Someone To Stay
1 Can you keep me close? Can you love me most?
Notas iniciais
1.
Por muito tempo, Kevin esteve inconsciente.
Era agoniante não saber o que acontecia, quando tudo ficava escuro e uma personalidade tomava controle. Para protegê-lo, eles diziam. Apesar de tudo, nunca havia sido exatamente um problema... Era até mesmo um alívio não ter que socializar com o mundo que já o machucou tanto.
E de repente, Dra. Fletcher estava morta... alguém que o ajudava, que os ajudava.
Sua própria mente havia se voltado contra ele.
Kevin sabia que tinha problemas, chegou ao ponto de pensar em suicídio para resolvê-los. Mas assassinar outra pessoa? Não, isso era inadmissível.
Um pesadelo.
E então, diante dos seus olhos, uma pequena faísca; uma luz; um sol.
Havia uma garota.
Isso definitivamente é um pesadelo; pensou quando a viu pela primeira vez. Não era bom com garotas. Suas experiências sempre foram traumáticas no mínimo, o bullying ainda encravado em seu coração junto dos comentários ofensivos de sua mãe.
Mas ela era diferente.
— Me mate.
As bochechas dela vermelhas, como seus lábios perfeitamente desenhados, esboçando pequenos soluços em negação.
Ele precisou repetir o pedido: – Me mate.
Seus olhos pesaram e a luz foi tirada dele, a luz que com o passar dos anos ele aprendeu a temer. A frustração o corroeu, nem mesmo havia pegado o nome dela antes de partir... Esperou pela morte, pelo fim daquele pesadelo, mas não veio.
Sentiu pela garota, e buscou saber se ela havia sobrevivido. Oh, por favor.
Lutou e viu uma abertura em Dennis... uma lembrança sobre ela. Pensamentos.
Muitas camisas, discreta, diferente... por que?, Dennis estranhara. Olhos bonitos com uma tristeza inexplicável.
Patricia também tinha sua anotação sobre ela, apenas uma palavra: Inteligente. E isso o acalmou, com certeza havia encontrado uma forma de escapar. Ela deveria estar viva agora, bem; e bem longe dele... Era melhor assim.
“Ela é minha namorada, sabia?” Hedwig lhe contou quando o perguntou sobre ela. “Eu sei que não fui muito legal, quando eu a ver de novo vou me desculpar e ela vai me perdoar e eu vou poder engravida-la de novo e nós vamos assistir muitos desenhos juntos e...” o garoto parou, o encarando de maneira birrenta. “Por que quer saber tanto, hein? Vai dormir, Kevin!”
Ele rolou os olhos, e voltou a buscar em outro lugar.
E enquanto procurava, encontrou algo que o paralisou de medo. Um animal, no escuro. Surpreendendo-se, viu que a Fera tinha lembranças sobre a garota também: ela corria, os longos cabelos negros esvoaçando... por trás das grades, melancólica... marcada... Aterrorizado, Kevin ouviu a Fera murmurar sobre a garota, em um tom profundo e sombrio de sua própria voz: “Pura. Quebrada. Minha.”
O medo o fez desistir de procurar.
No entanto, vez ou outra pegava-se pensando nela. A garota de olhos tristes e bonitos, como Dennis dizia.
Ele só queria saber seu nome.
.
.
2.
Como sempre, doeu muito quando foi puxado para a luz. Dra. Staple estava lá novamente. Os outros não gostavam dela, Kevin não gostava dela... ela não era como Dra. Fletcher, ela não era como...
A garota.
Ela estava ali, o encarando.
O tocando.
O que a fazia querer ajuda-lo? O que a fazia toca-lo? Era confuso, mas não ruim. Sabia que ela era diferente na primeira vez que a viu, mas havia algo novo nela.
— Meu tio foi preso. – Ela contou, orgulhosa de si mesma.
Eles eram iguais, ele percebeu. E apesar de sorrir, orgulhoso da força dela, isso não o deixava feliz.
Como alguém poderia fazer mal para alguém como ela?
Ela era pura. Ela era...
O pânico o atingiu.
— Sinto muito, eu preciso ir, eu não- – A luz estava muito forte. Há quando tempo ele não tomava controle?
— Não, espere! Por favor...
Casey.
Seu nome brilhou em sua mente no momento que Hedwig o empurrou de volta para a sua cadeira, tomando a frente de todos.
Tarde demais.
“Vai ficar bem, Kevin.” Barry o acalmou.
“É, vamos cuidar de você.” Dennis falou.
Barry o fitou, furioso. “Cala a boca, isso tudo é culpa sua!”
“O que? Você acha que-”
“Os olhos dela.” Kevin os interrompeu, perdido em seus próprios pensamentos. “Não são mais tristes.”
Agora eram só bonitos. E cheios de preocupação, gentileza, e...
Esperança.
.
.
3.
A Fera estava lutando contra ele.
“Kevin, não.” Ela diz, rosnando. “O mundo precisa ver.”
Mas Casey está aqui... ela diz seu nome, e Kevin sente-se mais forte.
“Kevin, não! Pare!” Patricia o segura. “Você não é forte o suficiente!”
“Cala a boca, Patricia!” Barry a empurra, encorajando-o. “Sim, sim, sim! Você consegue fazer isso, Kev!”
Seu nome é pronunciado de novo. Ele o ouve sendo repetido várias e várias vezes, Casey o buscava assim como ele um dia fez por ela.
A luz toma sua visão e o faz se sentir tonto. A gritaria em sua cabeça começa. Eles estão nervosos, alguns tentam impedi-lo, Hedwig o chuta várias vezes.
E no meio disso tudo, há uma voz.
Uma voz que ele confia.
A voz dela.
— Eu estou aqui, Kevin Wendell Crumb. Eu estou bem aqui.
Ela está o abraçando, e é gentil, caloroso e respeitoso. Como um abraço sempre deveria ser.
Kevin não lembrava de como era essa sensação.
— Casey-
Ela fica quieta e Kevin fecha os olhos. A luz forte, muito forte.
— Casey, eu não posso- Eu- – Ele tosse, desesperado, mas ela não se move. – Casey, por favor- Casey, Casey...
Ele repete seu nome por muitas vezes, assim como ela havia feito com o seu. Ele o repete como uma música, como um mantra, como uma oração.
Casey o faz querer ser forte. Por ela, pelos outros, e por ele mesmo.
— Casey. – Seus olhos se encontram, e ele pergunta: – Você é mesmo minha amiga?
Ela assente. E algo dentro de Kevin parece derreter.
Uma amiga.
A primeira amiga que ele tinha;
A única.
A garota dos olhos mais bonitos que ele já tinha visto.
— Então eu vou ficar na luz. Eu vou ficar na luz até o fim.
Obrigado.
O pesadelo havia se transformado num sonho.
Fale com o autor