Notas iniciais
Hey!! Demorei, mas cheguei. Desculpe, quando estou insegura sobre algo tendo a proteger minhas fics não postando-as. Obrigada pelo carinho e espero que gostem!!
ps: Outra fic dedicada a Luna. Por que minha dívida tende ao infinito.

“Mas ela disse, para onde você quer ir?

Quanto você quer arriscar?

Eu não estou procurando por alguém

Com algum dom sobre-humano

Algum super-herói

Alguma felicidade de conto de fadas

Apenas algo a que eu possa recorrer

Alguém que possa sentir a falta”

(Something just like this — The Chainsmokers)

FELICITY SMOAK

Andei por entre as prateleiras tomando nota mental do que eu já tinha colocado ou não no carrinho, parei justo em frente à farinha de trigo e a encarei como se a mesma me desafiasse a um duelo. Considerava seriamente as opções que eu tinha: Eu poderia tentar fazer um bolo e correr o risco de quase começar um incêndio em minha cozinha, ou eu poderia mais uma vez passar na padaria que havia neste mesmo supermercado e comprar um pronto. Segurando a embalagem na minha mão eu pesei os prós e contra, eu amava minha cozinha, mesmo que eu não a usasse muito, seria uma pena colocar fogo nela. Mesmo que eu conseguisse fazer tudo direitinho e deixar minha cozinha e eu mesma ilesas de qualquer perigo incendiário, eu tinha certeza que o bolo iria ficar duro demais, ou baixo demais, meu único dom culinário consistia em comprar comida, seguido de comê-la com entusiasmo invejável. O preço da farinha havia subido, o bolo da padaria seria consideravelmente mais gostoso, eu teria que limpar tudo depois, eu gastaria gás. Bem, ao que parecia só havia contras aqui.

Dando de ombros deixei a farinha no lugar e passei a pensar no sabor do bolo que eu iria comprar, e em se tratando de bolo eu não perdoaria a mim mesma se antes não consultasse a única pessoa que podia ser mais exigente do que eu com relação a isso. Olhei para baixo encontrando os olhos escuros do pequeno garotinho que segurava firmemente a bainha do meu casaco ele olhava distraído as prateleiras sem focar em nenhuma especial, o rosto infantil estando mais sério do que uma criança de seis anos deveria estar. Ele deveria estar correndo por todo o supermercado, rindo e me dando algum trabalho, mas não, meu filho nunca foi assim, ele sempre foi quieto demais, sério demais para sua idade e muito apegado a mim. Isso me preocupava.

Eu sei que como mãe eu deveria desejar que meu filho fosse apegado demais a mim, mas e quando ele parecia ter apenas a mim a se apegar?

— O que você acha querido? – Murmurei passando os dedos em seus cabelos escuros. – Bolo de chocolate ou de Laranja? – Observei seu cenho franzir ligeiramente considerando as opções.

— Você que vai fazer? – Questionou-me timidamente. Eu era uma vergonha como mãe, mesmo meu filho de seis anos não confiava em mim em uma cozinha. Suspirei segurando um sorriso.

— Para sua sorte não. – Falei passando a andar, ele exibiu um sorriso mínimo. As covinhas da sua bochecha se fazendo presente.

— Então eu quero chocolate. – Falou contente.

— Eu não sei por que me preocupei em perguntar. – Falei em tom baixo. Ethan amava chocolate, eu acho que essa era a única regra de ser criança que ele seguia. Atravessamos os corredores e logo chegamos à padaria do supermercado. John como sempre estava lá entregando um pacote de pães a uma senhora conversadora, ele sorriu assentindo, mas eu duvidava que ele estivesse acompanhando realmente o que ela dizia. – Hey John. – O cumprimentei quando parei em sua frente, ele exibiu um enorme sorriso e se inclinou sobre o enorme balcão para encarar Ethan.

— Olá Felicity. Olá pequenino. – Ethan balançou sua cabeça pesadamente em um cumprimento. John era sempre muito simpático com nós dois, todo mundo era na verdade, mas Ethan sempre recuava um pouco quando ele conversava conosco, provavelmente o tamanho do grande homem intimidava meu garotinho.– Qual será o sabor de hoje? Chocolate mais uma vez? – Questionou com bom humor. – Quando você vai arriscar fazer um bolo sozinha Srtª Smoak?

— Minha falha como cozinheira é conhecida por toda a cidade ou se limitou apenas ao bairro? – Perguntei envergonhada com minha inabilidade na cozinha.

— Embora ela seja bastante conhecida, eu acho que a sua fama ainda não ultrapassou os limites do bairro. – Escutei uma voz forte e masculina murmurar atrás de mim. Eu conhecia aquela voz, assim como Ethan, todo o seu semblante se iluminou e em uma reação atípica ele avançou para receber um abraço do único homem a quem ele permitia se aproximar. Virei-me ainda pegando o momento em que Oliver erguia Ethan nos braços e batia levemente em suas costas, seus olhos encontraram os meus e forcei um sorriso para corresponder ao seu. Seus olhos brilhavam carregando aquela alegria típica ao nos encontrar, e embora eu quisesse fugir na direção contrária me vi sorrindo diante a demonstração de afeto daqueles dois. Oliver deixou Ethan sobre seus pés novamente e alisou seus cabelos enquanto o cumprimentava.

— E ai garotão, quais os planos para hoje? – Perguntou me encarando apenas brevemente. Eu não sabia se a pergunta era de fato para Ethan, ou para mim. Mas meu filho foi mais rápido em responder.

— Mamãe irá me levar para o jogo. – Ethan respondeu não parecendo muito animado com isso.

— Você vai jogar hoje? – Perguntou com um sorriso.

— Sim, mas eu não gosto. Eu não quero. – Comentou tornando-se mais sério. – Todos os outros riem de mim.

— Eles só estão com inveja por que você é o melhor jogador. – Oliver piscou para Ethan. – Por que não fazemos seguinte? Você me diz o horário e eu estarei lá. Quem se atrever a rir de você vai me ver lá na torcida, eu duvido que qualquer um continue rindo após eu lançar meu super olhar. É bem assustador.

— Você vai? – Ethan perguntou incrédulo, a expectativa de seu grande herói estar lá para torcer por ele o deixando animado, sua boca fazendo um “O”, seus olhos brilhando. Oliver assentiu ainda sorrindo. – Você escutou isso mamãe? Ollie vai me ver jogar. – Ethan falou alto, sorri com sua animação óbvia. Assenti em resposta.

— Eu escutei querido, eu disse que jogar não seria tão ruim assim. – O lembrei.

— Ethan, por que você não vem escolher comigo o seu bolo? – Diggle murmurou apontando para trás de si. – Você pode me contar mais sobre esse seu jogo. — Ethan olhou incerto e me encarou pedindo permissão. Assenti concordando.

— Está bem, Sr. Diggle. – Murmurou indo até a pequena porta dobradiça, Diggle logo abriu a porta para ele, e com uma mão em seu ombro o guiou para dentro, deixando Roy um de seus ajudantes sobre a ordem de atender qualquer outro cliente. Após observa-lo se afastar com meu filho, voltei a encarar Oliver que havia cruzado os braços e me aguardava paciente.

— Você não precisa ir. – Murmurei finalmente.

— Eu gosto do seu filho Felicity, você sabe disso. – Murmurou com um suspiro. – Eu gosto de passar um tempo com vocês dois. Na verdade eu estava pensando em leva-los em um passeio amanhã. – Comentou sutilmente. Meneei a cabeça em negativa.

— Você sabe a resposta Oliver. – Murmurei simplesmente.

— Sim, eu sei. – Assentiu aborrecido. – O que eu não entendo é por que você está me afastando. – Comentou se aproximando, recuei precisando de espaço, mas me vi presa entre seu corpo forte e o balcão de vidro. Ele me encarou com mágoa em seus olhos. – Eu achei que estávamos indo bem. – Completou.

E estávamos, bem demais.

Não só meu filho era apaixonado por Oliver, como eu havia percebido que eu também estava caminhando nessa direção. Oliver Queen era perfeito, ele não era apenas atraente com seu corpo alto, musculoso e rosto bonito. Ele era bom. Quando eu disse que ele havia se tornado o herói de Ethan , eu dizia literalmente. Oliver Queen era bombeiro, e quando Ethan ficou preso na sua sala de aula em meio a um incêndio foi ele que o salvou e acalmou até que eu cheguei. Foi assim que nos aproximamos, minha gratidão por ele ter salvo a vida do meu filho passou a ir além disso quando neste mesmo supermercado, apenas algumas semanas depois do evento, ele me convidou para sair, algo inocente, uma ida ao cinema, seguida de um jantar no Big Belly. Algumas horas de conversa e eu sabia estar diante de um homem encantador de coração bom. Um encontro se tornou dois, três e quando percebi ele havia se infiltrado não apenas na minha vida, mas na de Ethan também. Ethan cujo pequeno coração eu queria proteger de alguma decepção.

O pai de Ethan morreu quando ele tinha apenas dois anos. Vivemos um casamento feliz, até que Ray que era policial tomou uma bala protegendo uma adolescente que havia sido sequestrada. Eu fiquei em frangalhos, o homem a quem eu conhecia e amava desde a minha adolescência havia ido embora, fazendo o que amava, protegendo alguém. Ray estava morto e eu tinha uma criança que era completamente alheia aos perigos do mundo dependendo completamente de mim. Eu casei com o maldito Superman e fiquei sem ninguém para proteger a mim e ao meu filho.

Eu não pensei que me interessaria dessa forma por um homem novamente. Quando aceitei o primeiro convite feito por Oliver, eu não estava planejando levar isso adiante. Para ser sincera houve muita pressão vindo de Sara, quem eu descobri ser uma amiga em comum, forçando-me não desistir daquele encontro. Eu concordei tendo em mente apenas que aquele homem havia salvado meu filho, e que eu lhe deveria ao menos algumas horas de conversa. Mas eu fui o conhecendo melhor. No segundo encontro ele me beijou em frente à porta da minha casa e foi embora deixando-me com um sorriso suave em meu rosto. Ele foi doce nos encontros seguintes, e quando ele passou a planejar coisas envolvendo Ethan, eu não pensei que haveria algo de errado.

A primeira vez que dormimos juntos foi estranho para mim. Não o ato, Oliver foi perfeito, mas era a primeira vez que eu recebia um homem em minha cama desde a morte do meu marido. Eu havia namorado antes, mas nunca passado de alguns beijos, e definitivamente nunca trazendo a pessoa para a rotina do meu filho. Mas Oliver continuou se instalando aos poucos não só no meu coração, mas também no coração do meu filho. Ele era ótimo com Ethan. Ele estava sempre presente, e quando Ethan ficou doente, ele ficou comigo na sala de espera, sua mão envolvendo a minha, seu semblante preocupado. Quando naquela mesma noite guiou minha cabeça até seu ombro e pediu que eu descansasse, eu descobri.

Eu estava me apaixonando.

Eu não tive nenhum problema com isso até que no dia seguinte eu estava neste mesmo hospital esperando notícias de Oliver. Ele havia recebido um chamado e tinha se machucado seriamente ao resgatar um bebê. Eu fiquei aterrorizada, eu temi por ele, e após sentir o alívio de receber a notícia que ele agora estava bem e estável, eu cheguei à conclusão de que não queria passar por isso novamente.

Nunca mais.

Após visita-lo em seu quarto eu voltei para casa com o coração pesado, e as semanas seguintes foram seguidas de várias desculpas idiotas para não encontrá-lo. Eu me afastei dele, realmente o fiz. E enquanto Ethan não entendia por que não poderia mais ver Ollie nos finais de semanas durante o café da manhã, eu não podia mais seguir com aquela rotina que havíamos criado.

— Felicity? – Pisquei percebendo que Oliver aguardava uma resposta minha. Eu sequer sabia qual havia sido sua pergunta, tão perdida estava em meus pensamentos.

— Desculpe. – Murmurei automaticamente. – O quê?

— Eu perguntei se poderíamos no encontrar mais tarde, depois do jogo de Ethan. – Falou sério. – Sara poderia ficar com ele, eu acho que devemos conversar.

— Eu acho que não. – Meneei a cabeça.

— Você gosta de mim. – Murmurou entredentes. – Eu sei que sim, não minta. – Falou quando eu abri minha boca em uma negativa que estava prestes por vir. – Estávamos construindo algo, eu, você e Ethan. E você simplesmente se afastou. Inventou desculpas para não me encontrar mais e quando a pressionei, disse que não queria mais me ver. Você nunca disse o por que. Eu acho que mereço um por quê. – Sua mão alcançou o balcão, seu braço me cercando. – Encontre-se comigo hoje, pode ser na sua casa, na minha, não me importa. Vamos conversar.

— Isso não vai acontecer, Oliver. – Falei decidida. – Você é bem vindo a assistir o jogo de Ethan, ele te adora, eu não quero afastar ele de você, mas vai ser só isso. – Concluí.

— Felicity...

— Mamãe, Sr. Diggle me deu doces. – Ethan murmurou fazendo com que Oliver se afastasse e eu pudesse respirar mais aliviada.

Obrigada, Ethan.

— Oh. – Murmurei observando Ethan carregar em sua mão um bolinho mordido. Sua boca toda suja de açúcar de confeiteiro. Encarei Diggle que já me entregava o bolo de chocolate, peguei de forma automática. – Você disse obrigado a Sr. Diggle, querido? – Ethan obedientemente assentiu. Diggle riu.

— Não foi nada, eu estava testando novos sabores e o pequenino parecia ser o crítico que eu buscava. – Diggle comentou acenando para Oliver em cumprimento.

— Você quer um Ollie? – Ethan perguntou estendendo o outro bolo em sua mão oposta.

— Obrigado, amigo. – Oliver sorriu balançando a cabeça em negativa. – Eu só vim dizer oi a você e sua mãe.

— Mas você ainda vai para o jogo? – Ethan perguntou temeroso de receber uma negativa. Oliver me encarou como se considerasse essa ser uma boa ideia após eu ter dito que não conversaria mais com ele, ou talvez ele temesse que eu voltasse atrás e o proibisse de encontrar meu filho. Por uma razão ou outra me vi assentindo o tranquilizando, ele sorriu para Ethan e disse que jamais perderia isto. Após informa-lhe a hora eu percebi que não havia outra coisa a se fazer se não ir embora agora.

— Eu preciso ir. – Falei para os dois homens. Coloquei o bolo no carrinho – Obrigada pelos doces, John, e até mais Oliver. Vamos Ethan? – Murmurei segurando seu ombro, ele encarou Oliver com semblante triste, mas acenou em despedida. Todo o trajeto de volta para casa foi feito sem muita conversa eu podia ver pelo retrovisor seu queixo inclinado em sinal de tristeza, eu odiava vê-lo assim. Odiava estar fazendo isso com nós dois.

Eu sabia que eu estava sendo teimosa, e talvez um pouco irracional, mas era necessário. Para protegê-lo.

A hora do jogo chegou e Ethan logo pareceu mais animado e ansioso para o jogo que ele vinha tentando fugir há pelo menos uma semana. Sorri quando ele perguntou pela terceira vez se Ollie ia realmente aparecer e torcer por ele e respondi novamente que sim. Eu realmente duvidada que Oliver deixaria de comparecer a algo que ele havia se comprometido em ir. Ainda mais envolvendo Ethan, Oliver amava Ethan. Deixei meu filho com o treinador após desejar um bom jogo e lhe dar um beijo em seu rosto. Logo fui me juntar aos outros pais que já se encontravam nas arquibancadas. Mal havia me sentado quando vi Oliver se aproximar tendo cuidado para não se esbarrar em uma ou outra pessoa, ele sorriu cordialmente quando me viu e eu correspondi o sorriso educadamente.

— Falta muito? – Perguntou olhando para o campo, seus olhos buscando por Ethan.

— Você chegou bem na hora. – Murmurei meneando a cabeça. O menino logo o viu, pois acenou com vontade chamando atenção para si. Oliver acenou de volta feliz com a recepção e me encarou.

— Ele parece feliz. – Comentou. – Quem são as crianças que estavam o provocando? – Perguntou sério. Oh eu não faria. De jeito algum receberia a reclamação de algum pai por que Oliver assustou seu filho.

— Relaxe Oliver, são apenas crianças. – Murmurei. – Quando estão nessa idade eles vêm suas diferenças como falhas é tudo sobre “Eu tenho e você não”. Ethan não tem pai. Então eles acham que isso o torna inferior a eles de alguma forma. – Murmurei um pouco abalada com isso. – Mas maioria deles são crianças doces, uma conversa com seus pais melhoraria isso. Tudo o que precisamos fazer no momento é esperar, se isso continuar eu conversarei com a mãe do garoto. – Ele me encarou não parecendo gostar da tática de espera, mas para minha sorte no momento em que ele abriu a boca para protestar uma voz feminina se sobressaiu.

— Com licença. – Pediu. – Eu preciso passar para lá. – Oliver olhou por cima do ombro, parecendo notar pela primeira vez que obstruía a passagem, e se endireitou permitindo que a morena passasse em sua frente, ela sorriu para ele com interesse então me encarou parecendo tomar suas próprias conclusões, ela sorriu com desculpas e passou em minha frente sentando-se ao meu lado. – Ainda bem que eu cheguei a tempo, Chuck jamais me perdoaria se ele não jogasse hoje. Eu sou Helena a propósito, qual é o de vocês? – Perguntou olhando para o campo. Abri minha boca para respondê-la e aproveitar para desfazer o mal entendido já que ela obviamente achava que Oliver era o pai, mas Oliver foi mais rápido, ele ergueu um braço e apontou para Ethan, um sorriso orgulhoso em seu rosto.

— Oh vocês são os pais de Ethan? – Ela perguntou contente. Antes que eu pudesse responder ela continuou. – Ele é um doce de menino, eu o vejo sempre que vou buscar Chuck na escola. O monstrinho está sempre atormentando seu filho. – Confessou.

— Você é a mãe dele? – Perguntei estranhando a forma que ela falava, parecia haver carinho, mas uma mãe provavelmente estaria tentando conversar comigo sobre o motivo do seu filho estar incomodando o meu.

— Oh não, Deus me livre. – Murmurou horrorizada. – Eu sou a babá. Aquela criança precisa de toda reza possível e paciência, o que eu posso ter como babá, mas jamais como mãe. O jeito que ele trata Ethan tem sido difícil de assistir. – A encarei com alarme. – Mas não se preocupe, eu estou dando um jeito no moleque. – Eu tenho certeza que meus olhos se tornaram ainda maiores. Todo o tipo de possibilidades passando em minha cabeça. Ela me encarou percebendo que havia me assustado e que provavelmente seu emprego estava em risco e se apresou em se defender. – De um jeito legal, eu não o maltrato, eu juro. Eu amo o monstrinho, seus pais nunca estão por perto, ele é meio que meu irmão mais novo, ou sobrinho. Eu sou a tia legal, eu converso com ele, dou doces e conselhos, nós brincamos... – Murmurou apressadamente. – Por favor, não me denuncie para os pais por que minha boca é grande demais.

— O jogo vai começar. – Oliver murmurou chamando minha atenção e parecendo bastante divertido com toda a situação. Deu um último olhar para Helena que havia esquecido sua apreensão e exibia um sorriso animado. Tranquilizei-me por que estava claro que apesar do jeito de falar, ela era apegada ao garoto. Coloquei um sorriso no rosto e pelos os momentos seguintes tudo o que fiz foi vibrar pelo meu filho, a presença de Oliver me confortando, cada grito seu encorajando Ethan deixando uma picada de calor dentro de mim.

Oliver seria um pai incrível. Eu podia ver pela forma com que ele se comportava com Ethan. Ele vibrava, deslocava-se de uma ponta a outra se segurando a grade, sempre ficando perto de Ethan o incentivando. Recebia alguns olhares contrariados, mas não se importava e quando o jogo terminou e Ethan se aproximou com o rosto triste, ele o abraçou o confortando. Encarei o rosto pequeno e cheio de lágrimas do meu filho, seu queixo encostado ao ombro de Oliver.

— O que foi querido? – Perguntei preocupada. – Você se machucou?

— Não vencemos. – Murmurou em um fio de voz. – Eu não sou bom.

— Você está brincando? – Oliver perguntou segurando sua cabeça. Contornei os dois e esfreguei as costas do meu menino tentando acalma-lo. – Você foi o melhor jogador naquele campo hoje.

— Sério? – Perguntou recuando para encarar o rosto do seu herói e enxugando suas lágrimas.

— Você joga muito mais do que eu. – Oliver sorriu. – E eu preciso dizer, eu sou muito bom.

— Podemos jogar juntos um dia? – Questionou com esperança. Oliver assentiu o colocando no chão.

— Sempre que sua mãe concordar. – Prometeu.

— O que você quer fazer agora? – Perguntei ajoelhando-me em sua frente e limpando uma sujeira em seu rosto, ele recuou não gostando que eu fizesse isso na frente de todos os seus colegas. – Podemos assistir um filme. – Sugeri. Ethan tinha um fraco por Toy Story e sempre que eu o colocasse para assistir ele esqueceria qualquer que fosse a aflição do dia. – Eu posso fazer pipoca, e podemos comprar cachorro quente no caminho. O que você acha?

— Ollie pode vir conosco? – Perguntou encarando Oliver atrás de mim. Encarei Oliver por cima do meu ombro, eu sabia que ele queria vir conosco, e sabia que ele ainda tinha mente uma conversa comigo. Uma conversa que eu queria evitar, mas desde que eu havia afastado Oliver, esse havia sido o primeiro dia em um mês que Ethan o via, e eu não chegaria ao ponto de negar que Oliver era a única presença masculina na vida de Ethan, a única próxima a um pai.

— Claro. – Murmurei por fim.

— Então vamos precisar comprar bastante comida. – Ethan sorriu. – Ollie come muito.

— Eu estou em fase de crescimento. – Oliver protestou após uma gargalhada inicial. Levantei-me meneando a cabeça com divertimento e os acompanhei. Eu havia vindo de carro, e apesar de pensar que Oliver havia feito o mesmo ele me surpreendeu ao dizer que veio a pé. O encarei desconfiada, na certa ele havia vindo determinado a ir conosco de qualquer jeito. E o que Oliver queria, Oliver conseguia.

Ethan entrou correndo tão logo abri a porta. A criança que usualmente era introvertida se transformava na presença de Oliver. Ele veio tagarelando com Oliver todo o caminho, fazendo perguntas sobre futebol, e sobre o trabalho de Oliver. Mas quando eu disse que ele só comeria após tomar um banho, ele ficou amuado, não querendo perder um instante da companhia do amigo.

— Eu preciso ajuda-lo. – Falei para Oliver, coloquei minha bolsa em cima do sofá e indiquei com um gesto que ele ficasse a vontade. – Ou ele vai abrir a ducha e molhar os pés.

— Ele geralmente gosta de banhos. – Observou.

— Ele geralmente não está com pressa temendo que você vá embora. – Retruquei distraída, minhas mãos passando os envelopes que eu havia recolhido do correio. Contas. Sempre contas. Notei o silêncio que minha frase havia provocado e levantei meus olhos encontrando os de Oliver hostis.

— Eu nunca fui embora. – Murmurou.

— Agora não, Oliver. – Falei colocando os envelopes em cima da mesinha do centro.

— Quando? – Perguntou irritado. – Quando você irá me dar uma explicação?

— Eu... – Comecei antes de voltar a fechar minha boca tomando fôlego e pensando bem no que eu ia dizer. – Eu preciso checar Ethan. Fiquei a vontade.

— Felicity. – Chamou-me quando eu já caminhava até as escadas. – Eu não vou embora.

— O quê? – Perguntei confusa. Ele havia acabado de chegar, claro que ele não iria embora.

— Se esse é seu medo. – Murmurou se aproximando. – Eu não pretendo deixa-los, jamais. Eu compreendo que essa seja uma preocupação, deixar um homem se aproximar demais do seu filho, se apegar, o que acontece se ele vai embora? Se o relacionamento acaba em decepção? Mas eu prometo a você, eu não tenho nenhuma pretensão de partir.

— E ainda assim você não tem poder sobre isso. – Retruquei esfregando minha cabeça.

— Como assim? – Perguntou franzindo o cenho, sua mão alcançado meu ombro. O massageando. – O que a preocupa?

— Eu me preocupo por que você é um maldito super-herói. – Falei o surpreendendo. – Você pula prédios em chamas Oliver, salta de janelas com crianças em seus braços, protege senhoras com o próprio corpo. E isso é lindo, mas é também perigoso.

— É meu trabalho, Felicity. – Encarou-me confuso. – Você me conheceu assim.

— Sim, mas eu não esperava me... – Cortei-me. Seu rosto inclinou como se esperasse as palavras seguintes. – Ethan perdeu o pai com dois anos, por que ele foi um herói. Eu não quero ele se aproximando de você para perdê-lo pelo mesmo motivo. Eu não preciso de um super-herói, eu não quero um. Eu quero alguém que eu sei vai chegar em casa sem nenhum arranhão, que vai brincar com meu filho e o colocará para dormir. Eu quero alguém que me beije quando eu estiver triste, eu não quero alguém cuja ausência me deixe triste. Eu fiquei devastada com a morte de Ray, aquela noite em que você ficou no hospital eu revivi tudo novamente, e eu não sei se posso viver com a sensação constante de vê-lo sair de casa e temer perde-lo para seu trabalho.

Oliver emitiu um suspiro cansando, compreensão dominando seu rosto. Suas mãos passaram para o meu pescoço os polegares acariciando meu rosto com leveza, sua testa se colou a minha, seus lindos olhos me encarando de tão perto.

— Você me ama. – Murmurou roucamente. Tentei protestar, mas não consegui emitir nenhum som. – Está tudo bem, eu te amo também. – Murmurou simplesmente. – E eu entendo que você tema me perder. Por que eu também morro de medo de perder você e ao Ethan, mas me afastar não é a solução. Meu trabalho é perigoso Felicity, mas eu não o faço levianamente, você sabia que eu fique internado em um hospital por meses? – O encarei preocupada. Se ele estava querendo me acalmar, não estava indo pelo caminho certo. – Foi o acidente mais sério que já tive, muito antes de conhecê-la, mas não foi por conta do meu trabalho. Eu estava apenas atravessando a rua e o motoqueiro ultrapassou o sinal. Uma coisa simples, que fazemos todos os dias, isso quase me levou a morte. Eu estou aqui Felicity, e quero estar todos os dias da minha vida, eu tenho algo pelo o que viver, eu tenho vocês dois. Eu juro por Deus que não vou estragar isso sendo inconsequente. Você precisa confiar em mim, você pode confiar em mim?

O encarei com receio, minha mente absorvendo suas palavras, e promessas através delas. Ray era competitivo demais no trabalho, ele sempre queria ser o melhor e muitas vezes ia a um chamado que não era seu. Oliver parecia comprometido e parecia falar sério. E ele havia dito que me amava, como eu poderia ignorar isso? Segurando minha respiração eu assenti, um sorriso se insinuando em seus lábios ao perceber meu gesto. Seus lábios encontrando os meus em um beijo suave e cheio de promessas. Ele era perfeito. Seus beijos, seu carinho, o modo que via a vida e o mundo, todo ele.

— Vá checar nosso campeão, eu faço a pipoca. – Murmurou se afastando.

— Você não consegue confiar em mim mesmo com uma pipoca de micro-ondas? – Perguntei com um sorriso debochado.

— Essa pergunta é uma armadilha. – Murmurou empurrando minha cintura. Lancei um sorriso para ele antes de caminhar em direção as escadas e para minha surpresa encontrar Ethan lá, sentado e quietinho, um sorriso enorme em seu rosto, nada de banho tomado. – Por que você não foi até o banheiro porquinho?

— Eu fui e fiquei esperando por você. – Murmurou baixinho, olhei em volta e percebi que Oliver já havia ido para a cozinha. – Você demorou mamãe.

— Awnn eu sei. –Murmurei agachando-me e beijado seu cabelo. – Por que você ficou escondido?

— Eu queria escutar. – Confessou. – Ollie vai ficar? – Perguntou cheio de esperança.

— Ele vai. – Assenti sabendo que sua pergunta ia além do que se apenas para essa noite, ele sorriu novamente seus braços envolvendo meu pescoço, ergui-me ainda com ele no braço ignorando seu tamanho e peso. O levei para cima e preparei seu banho. Quando descemos Oliver já havia colocado o filme, tão familiarizado que ele estava com a casa, havia um balde de pipoca em seu colo e refrigerante sobre a mesinha de centro. Ethan correu para sentar em seu colo, e eu sentei ao lado dos dois, logo sentindo o braço masculino passar por cima dos meus ombros me aproximando mais de si. Eu amei aquilo, a simplicidade do gesto, o sentimento de estar protegida, e a sensação de que éramos uma família. Eu amei. Observei contente o filme começar, enquanto eu relaxava encostada aos homens da minha vida. Aproveitamos o silêncio intercalado a risadas, até o momento que Ethan nos encarou e sua voz fina se sobrepôs aos sons do filme.

— Oh não. Esquecemos os cachorros quentes de Ollie!

E foi escutando a risada do meu filho, somada a do homem que eu amava. A certeza de que essa cena seria repetida muitas outras vezes que eu percebi que pela primeira vez em anos, eu estava em paz.

Notas finais
Olha eu aqui!! Então, espero que tenham gostado e fico no aguardo do feedback.
Xoxo, LelahBallu.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!