\"Lill, para onde você tanto olha?\" Ashley tentava acompanhar meu olhar, que atravessava o pátio, parando num banco escondido perto do muro.


\"Lugar nenhum.\" desviei os olhos antes que ela percebesse que eu o estava observando. Ele sempre lanchava sozinho, e sempre no mesmo lugar. Inúmeras foram as vezes que eu me peguei pensando em juntar-me a ele, mas isso chamaria atenção, e era algo que eu realmente não precisava.


Claro, ninguém sabia dessa minha paixão por Patrick, nem mesmo Ash, uma das minhas melhores e poucas amigas. Tentava passar despercebida pelo primeiro ano do colegial, e declarar um amor platônico pelo garoto mais estranho do ensino médio realmente não era uma boa maneira de se tornar invisível.


Entrei naquela escola na sétima série, uma garota quase que completamente fechada. Ashley foi quem me chamou no segundo dia de aula, dizendo que eu podia me juntar a ela e suas amigas. Desde então, nunca fiquei sozinha novamente. Éramos três: Katie, Ashley e eu, Lillian. Foram elas que me ajudaram a lidar com a timidez e a vergonha de falar em sala de aula. Não que eu fale além do necessário, a vergonha ainda não se foi completamente.


O sinal bateu, indicando que deveríamos voltar para as salas. A aula seguinte era filosofia, então significava que eu podia fazer o que bem entendesse. Tirei uma folha do caderno aberto e peguei uma caneta a fim de rabiscar qualquer coisa enquanto pensava num modo de falar com o garoto sentado à minha esquerda, sem chamar a atenção de ninguém, e sem falar bobagem.


Passados cinco minutos, parei para olhar o que eu tinha feito no papel. Havia apenas uma frase inútil escrita desde a primeira aula: \"segunda lei de Mendel\". Logo percebi que não havia copiado nada do que o professor passara, e, com certeza , aquilo seria cobrado na avaliação da semana seguinte. Olhei para os lados, vendo Seth dormir tranqüilo à minha direita. Rezei para que Patrick ainda estivesse acordado, pois eu sabia que ele copiava a matéria de biologia.


Para minha imensa sorte, ele ainda estava com o queixo apoiado nos braços cruzados em cima da mesa, parecendo muito interessado na abelha que sobrevoava seu lápis, pousando nele de vez em quando. Parei subitamente. Eu teria que falar com ele! Minha voz sairia tremida e provavelmente ele escutaria os batimentos acelerados em meu peito, mas eu realmente não podia ficar sem o resumo.


Inclinei-me um pouco para a esquerda e, olhando diretamente para ele, chamei-o baixinho. Ele mexeu-se levemente, mas não deu sinal de que havia me ouvido. A abelha voou para longe com o movimento. Como se já não fosse difícil o suficiente, ele me faria repetir. E assim o fiz, com o coração pulsando forte, como eu jamais sentira antes.


-\"Patrick.\" Sussurrei, a voz falhando. Desta vez ele me ouviu, pois virou-se com uma leve expressão de surpresa no rosto. \"Eu não copiei o que o professor de biologia passou, tem como você me emprestar seu caderno?\". falei o mais baixo possível, para que somente ele entendesse. Ele, ainda com a mesma expressão estampada na face, acenou brevemente e abaixou-se para pegar um caderno de capa azul na mala, me entregando logo em seguida. Agradeci sorrindo, o que o fez desviar rápido o olhar para seu lápis, como se a abelha ainda estivesse lá para entretê-lo.


Sem perder mais tempo, copiei fervorosamente tudo o que ele havia escrito, fazendo minhas pequenas anotações ao lado do que escrevia. Terminei com folga, com tempo suficiente para folhear o caderno azul, mesmo sem permissão. Sua caligrafia era fina e alongada, pendendo levemente para a direita. Perfeita. \'Muito melhor que a minha’, ri sozinha. Ele, assim como eu, não copiava exatamente o que era desenhado ou escrito no quadro-negro. Havia lembretes nos cantos das páginas, como em qual página do livro que ele estava lendo e havia parado, e coisas do tipo. Nada de anotações sobre outras coisas, nada de desenhos estranhos.


Antes que acabasse a aula, devolvi o caderno, dizendo um \'muito obrigada\' que o fez puxar a aba do boné um pouco para baixo, acompanhando o movimento de sua cabeça. Eu iria tentar cumprir a promessa, mas se seria assim, eu teria que ser um pouquinho mais insistente. Ele teria que ceder alguma hora.

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Notas finais
n/a: juro que os outros são um pouquinho maiores