Notas iniciais
Sherlock acaba de descobrir que o noivado de Molly está de pé outra vez! E a pior parte foi o descobrimento do noivo: Tom.

-Parece que teremos mais um grande dia hein? Ah que emocionante! –disse Mrs. Hudson, passando pela porta equilibrando a bandeja com o chá e os biscoitos matinais de Sherlock.

-Primeiro: até quando a senhora pretende me encher com suas inúteis referências de que o casamento é um grande dia, embora eu não saiba a quem se refere desta vez. E segundo: até quando irá me interromper entrando sem bater? –resmungou Sherlock, enquanto desligava seu notebook e caminhava até sua poltrona.

-Bom dia Mrs. Hudson! –disse John, na poltrona à frente.

-Bom dia John! Como vai Mary?

-Ótima! Saiu mais cedo pra fazer umas compras para o bebê.

-Ai que maravilha! Estou muito contente por vocês. Sempre quis ter filhos. –disse Mrs. Hudson, após deixar a bandeja na mesinha de centro. –Ah, e Sherlock, pra sua informação, eu sabia que você estava acordado. Graças a Deus John chegou e fez esses tiros pararem. Até quando você pretende atirar na minha pobre parede? Vou cobrar por cada buraco viu mocinho?! –disse ela, dando um leve tapa no ombro de Sherlock e se retirando da sala.

-Adeus Mrs.Hudson. Que encontre um novo amigo e pare de tagarelar no meu ouvido! –retrucou o detetive, agora um pouco nervoso.

E então, o cômodo afundou num silêncio profundo. O bastante para ouvir passos da rua a frente.

-O que houve? -perguntou John curioso, mas preocupado.

Nenhuma resposta. Nem mesmo um ruído. Instantes depois, as pernas de Sherlock começaram a balançar sincronicamente. Impaciente, John se pôs a perguntar de novo:

-Sherlock? Está tudo bem?

E mais uma vez, sem respostas, mas desta vez, aquele sacudido em suas pernas começara a ganhar velocidade. Nenhuma reação, ou expressão foi executada por Sherlock. John começava a duvidar até que seu parceiro estava respirando. Era possível afirmar que seus olhos chegaram a uma coloração fora do normal. E, enfim, após alguns minutos, suas pernas pararam, seus olhos voltaram a piscar e de repente soltou um longo suspiro. Sherlock voltara à vida.

-Ok, vai me contar agora?

-Contar o quê?

-O que acabou de acontecer! Tudo... Isso! –respondeu o Doutor indignado.

O silêncio encheu a sala novamente.

-Sherlock! –berrou John, desta vez furioso.

-É ela não é? –perguntou Sherlock com a voz trêmula.

-Ela quem?

-A noiva.

-Noiva? Mas que noiva? Sherlock, será que dá pra me expli...

-A noiva John! -interrompeu o detetive, com um berro que fez John tapar os ouvidos. –O casamento o qual Mrs. Hudson se referia! É a Molly não é? Só pode ser ela. Não conheço mais ninguém que estava usando um anel de noivado. E se fosse alguém que eu não conheço ela não viria me dizer isso, como fez em seu casamento. –dizia Sherlock agora mais nervoso do que nunca, andando de um lado para o outro mexendo as mãos sem parar. –Mas quem será o noi... Não. –parou e encarou o espelho com um olhar sombrio e assustado.

-Sim. É ele mesmo. Ela vai se casar com o Tom. –disse John, com um leve sorriso no rosto.

Sherlock fechou os olhos, e cerrou o os punhos como se fosse socar algo. Apenas ele sabia quem era Tom de verdade. E deixar Molly nas mãos dele fez seu estômago revirar e sentiu uma leve tontura mas se manteve de pé. Sherlock jamais permitiria isso. Ele não havia interrompido antes, pois pensara que seria como os relacionamentos anteriores da moça. Algumas semanas de “eu te amo”, e depois... Puff! Tudo terminava em lágrimas. Sherlock sabia no que daria no final, e não seria apenas em algumas lágrimas. Estava disposto a tudo por ela, como uma mãe leoa faria de tudo pra proteger seus filhotes. Até mesmo arriscar sua própria vida. Molly era parte da família, embora nunca admitira, e sentia que lhe devia isso. Sherlock sentiu seu sangue esquentar e pulsar mais forte em suas veias. Abriu os olhos e viu John sorrir enquanto folhava o jornal. Sabia que nada o faria rir em um jornal então perguntou:

-O que foi?

-Nós dois sabemos que eu te conheço melhor do que ninguém, e...

-E? –interrompeu Sherlock, com uma expressão visivelmente séria em seu rosto.

John soltou uma leve risada e prosseguiu:

-E eu sei que Molly tem um significado especial pra você.

-E?

-E qual será seu plano?

-Plano pra quê?

-Pra acabar com o casamento ora?! Será do jeito tradicional, invadindo a cerimônia, ou você tem algo original? –perguntou John, sem conseguir esconder seu sorriso sarcástico. Estava contente por perceber que Sherlock finalmente se importava com um ser feminino.

-Não seja patético. –retrucou o detetive, se virando, pegando seu casaco e seu cachecol, e se direcionando à porta.

-Aonde vai? –perguntou John, ainda sorrindo, antes que perdesse Sherlock de vista por um bom tempo.

-Tomar um ar. –respondeu ele num tom firme e direto.

-Quer companhia?

-Não.

Antes que Sherlock pudesse fechar a porta, John completou:

-Apenas se lembre: Molly tem sentimentos, diferente de você. Comporte-se e pegue leve. –Aconselhou Sherlock, pois sabia exatamente aonde ele iria. Conhecia ele melhor do que qualquer um, e conhecia muito bem seu lado teimoso e imprudente.

Sem dizer nem mais uma palavra, Sherlock saiu pela porta, fechando-a com força. Seguiu até a calçada e chamou um taxi.

-Pra onde? –perguntou o taxista.

-Hospital Barts.

No caminho para o hospital, Sherlock foi mais uma vez perturbado por seus pensamentos. Ele não tinha um plano. Não tinha ideia do que estava fazendo, ou do que iria fazer quando chegasse lá. E então percebeu. Sherlock Holmes, o detetive mais brilhante que o mundo havia conhecido, o homem que na verdade não era um “homem”, aquele conhecido por ignorar qualquer sinal de humanidade, pois sabia que significaria fraqueza e que seria perigoso demais. Esse homem, estava finalmente sentido algo por alguém. Embora o próprio ficasse contente em negar que isto esteja acontecendo, ele sabia que era verdade. Sabia que viver com John (ou melhor, ter convivido com um ser humano de verdade) por um longo tempo, teria liberado algo que por muitos anos mantivera nas sombras. E também sabia que não podia simplesmente interromper o trabalho dela, e enche-la com perguntas de sua vida pessoal. Assim que chegou na frente do hospital, pediu que o taxista mudasse de rumo. Parou uma quadra antes da casa dela e seguiu caminhando até lá. Tudo o que fizera naqueles minutos de caminhada foi pensar no que fazer, e por mais insano que isso soe, ele não tinha as respostas que procurava. Mas o foco permaneceu no lugar, e tudo que ele tinha certeza era que, não importa como faria, tinha que impedir esse casamento.

Era 12:25 quando parou em frente á porta, apenas encarando-a. Sabia que a essa hora, Molly estaria trabalhando, e estava disposto a esperá-la, mesmo que tivesse que permanecer no mesmo lugar até ás 20:30. Sentou no meio-fio e lá ficou, pensando, pensando e pensando.

-Pense. O que vai fazer quando ela chegar? –pensou consigo mesmo. –Conversar talvez. Isso, vou conversar com ela. Como eu vou fazer isso sem ser rude e seguindo as ordens do John? Oh Deus, jamais imaginaria que me encontraria em tal situação.

E realmente, ele jamais imaginaria. Já pegou a si mesmo pensando em Irene Adler. Mas em um tempo, ela se tornou apenas um curioso e desafiador enigma, o qual sempre estava ansioso para desvendar. Mas não agora. E também tinha John Watson. O homem pelo o qual ele faria o possível e o impossível , quebraria todas as regras propostas pela sociedade, ultrapassaria todos os limites da vida e da morte, e faria coisas que a humanidade jamais se aventurou a tentar. E em várias ocasiões pôde demonstrar um pouco de seu carinho por John Watson, deixando bem claro que sua amizade limita-se em apertos de mão e às vezes abraços. Mas a conectividade entre os dois é única. Sherlock Holmes precisa de John Watson assim como um cérebro precisa de um corpo para executar suas ações.

Mas desta vez, Sherlock notara que sentia algo muito forte e poderoso por Molly. Sim, “algo”, pois não poderia nomear o que não sabia identificar, ainda. Mas era um sentimento que despertava seus instintos mais humanos. Era um sentimento com erros, dúvidas e contras. Mas forte. Ele a amava. Um amor de amigo, irmão. Um amor que começou a se transformar em desejo. Certamente pelo fato de ele agora estar pensando muito nela, e acidentalmente começara a pensar em suas qualidades, e o quanto ela era... bela.

-Amor. –resmungou para si mesmo com um tom de nojo. Olhou em volta e percebeu que já tinha escurecido. Tirou o celular do bolso do casaco e o ligou. Havia desligado minutos depois de deixar Baker Street, pois sabia que John o iria perturbar o dia inteiro. Checou as horas. Era 21:00 e nenhum sinal de Molly. Checou também a caixa de mensagens. Como tinha previsto, havia milhares mensagens do John, perguntando onde estava, o quanto iria demorar, e o que tinha aprontado. Não pôde se conter e soltou uma risadinha. Adorava quando John se preocupava demais com ele. Não respondeu nenhuma delas, e se levantou para partir. Ajeitou seu casaco e se preparou para andar, quando avistou uma moça baixa do outro lado da rua, olhando para os lados para atravessar. Era a Molly.

Sherlock tentou se virar pra ela não o ver, mas era tarde demais. Ela acenava para ele, e fazia sinais pedindo para ele ficar onde estava, com um enorme sorriso no rosto, o que era de costume quando se encontrava com ele. E então, algo curioso aconteceu com Sherlock. Ele estava com as mãos suadas, as pernas bambas, o corpo todo tremendo de leve, e pôde sentir que a sua temperatura havia abaixado. E seu coração o havia traído pela primeira vez, batendo forte e mais rápido do que o normal. –O que está acontecendo? –pensou consigo, desesperado. –Controle-se Sherlock!

Após 5 carros bloquearem sua passagem, Molly finalmente conseguiu atravessar, e parecia andar mais rápido, ansiosa para se encontrar com Sherlock. Andava meio desajeitada com sua bolsa aparentemente pesada de lado, com o cabelo preso em um rabo de cavalo baixo, fazendo seus fios castanho claro, descer em seu ombro esquerdo como o de costume. Nada disso parecia incomodar Sherlock, muito pelo contrário, ele estava feliz em vê-la novamente, e não se importava com a falta de batom. Seus olhos brilhavam ao encontro dos deles que faziam o mesmo. Ainda sorrindo, Molly deu início a conversa:

-Sherlock! Não esperava encontrá-lo aqui hoje e tão tarde! Na verdade não esperava te encontrar nunca aqui. –disse ela, um pouco envergonhada com a última parte.

-Olá Molly! –disse apenas, esquecendo completamente das palavras.

Uns dois minutos depois, o silêncio repentino começou a incomodar, e então Molly disse:

-Então... Gostaria de entrar? Está um pouco frio aqui fora, e eu poderia preparar um chá para nós.

-Claro. Seria ótimo. –disse por último com um sorriso meio torto, que fez Molly sorrir ainda mais.

Assim, os dois seguiram até a porta, e aguardaram enquanto Molly procurava desajeitadamente por suas chaves. Sherlock estava adorando apenas estar ao lado dela. A porta enfim, foi destrancada e Molly pediu que ele pendurasse seu casaco no cabideiro perto da porta, o guiou até o sofá e pediu que esperasse pois iria guardar suas coisas e se trocar. Sherlock se acomodou no sofá e ali ficou. Só agora havia percebido quanto tempo havia sentado no meio-fio completamente imóvel como um mendigo, e puxa, como estava exausto. Suas costas dilatavam de dor, e como não era de costume comer tanto, não estava com muita fome. Mas estava muito apertado. Se retirou do sofá e seguiu corredor à dentro á procura do banheiro. Ficou grato de ter achado na primeira tentativa de escolha de porta.

Após ter atendido ás suas necessidades, saiu do banheiro e voltou para o sofá. E ali estava ela, com uma blusa branca de manga comprida com uma gola V, uma calça jeans escura um pouco gasta, como Sherlock pôde deduzir. A bandeja com o chá e as xícaras estava na mesa de centro, e Molly se preparava para servir seu convidado. Sherlock seguiu até o sofá e sentou próximo a ela. Ele já não se sentia mais desconfortável e nervoso perto dela, agora ele só queria chegar mais e mais perto.

Molly lhe deu a xícara com a mão um pouco trêmula, e pegou a sua. Deram um gole, dois, três e quatro, e o silêncio se manteve presente. Ela o olhava ás vezes com cautela dos pés a cabeça, e estava claro que Sherlock estava acabado! Curiosa e com muitas perguntas á fazer, Molly decidiu quebrar o silêncio.

-Então... O que andou fazendo esses dias? Faz um tempo que não temos contato! Muitos casos? –perguntou ela ansiosa pela resposta, embora essas não eram exatamente as perguntas que a estavam sufocando.

-Sim, sim.

Notas finais
Espero que tenham gostado e iria amar se vocês deixassem comentários sobre o que acharam. É a minha primeira fanfic, e se vocês tiverem gostado eu posso terminá-la. Obrigada por lerem!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.