Somewhere Out There
1 Somewhere out there
Era manhã outra vez. Joguei pro lado as cobertas e me forcei a sair da cama. Aquele não ia ser um dia fácil.
“Fique em casa amanhã.”
“Tome tempo pra se recuperar.”
“Você passou por algo muito difícil, tem que descansar, volte pras aulas na semana que vem.”
Eram todos bons conselhos, todas boas intenções, mas não tinham importância pra mim no momento.
É claro que doía, e doía muito. Mas o que adiantava ficar adiando?
Eu sei que parece cruel ver desse ponto de vista, mas de que adianta ficar olhando pra trás? Já tenho minhas lembranças pra fazer isso por mim. É claro que vou sentir falta. Sentir falta dela, daquele sorriso que eu via todo o dia ao chegar no colégio, das conversas bobas... Sentir falta apenas de saber que ela está ali.
Mas agora ela não volta mais. Não que ela não tenha avisado, não tenha dado sinais.
Foi ficando cada vez mais distante, distante...
Distante...
E agora, parece que sumiu por completo, não foi?
Deixei de lado meus devaneios por alguns instantes e me arrumei, afinal eu precisava sair. Terminando, abri as cortinas. Era um lindo dia, o céu ainda pintado levemente de laranja, já se transformando em azul.
Desci as escadas devagar, apenas pra encontrar meus pais surpresos na sala de jantar.
“Filho, você...”
“Não precisa ir pra escola hoje.”
“Eu quero ir. Acho que já vou indo, quero passar num lugar antes.”
Eles se olharam, preocupados, mas não disseram nada. Devem estar com medo que eu tenha um ataque ou algo assim. Não sei porque a preocupação, eles sabem que já tomei meus remédios. Ou talvez eles achem que o filho é um psicopata sem sentimentos que apenas não se importa com a morte da melhor amiga. Quem dera fosse isso. Aí talvez eu não estivesse sofrendo assim.
Saí de casa e tomei um caminho diferente do que sempre tomava pra ir pro colégio. Estava cedo demais pra ir pra lá, e como já havia dito, queria passar em um outro lugar antes.
Demorei cerca de cinco minutos e não havia ninguém lá, nem uma alma viva. Engraçado como o tempo passa rápido, não? Olhei em volta, deixando as lembranças me levarem pra onde elas quisesse ir. Entre elas eu vi uma garota. Era pequena, tinha cinco anos, loira, olhos verdes, uma daquelas crianças que é praticamente impossível alguém não dizer que é bonita, que parece uma princesa ou algo do tipo.
Sarah.
Eu me lembrava de tudo. Curioso como guardamos certas memórias tão bem sem querer. Naquele dia eu nem sabia que ela seria tão importante pra mim e que faria tanta falta.
Sarah...
Me entreguei aos meus devaneios. Lembrei de como ela sempre cantava uma musiquinha. Ela tinha cantado num show na escola ou algo assim.
Ela cantava tanto que me fez decorar... uma frase me veio a mente...
Somewhere out there someone’s saying a prayer
That we’ll find another in that big somewhere out there.*
Será mesmo? Mas do que adianta? Eu não sei se acredito em céu e inferno, mas gostaria que fosse verdade.
Continuo pensando nela. Tinha seus problemas, queria ter descoberto mais cedo, e não quando já era tarde demais, sentindo seu corpo quase sem vida nos meus braços...
E já estou chorando de novo. Dou uma risada forcada e me levanto. Não tem porque ficar aqui, tem? Porque vim pra cá em primeiro lugar? Pra lembrar?
No fundo eu esperava que por um milagre o tempo voltasse e eu pudesse viver tudo aquilo de novo, que eu pudesse fazer alguma coisa...
Não cheguei a dar cinco passos quando algo chamou minha atenção. De alguma forma, percebi que não estava sozinho. Me virei e vi uma pequena figura, sentada num balanço próximo. De repente, ela começou a cantarolar. Eu conhecia aquela música.
“Não pode ser...” – Foi tudo que consegui murmurar pra mim mesmo enquanto caminhava até lá, devagar e sem fazer barulho, afinal não queria assusta-la.
Com certeza isso era o meu cérebro pregando uma peça em mim. Porque eu não ouvi todo mundo? Eu devia ter ficado em casa, não estou em condições de sair por aí. Eu posso até achar que está tudo bem, eu dá pra lidar com o que eu passei seguindo a vida normalmente, só que na verdade não.
Cheguei mais perto. O mais perto que dava sem ela me ver. Continuei prestando atenção. Ela se balançava levemente enquanto continuava a cantarolar. De repente parou e olhou pra trás. Será que que tinha feito algum barulho? Quando olhei mais atentamente pro seu rosto, não pude acreditar. Era ela, era... Sarah!
Só que bem menor. Eu não podia estar tendo um devaneio com ela... bem, do jeito que eu me lembrava? Com 16 anos?
“Calleb?” – Ela me chamou. Eu simplesmente fiquei ali parado, sem conseguir responder
“Calleb? Hei, responde!”
“Ah, oi, o que ta acontecendo aqui?”
“Eu não sei. Me mandaram pra cá. Me disseram que seu nome era Calleb e que eu tinha que te dizer que ia ficar tudo bem, que você não poderia ter mudado nada. O futuro já foi escrito.”
“Quem te mandou?”
“Eles... na verdade nem eu sei. É meio confidencial, sabe?”
“Aham...” – Na verdade eu não sabia de nada, não estava entendendo nada. Será que meus pais tinham me dado algum remédio que provocava reações alucinógenas?
“Não se culpe pela minha morte. Eu sei que é ruim, é ruim até pra mim, saber que vou morrer cedo e que não posso fazer nada pra mudar. Mas fazer o que?”
“Espera... é como se você fosse do passado ou algo assim?” – Ok, eu estava realmente dialogando com uma alucinação.
“Isso. Você é sempre assim meio lerdo?”
É, era a Sarah mesmo.
“Não, é que... como?”
“Você já sabe.”
Dizendo isso ela voltou a balançar e cantar aquela música.
Somewhere out there someone’s saying a prayer
That we’ll find another in that big somewhere out there.*
“Onde aprendeu essa música?” – perguntei.
“Tive que apresentar num recital da escola. Tem muita coisa que você não entende, Calleb. Tem muitas respostas na sua frente e você não vê.”
“Como... espera, se você é do passado, tem algum jeito de eu voltar e...”
“Não. Não dá pra mudar nada. Temos que seguir o script.”
“Mas então porque e como você está aqui?”
“Porque eu tinha que estar.”
“Então você já sabe de tudo? De todo o seu futuro? Até... da sua morte?”
“Aham. Não é agradável, mas não há nada que eu posso fazer.”
Paramos de falar por alguns momentos. Dei uma olhada em volta. Ela tinha ficado em silencio agora.
“Sarah... Eu sinto sua falta. Porque você tinha que ir?”
E eu estava chorando novamente.
“Eu não sei. Ainda não aconteceu pra mim, lembra?”
E com essas palavras, ela se foi. Do mesmo jeito que chegou, sumiu diante dos meus olhos como se nunca tivesse existido. E eu fiquei ali sem saber o que tinha sido aquilo. Uma conversa profunda com meu subconsciente? Um delírio emocional? Efeito colateral de algum remédio suspeito? Ou uma mini Sarah realmente vinda do futuro? Não sei, não vou saber.
Sabendo ou não, tinha que ir pra escola.
Ela já sabia de tudo? Mas porque não impediu? Porque não se impediu? O que a fez chegar naquele estado tão deplorável, do qual a única saída pra ela era a morte? A morte da mão, o pai... Tudo isso ajudou, mas eu estava lá, não estava? Teria dado um jeito em tudo isso pra ela, se eu soubesse... Ela já sabia...
Fui me aproximando do colégio, vendo rostos conhecidos. Uma expressão de pena se fixava em cada um ao olhar pra mim. Sempre me disseram que Sarah era doida. Talvez ela fosse mesmo, mas eu não me importava...
Parei a poucos metros do portão. Eu a via ali todo dia, era difícil... Devia voltar pra casa? Seguir o conselho de todo mundo e ficar remoendo o passado deitado na cama, trancado num quarto escuro? Estava sendo insensível com relação à morte dela? Realmente, não tinha visto por esse ângulo.
Lembrei daquela música. Será que estaríamos juntos de novo em algum lugar por aí? Eu nçao sabia.
Passei pelo portão. Pensei ter visto de relance uma figura loira ao longe, em meio a multidão de alunos.
“Deve ser coisa da minha cabeça...” – Pensei.
Segui murmurando a música, me lembrava dela, fazia doer, mas mesmo assim em acalmava. Era engraçado. Era o que eu cantava pra ela em noites de tempestade, quando ela não conseguia dormir Agora era como se ela estivesse me confortando. Podia quase ouvir, como se ela estivesse ali do meu lado...
Somewhere out there,
If love can see us through,
Then we'll be together,
Somewhere out there,
Out where dreams,
Come true...**
*Em algum lugar lá for a, alguém está orando
Pra que nós encontremos um ao outro em algum lugar lá fora.
**Algum lugar lá fora
Se o amor pode ver através de nós
Então estaremos juntos
Em algum lugar
Algum lugar onde os sonhos
Viram realidade.
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