Something Like Love
11 capítulo onze.
Pensei que ele começaria a agir de modo estranho depois daquilo, mas a única coisa que mudara foi o fato dele corar quando começávamos uma conversa, mas isso logo passava. Não saí com nenhum dos meus amigos nas duas semanas que passaram, apenas fiquei trancada em casa, estudando para as provas finais.
Saímos mais cedo no último dia, mas eu ainda não queria voltar para casa. Tiffany e Phillip voltaram a namorar, então ele estava passando bastante tempo em casa. Não que eu não gostasse disso, muito ao contrário, mas eles eram jovens, e geralmente um filho estraga o clima de romance, principalmente se o casal quer reviver a paixão do começo do relacionamento. Sentei no chão, no mesmo lugar de sempre, encostada no poste azul.
Tirei um livro da mochila que eu levava, o tal livro que eu nunca conseguia ler. Nesses últimos dias, todas as vezes que eu tentava começar o mesmo capítulo, acabava lembrando da expressão assustada dele e me encontrava rindo sozinha, como uma tola. Um capítulo: foi tudo o que eu consegui ler, e eu tinha certeza de que eu precisaria lê-lo novamente. Desisti e fiquei segurando o livro aberto onde eu havia parado; fiquei observando as pessoas passar por mim, sem realmente prestar atenção. Mal percebi quando Seth sentou-se ao meu lado.
\"Foi bem?\" ele perguntou, sem sorrir, como de costume. Eu sabia que ele nem chegava a pegar um caderno para estudar, então era meio óbvio que ele estava muito preocupado em passar direto, ainda mais com o irmão que tinha.
Acho que nem cheguei a falar de Edward. Irmão cinco anos mais velho de Seth, ele era muito inteligente e, conseqüentemente, chato. Ed quase nunca parava em casa, e tinha dias em que ele sequer voltava para dormir. Entrou na universidade aos dezessete, porque pulou uma série, e parecia que estava próximo a conseguir seu mestrado. Na minha opinião, ele nunca teve cara de alguém estudioso daquela maneira. Seth fora criado pela tia, já que seus pais viviam em férias permanentes, viajando para todo e qualquer lugar que pudessem imaginar. Mas, depois que a tia deles morreu, ficaram só os dois irmãos. Não que fosse de escolha deles, mas nenhum deles tinha dinheiro suficiente para o aluguel de um lugar próprio, e os pais raramente mandavam dinheiro. Edward ajudava com as contas, mas ele nunca dava as caras. Eram poucas as vezes que Seth o via (infelizmente, para a alegria dos dois). Eu mesma devo tê-lo visto umas cinco vezes em toda minha vida, então ele não era uma figura exatamente relevante.
\"Acho que consigo passar por média.\" eu sorri, tentando animá-lo. Deve ter ajudado em algo, pois ele soltou um curto e baixo riso, entortando o canto dos lábios. \"AH! Eu não falei direito com você nas últimas duas semanas, tenho que te contar o que aconteceu!\"
\"Você beijou o Patrick!\" isso definitivamente não era uma pergunta. Ele tinha certeza do que falava.
\"Mas eu nem tinha falado nad-\"
\"Ele me contou.\" Seth voltou a sorrir como antes. \"Conversei bastante com ele nessas últimas semanas, já que ALGUÉM estava me evitando. Nunca te vi tão vidrada nas aulas antes, você não notou nada.\"
\"Você não falou nada desnecessário, falou?\" perguntei, surpreendentemente calma.
\"Que você ama ele faz muito tempo, ou algo assim?\" ele sorriu, brincalhão. Não haviam se passado dois segundos, Patrick saiu de trás de nós, sentando-se à nossa frente. Seth também não sabia que ele estava ali, pois tinha a mesma expressão assustada que eu.
\"Oi, Pat\" tentei sorrir, tremendo de nervosismo. \"Foi bem?\"
\"Mais ou menos. Fui mal nas discursivas.\" ele disse, brincando com uma folha que pegara do chão. Não demonstrava nenhum sinal de ter ouvido nossa conversa. Ótimo!
\"Graças a Deus acabou!\" Seth suspirou, olhando para cima e se apoiando nas mãos \"Vocês vão viajar?\"
\"Não, como todo ano.\" lamentei.
\"Acho que não.\" disse Patrick, olhando para o chão. \"Você vai, Seth?\" o garoto assentiu.
\"Para a mesma praia de sempre. Eu não ia, mas a Lidia me convenceu.\" ele não parecia nada animado \"Só pra constar,\" ele disse, olhando para Patrick. \"Lidia é minha prima de cinco anos.\" explicou. \"Vou na sexta que vem, e acho que não volto antes de começarem as aulas.\" ele parecia estar sendo torturado com aquilo, o que era engraçado, de certa forma. \"O que é uma pena, porque eu queria ver o romance entre vocês nessas férias.\" Seth sorriu, acompanhando uma grande nuvem negra com o olhar. Eu estarreci, e vi que Patrick ficou rígido. Por que ele estava falando aquilo logo agora?
\"Vai chover forte hoje.\" eu queria mudar de assunto o mais rápido possível \"E vai ser logo.\"
\"Então é melhor eu correr. Ed não vem hoje, de novo, vou ficar sozinho mais uma vez.\" ele disse, me dando um beijo no rosto, acenando para Patrick, e então saiu correndo.
\"Ele mora muito longe?\" Pat perguntou, vendo que Seth rumava por caminho oposto ao nosso.
\"Um pouco. É mais longe do que o caminho que a gente faz.\" eu falei. \"Vamos já?\"
\"É melhor. De qualquer jeito, a chuva só vai começar quando a gente sair, não importa quanto tempo a gente espere.\" falou, olhando para o sol fraco sendo encoberto pelas nuvens.
\"Seguidor da Lei de Murphy?\" eu ri.
\"Não é minha culpa se ela sempre funciona\" disse, levantando-se e estendendo-me sua mão para que eu também levantasse. Aceitei com um sorriso e começamos a andar.
Andamos uma boa parte em silêncio. Ele, por sua natureza, e eu, por vergonha e medo de perguntar se ele havia ouvido algo àquela hora. Algum tempo depois, foi Patrick quem falou algo por primeiro.
\"Vai ter ensaio na quinta, e a gente tem uma música nova.\" o garoto estava animado. \"Você podia ir\" disse, olhando para frente \"se quiser, é claro.\" completou rapidamente.
\"Claro!\" respondi prontamente. \"Ah, você chegou a falar com o Seth? Ele queria ir num ensaio de vocês.\"
\"Tudo bem.\" ele sorriu \"Você avisa a ele?\" eu disse que sim, e voltamos a nos calar.
Mais um tempo passado, fui eu quem começou novo assunto.
\"Você e o Seth se aproximaram bastante, não é?\" minha voz tinha uma pontada de ciúme despercebido.
\"Há, é verdade. Ele é muito legal.\" Patrick sorria \"O Seth me lembra o Liam, acho que foi por isso que eu me deixei levar.\"
\"Mas é bom isso, sua cota de amigos está aumentando. Aos poucos, mas está.\" eu sorri, feliz, mas ainda com um pequeno ciúme bobo.
Sem avisar, e a poucas quadras de nos separarmos, a chuva caiu fortemente sobre nós. Ambos rimos e saímos correndo. Eu quase escorreguei algumas vezes, mas Patrick estava me segurando pelo pulso, evitando que eu caísse. Voltamos a correr, com ele apertando firme meu pulso, mas de uma maneira gentil. Estava pronta para sentir a mão dele me soltando e virar à direita, mas ele não o fez. Quando eu dei a parecer que ia sair de perto dele, ele segurou mais forte e me puxou para trás, me fazendo virar para encará-lo antes que eu batesse contra seu corpo.
Não tive tempo de ter uma reação, tudo o que eu consegui ver foram seus olhos, um mesclado de verde e cinza, antes do que aconteceu. Ele me puxou pela cintura com uma mão e segurou meu rosto firmemente com a outra, e colou seus lábios nos meus sem hesitação. Enlacei instintivamente seu pescoço, fechando os olhos, e o puxando para mim. Patrick baixou a mão que segurava meu rosto para minha cintura, envolvendo-a completamente. Estávamos colados um ao outro e, por um momento, esqueci do frio da chuva. Tirei seu boné e senti as gotas contínuas escorrerem de seu rosto para o meu, e disse a mim mesma que não iria mais soltá-lo.
Um trovão soou alto, nos fazendo parar e olhar para o céu. Apesar de ser manhã, as nuvens que pairavam no céu eram muito escuras, fazendo parecer que era mais tarde. O vento começou a soprar forte, mudando o rumo da chuva, nos encharcando cada vez mais. Tentei sorrir, atônita como estava, e ameacei correr, mais uma vez sendo segurada por ele. Pat se aproximou de meu rosto, falando alto para que eu o ouvisse em meio a todo aquele barulho.
\"Eu ouvi o que Seth disse.\" ele confessou, me petrificando. Fitei-o , tentando distingüir algum tipo de expressão ali. Nada, seu rosto estava vazio. Ele me deu um sorriso nada convincente e tornou a correr pelo seu caminho. Voltei para casa pingando, nem me dando conta que Tiffany ainda estava trabalhando.
Troquei de roupa, torcendo a molhada e pendurando-a no varal da lavanderia; sequei o cabelo em uma toalha velha que achei no armário e me joguei na cama do quarto de Tiff. Estava mais confusa do que qualquer um poderia deduzir. Sem força, nem vontade de gritar, fiquei catatônica até a hora do almoço, quando Tiffany chegou e me fez contar tudo para ela. Tiffany não fez nada além de rir de mim e me obrigar a ver vários filmes com ela. Apesar de não ter ajudado em nada, foi legal. A companhia dela me acalmou um pouco; o suficiente para me fazer dormir numa posição desconfortável no sofá.
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