para trás.
"Identifique-se." Disse o loirinho, exalando confiança.
"Ãhn... meu nome é Alfred. Desculpa assustar, é que eu achei que você tivesse... Hum... Você sabe... Me ouvido chegar.” Alfred disse, afinal, ele tinha feito alguns barulhos enquanto levantava do chão. O farfalhar das folhas, a sua testa batendo num galho que, uns minutos atrás, estava mais alto...
O soldado sentiu as bochechas esquentarem de vergonha ao ouvir tal comentário. Estava realmente desatendo. O que seu pai, tão rígido e exigente, diria se tivesse sido ele ao tirá-lo do torpor? Apesar disso, o fato daquele garoto que pareceu ter brotado das trevas, que falava de um jeito estranho ter apontado aquilo o deixou bem irritado. Quem era ele para apontar falhas em Arthur?
“Não é como se eu tivesse que ficar atento vinte e quatro horas, droga!” Ele exclamou e encarou o chão, frustrado. Lentamente, deixou as pedras caírem por entre os seus dedos e suspirou, virando-se de volta para o córrego, assumindo que aquela criatura não representava perigo para si.
“Hey... Desculpa. Eu não quis dizer... ah, deixa pra lá.” Foi o que Alfred respondeu quando percebeu que prestar explicações não faria sentido algum.
O soldado bufou e abaixou-se para sentar-se no chão, ignorando a presença de Alfred uma vez assumido o fato de que o garoto não era ninguém perigoso. A julgar pelas vestimentas do recém-chegado, ele provavelmente seria filho de alguém importante que estivera ali para falar com seu pai sobre seu partido político – nunca vira tecido tão brilhante quanto aquele, apesar do Sr. Kirkland sempre optar pelos melhores tecidos da Inglaterra na hora de fazer suas roupas. Talvez se tratasse de algum financiador estrangeiro, ou algo do tipo, uma vez que o garoto tinha certo sotaque que ele não conseguia definir de onde era. Quando Arthur simplesmente tornou a encarar o córrego, esperou que o intruso se despedisse e fosse realizar o que quer que tivesse a fazer por ali. Mas as palavras que ouviu sair da boca dele foram diferentes.
“O que aconteceu, cara?” Ele perguntou, usando um tom terno enquanto se sentava mais uma vez ao chão, ao lado do soldado. Algo naquele loirinho fazia Alfred sentir vontade de consolá-lo.
Arthur não esperava o tom com que aquelas palavras foram proferidas, o que o fez, por um momento, virar o rosto para a companhia e quase deixar escapulir o motivo da sua frustração. Mas não o fez.
“Não é nada de seu interesse”, foi o que ele optou por dizer, num tom ríspido, afinal, quem era mesmo aquele indivíduo? Arthur não sabia. Com as grossas sobrancelhas franzidas, ele voltou mais uma vez o olhar para o córrego.
O silêncio que se seguiu foi desconfortável, e Arthur percebeu que estava sendo grosseiro com alguém que só queria ajudar. A culpa se instalou desconfortavelmente em seu peito, e ele pensou em tentar uma conversa, uma vez que se realmente se tratava de alguém importante, aquilo não podia ser má ideia aos olhos de seu pai. E a aparência do garoto tinha atraído a atenção do soldado, apesar do mesmo saber que eram nulas as possibilidades de que ele se revelasse homossexual e saísse ileso.
“O que faz aqui, no fundo da casa dos Kirkland?” Ele disse, após um pigarreio discreto, evitando quebrar o silêncio repentinamente. Assumira que Alfred era realmente filho de alguém que estivesse por ali para falar com seu pai — e aquela era uma boa maneira de começar uma conversa, ele julgava. Descontraída e ao mesmo tempo, direto ao ponto.
“Ah, eu... Só estava dando uma volta. É que eu gosto bastante do ar fresco.” Respondeu Alfred, improvisando enquanto girava a moeda de 1933 em suas mãos, passando, em seguida, o polegar pelo rosto do rei George V estampado no metal.
Arthur se permitiu rir brevemente, solidário. “Eu entendo...” Ele comentou, e com isso quis dizer que estava ali pela mesma razão. Ele lançou um olhar rápido para ver a reação do estrangeiro ao comentário, e notou que Alfred brincava com algo entre as mãos. Ele esticou minimamente o pescoço em direção, curioso. “O que você tem aí?”
“Hun? Ah!” Alfred se sobressaltou, subitamente assustado por ter sido notado encarando a moeda. Em um giro, o pequeno objeto escapuliu de sua mão e rolou até a beira do córrego, fazendo um pequeno ploc ao entrar na água. O rosto do estrangeiro empalideceu. “Essa não.”
“O que foi?” O olhar de Arthur foi das mãos de Alfred para o córrego, tentando entender o que havia acontecido. Alfred se levantava e tirava os sapatos, as meias e o paletó, dobrando a barra da calça e as mangas, se preparando para meter os pés na água e procurar pela moeda.
“Minha moeda! Eu não posso... Argh!” Ele sacudiu a cabeça, tentando espantar os pensamentos que vinham à sua cabeça, explicando o motivo daquela moeda ser tão importante no momento. “Pode, por favor, me dizer em que ano estamos?”
“Que diabo de pergunta é essa?” Perguntou Arthur, observando aquela cena um tanto confuso.
“Apenas me diga! Por favor!”
“Estamos em 1933! Nosso rei é George V e estamos em guerra! Se situou agora?!” Ele respondeu, irritado. Que garoto estúpido!
Após ouvir aquilo, Alfred pareceu mais aliviado enquanto procurava a moeda no córrego, mas não respondeu nada à pergunta sarcástica do soldado que, após um instante em silêncio, entrou no córrego também, um tanto sem jeito, para ajudá-lo a procurar.
“Por que essa moeda é tão importante, afinal?” Ele resmungou. O garoto não parecia ser pobre, ainda mais vestindo um traje daqueles.
“Porque... não é minha. É de um colega meu, e tem grande valor pra ele, sabe...” Ele respondeu da forma mais vaga que podia. Um colega que vivia em 1933 também. Que também pertencia àquele ano.
“Humph.”
Após algum tempo procurando, Arthur sente algo sólido e gelado encostar-se a seus dedos em meio à areia. Ele pega e mostra a Alfred.
“Olhe”, murmura. “Não é esta aqui?”
Alfred, que já começava a ficar um tanto desesperado, sentiu um suspiro deixar seus pulmões, aliviando-o. Ele sorri emocionado para o soldado, que recua e sente as bochechas esquentarem — a aparência de Alfred parecia ficar melhor quando ele sorria daquele jeito. Alfred não nota o recuo, o que claramente significaria que Arthur preza pelo seu espaço pessoal, e joga os braços em volta do loirinho.
Arthur sente a garganta fechar e as bochechas esquentarem mais ainda quando se torna consciente dos braços de Alfred envolvendo seu corpo, sua respiração próxima a seu pescoço, seu corpo pressionado contra o de Alfred. O britânico faz a única coisa que lhe passou pela cabeça no momento – o empurra.
Splash é o som que ecoa quando o traseiro de Alfred encontra o fundo do córrego. Por um instante ele pisca, desnorteado, tentando entender o que acabara de acontecer. Estava agora completamente encharcado e, uma vez que estavam no meio da primavera, a água estava terrivelmente gelada.
"Droga, cara! Por que fez isso?!" Ele exclamou indignado enquanto se levantava e tentava encontrar um modo de se livrar de toda aquela água, sacudindo os braços e o cabelo.
"Você não tem o mínimo de noção de espaço?!" Retrucou Arthur de volta, soando realmente irritado – o que não deixava de ser verdade. Além do constrangimento causado, o atrevimento do sujeito dava nos nervos de Arthur.
"Eu...!" Alfred iniciou uma frase, mas não soube como terminar, então simplesmente bufou, irritado. "Que diabos. Você não tem amigos ou o quê?" Murmurou Alfred, mais para si mesmo.
Acontece que, pela segunda vez, as palavras de Alfred atingiram Arthur em cheio. O semblante do loirinho murchou de repente, junto com toda a sua fúria, enquanto ele encarava a água com o cenho franzido e mais um silêncio constrangedor preenchia o espaço entre os dois. Arthur estava prestes a tentar pedir desculpas por ter sido rude quando olhou para Alfred e notou que ele estava terminando de desabotoar a camisa branca que usava.
"Mas o que você está fazendo?!" O soldado exclamou mais uma vez, recuando um ou dois passos para longe daquela cena.
"O que lhe parece? Estou tirando essa roupa encharcada! Tem noção do quão frio está, agora que estou molhado?!"
Arthur se calou e engoliu em seco enquanto observava Alfred torcer a blusa, tentando tirar o máximo da água. Observou também os músculos do tórax do outro se movimentarem, sentindo algo formigar em seu baixo ventre, mas ele só voltou a se manifestar quando Alfred fez menção de tirar também as calças.
"Opa opa, espere." Ele impediu o movimento segurando a mão de Alfred que ia em direção ao botão da calça. Olhou nos olhos dele, sua mente formando todas as possíveis reações de seu pai se aparecesse com um provável filho de financiador encharcado daquele jeito. Por fim, suspirou e se preparou para dizer "Tudo bem. Vamos entrar. Está escurecendo e você pode acabar ficando doente ou algo assim.", mas o que realmente saiu de seus lábios foi "Venha, estamos entrando".
Arthur também planejara andar lado a lado do garoto e talvez pedir as desculpas que antes tinha planejado pedir, mas o que realmente fez foi andar o mais firme que pôde na frente, torcendo para que ele o seguisse.
E Alfred o fez, após alguns segundos de confusão e discussão interna. Iria entrar na casa de alguém desconhecido sem mais nem menos? Apesar de tudo, o americano tinha certo senso. Mas, por outro lado, ele estava ali sozinho, sem ter para onde ir ou o que vestir, uma vez que suas roupas estavam arruinadas.
Ele saiu do córrego levando suas roupas nas mãos, um tanto cabisbaixo. Ele sentiu uma sensação forte tomar conta do seu ser, desde os fios de cabelo até o dedo mindinho do pé, e soube o que viria.
Atchim!
Arthur olhou para trás, assustado, para confirmar o óbvio. Alfred tinha acabado de espirrar. Droga. Se aquele riquinho filho da mãe ficasse doente seria sua culpa. E esse foi só o primeiro pensamento que cruzou sua mente. O segundo foi: Esse filho da mãe está realmente andando por aí sem nada lhe cobrindo o tronco?
“Ei!” Ele chamou-lhe a atenção.
“O quê?” replicou Alfred, irritadiço. Droga. Ele estava com frio, num lugar estranho e sem roupas adequadas. E para completar, começava a sentir fome, e não parecia haver nenhum McDonalds ali perto. “Vai reclamar por eu ter espirrado também?”
✽
Dentro de 40 minutos, Alfred já se encontrava limpo e com roupas novas, secas – um tanto diferentes das que usava antes. O que vestia pós-córrego era basicamente uma camisa branca de botões e uma calça simples com um suspensório. Sentado no sofá de uma grande sala bem decorada, com fotografias de pessoas usando uniformes, Alfred assobiou impressionado.
“Então”, Arthur falou após ordenar para uma empregada que perguntava se eles precisavam de algo que trouxesse chá, “imagino que vá ficar para o jantar.” Ele estava sentado no outro sofá que fazia um ângulo de 90 graus com o que Alfred estava sentado. Passava uma perna sobre a outra e encarava o estrangeiro, observando sua maneira peculiar de se portar.
Alfred piscou, como se voltando para o momento. “Oh”, ele murmurou. “Claro.”
"Ótimo", ele murmurou apesar de não achar que aquilo fosse algo realmente ótimo. Tinha uma ponta de esperança de que Alfred não precisasse encontrar seu pai naquela noite, durante o jantar, para que o dissesse os motivos para estar ali, usando roupas que não eram suas, e falar sobre como Arthur era um soldado distraído. Ele tinha a absoluta certeza de que seria repreendido pelos acontecimentos de fim da tarde — e por Alfred ter uma das roupas de seu pai no corpo, é claro, uma vez que nada de Arthur cabia no visitante.
Já Alfred mal podia acreditar em sua sorte. Conseguira um banho, roupas e comida mais fácil do que imaginara, e ele agradecia a isso enquanto fitava a moedinha no centro da mão. Aproveitaria aquela estada o máximo que pudesse, e para isso faria o possível para não irritar mais ainda o anfitrião, mas naquele momento o silêncio realmente incomodava-o.
"Então", ele disse depois de uns momentos. "Acho que você ainda não me disse seu nome."
O silêncio que se fez após essa fala foi mais desagradável que o de antes. O loirinho ergueu uma sobrancelha, desconfiado. "Kirkland. Arthur Kirkland. Mas isso você já sabia, é claro. Presumo que esteja passando os dias na casa de parentes das redondezas?" Ele respondeu com o rosto virado na direção da mesma parede que Alfred encarava antes, mas a pergunta foi feita olhando para Alfred pelo canto dos olhos, esperando uma resposta.
“S-sim, claro.” Ele respondeu. “Perguntei apenas para... manter a formalidade sabe? Uma... apresentação formal.”
Arthur soltou uma risadinha.
“O que foi?”
“Você é...” E riu mais um pouco. “Isso foi ridículo. Parece-me o cúmulo da falta do que dizer.”
Alfred abriu um sorriso, meio envergonhado. Pelo menos ele acreditou que Alfred realmente fazia alguma ideia de quem Arthur era, o que já era um grande alívio.
“E o seu?”
“Hun?”
“Seu nome. Quando se apresentou, disse apenas o seu primeiro nome.” Ele explicou, fazendo uma careta. Como se ele fosse chamá-lo pelo primeiro nome, tendo acabado de se conhecerem.
“Ah... É Alfred Jones.”
“Jones?” Ele pareceu confuso. Conhecia todas as famílias da redondeza, mas nenhuma delas tinha o sobrenome Jones. Ou algum parente com tal sobrenome. “Sua família sempre esteve por aqui?” Perguntou, intrigado. Acontece que Alfred interpretou aquela pergunta de outro jeito, erguendo as sobrancelhas e sentindo o rosto esquentar.
“Uau, então aqui já existe cantadas desse tipo.” Ele murmurou, sorrindo um pouco. Sentia-se lisonjeado, um pouco envergonhado e surpreso com a... Objetividade do outro.
“Cantadas?” Arthur perguntou, confuso, repetindo a palavra desconhecida. Seria alguma gíria do lugar de onde o garoto vinha? Bem, de qualquer forma, ele piscou e sacudiu a cabeça breve e calmamente, deixando para lá aquela dúvida. “Então realmente, você não é daqui.”
“Quê?” A voz de Alfred saiu duas notas mais aguda. Arthur não podia saber... Não tinha como! Ninguém sai por aí supondo que as pessoas vieram do futuro! Futuro? Não. Alfred estava em 1933, e pertencia a 1933. Ele olhou mais uma vez para a moeda.
“Você tem um... sotaque diferente... Deve ser americano, certo?” Ele perguntou, fazendo uma careta. Finalmente havia se lembrado de onde conhecia aquele sotaque. Seu pai já havia levado soldados americanos para casa. A maioria fazia a maior sujeira, além de serem muito barulhentos, mal educados e presunçosos, gabando-se dos Estados Unidos terem vindo socorrer os Aliados na guerra.
“Ah... Sim. Sou americano.” Uma risada nervosa enquanto brincava com a moeda nas mãos.
Logo a mesma senhora de antes apareceu com o chá e comentou que o senhor Kirkland – pai de Arthur — estava prestes a chegar. Quem era o senhor Kirkland, Alfred não fazia ideia. Torcia para que o tempo não passasse para que não tivesse de lidar com mais nenhuma pergunta complicada. Queria explorar o lugar, a vizinhança, viver naquele mundo mesmo que por pouco tempo, e para isso não podia arranjar discussões – ou se descuidar de sua moeda.
Mais tarde naquela noite, um telegrama foi recebido na casa dos Kirkland, avisando que um imprevisto havia acontecido e que o senhor Kirkland partiria para uma viagem até a Itália para uma reunião com seus patrocinadores, e que retornaria somente na próxima semana. Alfred suspirou aliviado ao saber disso. Descobrira que Oswald Kirkland era líder de um partido fascista da Inglaterra – a União Britânica dos Fascistas – e pai de Arthur. Só de pensar em ter que falar com um homem desse nível – ter que mentir para um homem desse nível – já sentia suas pernas fraquejarem.
Após uma breve discussão sobre Alfred ter entendido errado a pergunta de Arthur e uma confirmação de que não, não estava hospedado em lugar nenhum, deixando a entender que tinha acabado de chegar de viagem de um cruzeiro e que fora assaltado, perdendo assim sua mala com seus pertences, Alfred ganhou um quarto, roupas novas um rádio por onde podia ouvir notícias – notícias de 1933! — e um pedido de desculpas pela inconveniência que, na verdade, não era nada inconveniente.
No dia seguinte ele saiu com Arthur, que fora resolver assuntos na cidade, dirigindo o carro mais estiloso que Alfred já vira pelas ruas de Londres. Alfred não podia estar mais satisfeito com o passeio. Viu muito do dia a dia das famílias, dos soldados pelas ruas e de como tudo funcionava na época. As pessoas realmente viviam tranquilas sem um celular!
Arthur, após a confirmação de que Alfred era estrangeiro, parou de estranhar o comportamento do maior no decorrer dos dias – que variava entre exclamações e comentários ridículos — para simplesmente ignorar ou revirar os olhos quando Alfred dizia, admirado, alguma coisa boba. Mas a verdade era que ele se divertia bastante com a companhia de Alfred — não era nada que ele fosse admitir, é claro.
Durante uma tarde, quando Arthur já não tinha mais paciência para sair dirigindo pela cidade, levando Alfred para cima e para baixo nos passeios que o americano insistia em fazer, eles ficaram em casa, em um dos infinitos cômodos da casa, onde Arthur tentava ler um livro enquanto Alfred tentava puxar algum assunto.
"Que livro é esse?" Ele insistiu após três perguntas que haviam recebido uma resposta evasiva.
"Orgulho e Preconceito", respondeu Arthur após fechar o livro e soltar um suspiro discreto de redenção. Não conseguiria ler o livro na presença daquela criatura. "Da Jane Austen", completou, mesmo acreditando ser desnecessário. Qualquer idiota sabia quem era Jane Austen e conhecia seus livros.
"Ah... Não foi ela quem escreveu Romeu e Julieta?”
"..."
Certo, ele pensou. Talvez não qualquer idiota.
Arthur o corrigiu e começou a discorrer sobre o estilo dos autores e como ele tinha Jane Austen como uma de suas autoras favoritas, chegando a falar sobre como gostava de mergulhar no passado e nos romances, mostrando gradativo entusiasmo, ao que Alfred riu e brincou com sua moeda.
"O que foi?" Questionou.
"Nada", ele respondeu. "É só que... É muito legal ver alguém falando de algo com tanta paixão." E riu mais um pouco. De fato, a expressão de Arthur se aliviava um pouco de toda aquela gravidade enquanto falava sobre seus livros — Algo que Alfred achou simplesmente adorável, levando-o ao seu comentário que fez as bochechas do inglês esquentarem.
Após isso, os dois mergulharam de verdade em uma conversa que aos poucos caminhou para o assunto “guerra”, e foi quando Alfred perguntou de forma um tanto repentina a Arthur como era estar vivendo a guerra plenamente. Arthur lançou um olhar grave em resposta, o que o fez sentir-se imediatamente arrependido por ter perguntado, mas não o poupou da resposta.
"Alfred..." Arthur murmurou e em seguida suspirou, a expressão migrando para uma com as sobrancelhas franzidas e os olhos fixos em um ponto qualquer que não era realmente visto pelo inglês, enquanto ele era preenchido pelas memórias da guerra. "Aquele lugar... Era terrível. Os estouros, as infecções, as doenças, as mortes... Vi um rapaz não muito mais novo que eu ir para a guerra cheio de determinação e coragem e então desistir de lutar enquanto a doença o consumia. Vi..." ele suspirou e fechou os olhos com força por um momento. "Nunca vi tanta droga num lugar só. Eles usavam — nós usávamos – pra tentar fugir daquilo."
Algo no peito de Alfred se apertou enquanto ele permitia sua expressão tornar-se igualmente grave com a chegada da percepção de que não queria que Arthur tivesse estado lá. Quando imaginava o loirinho cheio de feridas e infecções, se alimentando de rações escassas, ficava estranhamente perturbado. Nunca mais, ele disse, somente para si, não quero que Arthur passe por isso de novo. Não iria se preocupar com o que faria, mas estava determinado a proteger o menor. Alfred então o apertou em seus braços em um abraço, ao que Arthur afundou a cabeça no ombro de Alfred, os olhos fechados, tentando espantar aquelas memórias para longe – coisa que só se permitiu por, após aqueles dias, ter se acostumado com os abraços repentinos de Alfred.
"Desculpe-me por ter perguntado isso."
"Não", respondeu Arthur. "Tudo bem. Você... estava curioso. A guerra é algo empolgante para aqueles que não a conhecem."
E assim os dias foram passando, ambos acostumando-se com a presença um do outro e descobrindo coisas a respeito um do outro. Alfred descobriu que Arthur não queria ser um soldado — seu pai foi quem o forçou a se alistar, e que Arthur descobrira ser melhor assim. Descobriu que Arthur sentia falta do exército naquele momento, apesar de antes ter desejado tanto voltar para casa a ponto de negociar com seu pai, que possuía influência suficiente para ceder a ele alguns dias em casa. Descobriu também que o inglês era uma pessoa solitária. A cada descoberta, a cada traço de personalidade de Arthur que Alfred percebia, cada reação conquistada, cada vez que Alfred parava para simplesmente observar Arthur respirar, mais e mais sentia o desejo de ficar naquela época para sempre.
Já Arthur descobriu que, apesar de toda a bobagem que Alfred constantemente vomitava sobre si, ele era inteligente a seu modo e uma companhia agradável. Aos poucos, Arthur ia descobrindo que pensamentos sobre voltar ao exército ou a chegada de seu pai, situações que encerrariam aquela relação, o incomodavam. Eram tipos de pensamento que, tão logo apareciam, Arthur empurrava para o fundo de sua mente. Não gostava de pensar que, logo logo, estaria sozinho mais uma vez.
Mas apesar da vontade dos dois, a semana se passou, e o dia em que o senhor Kirkland retornaria chegou. Alfred, que àquela altura já havia parado de contar os dias, estava completamente alheio ao fato, sorridente como sempre – já Arthur estava ligeiramente mais calado que o normal naquela manhã.
“O que você tem, Arthie?” Perguntou Alfred, depois de fazer algumas piadas que, já sabia, Arthur riria, sem obter sequer um sorriso.
"Não é nada."
"Claro que é alguma coisa, você tá todo esquisito!"
Arthur ficou em silêncio por uns instantes, fitando o chão, os lábios franzidos e um ar grave. "Há quanto tempo você está aqui, Alfred?"
"Ah, sei lá, umas duas semanas — eu não sei realmente, mas olha, não tenta..." A voz do garoto foi perdendo força à medida que ele tomava noção do tempo e do que deveria acontecer. "... mudar de assunto." Se fez silêncio por breves momentos, enquanto ambos refletiam sobre as implicações daquele dia. "O senhor Kirkland chega hoje, não é?" Alfred disse, tentando não soar tão decepcionado — afinal, aquela reação não faria sentido, certo? Desde o princípio seu objetivo era apenas fazer uma breve visita e então retornar. Era ingênuo pensar que poderia ficar ali, com Arthur.
Naquele momento, Alfred olhou fixamente para a moeda, como não fazia há dias.
"Sim", Arthur respondeu enquanto via Jones olhar embasbacado para o pequeno objeto. Após alguns risos e sorrisos amarelos de Alfred, que não sabia realmente o que dizer, Arthur decidiu levantar uma questão sobre a qual muito já refletira. "Sabe", ele murmurou, fazendo com que Alfred erguesse a cabeça imediatamente para fitar Arthur. "Toda vez que falamos sobre você, a sua vida ou o seu retorno para a América, você olha para essa moeda", ele disse. "Eu me pergunto o porquê."
Alfred podia sentir o peso do olhar de Arthur sobre si. Não queria — não podia– falar sobre aquilo. "Olha, Arthie..."
"Senhores", a empregada anunciou sua chegada à sala de música, onde ambos se encontravam. "O almoço está servido. O senhor Kirkland acaba de chegar e pede para que os senhores o acompanhem.”
Houve uma troca de olhares entre Arthur e Alfred, cuja Arthur entendeu significar uma promessa de explicação mais tarde. Por hora, almoçariam, e então ele teria algumas das respostas que desejava.
Alfred suava frio. Nunca esteve tão nervoso por conhecer o pai de alguém – e o quão estranho isso soava? Na verdade, simplesmente nunca esteve tão nervoso. Suor brotava de suas mãos, onde a moeda era fortemente apertada. Quando começou a se sentir tonto, Alfred percebeu que prendia a respiração.
"Senhores", saudou Sr. Kirkland quando os dois jovens adentraram a sala de jantar, já sentado à mesa. A senhora Kirkland se encontrava sentada à direita do marido, e os saudou com um aceno de cabeça.
"Meu pai, mãe", Arthur murmurou com um aceno de cabeça em direção de cada um para logo em seguida sentar-se em seu lugar de costume, à esquerda do pai.
"Senhor, senhora", Alfred disse, imitando Arthur e sentando-se ao lado do mesmo, ao que Sr. Kirkland ergueu uma sobrancelha.
"O senhor deve ser o filho de um de meus aliados na América, que veio para passar uns tempos na Inglaterra, eu presumo."
Alfred percebeu, tarde demais, que não fora apresentado ao senhor da casa. Suas bochechas esquentaram e ele se levantou bruscamente para estender a mão para o Sr. Kirkland no intuito de corrigir sua falha, esbarrando na mesa no processo e causando um grande barulho.
O homem apertou-lhe a mão, um tanto contrariado. Coisa de americano, pensou. O que o levou ao pensamento expresso em seguida:
"Perdoe minha ausência durante sua estadia. A verdade é que não recebi nenhuma correspondência informando sua chegada" ele disse, esperando para ver a resposta de Alfred a isso. Estava, indiretamente, chamando-o de inconveniente.
“Ah! Sobre isso... É que nós...” Ele começou a gaguejar. Olhou para Arthur, que o encarava com curiosidade, o garfo no meio do caminho para a boca. Alfred parou por um instante e sorriu um pouco, voltando em seguida sua mente para o que dizia antes. “Eu certamente enviei uma correspondência avisando que viria, mas parece que não foi recebida. Os correios andam uma loucura desde que esta guerra começou”, ele disse, e então deu de ombros. Saída perfeita, constatou internamente, um tanto orgulhoso de si.
“Certamente”, concordou Sr. Kirkland. “A propósito”, ele disse, após uma breve pausa onde ele levou o garfo à boca e mastigou o alimento. “De qual dos meus... companheiros você é filho? Seria Jonathan? Tenho certeza de que suas feições me lembram as de Jonathan...”
Arthur ergueu as sobrancelhas ao ouvir tal sentença. Jonathan era um dos poucos parceiros de seu pai que conhecera. Tinha feições duras e olhos castanhos, além de ser um tanto abaixo da estatura mediana, com cabelos levemente ondulados.
“Isso”, concordou Alfred. “Isso mesmo. Jonathan é o nome do meu pai.”
“Oh”, murmurou Sr. Kirkland. “Achei que a esposa de Jonathan tivesse dificuldades para engravidar.”
✽
Mais tarde, após o almoço, Alfred e Arthur se retiraram da casa para uma caminhada pela propriedade. Alfred ainda suava frio pela conversa – sessão de perguntas — extremamente tensa e estressante que tivera com o pai de Arthur, que, após todas as mentiras que Alfred despejou sobre seu pai, começou a desconfiar do outro. Preocupava-se com o fato de conhecer tão pouco do estrangeiro e com a possibilidade de Alfred ser, na verdade, um grande mentiroso. Precisavam conversar, urgentemente, e foi com esse intuito que Arthur chamou Alfred para um passeio na extensa propriedade dos Kirkland.
"Alfred. Eu preciso saber." Arthur disse, após caminharem um bocado em silêncio, já embrenhados no meio das árvores da propriedade. Ele fitava os olhos do outro profundamente, causando tal desconforto em Alfred que ele se via incapaz de sustentá-lo por mais que dois segundos. "Você faz perguntas esquisitas, e nunca me dá respostas diretas quando pergunto de onde você vem. Eu preciso que seja totalmente honesto comigo, portanto, vou tentar mais uma vez." Ele suspirou e ergueu os olhos do chão para o rosto de Alfred. "De onde, exatamente, você veio, e como veio parar aqui?"
"Arthur, eu...” Ele olhou para o loirinho por alguns instantes, angustiado, para logo em seguida voltar o olhar para o chão. “Eu não posso." Disse ele, apertando a moeda no bolso. “Simplesmente não...” ele olhou tudo em volta com uma economia de movimentos atípica, tentando ao máximo evitar que os pensamentos que lutava tanto para reprimir, voltassem. "Eu realmente não posso. Não posso falar sobre isso. Vai ter que confiar em mim quando digo isso." ele olhou nos olhos de Arthur, vendo toda a incredulidade e mágoa aparente nos olhos verdes do menor. Ele lançou uma súplica silenciosa a Arthur que não durou muito tempo, uma vez que fortes memórias sobre sua faculdade, seu dormitório, insistiam em voltar. Ele fechou os olhos com força, tentando impedi-las.
"Alfred..." A voz de Arthur soou instável e, por alguns instantes, ele ficou imóvel, e então ergueu o rosto e se lançou para Alfred, que estava distraído, encurralando-o contra uma árvore de tronco largo, posicionando suas duas pernas ao lado do corpo do maior enquanto uma mão apoiava-o na árvore e a outra forçava o rosto de Alfred a ficar de frente para si. Quando Alfred abriu os olhos, pôde ver os quão marejados – e determinados — estavam os do outro. Aquilo o fez sentir-se péssimo.
"Arthur..." ele murmurou, o semblante angustiado. Não queria mais mentir ou fugir, mas que escolha tinha? Qualquer outra possibilidade o afastava de Arthur.
Ele ergueu a mão e acariciou o rosto de do menor à sua frente, desejando mais que tudo poder ser completamente honesto. A carícia delicada cessou quando Alfred percebeu Arthur, após alguns segundos sustentado a expressão determinada, fechar os olhos, como se se rendesse, suspirar e se inclinar em direção à mão de Alfred. Talvez eu possa simplesmente mandar para o inferno toda essa situação, era o que Arthur pensava.
Aquele gesto fez com que, em uma fração de segundo, o coração do americano acelerasse louco com a possibilidade diante de seus olhos — e foi com o intuito de testá-la que Alfred inclinou-se para frente, sem realmente pensar, e juntou seu par de lábios aos de Arthur.
Foi então, ao sentir o coração quase voar para fora do peito, que Alfred deu-se conta do quão intenso era seu sentimento por Arthur, e foi dada a maneira como as línguas de ambos se cruzavam e acariciavam, fazendo-os esquecer de respirar, que se deu conta do quão intensamente era correspondido.
E não demorou muito para que algo em Alfred formigasse durante aquele beijo — algo em seu baixo ventre. Ele não pôde evitar trazer aquele corpo mais para perto e correr as mãos pela silhueta esguia e firme do menor até a parte de trás de seu quadril, onde o acariciou e impulsionou para que suas pernas pudessem envolver seu quadril.
O movimento aconteceu com naturalidade assustadora, os braços de Arthur envolvendo seu pescoço e pernas envolvendo seu quadril, possibilitando Alfred sentir a ereção do outro crescer contra sua barriga, enquanto a sua tinha um contato mínimo com a parte de Arthur que o envolvia, apesar das camadas de roupa que o separavam. Alfred tentou inutilmente abafar um gemido de satisfação. Queria Arthur. Naquele instante.
Alfred respirava de pesadamente, ofegante entre os beijos, explorando ao máximo o corpo do menor enquanto deslizava as costas pela árvore até se ver sentado no chão, com Arthur sobre si. Arthur já sabia o que estava prestes a acontecer, e com uma troca de olhares firmes Alfred soube que tinha pleno consentimento do loiro, e logo o percebeu tentando se livrar das roupas do estrangeiro, empurrando o paletó de Alfred de seus ombros e deslizando-o pelos braços enquanto sentia os músculos do americano. Estavam longe da casa. Ninguém os acharia ali. Ou os procuraria.
Alfred desabotoava as roupas de Arthur com firmeza, mas certa urgência, perguntando silenciosamente para si mesmo o motivo de existirem tantos pequenos botões ali. Quando estes finalmente chegaram ao fim, ele afastou o tecido para longe e se permitiu alguns instantes para correr os dedos e admirar a pele de Arthur — macia e branca como marfim. Alfred sentiu o impulso de beijá-lo, beijar cada centímetro daquela pele pálida e perfeita.
E assim o fez. Durante horas.
✽
Ambos estavam suados e ofegantes apesar do frio da noite. Os dois corpos unidos, os cabelos desgrenhados e sorrisos tolos nos rostos. Quando se olharam, começaram a rir — de início bem baixinho, como duas crianças cúmplices de alguma peripécia, mas logo estavam gargalhando sem um real motivo, apenas... Extremamente satisfeitos.
"Alfred... O que vamos fazer?" Perguntou Arthur após a crise de risos cessar, fitando o vazio. Sentia-se um livro aberto, e, pela primeira vez, aquilo não o incomodou nem um pouco. Sentia-se confortável, naquele momento, para expor seus pensamentos mais sinceros, e não hesitou em imaginar-se com Alfred daquele momento em diante.
"Eu não sei." Alfred respondeu, toda a sinceridade que sentia no momento sendo expressa naquelas três palavras. Com Arthur ali, em seus braços, sentia-se livre de qualquer coisa, e incomodava-o ter que pensar em como lidariam com tudo o que acontecera para que ele chegasse até ali. Abraçou o corpo do menor, mergulhando o rosto nos cabelos do outro, tentando fugir daqueles pensamentos. "Só sei que quero estar com você."
Aquelas palavras, de alguma forma, aqueceram o coração de Arthur. Sentia-se amado, sentia-se... Pleno. Ele não pôde evitar a contração dos músculos da face, formando um sorriso que se via incapaz de tirar o rosto. Ele repousou a testa no peito de Alfred, tentando esconder sua felicidade que, para ele, era semelhante à de uma criança que acabara de receber um doce.
“O que você está fazendo?” Alfred tentou olhar para o rosto de Arthur, curvando-se e torcendo-se, sem sucesso. A cada vez que Alfred movia o rosto para perto de Arthur, este se movia também, escondendo o rosto. Quando deram por si, estavam rindo mais alto que antes, mergulhados em um mundo só deles.
“Senhores?”
As risadas pararam imediatamente. Era tarde, o sol se punha. Estava próximo da hora do jantar. Ambos se entreolham e começam a recolher suas roupas do chão, jogando peças de roupa um para o outro periodicamente quando encontram algo que não era seu. Alfred vestia as calças apressadamente quando Arthur lhe jogou seu paletó e moedas rolaram para fora do bolso interno da roupa.
Alfred soltou um som de irritação e se abaixou para juntar as moedas enquanto vestia a última peça que lhe faltava. Juntava-as e colocava em sua mão em concha enquanto Arthur terminava de arrumar suas roupas e observava Alfred.
“Você tem algo com moedas, não é?”
“É só que...” Alfred lançou um olhar para as moedas em sua mão em concha, pensando em uma resposta. Em sua mão, no topo do pequeno monte que se formava, uma moeda nova e brilhante se destacava, datada de 2015.
O americano ergueu a cabeça bruscamente, encarando Arthur com os olhos arregalados, formando uma expressão desesperada. Ele cambaleou para frente, os pensamentos enchendo sua cabeça. Entrei para a faculdade em 2015. Comprei um carro... Ele fechou os olhos com força, tentando espantar de sua mente a imagem do HB20 usado que dirigia aos fins de semana.
“Arthur!”
“Alfred, o que houve?” Arthur o olhava confuso, enquanto o estrangeiro o envolvia nos braços e o apertava com força, derrubando as moedas novamente no chão.
“Arthur, em que ano estamos?”
“Como assim? Alfred, você está me preocupando...” Ele olhou para as moedas no chão, confuso.
“Apenas me diga!”
“Dois mil e quinze...?” O loirinho fitava a moeda brilhante, e quando Alfred o soltou para encará-lo com os olhos vidrados, Arthur se abaixou para recolher a moeda e analisá-la melhor.
Quando ergueu o rosto, Alfred não estava lá.
21 de fevereiro, 2015.
Alfred acordou ao pé de uma árvore frondosa, tonto e desnorteado, molhado de suor. Levantou-se bruscamente e sentiu sua visão escurecer por um instante. Era noite, e ele estava... na propriedade dos Kirkland? Caminhou por entre as árvores, o passo gradativamente mais apertado, correndo os olhos pelo ambiente até encontrar uma cerca machucada por duas pessoas que passavam por cima dela. A cerca e as roupas das pessoas o confundiram, e ele sentiu sua realidade mudar como uma mistura de óleo e água recebendo uma gota de detergente. Aquela era... A sua universidade.
“Não”, ele murmurou. Correu por entre as árvores mais uma vez, parando abruptamente e fechando os olhos. Estou em 1933, estou em 1933, estou em 1933...
“Alfred!”
“Merda!” Ele exclamou e viu duas figuras se aproximarem no escuro. Tratava-se de Roderich e Gilbert, ele percebeu. Corriam em sua direção, gritando para que ele parasse, suas expressões indistinguíveis na escuridão da noite.
“Alfred, droga! Por onde esteve?! Você sumiu por horas!” Exclamou Roderich ao alcançá-lo.
“O que você está dizendo?! Eu sumi por dias!” Ele respondeu inquieto. Aqueles dois precisavam sumir também, ou ele não conseguiria voltar para Arthur. Seu confuso e inseguro Arthur.
“Uau.” Gilbert disse após um assobio. “Eu te disse Rod, ele está drogado.” A gargalhada de Gilbert encheu o ambiente, causando irritação tanto em Alfred quanto em Roderich.
“Oh, cale a boca, Gilbert.” Disse Roderich, rispidamente. “Alfred, você tem que voltar!”
“Sim! E vocês têm que ir embora!” Respondeu Alfred, irritado. Virou-se para voltar a caminhar e se distanciar da dupla, mas antes que o fizesse, pôde ouvir os murmúrios de Gilbert:
“Não tem jeito, Rod. Vamos ter que carregá-lo.”
Discutiram, brigaram, lutaram. Alfred estava totalmente irritado com o modo como os dois o estavam tratando – como se fosse uma criança que tivesse feito algo errado. Gilbert finalmente conseguiu agarrar o americano após receber um soco no olho e acertar-lhe o queixo, deixando o americano tonto.
De volta ao dormitório, ambos conseguiram acalmar Alfred, que deitou e fingiu dormir pelo resto da noite, uma vez que não conseguia manter os olhos fechados ou fazer a mente desacelerar. Estava decidido a voltar para Arthur de qualquer maneira, e àquele ponto, o que o mantia calmo era o pensamento de que tudo o que tinha que fazer era se concentrar para voltar no exato momento em que partira, e tudo voltaria ao normal. Tentou inclusive repetir o mantra ali, deitado em sua cama, mas teve de desistir quando o sol se ergueu e Roderich acordou, obrigando-o a ir para as aulas.
E assim se passaram os três dias seguintes, com Alfred tendo que ouvir queixas de Roderich até não ser mais capaz de suportá-las, levando-o a se render e frequentar as aulas. Mesmo as de física já não o interessavam mais. Tudo o que Alfred conseguia pensar era em Arthur, seus sorrisos esporádicos, lendo seus livros com teorias desatualizadas que o deixavam adoravelmente fascinado, seu corpo quente...
Foi quando Alfred finalmente identificara seu problema. Apesar de estar totalmente certo de que estivera no passado, parte dele o dizia que era impossível realizar aquele feito mais de uma vez. E aquela parte insistia em se manifestar nas horas menos oportunas, atrapalhando sua concentração e destruindo suas chances. Naquele momento Alfred percebeu que aquela pequena parte de si devia sumir.
Ao fim do dia, Alfred caminhou mais uma vez para os fundos da propriedade universitária, com todo o dinheiro que pôde reunir com suas economias, vestindo uma calça e camisa de botões. Tinha consciência que boa parte do movimento do outro lado da cerca era devido ao ponto de drogas ali presente. Sabia que naquele horário o comércio estaria acontecendo. Sabia o efeito de drogas no organismo — e era exatamente por isso que ele procurava.
"Hey, olá", saudou um jovem que observara Alfred escalar a cerca enquanto tratava de uma venda. "É novo por aqui, certo? Está procurando alguma coisa?"
"Estou." Alfred respondeu. "Dê-me um pouco de tudo o que tem." Ele disse, mostrando o maço de notas amassadas na mão. Não se importava com aquele dinheiro — nenhuma daquelas cédulas teria algum valor em 1933.
O jovem assobiou. "Wow wow wow, calma novato. Um pouco de tudo é muita coisa, mas isso aí é um monte de dinheiro." O rapaz disse, as sobrancelhas erguidas enquanto encarava as notas nas mãos de Alfred.
"Você quer ou não quer o dinheiro?"
"Ok, ok" o jovem respondeu, rindo da estupidez do americano. "Mas vai com calma. Seria péssimo perder um cliente desses."
✽
Alfred tinha um saco de papel repousado ao seu lado. Não tinha noção do quanto já tinha usado ou de como exatamente se sentia. Parecia querer pular e gritar a plenos pulmões, mas ao mesmo tempo sentia-se tão relaxado que podia ficar encostado naquela árvore por horas. Dias.
Sua mente girava, e ele ria sozinho. Estava vindo. Podia sentir no modo como seu coração batia irregular, o efeito se intensificando, tomando conta de seu corpo. Ele estava lá, ele estava lá, ele estava lá. Voltando.
“Alfred?” Ele ouviu a voz em algum lugar atrás de si. Com todos os seus sentidos em alerta, ele se virou o mais rápido que pôde para trás, ansioso. Seria ele? O movimento brusco o fez cair e derrubar seus óculos. Ele ergueu o rosto, desorientado, a visão borrada e confusa. Tudo girava e brilhava. Aquele era...?
“Arthur!” Ele exclamou de volta para a figura à sua frente. “Arthur, me perdoa, eu... Eu voltei... Eu consegui voltar!” Ele estendeu a mão em direção à figura que tentava focar, mas o contorno aparecia e desaparecia tão rapidamente que em algum lugar da mente de Alfred ele considerou que aquilo podia não passar de uma consequência de seus olhos piscando.
Escutou uma série de gritos e vozes que tentavam soar mais forte que outras, e de repente sentiu seus braços serem envolvidos e imobilizados atrás das suas costas, seu corpo ser erguido do chão, causando-lhe desconforto. Sabia que algo estava errado, mas Alfred só começou a gritar de fato quando percebeu que estava sendo afastado da figura de Arthur.
“Não! Me soltem! ME SOLTEM! Eu preciso voltar! Minha moeda... Cadê a porra da minha moeda?!”
Ele se debatia violentamente, chutando qualquer coisa à sua frente, o coração batendo louco, mas era inútil. Eles eram muitos, e mais fortes, e o tinham pegado de jeito. Sentiu uma intensa sensação em volta dos braços e pernas, e se percebeu imobilizado. Estava amarrado.
“Não! Arthur!”
Do fundo da garganta de Alfred saiu um soluço de desespero, e ele desistiu de lutar. Sentia-se cansado, quase incapacitado. Piscou forte, a visão escurecendo. Estaria acontecendo? Estaria finalmente indo para Arthur agora? Sentiu o coração bater descompassado, em uma agonia extrema, até parar, mas não teve medo. Veria Arthur.
Tudo escureceu.
✽
Alfred sentiu um toque quente no ombro. Abriu os olhos, piscando algumas vezes pela luz excessiva, mas podia identificar o contorno de uma pessoa ao seu lado, a mão dela repousada em seu ombro. À medida que seus olhos se adaptavam à luz, ele ia percebendo mais detalhes da pessoa — olhos, cabelo, sobrancelhas. Alfred sorriu satisfeito.
"Arthur."
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