Something Wicked
4 Capítulo 04 - Joseph e Oscar
Irene acordou. Sentiu uma dor imensa na perna e abriu seus olhos devagar. Percebeu a presença de dois médicos, enfaixando a sua perna direita. A garota soltou alguns gemidos de dor e viu seu pai chegando até ela. Tinha um ar preocupado e havia chorado bastante no tempo em que a garota dormira.
– O que houve? – indagou ela.
– Vamos falar disso depois? – perguntou o pai, com a voz chorosa – Você está bem?
Irene deu uma longa respirada. Os médicos largaram sua perna e se despediram em silêncio, fechando a porta. A garota novamente respirou e ficou fitando o pai por alguns segundos.
– Estou – respondeu sem muita energia, sentindo as dores passarem um pouco, – não me lembro de nada do que aconteceu.
– Eu também não sei – decidiu dizer o pai dela – você pedia ajuda, tentei ajudar, mas a porta estava trancada. Ouvia barulho de coisas quebrando. Entrei em desespero. Quebrei a porta com o primeiro objeto que vi e quando entrei... – disse ele, fazendo uma longa pausa no final. Na verdade, quando Irene pensou que ele diria, o homem se calou e se dirigiu para um sofá, que ficava de frente para a grande janela do terceiro andar. Foi nesse momento, após alguns instantes, que Irene percebeu estar num hospital. Ela deveria ter prestado atenção no lance dos médicos, mas sua cabeça estava confusa.
– E o que, pai? – perguntou ela, irritada – fale-me a verdade. O que aconteceu comigo? – Irene então começou a se lembrar de tudo. Viu seu corpo sendo lançado contra a parede. A criatura era gigantesca e feia. Estava coberta por um pó branco, que mostrava perfeitamente sua silhueta, pois era invisível. Quando realmente viu o que tinha acontecido, seu pai cedeu:
– Bem... você vai saber de uma hora ou outra, então... – começou, engolindo em seco, – quando abri a porta percebi que você estava de pé. Olhou para mim com raiva e me soqueou no rosto, – e mostrou uma marca na bochecha – depois me lançou contra a parede. Nesse momento você caiu e uma criatura gigantesca e feia, apareceu. Ela foi até mim e pareceu sugar minha alma. Parecia estar drogado. O bicho foi contra você, Irene e quando percebi... – lágrimas saíram dê seus olhos e inundaram sua face. – ele havia sumido e sua perna tinha sido arrancada.
O silêncio tomou conta da sala. Irene não conteve o choro ao olhar sua perna amputada. A desolação tomou conta de seu rosto jovial. Uma enfermeira entrou bem na hora para lhe entregar um remédio esquisito que devia tomar. Depois que saiu, o pai da garota e abraço fortemente, por longos minutos.
– Como... eu perdi a perna...? – perguntou ela, pensando ser tudo um pesadelo. Percebeu também que sua outra perna estava bem machucada.
– Eu não sei. Deve ter sido aquela criatura. Mas por quê? E também, eu nunca acreditei nestas coisas sobrenaturais. Foi um baque para mim – explicou ele, fazendo gestos e mostrando como a levou para o hospital, tonto.
"Aquela criatura... aposto que foi aquele negócio que possuiu Bete." Pensou ela, em silêncio, enxugando as lágrimas. Ainda não processava direito a informação que havia recebido tão rapidamente, sem dó.
– Pai? – perguntou ela, – Você pode ir lá em casa e pegar meu laptop? – indagou, tentando fazer uma carinha que ele aceitaria.
– Tudo bem... – respondeu achando uma idéia não tão boa assim; queria ficar ao lado da garota, não desgrudar dela, afinal, a mãe de Irene morreu quando a mesma tinha apenas cinco anos de idade. Foi algo muito cedo e inesperado.
Depois de alguns minutos, Milton, o pai da garota voltou com um computador na mão. Estava suando. Devia ter corrido para voltar ao hospital.
– Está aí – falou, entregando no colo da garota, – para que vai utilizá-lo?
– Mandar mensagens, checar as redes sociais, estas coisas – explicou a garota, um pouco sem paciência. A jovem lembrou-se então de seus amigos e novas lágrimas acabaram descendo sobre sua face. Quando o pai dela foi perguntar algo, a garota indagou:
– Meus amigos já sabem disso?
– Sim. Vão vir te visitar depois do almoço – disse Milton, sorrindo.
– Que bom! – disse ela, se animando um pouco. Mas a tristeza logo a corroeu por dentro. Ainda sentia as dores do que acontecera com ela. Ainda teria que se adaptar com a nova realidade do seu corpo, algo não tão fácil como pode parecer.
A garota entrou num site de procura, onde poderia achar outros milhares de sites. Ela escreveu alguma coisa rapidamente e surgiram vários links. Um deles era de dois especialistas. Seu trabalho? Descobrir a existência de seres sobrenaturais e destruí-los. O nome do primeiro era Joseph, que nasceu na Inglaterra. O companheiro, que se chamava Oscar tinha o apelido de Ghost.
Neste site, estavam várias gravuras e explicações sobre seres sobrenaturais. Nos dias anteriores, Irene havia descoberto que todas estas histórias poderiam ser reais, já que aquela criatura estranha havia os atacado. Pelo menos era o que achava. Foi aí que achou um texto, acompanhado por uma grande gravura. Nela, estava a tal criatura. Igualzinha.
"Então... eles também se depararam com ela..." pensou ao começar a leitura.
"Nós fomos até uma pequena cidade do Maranhão. Lá achamos seis crianças assombradas por uma coisa maligna. Na verdade, chama-se Scrift, um espírito canibal que possui adolescentes e adultos, em busca de alimento. Esse Scrift já atacou diversas regiões do mundo. De cinqüenta e cinco pessoas atacadas, duas sobreviveram... até agora. Conseguimos mandá-la para um lugar melhor através de um ritual antigo. Não podemos citá-lo aqui. Se alguém estiver sendo atormentado por esta criatura, por favor, contatar o seguinte número: 32618." Leu a garota, em voz baixa. Quando percebeu, o seu pai estava comendo uma torrada no capricho. A jovem sentiu uma fome grande e pediu para Milton pegar um pastel para ela.
Irene então largou o computador, comeu e pediu um descanso para o pai, que foi assistir televisão numa outra sala. A garota voltou a chorar. Seus olhos ficaram vermelhos e ardendo.
– Por que isso aconteceu comigo? – se perguntou, tentando achar alguma resposta que pudesse lhe explicar o que estava acontecendo. De alguma maneira estranha, ela acreditava no tal Joseph e Oscar. Precisava ligar para eles de qualquer jeito o piraria. Teve a idéia de fazer isso quando seus amigos viessem lhe visitar. Após se decidir, chorou por mais alguns instantes e dormiu. Teve um leve pesadelo e quando abriu os olhos havia uma enfermeira obesa, trazendo um pacote de balas de caramelo.
– Trouxe para você! – disse ela sorrindo – descobri que adora elas.
– Muito obrigada! – exclamou a garota, aceitando na hora. Era a sua bala preferida. Irene mastigou algumas e ofereceu a enfermeira, que recusou e saiu da sala.
A garota percebeu num relógio bem redondo de parede que o horário da visita de seus amigos estava quase chegando. O tempo se passou e o rosto do pai apareceu na porta.
– Chegaram – disse ele, sorrindo.
– Legal! – disse ela, também abrindo um sorriso.
A porta se escancarou e cinco adolescentes entraram. Estavam perfumados. José, Cláudio e Marcos pareciam colados enquanto Fabiana correu para abraçar a amiga. Maíra também deu uma força para Irene. A garota desandou a chorar.
Os jovens se sentaram em cadeiras trazidas provavelmente pelo pai de Irene e logo começaram a contar tudo que havia acontecido no colégio, trabalhos que deviam ser entregues e etc. Quando o assunto acabou, Marcos, que estava de cabelo penteado e mais curto, perguntou:
– O que você lembra do que aconteceu?
Irene contou, contou, contou e contou sobre tudo que tinha ocorrido. Ficaram chocados. Era tudo muito estranho. Os rostos apavorados deram lugar para faces curiosas, após Irene abrir o laptop e mostrar o site de Joseph e Oscar.
– Então... eles caçam estas coisas? – perguntou Fabiana, tendo um leve arrepio. Ela apenas pensava que poderia ser a próxima a ter a perna amputada.
– Sim – respondeu Irene, – parece que sim. Eu ainda tenho dúvidas, mas acredito nestes dois. – terminou, abrindo um ligeiro sorriso e já ficando séria.
– Vamos ligar para eles? Precisamos deter este Scrift – indagou José, um tanto tímido quando olhava para a garota que havia beijado e que estava sem uma perna. Seu rosto tinha uma mistura estranha, que intrigava a todos.
– O.K. – falou Maíra. A jovem pegou o celular e discou os tais números. Só fez isso por que sabia que o número era de uma cidade próxima e não gastaria tantos créditos.
– Alô? – perguntou uma voz feminina.
– Oi! Meu nome é Maíra. Queria falar com Joseph e Oscar. – disse ela, animada em ver que alguém tinha atendido.
– Desculpe, mas, eles morreram nesta semana – respondeu a mulher.
– Ah tá, obrigada – terminou Maíra, desligando o celular.
– E aí? O que houve? Você falou com eles tão rapidamente? – perguntavam todos, desesperados.
– Eles morreram, nesta semana – disse a garota, com o olhar vidrado na parede branca do quarto. Ninguém acreditou.
Irene não prestava muita atenção no falatório. Ela estava intrigada com algo que achara no computador. Seus olhos iam e voltavam, lendo tudo que conseguiam no menor tempo. Foi aí que algo a deixou estupefata. A jovem colou alguns arquivos em documentos de texto e virou o laptop, mostrando aos colegas.
– Vejam – começou, apontando para a tela, – pesquisei sobre a morte dos dois. Ocorreu dia vinte e três. Houve mais cinco mortes, todas no mesmo dia, só que cinco minutos depois – disse.
– Como você sabe? Foi gente famosa? – indagou Cláudio.
– Está aqui nas principais notícias e sim, foi gente famosa. Uma modelo, um jogador de futebol, dois milionários e um apresentador de televisão – mostrou ela, indicando fotos com os rostos do falecidos – o engraçado é que cada um morreu dois minutos após o outro...
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