Something Like Love
7 capítulo sete.
Sábado. Acordei super cedo, involuntariamente. Àquela hora, eu era a única acordada em casa, afinal, Tiff tinha todo o direito de acordar tarde aos sábados.
Depois de desistir de tentar voltar ao sono, levantei-me e fui ao banheiro, escovar os dentes. Geralmente eu não tomava café da manhã (também, pudera, eu sempre estava atrasada), mas eu sabia que ficaria com fome até a hora do almoço. Decidi pegar uma tigela de cereal com leite, sentei no sofá da sala, liguei a televisão de vinte e uma polegadas e passei um bom tempo lá, fazendo nada.
Perto das onze e meia da manhã, Tiffany apareceu no corredor, com o cabelo bagunçado e os olhos semicerrados. Ela cambaleou até onde eu estava, se jogando ao meu lado, encostando a cabeça pesadamente em meu ombro.
\"Ainda com sono?\" perguntei, enquanto acariciava seu cabelo curto e negro. Ela apenas soltou um grunhido em resposta. \"Até que horas você ficou trabalhando?\"
\"Quase quatro.\" ela resmungou.
\"Vou preparar um café.\" eu disse, deixando ela deitada no sofá e voltando à cozinha, para fazer um café instantâneo bem quente.
Quando voltei, Tiff já havia pego no sono novamente, então deixei a xícara vermelha em cima da mesa de vidro com um pires em cima, para que o calor não se esvaísse tão rápido.
Eu sabia que ainda era meio cedo, mas aproveitei que o computador já estava ligado para ver se eu tinha recados novos, me enrolando ao máximo. Nada.
Sem nada para fazer, desliguei a máquina e fui acordar definitivamente a Tiff. Ela reclamou um pouco mas, em alguns minutos, ela já havia retornado à mulher ativa e sorridente de todos os dias.
Logo depois do almoço, tomei um banho. Patrick não me dissera com que tipo de roupa eu deveria ir, para eu ter uma noção do quanto me arrumar, então eu simplesmente peguei a primeira calça jeans que encontrei no armário e minha camiseta favorita do Led Zeppelin.
Perto das quatro, tive que desligar meu celular. O bendito não parava de apitar para avisar que havia novas mensagens, todas do Seth. Queria que ele parasse de dar opiniões e me encher de perguntas, afinal, eu já estava bem ansiosa por nós dois.
Acho que esqueci de contar à Tiff que eu ia sair, porque ela me perguntou a razão de eu estar me arrumando (se bem que Tiff jamais me consideraria arrumada de jeans e camiseta). Eu estava adiantada, então fui andando lentamente. Eu já havia decorado o endereço do garoto, mas não queria ser a primeira a chegar no lugar, isso seria extremamente constrangedor.
A rua era bem tranqüila, então fiquei livre para me perder em pensamentos. Eu estava confusa. Quem não ficaria, numa situação dessas? Ora ele parecia gostar de mim, ora era ignorante. Era estranho e aditivo, me fazia querer descobrir o por quê dele agir daquele modo. Eu estava irrevogavelmente apaixonada por ele, e depois dessas últimas seis semanas, acho que todo o colégio já havia notado, mesmo sem Seth abrir a boca.
Sem ter a mínima noção de tempo e espaço, girei em meu calcanhares para ver a rua em que eu estava. Nem precisei olhar os números das casas para descobrir qual era o local do ensaio. Um solo muito alto de guitarra soava pelo bairro inteiro, fazendo alguns cachorros da vizinhança latir incomodados. A casa tinha dois andares e, a julgar pelos dois carros parados em frente, seria na garagem. A cerca de madeira era branca e baixa, como em casas estilosas de antigamente. Receosa em me manifestar, fiquei andando de um lado para outro, esperando tomar coragem e voz suficiente para chamar a atenção de alguém.
\"OI?\' — uma voz gritou atrás de mim, vindo em minha direção. \"VOCÊ É A LILLY?\"- ele berrou, tentando ultrapassar o volume incrivelmente alto da guitarra. Sabendo que ele jamais ouviria minha voz baixa e rouca, simplesmente assenti, num sorriso estranho. Ele virou para trás sem aviso e falou o mais alto que conseguiu: \"NIGEL! NIGEL, PARE DE TENTAR ESTOURAR OS NOSSOS TÍMPANOS!\"
O som da guitarra parou, e podia-se ouvir vozes finas e agudas lamentando. O garoto, provavelmente o dono da casa, me estendeu a mão pálida e ossuda. Tão magro quanto Seth, ou até mais, tinha cabelos ultra lisos, quase azuis de tão pretos caindo nos ombros, todo repicado desproporcionalmente, parecendo que ele mesmo havia pego uma navalha, e olhos brilhantes da mesma cor. Resumindo, lindo.
\"Liam\" ele sorriu. Apertei a mão dele, desconfortável; eu não estava acostumada a esse tipo de formalidade. \"Venha, pode entrar\" ele chamou, me fazendo seguí-lo. \"Patrick disse que você vinha. Nunca o vi tão empolgado com um ensaio antes\" ele riu, passando pela porta de dentro, pois o portão automático da garagem fora desligado.
\"Obrigado, Liam\" disse Patrick, barrando-o na porta da cozinha. \"Valeu mesmo\" continuou, sarcástico. Liam apenas riu mais alto e passou por debaixo do braço do ruivo. \"Ignore-o, ele é um panaca\" bufou, sem graça.
\"Gostei dele, ele parece ser bem legal\" — disse, divertida pelo fato dele ter ficado irritado, algo que eu nunca tinha visto antes.
\"Venha, você ainda não conhece o Nigel e o Chad.\" ele riu, perdendo o tom vermelho. Patrick me guiou até a garagem, onde estava bem abafado. Cheio de caixas e entulhos para tudo que era lado. Cheguei a ficar surpresa quando vi que havia um sofá velho encostado numa porta, onde estavam sentadas duas garotas idênticas. Apontando para o cara da guitarra, que chegava perto de ser um sósia do Slash, mas sem a cartola e mais magro. — \"Este é Nigel, nosso guitarrista, caso você ainda não tenha percebido com o solo de antes. Legítimo londrino.\" ele acenou com a cabeça, sorrindo em meio a todo aquele cabelo. Fico pensando o que faz um cara vir de Londres, Inglaterra, para essa cidade anônima. Ah, cada um com suas escolhas, certo?
O outro, Chad, era o único loiro, e com cabelo curto. O sotaque de Chad me pareceu australiano no início, mas era falso, já que, no meio da conversa, o baixista sutilmente mudou para um irlandês.
\"E o Liam é nosso vocalista.\" disse o próprio, com algumas latas de refrigerante nos braços. Ele andou até o sofá, entregando as latas às garotas ali sentadas. \"A propósito, estas são Annie e Pamela. Uma delas é a namorada do Chad. A outra vem de brinde.\" ele riu, enquanto elas ficaram furiosas e lhe deram um chute, cada uma em uma perna. Aproveitei a oportunidade para sentar ao lado delas e tentar inutilmente me entrosar.
\"Você é a Lillian, não é?\" — elas começaram a me crivar de perguntas quando os rapazes viraram as costas.
\"Você é a namorada do Patrick?\"
\"Estuda junto com ele?\"
\"Faz quanto tempo que vocês estão saindo?\"
\"Quantos anos você tem?\"
\"Até onde você já chegou com ele?\"
\"WOW! Calma! Respondendo uma por vez.\" tomei fôlego e me joguei à sorte. \"Sim, eu sou a Lilly. Não, eu não sou namorada do Patrick, estudo na mesma sala que ele. Fui lembrando das perguntas e marcando nos dedos \"a gente não está \'saindo\', e eu tenho quinze anos, dezesseis em três semanas.\" Sorri.
\"Você não respondeu a última.\" elas retrucaram em uníssono.
\"Mas eu disse que a gente não está \'saindo\'.\"
\"E o que uma coisa tem a ver com outra?\"
\"Vai dizer que você nunca ficou com um amigo?\"
\"Bem\" eu senti meu rosto esquentar \"houve um amigo, no acampamento. Mas faz tempo.\" balancei a cabeça, me livrando dos fantasmas do passado.
\"E depois disso?\" as duas perguntaram, curiosas.
\"Não houve depois.\" elas me olharam surpresas. Aposto que naquela hora, eu fiquei mais vermelha.
Sem prestar atenção em nós, a banda começou a tocar. O ritmo não era muito pesado, mas não poderia ser considerada leve. Começou somente com a guitarra e o vocal.
Sat outside my front window...
This story\'s going somewhere:
\"He\'s well hung,\" and I am hanging up.
There\'s a song on the radio that says:
\"Let\'s get this party started.\"
So let\'s get this party started.
Ficamos em silêncio, já que não dava para ouvir mais nada. Uma pequena figura passou correndo pela porta da garagem, fechando a porta com um estrondo. Ninguém pareceu notar, além de mim.
Era um garoto de altura mediana, devia ter uns dez, onze anos. Seus cabelos desajeitados eram de cor castanho claro, e os olhos, um tom de puro mel. Ele correu e se jogou na poltrona puída, de veludo verde.
A música não parou, mas eu pude ver um sorriso aberto no rosto de Patrick, pela primeira vez. Os olhos do garotinho brilhavam, e ele estava sentado na ponta da poltrona, se segurando firmemente de excitação. Seu olhar batia diretamente em Nigel. Pamela deve ter percebido que a minha atenção havia se voltado para o garoto, pois ela me cutucou, falando alto para que eu a ouvisse.
\"Esse é o Kevin, irmão mais novo do Patrick.\" — disse, apontando para ele. \"Ele adora o Nigel.\" — explicou superficialmente.
Cinco músicas, muitas paradas e afinações de guitarra e baixo, alguns litros de refrigerante e após várias reclamações da mãe de Liam, eles pararam de tocar. Kevin saltou de seu lugar e foi falar com Nigel, que estava ensinando-o algumas partes de música nova. Annie e Pamela se levantaram e saíram juntas da garagem. Patrick guardou as baquetas e Liam aproveitou para abordá-lo; então, fiquei sentada, observando-os.
Kevin sumiu quando Annie voltou à garagem. Era estranho, eles não eram nada parecidos um com o outro.
\"Você nunca me contou que tinha um irmão.\" levantei, fingindo decepção quando ele chegou perto.
\"Não achei que fosse tão importante.\" ele deu de ombros. \"E você ia acabar conhecendo-o, mais cedo ou mais tarde.\"
\"Pat, você precisa ensaiar mais.\" Kevin disse, surgindo do nada, ao lado de Patrick, tomando um golo da lata de refrigerante que carregava. O mais velho ignorou o apelido que odiava e retrucou:
\"E você precisa ensaiar muito pra ser como o Nigel.\"
\"Eu sei disso. Mamãe já disse que eu posso pegar sua guitarra emprestada\" ele disse, indiferente.
\"Isso só quando você souber tocar. Por enquanto, só o violão.\" Patrick disse, olhando torto para o garotinho. Só então Kevin percebeu minha presença, e logo apressou-se em se apresentar.
\"Oi, eu sou o Kevin, tenho nove anos e sou irmão desse panaca.\" disse ele, tomando mais um gole de refrigerante e apontando para Patrick. Este simplesmente o ignorou.
\"Eu achei que você fosse mais velho, tipo uns onze anos.\" admiti, surpresa.
\"É que eu sou alto.\" ele disse inocentemente. \"Qual é o seu nome?\"
\"Lilly.\" apareceu um sorriso malicioso no rosto do garoto baixo. Patrick ficou inquieto.
\"Lilly, é?\" Kevin olhava agora de mim para seu irmão. Patrick estava quase roxo de vergonha. \"Lá em casa, o Pat não pár-\" ele fora silenciado pela mão grande do mais velho, que lhe cobria a boca.
\"OKAY! Volte lá falar com o Nigel, o Chad ou qualquer outra pessoa.\" ele disse, ainda segurando o pequeno e o empurrando para o outro lado, mas ele se esquivou, arfando.
\"Você gosta de videogames?\" ele perguntou com um sorriso doce e infantil.
\"Ah, sim, mas eu não sei jogar direito\" respondi, envergonhada.
\"Não importa, eu te ensino. Peça pro Pat te levar lá em casa qualquer dia pra gente jogar.\"
\"Tá, tá, quando ela quiser ir, eu a levo.\" reclamou Patrick, novamente ao meu lado. \"Você avisou a mãe que você veio, certo?\" Kevin arregalou os olhos.
\"Tenho que ir!\" disse de repente. Ele se aproximou de mim, me fazendo abaixar, e beijou minha bochecha. \"Não perca tempo.\" ele sussurrou, para depois sair correndo.
\"Pirralho irritante.\" ele murmurou, entre dentes cerrados.
\"Eu achei ele uma graça.\" eu ri da expressão do garoto à minha frente. Ele reparou, pois se forçou a relaxar. Foi a primeira vez que eu vi Patrick agir tão naturalmente. Sorri com esse pensamento, mas só durou um segundo, já que logo lembrei: \"Ah. O que Kevin ia dizer antes de você cobrir a boca dele?\"
\"Nada!\" seu rosto ficou bem corado, e ele evitou meu olhar. \"Absolutamente nada.\" ele ajeitou o boné azul, sem graça.
\"Ei, a gente tá pedindo pizza. Venham escolher\" disse Chad, aparecendo no batente da porta. Olhamos em volta e só então notamos que estávamos sozinhos.
\"É melhor a gente ir, eu não como carne.\" ele fez uma careta. \"Venha\" disse ele, segurando minha mão, me puxando de leve para que eu o acompanhasse. Segurei um pouco mais forte a mão dele e senti meu rosto esquentar imediatamente.
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